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Eline Vere

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Eline Vere

Capítulo 21 · Eline Vere

Capítulo XXI

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Capítulo XXI

Georges de Woude van Bergh estudava com afinco para o exame de vice-cônsul, e um dia Emilie dirigiu-se à casa dos Verstraeten e teve uma longa conversa com o senhor e Madame Verstraeten, enquanto Lili, muito nervosa e infeliz, encontrava grande consolo em Emilie. Emilie desculpara-se, rindo, por sua visita sem cerimônia; mas, na verdade, seu velho pai estava adoentado e nunca saía, e ela administrava tudo por ele, tirava-lhe tudo das mãos, até mesmo um pedido de acesso para o filho. Não; certamente não pensava como Georges, que se podia viver sem dinheiro, e compreendia muito bem que o senhor e Madame Verstraeten também não podiam acolher tal ideia; mas, afinal, o rapaz tinha uma perspectiva, não tinha? E os dois pareciam ter metido tanto na cabeça aquela loucura que não se conseguiria dissuadi-los. A questão, na verdade, era esta: o senhor e Madame Verstraeten tinham alguma objeção pessoal a ele, ou permitiriam que os dois esperassem até poderem começar a vida juntos sem risco grande demais de passar fome? O senhor e Madame Verstraeten seriam capazes, num dado momento, de se separar de Lili? E, se não recusassem por completo, como decidiriam? Um noivado regular, ou apenas uma... bem, uma união de corações, nada mais? Era pena, certamente, que os dois se tivessem tornado um pouco comentados, e que a cidade inteira soubesse disso; mas eram um par de crianças simples, e com o tempo seriam mais prudentes. A questão agora era... e Emilie resumiu mais uma vez suas perguntas com seu modo cordial e expansivo, embora por dentro estivesse um pouco ansiosa pela resposta.

Madame Verstraeten suspirou e sacudiu a cabeça pensativamente; mas o velho senhor, para alegria de Emilie, não levantou objeções insuperáveis. Ainda assim, tinha suas objeções. Lili era tão jovem, uma criança; não seria melhor que ainda não se prendesse e tomasse tempo para se certificar de que ele era o senhor certo? Gostava muito de de Woude; também notara que o rapaz tinha alguma coisa em si; mas, ainda assim, suas ideias financeiras otimistas não se baseavam demais em seu amor? Será que realmente não tinha mais necessidades do que agora imaginava na cegueira de sua afeição? Estava habituado a certo grau de luxo. Emilie ouviu atentamente, plenamente convencida de todas aquelas dificuldades, sobre as quais ela própria já lhe falara certa vez. Mas agora... agora se deixara persuadir à loucura daquela visita e não queria ser infiel ao seu menino; agora queria fazer parecer que todas aquelas dificuldades existiam apenas na mente do senhor Verstraeten, e assim tentaria removê-las. Era sempre assim. Quando se cometia um absurdo, caía-se de uma loucura em outra, e agora ela seria obrigada a argumentar contra as próprias convicções. Era uma tarefa difícil, por mais que falasse, e talvez fosse uma desgraça para Georges que ela pudesse advogar tão bem; mas, Deus do céu, o rapaz estava tão apaixonado, e talvez, afinal, ele tivesse razão! Havia outros pequenos lares que não eram ricos: pequenos funcionários, subtenentes. Não, não; no fundo, ela realmente estava cometendo um absurdo; mas não havia remédio, era tarde demais.

E enquanto pleiteava por Georges, irritava-se intimamente por ele tê-la levado a fazer tal coisa. Então não conseguia negar nada àquele rapaz, e precisava ela mesma participar de sua ruína?

Mas manteve a palavra e defendeu-o tão bem que Madame Verstraeten foi buscar Lili, que chorou amargamente e beijou Emilie com ternura. Um noivado, porém, estava fora de questão por enquanto. Madame Verstraeten não gostava desses noivados de gente pobre, que às vezes duravam anos, e Emilie declarou a Lili que uma união de corações, sancionada pelos pais, já significava muito nas circunstâncias presentes. Afinal, era melhor assim, não era? Se, conhecendo-se melhor, não servissem um para o outro, nenhum mal estaria feito; e, se viessem a gostar cada vez mais um do outro... bem, tanto melhor. Ora, ela não devia encarar tudo de modo tão sombrio; a vitória obtida sobre os corações encouraçados de seus pais não era sem importância. E que mais ela realmente queria? Casar-se imediatamente; recepção amanhã; dentro de um ou dois dias, Stadhuis e igreja, e depois fazerem sua entrada em algum quartinho de sótão! Sim; isso seria muito bonito!

Lili riu entre as lágrimas e beijou os pais; o que papai e mamãe julgassem adequado, ela aceitava.

Naquela tarde, Georges foi convidado para jantar, e depois da refeição passou-se uma esplêndida noite de setembro no jardim. Era tarde quando Georges se foi; tarde quando Marie e Lili se retiraram para o quarto e se despiram. Marie escutava com bondade e paciência a tagarelice de Lili sobre centenas de planos para o futuro. Ela adoraria viajar, e o emprego de Georges prometia isso. Aninhou-se confortavelmente nos lençóis frescos, sorrindo para as visões rosadas de sua fantasia, os braços dobrados sobre a cabecinha cercada pela massa desgrenhada de cabelos claros. Marie também se meteu na cama, e por um momento tudo ficou silencioso no quarto escuro, quando houve uma batida suave à porta, que no instante seguinte se abriu. As moças estremeceram de susto.

— Psiu, psiu! Sou só eu — sussurrou uma voz suave e abafada, e viram uma pequena figura curvada, de camisola e touca brancas, com uma vela acesa na mão, entrar no quarto. — Psiu! Vim só bater um papinho.

Era a velha Dien, a antiga criada dos Verstraeten, aquela boa alma prestativa que sempre era tão útil quando havia festas ou tableaux-vivants. Aproximou-se pisando de leve, de meias, enquanto a luz da vela refletia um brilho amarelo em seu rosto enrugado, coroado pela touca branca.

— Mas, Dien, você me assusta! Parece um fantasma! — exclamou Marie.

— Psiu, quieta! Todos estão na cama; mas achei que vocês ainda não estariam dormindo. Quero bater um papinho... posso?

— Claro, Dien; claro que pode — disse Lili, animada. — O que tem a dizer?

Dien sentou-se na beira da cama de Lili.

— Você há de compreender que a velha Dien não é tão velha que não perceba quando há alguma coisa no ar. E veja, quando ela percebe, não consegue guardar para si; precisa pôr para fora. Sua danadinha! — ergueu o dedo para Lili em ameaça brincalhona.

— O que foi, Dien? — perguntou Lili.

— Ora, queridinha, agora não se faça de tão inocente! Acha que não sei por que chorou daquele jeito esta tarde, e por que Miss Emilie ficou tanto tempo no jardim de inverno? Pois veja, eu pensei que havia alguma coisa — continuou, piscando o olho encovado —, e comecei a pensar comigo mesma, e pronto: às cinco e meia ele entra marchando e fica muito bem para o jantar, hein?

— Ora, Dien; que tagarelice é essa?

— Não, não; Dien não tagarela. Dien sabe muito bem o que sabe. E você também sabe muito bem o que está fazendo.

— O que é, então?

— Bem, menina, você está certíssima. Ele é um rapaz firme. Um rostinho tão bonito e delicado, com um bigodinho louro bem cuidado. Um maridinho apropriado para você. Você mesma é muito mimosa. Combinam bem, não é, Miss Marie?

— Feitos um para o outro — bocejou Marie entre os lençóis.

— Então você gosta dele?

— E muito! — respondeu Dien. — E ele é sempre tão educado comigo e com Bet. Sempre fala de um jeito tão bonito quando abro a porta para ele: "Ah, Dien, como vai?" Sempre tem uma palavrinha ou duas a dizer, sabe. Nada orgulhoso, e nunca se esquece de limpar os pés.

Lili caiu na gargalhada.

— Você não está zangada porque digo isso?

— Não, de modo algum, Dien; fico muito contente que ele esteja em sua boa lista.

— Dormir, você ainda não vai dormir por algum tempo, não é? Veja, de dia estou sempre ocupada demais, e agora é uma hora tão boa para uma conversa aconchegada. E Dien pode lhe dar um conselhozinho, não pode? Veja, eu também fui casada, e nem tudo é mel, menina. Sim; no começo a gente acha muito bonito brincar de esposinha, mas depois vêm os pequenos, e com eles vêm as preocupações; eu tive três, sabe. E que trabalho dá criá-los! E você sabe que não tive grande alegria com eles. Um morreu, um menino, quando tinha catorze anos, e o outro não saiu exatamente como devia e foi para as Índias. Só minha menina... sim, ela é uma boa moça; você sabe, está em Roterdã, casada com um alfaiate.

— Sim, Dien.

— E diga, quando pensa que vai se casar?

— Oh, Dien! Realmente ainda não sei. Não nos casaremos por muito tempo ainda, e você não deve ficar falando disso; ouviu?

— Não, não; não tenha medo. Veja, Bet também não é cega. Acha que ainda levará um ano?

— Oh, certamente. Mas vamos, Dien, vá dormir agora.

— Sim, queridinha. Mas veja, quando vierem os pequenos, aqueles pontinhos louros — vocês dois são tão claros —, eu deixarei sua mãe e irei ficar com você. Que me diz disso?

— Como ama? Não, obrigada, então você já estará velha demais para isso.

— Oh! Eu os lavaria e esfregaria muito bem, não tenha medo!

— Dien, acho que você está dizendo coisas impróprias! — exclamou Marie. — Fie!

— O que há de impróprio nisso? Mas vamos, preciso ir; ora, são meia-noite e meia. E ouça, Miss Marie, precisa se apressar e ter sua vez: essa coisinha lhe passou à frente; não fique para trás agora, ouviu? Vai cuidar disso?

— Sim, Dien; farei o possível — disse Marie.

— Então sonhe bem com isso. E você também, queridinha, sonhe com ele. E diga-lhe que Dien acha que ele é um rapaz bonito, com seu bigodinho... vai dizer, hein? Vai dizer, sua danadinha?

Agarrou Lili, que novamente ria às gargalhadas, pelos ombros, em brincadeira.

— Sim, sim, Dien, direi. Mas não precisa me sacudir assim... ui! Boa noite, Dien.

— Boa noite, minhas queridinhas. Psiu, menina, não ria desse jeito. Vai acordar os velhos. Psiu, psiu! Estou indo... quietas agora!

Dien saiu, amarelada e branca no brilho da vela, com uma última piscadela cheia de mistério, seus passos inteiramente abafados pelas meias de lã.

— Aquela tola da Dien! — murmurou Lili, ainda rindo e meio adormecida.

O quarto voltou a ficar escuro, e estava quieto, muito quieto; e Marie permanecia deitada, com a cabeça no travesseiro, os olhos muito abertos fixos no teto escuro.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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