Leia agora
Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 23 · Eline Vere

Capítulo XXIII

23 de 30 ≈ 7 min de leitura

Capítulo XXIII

De manhã, a carta de Eline foi entregue a Otto. Ele não se deu tempo de se retirar para o quarto, mas foi direto à sala de visitas e, atirando-se na primeira cadeira que encontrou, abriu a carta. Começou então a ler aquelas palavras de dor e remorso. Não havia necessidade de Eline lhe assegurar que sofrera, sofrera intensamente ao escrevê-la. Ele lia isso em cada palavra, e a cada palavra um novo dardo de tristeza lhe penetrava no peito. Lia também, embora ela não o escrevesse com todas as letras, que todo esforço de sua parte para encontrar a própria felicidade no amor dela — mesmo que conseguisse despertar novamente a afeição de Eline por ele — seria em vão; a lição que extraía da carta, em linguagem para ele clara e inequívoca, era que estavam separados para sempre, porque ela não possuíra a força de preservar seu amor. Um grande, um incomensurável desespero o encheu; pensou que, se ela tivesse tido essa força, se tivesse permanecido fiel a ele, ele poderia tê-la feito feliz, porque no repouso de sua própria alma, na calma suavizante de seu próprio amor, ela teria fechado os olhos e adormecido, para enfim despertar cheia de tranquila felicidade. Outrora sentira certeza de que esse teria sido o futuro dos dois; agora, porém, essa ideia parecia não ter passado de uma fantasia inútil, nada mais.

Mais uma vez, percorreu a carta, e pareceu-lhe que só então a lia direito; sim, ela estava perdida para ele, perdida para sempre! Um vazio, um vácuo sem esperança o cercava em sua solidão, no meio da luxuosa sala de visitas, cheia de brilho inanimado, cheia de grandes espelhos frios e móveis caros; e, com os olhos úmidos, olhou ao redor e estremeceu. Então recaiu na cadeira, cobriu o rosto com as mãos, e um único soluço doloroso escapou-lhe do peito comprimido. Teve a sensação de que tudo dentro dele era despedaçado e quebrado, como se aquele único suspiro amargo, semelhante ao sopro de um furacão, tivesse dissipado e destruído nele toda flor nascente de esperança; parecia-lhe que nada restava em si além daquele grande, daquele incomensurável desespero, e naquele momento teria desejado morrer. Soluçou e soluçou baixinho, e um sentimento de amargura lhe subiu ao peito. Merecera aquilo, ele que um dia descobrira tamanho tesouro dentro de si, ele que nada desejara além de fazer outra pessoa compartilhar esse tesouro, esse tesouro de paz e repouso? Seu tesouro era desprezado, e agora ele se sentia mais pobre que o mais pobre dos homens, e vazio, inteiramente vazio, em desespero e lassidão.

A porta abriu-se devagar. Era Mathilde. Aproximou-se dele como uma triste imagem de piedade, sentou-se a seu lado e tentou afastar-lhe as mãos do rosto. Ele estremeceu violentamente e olhou para ela com dois grandes olhos arregalados e selvagens.

— O que você veio fazer aqui? — perguntou, com voz desconsolada. Pois não havia nada a fazer por ele, nada; estava morto para tudo.

— Para que você vinha a mim, cinco anos atrás, quando costumava sentar-se ao meu lado e me puxar para junto de si? E para que veio a mim certa noite, também há cinco anos agora, quando meu marido... me havia... deixado... meu marido, que nunca mais vi desde então? Diga-me, para que veio a mim naquela ocasião? Acaso eu lhe perguntei então o que você me pergunta agora? — disse ela, em tom de censura. — Você recebeu uma carta de Eline, eu sei, vi o envelope. Não precisa me dizer do que se trata. Posso senti-lo por instinto. Mas, Otto, deixe-me compartilhar sua dor; não faça ouvidos surdos à minha súplica.

Ela viu o peito dele erguer-se sob o soluço poderoso que ele reprimia com violento esforço; então passou o braço em volta de seu pescoço e o obrigou a apoiar a cabeça em seu ombro. E, em sua própria dor, ele estremeceu, assustado pela lembrança da dor dela, daquela tristeza da qual ela nunca falava; e sentiu que ela devia de fato desejar sinceramente consolá-lo, já que por sua causa mergulhava de novo naquela grande dor do passado.

— Por que fala disso? — perguntou ele, pois sabia que ela sofria menos quando sofria em silêncio.

— Para que você sinta que eu o compreendo. E para que veja que ainda vivo, e que preciso continuar vivendo; e, sobretudo, para lhe mostrar que toda a dor da terra não pertence exclusivamente a você. Talvez essa ideia o console um pouco.

— Oh! — rompeu ele em soluços, e agarrou-se a ela, entregando-lhe a carta com mão trêmula. — Tome, leia! leia! — gritou.

Ela leu a carta e acariciou-lhe os cabelos como se ele fosse uma criança. Sim, era assim que devia ser: agora que ele já não se forçava a controlar os sentimentos, agora que não se envergonhava, em sua obstinada virilidade, das lágrimas copiosas. E, enquanto lia, pensava em Eline.

“Ela sabia o que estava jogando fora?”, meditava. “O que faria se o visse assim? Não é digna de você, meu Otto, meu próprio irmão? Ou será apenas infeliz, infeliz como nós?”

Madame van Erlevoort entrou com Frédérique. Tinham sabido da notícia por Henk.

Mathilde ergueu a cabeça dele.

— Mamãe está aqui! — disse simplesmente, como se não quisesse mais retê-lo, agora que outra pessoa reclamava sua atenção. Mas, ao ver a mãe gentil, quase se desfazendo em sua dor, a mais profunda piedade encheu sua alma. Ele precisava consolá-la.

— Mamãe, mamãe, não chore assim! Não é tão terrível! — exclamou, em desespero.

Frédérique permaneceu de pé, encostada a uma das portas de dobrar. Ninguém lhe dava atenção alguma. Mathilde, mamãe, podiam acalmá-lo e consolá-lo, mas ela, ela não lhe servia de nada; era tola, infantil, e não saberia o que lhe dizer. Lembrou-se de como, um dia, muito antes do noivado, falara com ele sobre Eline; agora, porém, não tinha nada a dizer, absolutamente nada. Pois, é claro, ela não compreendia o que era a dor; ela mesma nunca sofrera, não tinha sentimento, era uma pedra.

“Uma pedra! eles pensam que sou uma pedra!”, repetiu baixinho para si mesma, e continuou encostada ao batente, chorando sem ruído, desconsolada com a ideia de que não podia consolar Otto. Sentiu uma mão em seu ombro e voltou-se quase altiva por se ver assim mal julgada. Mas, quando viu o rosto dolorido dele; aqueles olhos úmidos, nos quais, pela primeira vez, via lágrimas; quando viu aqueles lábios tremendo sob o bigode, e os sulcos profundos sobre a testa, lançou-se, transbordante de piedade, contra o peito dele e, apertando-o com força nos braços, cobriu-lhe o rosto de beijos ardentes, apaixonados.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
Eline Vere

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Eline Vere

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Eline Vere

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Eline Vere Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
1Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 23 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Eline Vere

Todos os capítulos 30 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir