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Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 22 · Eline Vere

Capítulo XXII

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Capítulo XXII

Vincent sentia-se muito doente e fraco, e seu estado tornou-se tão sério que o Dr. Reyer lhe proibiu sair do quarto.

Ele seguiu o conselho do médico, bebendo pouco, abstendo-se de fumar e entregando-se por completo à influência suavizante da atmosfera repousante que o cercava.

Passava os dias no boudoir de Eline, pois Betsy não podia lhe ceder uma sala só para ele. Ali ficava deitado no divã persa, bem envolto num robe oriental — lembrança de seus dias de luxo em Esmirna —, os dedos exangues segurando um livro no qual não lia uma só linha. Parecia-lhe que todas as ideias haviam desaparecido de seu cérebro, como se, de fato, todo o seu ser se desvanecesse numa calma lânguida, numa sensação de cansaço semelhante à que resulta de um esforço físico longo e severo. Sua mente enchia-se de pensamentos miúdos, infantis, que subiam como bolhas para estourar no instante seguinte. Seus prazeres eram tão miúdos quanto seus pensamentos, e sentia-se gratificado quando o Dr. Reyer o elogiava por sua obediência, ao passo que sofria agudamente sempre que precisava esperar alguns momentos até Eline lhe trazer o desjejum. Fora isso, nada sentia; limitava-se a ficar deitado, olhando ao redor no quarto de Eline e contando os quadros, as samambaias e todos os pequenos objetos de luxo espalhados por ali.

De manhã, Eline sentava-se ao lado dele e lhe lia alguma coisa, ou cantava um trecho ou dois de uma ópera favorita; e Vincent ficava deitado, ouvindo como num sonho, perdido numa estranha visão cheia de odores tênues e tons abafados, todos enlaçados e entretecidos uns nos outros como num caleidoscópio de cor e perfume. Ele não falava, e Eline também dizia pouco, penetrada como estava por uma sensação de alegria romântica, alegria igual à que conhecera quando fazia vigília noturna à cabeceira de tia Vere — o prazer de se dedicar ao cuidado de um inválido. Interessava-se cada vez mais por Vincent, e o zelo amoroso com que o tratava pouco a pouco teve o efeito de afeiçoá-lo profundamente a ela.

À tarde, em geral, ficava em casa até depois das quatro, quando Otto vinha buscá-la para um passeio; então, quando ele a repreendia com doçura por não cuidar suficientemente da própria saúde e por se sacrificar demais por Vincent, ela o fitava quase com lágrimas nos olhos e perguntava como ele podia deixar de sentir a mais profunda compaixão por Vincent, tão abandonado, tão infeliz, tão fraco. As atarefadas negociações sobre o enxoval com Betsy foram um pouco interrompidas por esses cuidados, e certa vez ela chegou a observar à irmã que achava terrível ter de se casar em novembro, quando talvez Vincent estivesse morrendo. Não conseguia deixar de imaginar que a doença de Vincent era causada por uma paixão secreta por ela, paixão cujo segredo ele guardara até então com o maior ciúme. Pois nunca antes ficara tanto tempo em Haia; agora estava na cidade havia quase um ano, enquanto antes nunca costumava permanecer mais de uma ou duas semanas. Pobre Vincent; por ora, seus cuidados vigilantes lhe traziam consolo e conforto; mas será que toda aquela solicitude, aquelas atenções constantes de sua parte para com ele, não alimentariam a chama dessa paixão destinada para sempre a ser tão impotente, já que ela só podia amar seu Otto, ninguém mais? Teria ficado contente se pudesse confessar aqueles pensamentos a alguém; mas a quem? Falar disso a Otto lhe parecia pouco apropriado; e, se fizesse de Betsy sua confidente, estava certa de que ela lhe perguntaria por que precisava sempre encher a cabeça com tais disparates. E Madame van Raat?

Sim, ela era a pessoa a consultar; iria visitar Madame van Raat uma manhã, sozinha, sem Otto. Mas, quando viu a velha senhora, achou tão difícil dar forma em palavras às suas suspeitas sobre Vincent que, ao terminar a visita, não havia pronunciado uma sílaba de sua confissão. E consolou-se com a triste reflexão de que Vincent provavelmente morreria antes que ela se casasse, e que, nesse caso, seus cuidados teriam adoçado um pouco os últimos dias dele.

Os dias passaram, e, enquanto isso, a suspeita de que Vincent nutria por ela uma paixão secreta cresceu cada vez mais até transformar-se em certeza; até que ela começou, por assim dizer involuntariamente, a entregar-se a uma compaixão absorvente por seu pobre primo enfermo. Sua felicidade, que lhe parecera tão plácida que não poderia ser quebrada, escorregava cada vez mais do vão alcance de seus dedos, e uma sensação de nervosismo e inquietude se difundia diariamente por todo o seu ser, ao passo que, entretanto, faltava-lhe coragem para abrir o coração a Otto; pois, quando pensava em Vincent, uma névoa parecia interpor-se entre ela e Otto, uma névoa que se tornava cada vez mais densa e ameaçava separá-los um do outro. Estremecia ante esse pensamento e, depois de passar metade do dia, em sua inquietação nervosa, ao lado de Vincent, ansiava por estar novamente com Otto, em cujo temperamento plácido esperava encontrar um bálsamo curativo para o espírito perturbado. Pouco depois das quatro ele chegava, iam passear juntos, ele voltava com ela para jantar; à noite muitas vezes ficavam em casa, passavam muito tempo a sós, e, quando à noite ele se ia e ela se retirava para o quarto, precisava fazer o máximo esforço para se conter e não rebentar em lágrimas, pois descobria que já não extraía da presença dele aquele repouso e aquela paz que antes ela lhe trouxera. Pelo contrário: de vez em quando a calma dele chegava a irritá-la, como algo indiferente e fleumático, que, em seu estado presente, transbordante de inquietude, a repelia, sobretudo quando o comparava com Vincent, em quem suspeitava ocultar-se um mundo de dor silenciosa e agônica. Até a simplicidade fácil de Otto, sob a qual ainda havia tão pouco tempo ela vira tamanha riqueza de amor, agora a irritava.

Será que ele nunca explodiria numa tempestade de paixão, numa torrente impetuosa sobre — sobre qualquer coisa, fosse o que fosse? Permaneceria sempre tão calmo, tão plácido, tão eternamente igual? Será que nunca sentia dentro do peito alguma coisa lutando contra outra, alguma coisa que fervesse e borbulhasse nele e que precisasse derramar-se numa torrente de palavras? Nada podia comovê-lo, nem arrancá-lo daquele repouso que parecia quase letargia? Bom e afetuoso, sim, isso ele era, mas era incapaz de sentir profundamente; talvez sua calma não passasse, afinal, de egoísmo, um egoísmo que a dor alheia era impotente para mover!

Pensamentos como esses faziam Eline sentir-se miserável e infeliz. Oh, céus! Eram os espectros, os espectros sombrios, que se apinhavam depressa ao redor dela. Não, não, eles não a arrastariam consigo; ela os espantaria para longe, para longe; mas em vão: eles ainda se erguiam, um após o outro, gelando-a com seus sopros frios de dúvidas horrendas, e ela lutava contra eles — uma luta terrível! Forçava-se a pensar de novo naqueles doces pensamentos que a haviam enchido de felicidade idílica durante sua estada em Horze; forçava-se a reencontrar sua plácida paz, seu êxtase etéreo — mas, ai dela, era em vão! E, quando começou a tomar consciência daquela única noite sem sono, quando um silêncio profundo reinava por toda a casa e ela, de olhos muito abertos, estava deitada tão só em sua cama; quando pela primeira vez tomou consciência disso em toda a sua verdade cruel e sentiu que aqueles dias tinham passado para sempre, que nunca mais lhe sorririam com sua glória dourada de luz e alegria, então por fim rompeu num soluçar selvagem, tempestuoso, tão tempestuoso e selvagem como nunca havia soluçado antes, e, em seu ímpeto apaixonado, lançou-se sobre o travesseiro como se ele fosse sua felicidade, como se ele fosse o pássaro que lhe escapava dos dedos. Sacudiu a cabeça: não, não, ela haveria, precisava ser feliz de novo como antes; haveria, haveria de amar seu Otto como o amara antes, no bosque de pinheiros — amá-lo! Não, era impossível, não podia, não devia ser assim; ela haveria, haveria de se forçar, com toda a força e energia de sua vontade, a continuar amando-o como até então; continuaria a agarrar-se a ele, como agora se agarrava ao travesseiro, e os espectros horrendos, escarninhos, não conseguiriam arrancá-lo de seus braços. Tudo permanecia silencioso na casa; apenas lá embaixo, na cozinha, ela ouvia o grande relógio: tic, tac, incessantemente, e um terror intenso a tomou enquanto escutava aquele som duro, metálico, rítmico. Um terror de que sua felicidade não se deixasse forçar de volta para dentro de sua alma; um terror de que algum poder invisível a empurrasse para baixo, para baixo, por alguma ladeira íngreme, quando ela desejava subir, sempre subir. E então veio uma fúria, uma fúria tempestuosa, porque sentia aquilo tão claramente e, ainda assim, não queria senti-lo, e porque permanecia fraca demais para fazer um esforço vigoroso e decidido contra o avanço dos poderes invisíveis que pareciam sempre zombar dela e provocá-la.

Na manhã seguinte, Eline foi cedo ver Vincent; queria entregar-lhe uma carta grande que chegara para ele. Ele estava, como de costume, deitado no divã, com seu robe turco. Ainda assim, lenta e gradualmente, recuperava-se; o Dr. Reyer até lhe dissera que podia fazer uma pequena caminhada, mas o repouso se tornara caro para ele, e respondeu que ainda não se sentia capaz de andar. Quando Eline entrou, ele lhe fez um aceno amistoso; acostumara-se aos seus mil pequenos cuidados, sentia-se grato por eles, e essa gratidão trazia um brilho bondoso aos seus olhos, que Eline tomou por amor. Ela lhe entregou a carta e perguntou como se sentia.

— Bastante bem. Estou melhorando aos poucos — disse ele, cansado; mas de repente se ergueu e rasgou depressa o envelope. Eline estava prestes a sentar-se ao piano.

— Ah, enfim! — ouviu Vincent exclamar, quase alegre.

— É de Nova York, de Lawrence St. Clare! — disse Vincent, lendo rapidamente a carta. — Ele me arranjou alguma coisa: um lugar numa boa casa comercial.

Eline sentiu um súbito alarme.

— E o que pensa fazer? — perguntou. — O que quer dizer?

— Ir assim que eu estiver melhor, mas... mas não estou, e temo que ainda não esteja por algum tempo — concluiu ele, lânguido.

— Ir para onde? Para a América?

— Sim, naturalmente.

— Então fica contente por poder ir?

— Claro; por que eu ficaria rondando por aqui por mais tempo, agora que posso conseguir uma posição?

Ele mal pensava no que dizia. Recaiu nas almofadas persas, e um labirinto de visões vivamente coloridas ergueu-se diante de seu espírito. Recordou sua vida anterior de mudanças sem fim, de perspectivas sempre cambiantes e horizontes cintilantes; mudança era vida, era a mudança que o curaria, que o rejuvenesceria.

Eline, porém, sentiu profunda piedade de Vincent. Sim, de fato, ele estava muito satisfeito por poder partir, provavelmente antes do casamento dela, para não ter de testemunhar aquilo que para ele devia ser uma visão muito dolorosa. Sim, de fato, ele a amava — e sofria por isso.

— Vincent — disse ela por fim.

— Bem?

— Vincent, de verdade... pense bem, não seja precipitado. Você ainda está tão fraco. Imagine se tiver uma recaída? Peça primeiro o conselho de Reyer.

— Mas, Elly, eu não fui sempre assim como sou agora? Nunca fui robusto, e... e você não quer me prender; além disso, e se eu ficar aqui? — perguntou ele com um sorriso.

Para ela, aquele sorriso pareceu triste e forçado, e recriminou-se por tentar conservá-lo ali. Não, ele precisava ir; apenas, talvez, talvez as coisas mudassem — mudassem de tal modo que ele não precisasse partir de modo algum. Sentiu vertigem, e tudo começou a dançar e brilhar diante de seus olhos: o pensamento que lhe subiu à mente, ela não ousou pensá-lo. Seria terrível demais. Terrível demais para Otto, terrível também para ela mesma. Naquele dia, quando Otto chegou, Eline sentiu, em vez do calor tão grato que sua presença outrora costumava despertar-lhe no coração, apenas uma indiferença glacial. Oh, Deus, como aquilo acontecera, como aquele calor se resfriara assim? Ela não sabia, mas assim era, e não tinha poder para mudar. Cumprimentou-o com um aceno amistoso e estendeu-lhe a mão. Não conseguia fitá-lo no rosto, mas o coração estava profundamente movido de piedade. Ali estava ele, Otto, ao lado dela, o olhar suave e bondoso fixo nela, a mão dela na dele, enquanto se apoiava no encosto da cadeira. Sim, ali estava ele ao lado dela, cheio de amor, e ela — ela não sentia senão uma indiferença fria, gelada! Não, mil vezes não! não podia, não devia ser; ela se obrigaria, tinha demasiada pena dele.

— Nily... que há, minha filha? — perguntou ele baixinho, ao sentir a pressão nervosa dos dedos dela em sua mão.

— Oh... nada... nada, só uma dor de cabeça, eu acho — respondeu ela, hesitante, e olhou para ele pela primeira vez naquela tarde. Os olhos dele mergulharam nos seus, e ela esteve a ponto de lançar-se, num remorso selvagem, contra o peito dele, agarrar-se a ele e nunca mais soltá-lo. Mas outra vez aquele poder invisível a reteve.

“Será que isso já não se deixa forçar de volta? Será que nunca virá?”, pensou, desesperada. Ficaram sozinhos, e ainda faltava algum tempo para o jantar.

— Nily, minha pequena, diga-me: você não está bem? — perguntou ele, inquieto. — Sua mão está fria.

— Estou um pouco febril; estivemos passeando de carruagem aberta com Vincent.

— Espero que você não vá adoecer.

— Oh, não; vai passar.

Olhou para ele sorrindo e, de repente, num ímpeto de desespero, passou os dois braços em volta do pescoço dele.

— Você é tão bom, tão amoroso — murmurou com voz entrecortada. — Você é tão bom, e... eu gosto tanto, tanto de você.

Vincent ainda não se sentia forte o bastante para juntar-se a eles ao jantar naquele dia. À mesa, Betsy contou a Otto sobre a carta da América; Vincent estava prestes a conseguir uma posição em Nova York.

— E quando pretende ir?

— Assim que melhorar. Ficarei mais que agradecida quando ele se for.

Eline já não pôde conter-se.

— Reyer diz que ele não deve pensar numa coisa dessas por algumas semanas ainda! — disse ela secamente, lançando um olhar irado a Betsy. — Mas, é claro...

— É claro o quê?

— Se não fosse por decência, você, doente como ele está, o poria porta afora.

— Se eu pudesse, sim, poria certamente. E de uma vez por todas, digo-lhe isto: ele nunca mais virá para cá. Imagine, ficar se arrastando por aqui desse jeito!

— Mas, Betsy, ele está quase morrendo! — gritou Eline, tremendo de raiva.

— Ora, bobagem!

— O que é bobagem? Se você o visse como eu o vejo — berrou ela.

— Ora, Eline, não vamos brigar por causa de Vincent. O sujeito não vale isso. Você faz disso um melodrama. Não faça esse papel, pelo amor de Deus.

— Sim, eu sei: “Não faça esse papel.” É o que sempre me servem quando mostro um pouco de sentimento. Mas você... você não tem coração, você...

— Eline — disse Otto, suavemente.

Gerard entrava com o assado. O silêncio foi penoso.

— Você esqueceu o molho, Gerard — disse Betsy.

Gerard deixou a sala.

— Sim, você... ora, você pisotearia uma pessoa se ela estivesse só um pouquinho no seu caminho, se a incomodasse no mínimo em seu egoísmo brutal! Você não pensa em ninguém além de si mesma, e nem consegue compreender que nem todo mundo seja igualmente desprezível, e...

— Eline! — disse Otto outra vez, enquanto Gerard tornava a entrar, agora com uma molheira.

— Oh, cale-se, cale-se, com esse “Eline! Eline!” Qu’est-ce que me fait cet homme! Betsy ne veut pas le voir — mais je t’assure, que Vincent se meurt. Il s’est endormi dans ma chambre, pâle comme un linge, essoufflé par la fatigue, que lui a causé cette stupide promenade recommandée par Reyer. Et c’est pour cela, que je ne veux pas souffrir, qu’on l’accuse d’indiscrétion et de tout cela. S’il ne fut pas si malade, il ne resterait pas longtemps chez nous — j’en suis sûre...!

Falava com paixão, os olhos ardendo de raiva, e as palavras francesas caíam-lhe dos lábios agudas e cortantes como agulhas, altivas e selvagens.

Betsy também fervia de raiva. Gerard deixou a sala, mas ela não respondeu e conteve-se.

— Nily, querida — disse Otto —, não quero mal a Vincent, embora não sinta muita simpatia por ele; mas também ficarei contente quando ele partir.

— Ah, você também, então? — silvou ela.

— Posso terminar? — retomou ele, apertando a mão gelada dela na sua. — Sim, ficarei contente quando ele se for, ao menos se a presença dele na casa é capaz de excitá-la assim. Você está fora de si. Não sabe o que está dizendo, Nily; pelo menos, não sabe com que força está falando.

As palavras tranquilas dele a enlouqueceram.

— E você... você... com sua eterna calma, sua eterna calma fleumática! — explodiu ela, quase gritando, enquanto se levantava da mesa e atirava o guardanapo. — Isso me deixa louca, essa calma! Meu Deus, isso me deixa louca! Betsy me esmaga com seu egoísmo, e você com sua calma — com sua calma, sim, sua calma! Eu... eu... eu não suporto mais; isso me sufoca!

— Eline! — gritou Otto.

Ele se levantou, segurou-lhe os pulsos e olhou-a diretamente nos olhos. Ela esperava algo terrível: que ele a derrubasse, que a golpeasse. Mas, enquanto continuava a segurar-lhe as mãos, ele apenas sacudiu a cabeça lentamente, e sua voz soou cheia de tristeza quando disse simplesmente:

— Eline!... que vergonha!

— Grande Deus! Eu... eu estou ficando louca! — gritou ela num acesso de soluços; arrancou-se de suas mãos e precipitou-se para fora da sala, arrastando ao passar alguns copos da mesa, que caíram no chão com um tilintar, despedaçados.

Betsy tremia de raiva e quis correr atrás de Eline. Otto, porém, deteve-a.

— Deixe-a, eu lhe peço! — suplicou.

Henk também se levantara, e, quando Gerard entrou, todos os três se sentiram muito constrangidos diante do criado, por causa do jantar bruscamente interrompido e dos vidros estilhaçados.

— Não faz mal... não faz mal, Gerard! — disse Betsy, quase humilde. — Não faz mal. Retire a mesa.

Era-lhes impossível assumir um ar indiferente. Gerard devia ter percebido que havia algo errado, embora seu rosto permanecesse muito calmo e digno.

Eline, entretanto, correra escada acima para o quarto e se lançara sobre a cama. Então começou a soluçar — mas Vincent não devia ouvi-la. Soluçou e soluçou até escurecer; então ouviu Vincent caminhar no quarto vizinho, mas ficou quieta, retorcendo as mãos e sufocando os soluços no peito.

Otto sentara-se na sala de visitas e fitava o chão com os olhos úmidos quando Henk entrou. Notou uma lágrima nos olhos de Otto, e Henk, arrancado de sua costumeira bondade tranquila, começou a ferver por dentro.

— Erlevoort! — disse ele, pondo a mão no ombro de Otto.

Otto ergueu a cabeça.

— Erlevoort! Vamos, meu velho, seja homem! Sissy às vezes é uma embarcaçãozinha difícil de manobrar, mas não é má de coração! Você não deve dar importância ao que ela lhe disse, ouviu? Ela estava apenas zangada com Betsy, porque gosta um pouco de Vincent, e assim, por acaso, você recebeu a sua parte. Mas não deve ligar para isso. É a melhor maneira de castigá-la.

Otto não respondeu; seu espírito estava demasiado cheio de dúvida para que a bondade de Henk pudesse animá-lo. Recordou como certa vez dissera a Eline que ela tinha um único defeito: não se conhecia; havia tesouros escondidos dentro dela; ele despertaria aqueles dons latentes. Mas agora via muito bem que não tinha o poder de fazê-lo, que apenas a irritava e que... a deixava louca!

— Ela pode ser terrivelmente precipitada às vezes! — retomou Henk, andando de um lado para outro, intimamente enfurecido. — Mas qualquer pessoa de quem ela goste e a quem possa admirar consegue conduzi-la com bastante facilidade, e então... Quer que eu vá falar com ela?

— Eu a deixaria... em paz — respondeu Otto, falando com dificuldade. — Creio que ela mesma...

Tentava colocar-se no lugar dela e adivinhar o que agora sentia. Mas era em vão; não conseguia pensar, ainda ardia demais sob o golpe que ela lhe dera. Nunca antes a ouvira pronunciar tais palavras, com aquela voz estridente, gritante; nunca antes vira seus traços tão deformados — até a feiura — por suas paixões; e, por mais que tentasse, não conseguia reunir os pensamentos sob aquela grande dor torturante que o feria até o fundo.

Doía em Henk ver sua postura cansada, sem esperança. E de repente sentiu-se impelido à ação. Não, não permitiria que Eline tratasse Otto com tal desprezo, não permitiria. Com passo firme e elástico, saiu da sala. Henk subiu as escadas e entrou no boudoir de Eline. Não encontrou ninguém ali, pois Vincent, cansado depois de sua primeira saída, já entrara no quarto, inteiramente inconsciente da tempestade que rugira lá embaixo. Henk bateu à porta de Eline.

— Eline! — chamou.

Não houve resposta, e ele abriu a porta em silêncio. No chão jazia Eline, a forma esguia a estremecer em soluços inaudíveis, o rosto escondido nas mãos. Ele esperou um instante, mas ela não se moveu.

— Eline, levante-se! — disse ele, curto, quase imperioso.

Com ferocidade, ela se ergueu um pouco, e com ferocidade gritou:

— O que é? O que você quer aqui? Vá embora.

— Levante-se.

— Não quero; vá embora, vá embora! Estou dizendo, vá embora!

Ele se inclinou sobre ela e segurou-lhe os pulsos, cheio de uma paixão que lhe fez o sangue subir ao rosto. Machucou-a, e ela soltou um grito de dor.

— Maldição! Vai se levantar? — sibilou entre os dentes, quase fora de si de raiva, enquanto a puxava brutalmente para cima. O rosto vermelho, os olhos flamejantes e a voz sibilante dele a aterrorizaram. Vacilante, ela se deixou arrancar do chão.

— O que você quer? — perguntou outra vez, mas agora mais calma, e com aparente altivez.

— Vou lhe dizer o que quero. Quero que vá imediatamente — imediatamente, está ouvindo? — até Erlevoort e lhe peça perdão. Talvez não se lembre do que disse em sua paixão insensata, mas você o feriu profundamente, insultou-o. Vá, e agora mesmo!

Ela o fitou, muito alarmada. O tom decidido e imperioso dele a fez tremer, e ficou muda de terror ao vê-lo, com seu grande corpo poderoso, apontar para a porta.

— Você o encontrará lá embaixo, na sala de visitas. Vai agora?

Ela tremia por inteiro, mas não queria deixá-lo triunfar.

— Não vou.

— Se não for, eu a arrastarei escada abaixo até que fique aos pés dele. Juro que farei isso, juro! — sibilou-lhe no rosto, sílaba por sílaba.

Ela recuou, assustada.

— Henk! — gritou, chocada por ele ousar dizer-lhe tal coisa.

— Vai?

— Sim... sim, eu vou, mas... Henk! Oh, não, não fale assim comigo! Por quê? Meu Deus! Já não sou infeliz o bastante?

— Isso é culpa sua, obra sua, mas não é razão para tornar outro infeliz também, sobretudo Erlevoort.

— Sim, sim, você tem razão — soluçou ela, por fim completamente quebrada. — Eu vou, mas venha comigo, venha comigo, Henk.

Ele a sustentou enquanto a tirava do quarto e a conduzia escada abaixo. Mas, ao entrar na sala de visitas, ela sentiu medo. Não havia ali ninguém além de Otto, sentado no sofá, com a cabeça entre as mãos. Por um instante ela ficou parada, indecisa sobre o que fazer; mas Henk olhou para ela, e seu olhar, junto com a visão do desespero silencioso de Otto, fez com que ela não hesitasse mais. Caiu de joelhos diante dele e quis dizer alguma coisa, mas foi incapaz de pronunciar uma só palavra por causa dos soluços violentos, que afinal pareceram dissolver-se numa torrente copiosa de lágrimas. Pousou a cabeça palpitante, ardente, sobre os joelhos dele, tomou-lhe a mão e soluçou, soluçou até que o coração quase se lhe partisse. Ele também não falou, e olhava-a profundamente nos olhos.

Por fim, com grande esforço, ela conseguiu apenas dizer, enquanto Henk permanecia de pé atrás dela como seu juiz:

— Perdoe-me, Otto, perdoe-me, perdoe-me.

Ele assentiu com a cabeça, lenta e suavemente, não de todo satisfeito com o remorso dela, sentindo, por assim dizer, uma decepção com algo em seu modo, que não era o que esperara; mas inclinou-se sobre ela, puxou-a para si e beijou-lhe a testa.

— Perdoe-me, Otto, perdoe-me.

Ele envolveu-a suavemente com o braço e apertou-a por um momento contra o peito, enquanto ela continuava a soluçar; e fechou os olhos para impedir que as lágrimas lhe atravessassem os cílios. Pois ele sabia, sentia: tudo estava acabado.

A noite passou um tanto sombria, embora Henk, em seu tom franco e bondoso, lhe assegurasse que tudo ficara bem outra vez. De Eline, Otto se despediu com um sorriso triste. Eline então pediu perdão a Betsy na presença de Henk. Betsy deu-lhe um pequeno aceno de aprovação e nada disse. E, mais tarde, quando Henk lhe contou como a forçara a ir até Erlevoort, ela o olhou quase com admiração — pois jamais teria pensado que, numa luta contra Eline, seu marido se mostraria o mais forte dos dois.

Algumas semanas passaram, e dia após dia Eline se descobria cada vez mais infeliz, pois sentia que tudo estava acabado, que não podia forçar-se a amar Otto, e quase morria de dor sob a censura daquele sorriso triste. Certa tarde, ficou no quarto e disse a Mina que avisasse que estava doente e não desceria. Otto perguntou se podia subir para vê-la em seu quarto, mas ela mandou dizer que estava cansada e precisava de repouso. E, gradual mas nitidamente, uma resolução fixou-se em seu espírito: precisava fazê-lo; devia isso à felicidade dele e à sua própria. No dia seguinte, também não quis recebê-lo, por mais que Henk a instasse a fazê-lo. Apenas sacudia a cabeça devagar; não podia. Estava doente. Reyer? Não, não o queria. E permaneceu no quarto, enquanto Otto jantava lá embaixo com Betsy, Vincent e Henk, e saiu cedo.

Naquela noite, ficou muito tempo deitada no sofá, olhando fixamente para a escuridão. Por fim, acendeu o gás, fechou as cortinas e sentou-se à escrivaninha. Tinha de ser. Calma e resolutamente, começou a escrever, parando de vez em quando e lendo para si cada palavra:

“Meu queridíssimo Otto,

“Perdoe-me, eu lhe suplico, mas não pode ser de outro modo. Pergunte a si mesmo se posso fazê-lo feliz, ou se não tornaria sua vida um fardo. Pensei que poderia fazê-lo feliz, e esse pensamento hei de guardar sempre, pois ele encerrou minha maior felicidade no passado. Mas agora...”

Ao escrever essas palavras, as lágrimas lhe subiram aos olhos, e de repente ela rompeu num soluçar violento e rasgou o papel. Não se sentia capaz de causar-lhe tamanha dor. Grande Deus, não podia fazê-lo! Mas então o que devia fazer? Deixar as coisas como estavam até que talvez, no fim, alguma catástrofe viesse obrigá-los à separação? Não, não, mil vezes melhor separar-se em amizade, com um último adeus triste! Mas já lhe causara tanta dor contra a própria vontade; desejava no futuro causar-lhe a menor dor possível, e agora... oh! ser assim atirada de um lado para outro numa luta como aquela, só e abandonada, sem ninguém que a apoiasse, sem saber realmente o que queria ou qual era seu dever! Era fraca demais para isso, para uma luta como aquela. Ainda assim, tomou uma folha nova e começou outra vez a escrever:

“Meu queridíssimo Otto.”

Algumas linhas vieram com relativa facilidade, muito semelhantes às da primeira carta, que ela havia rasgado. Mas como lhe diria o resto, como? De repente, porém, a pena correu pelo papel, formando brutalmente letras quase ilegíveis; e ainda assim ela continuou a escrever, página após página de frases selvagens, quase incoerentes, nas quais se censurava amargamente, repetidas vezes, pela maneira como o tratara, e por fim o libertava do compromisso. A longa carta divagante, cheia de repetições e manchada por suas lágrimas, concluiu-a com a súplica patética de que, um dia, quando ele tivesse encontrado uma moça digna dele, e que o amasse desinteressadamente, ainda assim não a esquecesse por completo. Todo o seu ser se derramou naquele último pedido.

“Então pense às vezes em mim, sem ódio nem amargura, e tenha um pouco de piedade de sua pobre Nily.”

A carta estava escrita, o envelope selado, e, depois de muita hesitação dolorosa, ela afinal reuniu coragem para chamar Gerard, a quem a entregou para que fosse postada. Então um terror selvagem a tomou, e teve a sensação de água gelada escorrendo-lhe pelas costas.

Agora Gerard estava na rua, pensou; agora chegara a esta casa, agora àquela; agora se aproximava da caixa de correio na Nassaulaan. E pareceu-lhe ouvir a carta cair dentro dela com um baque, como o de um caixão descendo numa cova aberta. Esteve a ponto de desmaiar, pois, no terrível estado de tensão de seus nervos, parecia-lhe estar cercada por todos os lados de terrores palpáveis e espectros medonhos. E de repente, como se despertasse de um pesadelo, tomou consciência do que fizera, um ato irrevogável! Sentiu-se tremer e estremecer por inteiro, como em febre. Amanhã, amanhã cedo, Otto receberia a carta, aquela carta.

Grande Deus, não podia, não devia ser! Era sua própria felicidade que ela lançara fora, porque o repouso e a paz dessa felicidade a tinham entediado! Sim, era sua felicidade que ela rejeitara, e que nunca mais poderia recuperar.

Pareceu-lhe que o teto desabaria e a esmagaria; mal podia respirar. E correu com passos vacilantes para a porta, para fora do quarto, atravessou o patamar e entrou no quarto de Betsy.

— Grande Deus... Betsy... Betsy! — gritou com voz sufocada. Betsy estava na cama e acordou assustada. Uma ideia confusa de algo terrível, um pensamento de incêndio, de assassinato, surgiu-lhe na mente.

— Quem! O quê! O que foi? O que foi, Eline?

— Eu... oh, grande Deus... oh!...

— Mas o que foi? O que foi, Eline?

— Eu... eu...

— Então?

— Mandei uma... carta para... Otto.

— Uma carta?

— Eu... eu lhe escrevi. Eu... rompi tudo. Oh, grande Deus!

Betsy saltara da cama e estava de pé, tremendo diante de Eline, que se encolhera no chão e jazia soluçando histericamente, o rosto escondido pelos cabelos em desalinho.

— O que você está dizendo? — perguntou, completamente esmagada.

Eline não disse mais nada; só conseguia soluçar.

Henk entrou.

— O que aconteceu? — perguntou, ansioso.

— Eline escreveu a Otto, rompeu tudo! — disse Betsy com voz trêmula.

Henk ficou parado, tomado de assombro, e não conseguiu pronunciar palavra. Mas Eline ergueu a cabeça e, torcendo as mãos, quase delirante de dor, disse:

— Sim, oh, céus! sim, eu rompi tudo. Uma carta longa... eu mandei a ele... e, oh! é terrível... é terrível... mas não sei o que faço, não sei o que quero, não sei se gosto dele ou se não gosto, ou se gosto de qualquer outra pessoa. Não sei nada... e, oh! está tudo latejando, latejando na minha cabeça. Escrevi-lhe... porque... porque pensei que era meu dever; eu o teria tornado infeliz. Mas é terrível, terrível que eu tenha feito isso. Talvez eu não devesse ter feito, talvez ainda pudesse ter gostado dele. Oh, Deus! Quem me dera que tudo acabasse agora, quem me dera estar morta, pois não posso mais suportar, não posso mais suportar!

Mortas e sem vida, as palavras lhe caíam dos lábios, enquanto se encolhia no chão, torcia as mãos e esfregava lentamente a testa no tapete.

Betsy lançou um olhar a Henk: que devia fazer? O rancor secreto que sentia contra a irmã se dissolveu por um momento numa grande piedade diante da dor de Eline. E, quando viu o marido continuar fitando Eline como um demente, irritou-se por ele não encontrar nada melhor a fazer. Acendeu o gás e enrolou-se num roupão; e os traços alterados de Eline a alarmaram, agora que ela estava sentada, olhando vagamente à frente, os olhos vermelhos de choro, as mãos dobradas sobre os joelhos.

— Oh, Elly, Elly! Como pôde fazer uma coisa dessas? — disse Henk com voz rouca, pensando em Otto.

Eline não respondeu e apenas moveu ligeiramente a cabeça.

— Oh, minha cabeça vai estourar! — murmurou, fraca.

— Está com dor? — perguntou Betsy.

— Oh! — gemeu Eline.

Betsy molhou um lenço em água e banhou o rosto de Eline, as têmporas e a testa, afastando os cabelos desgrenhados.

Henk sentara-se. Não sabia o que fazer, o que dizer; só via Otto diante de si.

“Como ela pôde fazer isso? Como pôde fazer isso?” Era seu único pensamento.

— Está melhor agora? — perguntou Betsy, com brandura.

Eline sorriu com desprezo.

— Melhor... não... mas está fresco... a água...

— Quer beber alguma coisa?

— Não, obrigada.

Já não soluçava, mas as lágrimas ainda corriam. E lentamente, quase inaudível, olhando sempre para o vazio, disse:

— Oh, não saber o que fazer... não saber... e então fazer uma coisa dessas, contra a própria vontade. Pobre, pobre rapaz! E esta dor terrível... oh, Deus!... é como se eu estivesse enlouquecendo.

— Vamos, Eline — disse Betsy —, deixe-me levá-la para o quarto.

Conduziu Eline como a uma criança, e como a uma criança a despiu.

— Oh, minha cabeça! — gemeu Eline, e caiu exausta sobre o travesseiro. Betsy terminou de despi-la e a cobriu; depois banhou-lhe mais uma vez o rosto com um pano molhado.

— Vamos, tente dormir um pouco agora. Por enquanto, não há mais nada a fazer; talvez tudo ainda se ajeite depois.

Eline sacudiu a cabeça.

— Quer que eu me sente ao lado da sua cama?

Eline não respondeu e ficou olhando vagamente à frente. Betsy fechou uma das cortinas vermelhas e sentou-se.

A pequena lâmpada branca da noite brilhava como uma estrela sobre a mesa, e nos painéis do guarda-roupa, no espelho da penteadeira, sobre o frasco e os vasos, sobre a toalete duchesse de musselina, reflexos instáveis de luz brincavam aqui e ali, enquanto as grandes sombras negras jaziam por toda parte, imóveis e lúgubres, como outros tantos espectros escuros. Betsy tremia em seu robe; queria pensar, mas não conseguia, pois continuamente a mesma ideia lhe voltava à mente: Eline escrevera a Otto. As horas se arrastavam devagar, e Betsy ouviu soar uma hora, uma e meia, duas. Então os gemidos por trás da cortina da cama se apagaram. Betsy levantou-se e espiou por um momento; parecia que Eline dormia, imóvel, os olhos fechados. Devagar e em silêncio, Betsy deixou o quarto.

Em seu próprio quarto, Henk continuava sentado, com a cabeça entre as mãos. Nenhum dos dois foi se deitar; ficaram sussurrando juntos, de vez em quando escutando se algum movimento se ouvia no quarto de Eline. Ambos temiam algo indefinível, de que não conseguiam falar, algo que continuamente lhes enchia os pensamentos de um terror vago e pavoroso.

— Psiu! — gritou Betsy de repente, pois Henk ainda sussurrava, e ela ouvira alguma coisa. Os dois escutaram. Do quarto de Eline vinha o som de soluços violentos, soluços de uma alma em desespero, apaixonados e altos. Um tremor frio passou por Betsy.

— Estou com tanto medo — balbuciou, com a voz trêmula.

Henk saiu do quarto o mais silenciosamente possível e atravessou o patamar escuro. Os criados estavam deitados, a casa inteira estava às escuras. No quarto de estar de Eline, porém, o gás estava aceso. Ali ele se sentou e ouviu Eline no quarto ao lado: ela soluçava, soluçava com uma intensidade como ele nunca ouvira ninguém soluçar antes; soava rouco, estridente, selvagem, como a voz de uma dor que já não podia ser consolada; cada soluço devia doer e torturá-la, cada soluço repercutia em seu próprio cérebro; a cada soluço, ele esperava o seguinte. Por fim, o pranto se dissolveu num gemido suave, depois cessou por completo. Tudo ficou quieto. E os cabelos de Henk começaram a se eriçar de terror diante da quietude trágica que agora reinava por toda a grande casa. Levantou-se; já não era senhor de seus atos; queria ter certeza, precisava ver. Por um instante, mas apenas por um instante, hesitou em entrar no quarto de Eline; então abriu a porta e entrou.

Sobre a cama amarrotada, no reflexo avermelhado das cortinas, jazia Eline com os traços deformados, os cabelos caindo em massa desgrenhada ao redor da cabeça. As cobertas, ela as havia atirado para o lado. Parecia dormir, mas ainda assim, a cada momento, um soluço interior parecia sacudir-lhe todo o corpo como um choque elétrico, e sob os olhos havia duas profundas olheiras escuras. Henk olhou para ela, e seus lábios tremeram de emoção diante daquele sono doloroso. Com delicadeza, cobriu-a com as cobertas e sentiu que ela estava muito fria. Ficou ainda um pouco olhando fixamente para aquele rosto manchado de lágrimas; depois atravessou o boudoir, onde diminuiu o gás. E então aquela mesma quietude trágica encheu por completo a casa escura, naquela noite de dor e terror.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
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