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Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 24 · Eline Vere

Capítulo XXIV

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Capítulo XXIV

Vincent estava ocupado fazendo as malas, pois no dia seguinte partiria para Londres. Henk tentou fazê-lo mudar de ideia e ficar, mas apenas sem grande convicção, pois sentia muito bem que, uma vez Vincent longe dali, um grande obstáculo à paz da casa seria removido, e Betsy já não se irritaria com a presença de um primo que odiava, que temia, e que, por medo dele, alimentara e cuidara até abominá-lo. Na manhã anterior à sua partida, Vincent teve uma última conversa com Eline no boudoir dela.

— Então você vai mesmo? — perguntou ela.

— Certamente, minha querida. Você mesma vê que Betsy não me suporta mais.

— O que vai fazer em Londres?

— Preciso visitar alguns conhecidos por lá, tratar de certos assuntos de dinheiro antes de ir para a América.

— Então vai para a América?

— Você sabe que sim; não foi você mesma quem me trouxe a carta de St. Clare?

— Eu... eu não sabia que você tinha decidido de vez. Pobre Vincent!

Ele a olhou com um sorriso tranquilo; ainda não inteiramente recuperado da fraqueza, agradava-lhe um pouco ser objeto de piedade.

— Você tem tanta pena de mim assim?

— Sim... tenho, de verdade. Você vai começar de novo suas errâncias, e quem sabe se o verei outra vez? Talvez nunca, nunca mais!

Ela suspirou.

— Sou sempre mais feliz quando estou errando pelo mundo.

Ela sentiu um desejo ardente de perguntar se podia acompanhá-lo, se também podia procurar sua sorte longe dali, ao lado dele. Mas não sabia como formular a pergunta, e esperou para ver se talvez ele diria alguma coisa. Pois ele não a amava? não quisera partir por causa dela? Agora já não restava nada que precisasse separá-los.

“Ele tem medo de falar”, pensou ela, e não sabia dizer se se alegrava ou se se entristecia por ele ter medo.

— Mais feliz em suas errâncias! — repetiu, pensativa. — É possível; você é homem, pode errar pelo mundo. Mas eu sou uma moça, sempre vivi uma vida quieta aqui. Sou feliz? Céus! Não, isso eu não sou!

Ele a olhou por um momento, como se estivesse prestes a lhe perguntar alguma coisa; mas permaneceu algum tempo em silêncio. Então perguntou:

— E por que... você não é feliz?

— Por quê! — murmurou ela.

Esperou que ele prosseguisse, até que talvez lhe fizesse a pergunta que ela esperava havia dias. Mas sem dúvida era por sentimento de honra e decência que ele não a fazia; fazia tão pouco tempo, afinal, que ela escrevera a Otto. Ainda assim, julgou detectar amor sob aqueles tons suaves, e olhou para ele. Um raio de sol cintilou ao longo da cortina da janela e caiu sobre ele, ali sentado, cercando-o de uma espécie de auréola; e ela recuou de súbito, alarmada, quando observou, naquela luz brilhante, como ele se parecia com seu pai morto. Esse susto fez-lhe o coração pulsar mais depressa, e ela imaginou que amava Vincent por causa da lembrança do pai, porque via nele uma vítima das convenções do mundo, e assim o revestia de algo ideal e romântico.

Ele também a olhava com piedade no coração, pois sabia que ela lançara fora sua felicidade. Ele próprio fizera isso muitas vezes, pensou; mas, no seu caso, o fato nunca se revelara a seus olhos com tanta nitidez como agora em relação a Eline. Por um momento quis dizer-lhe isso, mas não viu utilidade em fazê-lo e, por isso, nada disse. Ela nunca o teria admitido.

— Vincent! — balbuciou ela por fim, com os nervos dolorosamente retesados na expectativa, na espera daquilo que nunca vinha. — Vincent, diga-me... talvez nunca mais nos vejamos... você não tem nada... nada a me dizer?

— Tenho, e muita coisa, minha querida Elly; tenho de agradecer-lhe por ter cuidado de mim e me tratado como uma menininha querida, aqui no seu próprio quarto, num momento em que você mesma sofria.

— Como sabe que eu sofria?

— Tenho algum conhecimento da natureza humana.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não creio. Eu não sofri; tenho pena de Otto, mas eu mesma não sofri.

Ao pronunciar essa mentira, sentiu que ela a torturava; mas era por causa de Vincent, que a amava e que não devia saber de sua própria dor. Ele a fitou penetrantemente, perguntando a si mesmo por que ela mentia; mas não conseguiu explicar, não compreendia aquilo de modo algum. A única coisa que compreendia era que, na alma da mulher, sempre permanecia algo estranho e misterioso, uma névoa que não se podia atravessar. Ela também não o compreendia. Não conseguia entender por que ele não lhe pedia que o amasse, agora que nada mais os separava, e agora que ele estava prestes a partir. Dentro de uma hora estaria fora. Oh, talvez pensasse que era tarde demais. Ela suspirou e disse, com ardor:

— Vincent, uma coisa você precisa me prometer: se algum dia eu puder fazer alguma coisa por você, escreva-me, e asseguro-lhe que não o desapontarei. Promete?

— Prometo, e agradeço.

— E mais uma coisa. Sei que muitas vezes lhe falta dinheiro. Se em algum momento eu puder ajudá-lo com algum, por favor, escreva-me. Agora mesmo, por exemplo, tenho aqui duzentos e cinquenta florins em dinheiro; eles lhe seriam úteis? Se forem, estão à sua disposição. Posso lhe dar esse dinheiro?

Ela já se levantara para abrir a escrivaninha, mas ele lhe segurou a mão com algo semelhante à emoção.

— Elly... Elly... não, Elly, isso não... muito obrigado. É de fato muita bondade sua, mas talvez eu não pudesse lhe devolver o dinheiro por muito, muito tempo.

— Ora, vamos, não... não recuse. É um prazer para mim, asseguro-lhe.

— Mais uma vez, não sei como lhe agradecer; mas realmente... eu... eu não posso aceitar... realmente não posso.

Ela ficou imóvel, e suas faces tornaram-se brancas como mármore. Sim, sim, de fato ele a amava; como pudera duvidar disso? Se não a amasse, teria recusado o dinheiro? Sim, ela via: ele não queria dever-lhe dinheiro porque a amava. Mas por que, então, não falava?

Por fim, ele se levantou; o cabriolé chegaria à porta dentro de poucos minutos.

— Agora preciso mesmo ir — disse ele. — Adeus, minha querida Elly, adeus; mil vezes obrigado por tudo que fez por mim.

— Adeus, Vincent, adeus.

Ele fez um movimento como se quisesse beijá-la, e ela lhe passou os braços em volta do pescoço e beijou-o nas duas faces.

— Pense em mim às vezes, sim? Gosto de você, e na verdade não gosto de muitas pessoas; posso contar minhas afeições com bastante facilidade. Bem, adeus, Elly, adeus, e talvez, au revoir.

Ela o beijou mais uma vez, os olhos cheios de lágrimas; e, quando ele se foi, atirou-se no sofá e fez-lhe um último aceno com a cabeça. Ele desapareceu, fechando a porta atrás de si.

Por algum tempo, ela ficou olhando fixamente para aquela porta. E, quando, alguns momentos depois, ouviu o cabriolé dele afastar-se, estranhou que ele a tivesse beijado de modo tão franco e tão frio naquele instante final da separação. Queria meditar sobre ele, porque não o compreendia; queria também sondar os próprios sentimentos e descobrir se realmente o amava; mas sentia-se cansada, a cabeça doía, e, com um suspiro fatigado, recaiu nas almofadas, cobrindo o rosto com as mãos.

Era o terceiro dia depois da partida de Vincent; mas, embora ele houvesse deixado a casa, ocorrera outra altercação por causa dele entre Eline e Betsy, que dissera o que pensava sobre seu “canalha de primo” na presença de visitas, para intensa irritação de Eline. Chegara o momento, pensava Betsy, de fazer Eline saber de uma vez por todas que ela era a dona daquela casa; e assim, com a plena intenção de fazê-lo, subiu à noite até o boudoir de Eline.

— O que você quer? — disse Eline, altiva. — Eu gostaria de ficar sozinha.

— Permita-me lembrar-lhe que você está na minha casa, e que, se eu tiver vontade de vir aqui, virei! Tenho algo a lhe dizer.

— Então seja breve, pois torno a lhe dizer que quero ficar sozinha!

— Você quer! você! Que direito tem você de querer, eu gostaria de saber? Está na minha casa, e não cabe a você querer! Quem pensa que é, hein? — guinchou Betsy, exaltando-se até uma cólera imensa. — Imagina que é uma princesa e pode fazer exatamente o que lhe agrada? Ou pensa que vou receber ordens suas na presença de estranhos?

— Acha que não sei o que dizer sem seus preciosos conselhos? Não quero seus conselhos, pronto! E asseguro-lhe que, de agora em diante, sempre que eu a ouvir falar daquele modo vergonhoso de Vincent, vou fazê-la calar-se. Isto eu lhe asseguro.

— Ah, você me assegura, assegura, é? Pois eu não quero suas garantias, estou lhe dizendo. Não tenho a menor intenção de me preocupar com sua ternura idiota por Vincent! Talvez tenha aprendido com ele a polidez de interromper uma pessoa diante de estranhos, como ousou fazer comigo? Não consigo entender como pode ter essa insolência, realmente não consigo. Ora, eles devem ter pensado que você estava louca. Bem, se está, isso deve ser sua desculpa! Imagine me chamar de vulgar; e o que é você, diga-me? Você, que esquece os rudimentos mais elementares da polidez, e teve...

— Sim, eu sei, já ouvi isso antes: tive a insolência de interrompê-la, era o que ia dizer. Diga alguma outra coisa, para variar. Mas você verá que ouso mais que isso, se atacar Vincent outra vez. Você o acha falso, não é? Pois eu acho que falsa é você, você que o convida para cá e depois o expulsa de casa, você que, sem razão alguma, fica falando dele como uma lavadeira! É você, você que é falsa!

— Guarde para si seus lindos epítetos, por favor.

— Então guarde também para si esses ataques miseráveis a Vincent, por favor! — gritou Eline, fervendo de paixão. — Não quero, está ouvindo, não quero mais ouvir isso. Já suportei por tempo suficiente, pela paz, mas agora não vou suportar mais! Compreende?

— Ah, não vai suportar mais? Talvez tenha sido tudo por causa desse querido Vincent que você também não pôde mais suportar Otto?

— Cale-se! — berrou Eline.

— Ou talvez esteja apaixonada por esse réptil, e por isso tratou Otto como se ele fosse um colegial com quem você fazia uma pequena brincadeira? Não vai mais suportar que eu fale mal de Vincent, não é? Pois eu lhe digo que não vou mais ser comprometida por você! Muito bonito, sem dúvida! Para começar, você é bastante tola para romper seu noivado e, por puro capricho, sem a menor razão, fez de si mesma o assunto da cidade; depois fica aqui, em minha casa, com Vincent, como se estivesse apaixonada por ele; e, para rematar, ousa ser insolente comigo diante de estranhos! Pois eu é que não vou suportar mais, está ouvindo? Se aprendeu essa falta de modos em suas conversas filosóficas com Vincent...

Eline já não conseguia se controlar. Seus nervos estavam tensionados ao máximo e vibravam sob os insultos de Betsy como sob o toque de mãos ásperas. E a alusão de Betsy a Otto, à sua simpatia por Vincent, que ela imaginava ter ocultado com tanto êxito, deixou-a furiosa. Agarrou os pulsos de Betsy com a força nervosa dos dedos e, com a voz aguda de raiva, gritou:

— Basta! Cale-se, estou mandando. Não fale mais de Otto, não diga mais uma palavra sobre Vincent, ou eu... eu... eu lhe farei mal! Não me provoque mais. Cuidado!

Betsy arrancou-se de suas mãos.

— Eline, você está louca? — gritou; mas Eline não lhe permitiu terminar. Continuou de pé diante de Betsy, cerrando as mãos trêmulas.

— Estou dizendo que você me provoca, você me provoca com essa eterna bobagem sobre sua casa. “Minha casa! minha casa!” Eu sei que estou em sua casa, mas não lhe pedi que me recebesse, e não quero que me lembrem que estou em sua casa como se você me fizesse uma caridade. Não dependo de você, embora esteja em sua casa, e não aceito ordens suas, em nada. Sou livre, completamente livre, para fazer exatamente o que quiser.

— Ah, não, não é; você está na minha casa e precisa se comportar. E, se não souber se comportar, eu lhe direi como, enquanto estiver aqui!

— E eu não aceito que você me diga como devo me comportar! — gritou Eline. — Estou dizendo que sou livre! Não quero sua casa, de que você faz tanto alarde, e juro que não ficarei nela nem mais um instante! Juro, juro por tudo que é sagrado! Aproveite sua casa sozinha, ou engasgue nela, por mim tanto faz!

Ela mal tinha consciência do que dizia. Entrara num paroxismo de raiva e, com um movimento rápido, apanhou do chão a capa e a lançou sobre os ombros. Depois correu para a porta, mas Henk, que ouvira as vozes altas e viera ver o que acontecia, deteve-a.

— Eline! — começou ele, severamente.

— Deixe-me passar, deixe-me passar! — gritou ela como uma tigresa ferida, e empurrou para o lado o corpo grande dele com uma força tão frenética que o fez cambalear. Mais uma vez, ele tentou detê-la, mas de novo ela o empurrou, saiu correndo do quarto e desceu as escadas.

— Eline! Pelo amor de Deus, Eline! você não sabe o que está fazendo! — gritou-lhe ele do patamar, e correu atrás dela.

Ela não ouvia mais nada. Tinha um único pensamento: fugir daquela casa, afastar-se de um abrigo onde lhe censuravam a presença. Já não via nada; não via Gerard nem os criados, que estavam parados, olhando-a em completo assombro; atravessou às pressas o vestíbulo, escancarou as portas de vidro e puxou rapidamente o ferrolho da porta da rua. Mas agora, agora ouviu atrás de si um ruído estalado; a porta bateu com estrondo, estilhaçando o vidro no chão com grande fragor.

Então a porta da rua também se fechou atrás dela, e ela se viu na rua. A chuva caía em torrentes, e o vento impetuoso lhe abria a capa e lhe batia no rosto como uma correia úmida. Era impossível avançar contra aquele furacão turbulento, e ela virou para o outro lado, deixando-se levar sem rumo pela força do vento, que lhe voava às costas como um vampiro gigantesco, de grandes garras dilacerantes. Sem rumo, deixou-se arrastar naquela noite lastimável, sombria. Na rua não viu ninguém, e, em sua solidão, na escuridão ameaçadora, no aguaceiro que respingava, nas rajadas selvagens da tempestade, por fim tomou consciência de sua situação, e um terror frio, indefinível, a alcançou. Pareceu-lhe ter sido arrancada de súbito do meio da vida cotidiana e lançada numa esfera cheia de angústia terrível, sem nome, e de desespero nu, sombrio. Quase morria de medo da escuridão que a envolvia como uma mortalha negra de dor, do dilúvio que lhe caía sobre a cabeça descoberta, inteiramente sem proteção contra as rajadas que quase lhe arrancavam a capa dos ombros e a entorpeciam de frio no fino vestido de seda preta que adejava em torno dela sob os golpes do vento. Seus sapatinhos de verniz chapinhavam nas poças de lama e no lodo espesso; os cabelos desgrenhados pendiam úmidos e gotejantes pelas têmporas; e sob a capa fina sentia uma umidade fria escorrer-lhe pela nuca e pelo peito nu. Já não sabia onde estava; assustava-se com os ramos que caíam ao seu redor, com o uivo de um cão de guarda numa casa por onde passava. E não via ninguém, ninguém.

Mas seu próprio estado a fez voltar a si. Tomou consciência de que fugira da casa da irmã. Teria querido parar por um momento para refletir, mas o vento forte a empurrava para a frente, como se ela fosse uma das folhas de outono que rodopiavam ao redor de sua cabeça. E deixou-se levar pelo vento e reuniu os pensamentos, enquanto caminhava com passos involuntariamente apressados. Apesar de seu estado lastimável, não sentia remorso nem arrependimento pelo passo que dera. E de repente espantou-se com a própria coragem. Nunca teria imaginado possuir audácia suficiente para fugir numa noite como aquela, sem saber para onde ir. Mas forçou os pensamentos a tomarem alguma forma prática; não podia continuar vagando daquele jeito, precisava ter um objetivo.

De repente percebeu que chegara à Laan Copes van Cattenburgh. Impelida pelo vento, apressou-se pelo caminho lamacento, encharcado de chuva, enquanto a tempestade varria em fúria sombria o Alexanders-veld.

Continuamente precisava recuar diante da chuva de gravetos soltos que o vento arrancava das árvores, e começou a perceber que corria o risco de ser esmagada por algum tronco que caísse. O medo pela vida a impedia de pensar, mas quanto mais intensamente esse medo lhe entorpecia o coração, mais avidamente ela se obrigava a fazê-lo. Para onde, em nome do Céu, iria? Um tremor frio a tomou — um pavor vago, indefinido — enquanto seus olhos arregalados tentavam em vão perscrutar a escuridão densa. A quem recorrer? À velha Madame van Raat? Não, não; por mais que gostasse dela, a velha senhora certamente tomaria o partido do filho e da nora! Aos Verstraeten, parentes de seu cunhado? Tudo começou a girar ao seu redor, e ela, ela se sentiu perdida em sua solidão negra, afundando pouco a pouco num abismo de dor e lama! A figura de Otto lhe surgiu no espírito, e ela teria dado tudo o que lhe restava de vida se ele pudesse vir até ela naquele momento, se pudesse ali mesmo levá-la nos braços, apertada contra seu coração, para algum refúgio de calor, luz, amor e segurança. Quase lhe faltou coragem para seguir em frente; poderia ter-se lançado naquela lama pela qual avançava e ficado ali deitada, deixando os ventos varrê-la até que seu último suspiro lhe escapasse! Mas não! Isso seria covarde demais depois da coragem que já demonstrara; e agora precisava, queria obrigar a mente a pensar em algum lugar de refúgio. Não Madame van Raat, não os Verstraeten; em nome do Céu, para onde iria então? E de repente, como um relâmpago que atravessasse a escuridão daquela noite de desespero nu, uma ideia lhe ocorreu, e sua mente voltou-se para certo conjunto de aposentos humildes, para Jeanne, sua amiga de outros tempos. Sim, era para lá que devia ir: não conhecia mais ninguém, e não podia continuar vagando para sempre sob aquela chuva torrencial, naquela tempestade ululante; e, reunindo as forças para enfrentar o vento que a golpeava, apressou-se, entorpecida, gelada e molhada até os ossos, contornando o Alexanders-veld em direção à Hugo de Grootstraat. Lá, do outro lado do campo, mal podia ver as traseiras, aqui e ali iluminadas por um fraco clarão de gás, das casas da Nassauplein, mas não conseguia distinguir qual delas era a deles — já não sua. Um remorso selvagem e saudoso encheu então seu pobre coração desesperado, ao recordar tudo o que perdera ali, ao pensar que ainda precisava caminhar tanto, através da tempestade furiosa, antes de chegar aos Ferelyn. E estava cansada, cansada até a morte, cansada da briga com Betsy, cansada da chuva que lhe batia sem cessar no rosto, fria e cortante como correias de aço, cansada do vento contra o qual lutava como contra um monstro negro imenso, que a arremessava de um lado para outro como se ela fosse uma peteca humana. Sentia-se mais exausta a cada passo que dava com seus sapatinhos de verniz, salpicados de lama e ameaçando escapar-lhe dos pés a cada movimento. E, oh! poderia ter morrido de miséria, de aflição, de dor.

Mas precisava seguir adiante, sempre adiante, e lutou e pelejou contra o monstro, vencendo-o lentamente. Assim chegou à Javastraat, e então virou à direita, em direção à Laan van Meerdervoort. O furacão a sacudia como se quisesse quebrá-la como um junco, e um ramo pesado bateu-lhe no ombro e arranhou-lhe o rosto, fazendo-a gritar de dor. E de repente, com o desespero dominando-lhe corpo e alma, desesperada de medo e de dor, tentou começar a correr, correr como se fosse por sua vida, e fugir, fugir para os Ferelyn. Mas o vento furioso a deteve; era em vão, só podia avançar devagar, penosamente, passo a passo.

— Oh, Deus! O que foi que eu fiz? — gritou em desespero selvagem. Aquelas ruas conhecidas, por onde passava quase diariamente, pareciam-lhe, naquela escuridão nociva, caminhos desconhecidos de uma cidade demoníaca, pelos quais estava condenada a vagar como um fantasma maldito. Passou pela casa de Madame van Raat e precisou convocar toda a coragem, toda a força da vontade, para não bater àquela porta, que certamente se abriria para ela e a admitiria à luz e ao calor. Mas não, era tarde demais; Madame estaria dormindo; além disso, recriminaria Eline por ter fugido da Nassauplein. E ela continuou a caminhar, impelida pelo vento e por uma ideia fixa, obstinada, rumo à casa dos Ferelyn. Seguiu, seguiu, embora a cada passo sentisse seus sapatinhos finos e encharcados ficarem mais pesados, mais pesados que chumbo. Virou na Spiegelstraat — quanto tempo ainda teria de sofrer? Contou os minutos — então, então entrou na Hugo de Grootstraat. E a chuva furiosa lhe batia no rosto com mais selvageria do que nunca, o vento puxava e rasgava sua capa com mais rudeza do que nunca, quando — graças a Deus! — parou diante da porta deles. Não viu luz em parte alguma, mas não hesitou. Só ali podia encontrar segurança. E tocou a campainha com violência, rudeza, paixão, como se fosse um clamor tilintante por socorro.

O tempo lhe pareceu insuportavelmente longo até que alguém respondesse. Mas por fim ouviu passos descendo a escada, o ferrolho foi puxado com um som áspero, depois a porta se abriu devagar, furtivamente, e um rosto apareceu na abertura.

— Em nome de Deus! — gritou ela, suplicante, empurrou a porta por completo e precipitou-se para dentro. — Sou eu, Eline.

A porta se fechou, e ela ficou na escuridão diante de Frans Ferelyn, que, em completo assombro, gritou seu nome. No alto da escada apareceu Jeanne com uma lâmpada, e, em seu anseio por luz, por calor, por brilho, sua vontade venceu mais uma vez as forças que lhe faltavam, e ela subiu as escadas às pressas.

— Jeanne!... Jeanne!... eu lhe imploro... ajude-me. Sou eu... Eline, oh, ajude-me! ajude-me, por favor!

— Santo Deus, Eline! — gritou Jeanne, paralisada de espanto.

— Ajude-me, por favor. Eu... fugi deles. Ajude-me, por favor, ou morrerei.

Ela tombou, encharcada, aos pés de Jeanne, e onde jazia a escada logo ficou molhada com a água que lhe gotejava da capa.

— Santo Deus, Eline! Eline! — gritou Jeanne, que não podia acreditar nos próprios olhos.

Eline rebentara em soluços e permanecia encolhida aos pés de Jeanne. Jeanne tentou erguê-la; e, onde quer que suas mãos a tocassem, sentia-a gelada e inteiramente ensopada de chuva.

— Em nome do Céu, Eline, o que você fez? O que aconteceu? Você está tão molhada, tão molhada, molhada e fria por inteiro. Santo Deus, Eline! — Levou Eline, que caminhava cambaleante, ao pequeno escritório de Frans e pousou a lâmpada. Eline caiu exausta numa cadeira, a água suja da chuva escorrendo-lhe das roupas.

— Sim... sim — gritou Eline. — Fugi deles, não podia mais ficar com eles. E vim até você, porque não sei para onde mais ir. Oh, Jeanne, ajude-me, ajude-me, por favor! — continuou, numa voz entrecortada de soluços.

Jeanne tremia de nervosismo e piedade.

— Conte-me isso depois, Eline. Deixe-me despi-la; você ficará doente com essas coisas molhadas.

— Sim, sim, dispa-me, por favor... essa capa, esses sapatos, oh, estou farta de mim mesma. Estou toda coberta de lama. Grande Deus! Oh, quem me dera estar morta! — Ela se atirou para trás na cadeira, tremendo por inteiro. Frans entrara no quarto.

— Oh, Frans, veja só — disse Jeanne, sacudida de emoção, apontando para Eline. — Espero que ela não adoeça.

— Sem chapéu, nesse vestido fino e decotado! Vou tentar acender o fogo lá embaixo. Você a despe.

Ele ainda estava como que paralisado pela aparência de Eline, e também tremia de compaixão, incapaz de falar, ao vê-la sentada naquela cadeira, a água escorrendo dos cabelos sobre o rosto branco e pelo pescoço, o vestido preto de noite grudado nela como uma flanela molhada. Mas foi. Precisava agir.

E lá fora rugia a tempestade.

Agora ela estava na sala bem iluminada deles, deitada num sofá que Frans pusera ao lado do fogão em chamas, e tremia de febre sob os cobertores de lã. Ainda assim, sentia uma grata sensação de bem-estar naquela luz, à vista daquelas chamas, intensamente grata por ter sido salva dos poderes demoníacos da escuridão. De repente, ergueu-se.

— Jeanne — gritou, com voz rouca, à pequena mulher trêmula que preparava uma bebida quente e fumegante. — Jeanne! Eu lhe imploro, perdoe-me por mantê-la acordada numa noite como esta. Mas, em nome do Céu, para onde eu iria? Oh, aquela chuva, aquele vento! Fico louca só de pensar. Eu não fazia ideia de que uma pessoa pudesse passar por uma aflição como a que sofri esta noite. Mas, de verdade, eu não podia mais ficar com eles. Quanto àquela Betsy, oh, como a odeio.

— Eline, eu lhe suplico, acalme-se agora.

— Por que ela mencionou o nome de Otto? Que direito tem de mencionar o nome de Otto? Eu a odeio! Eu a odeio!

— Eline! Eline! — gritou Jeanne, apertando as mãos.

Lançou-se diante do sofá.

— Eline, eu lhe imploro, eu lhe imploro, em nome do Céu! Acalme-se! Descanse agora, Eline.

Eline, com seus olhos febris e arregalados, olhou longamente para Jeanne; depois passou-lhe o braço em volta do pescoço.

— Deite-se e descanse agora, Eline; descanse, se não puder dormir.

Um soluço oco irrompeu da garganta de Eline.

— Oh, você é um anjo! — murmurou em tons entrecortados. — Nunca esquecerei o que está fazendo por mim, nunca. É como se você me tivesse resgatado de um abismo de desespero. Oh, aquela lama! Então você gosta de mim, Jany?

— Sim, sim, Eline, é claro que gosto; mas descanse agora, descanse.

— Oh! descansar.

Aquela única palavra, “descansar”, feriu Jeanne até o fundo. Eline a pronunciou com uma voz cheia de desespero, como se para ela nunca mais pudesse haver descanso. Ainda assim, deixou Jeanne acomodá-la confortavelmente entre as almofadas e esvaziou o copo que Jeanne lhe ofereceu.

— Obrigada, obrigada, Jany — balbuciou.

Jeanne a cobriu com os cobertores e sentou-se ao lado dela. As janelas chacoalhavam ao vento, e os galhos nus batiam furiosamente contra o vidro. O relógio sobre a lareira deu três horas.

Também acabara de dar três horas na casa dos Van Raat quando Frans Ferelyn parou de cabriolé diante da porta. A tempestade ainda rugia e guinchava como algum monstro ferido que lutasse ferozmente pela vida sobre os telhados da cidade escura. Frans saltou do cabriolé e tocou a campainha. Notou que o gás estava aceso no vestíbulo.

A porta foi aberta imediatamente por Henk, que parecia esperar alguém. Mas, ao ver Frans precipitar-se para dentro, recuou de espanto.

— É você, Ferelyn? — gritou.

— Sim, não se assuste — disse Frans, acalmando-o, pois viu que Henk estava num terrível estado de agitação. — Está tudo bem; Eline está conosco.

Entrou mais para dentro, esmagando sob os pés os vidros espalhados por todo o vestíbulo.

— Com vocês, ela está? Graças a Deus! — exclamou Henk. — Eu estava louco, louco; não sabia o que fazer! Graças a Deus ela está com vocês.

— Entre, Ferelyn — veio, numa voz trêmula, Betsy, que apareceu à porta da sala de jantar.

Os criados também estavam no vestíbulo, e seus rostos assustados se aclararam um pouco, enquanto se retiravam, cochichando, para a cozinha. Frans entrou na sala de jantar com Henk.

— A senhora não precisa se assustar; de verdade, por enquanto está tudo bem. Eline estava encharcada, mas Jeanne a tomou a seus cuidados. Pode imaginar o susto que levamos quando ouvimos baterem tão forte à porta, a uma hora dessas, e a vimos toda ensopada.

De repente, reparou no rosto de Henk.

— Mas diga, o que aconteceu com você? Sua face está toda coberta de sangue.

— Oh, não é nada. Quando Eline fugiu, corri atrás dela, e, por causa do vento, a porta do vestíbulo bateu e quebrou o vidro. Os estilhaços saltaram nos meus olhos, e por isso não pude sair correndo atrás dela imediatamente. Ainda assim, assim que pude, fui para a rua com Gerard, para trazê-la de volta, se fosse preciso arrastá-la. Mas estava escuro como o inferno; os lampiões de gás tinham se apagado com a tempestade, e eu não conseguia vê-la em parte alguma. Não sabia o que fazer. Então fomos à delegacia na Schelpkade, e eles mandaram alguns vigias noturnos procurá-la. Ela estava naquele estado. Pensei que talvez tivesse dado cabo de si mesma, e, neste tempo infernal, qualquer coisa podia lhe acontecer. Meu olho está doendo; amanhã irei consultar um oculista.

Betsy caiu com um suspiro numa cadeira.

— Oh, é terrível, terrível! — balbuciou. — Essa moça às vezes se comporta como uma maníaca!

— É claro, se você faz de tudo para enlouquecê-la! — gritou Henk, irritado, com a mão sobre o olho.

— Ah, bien! Sim, ponha a culpa em mim.

— Van Raat, há uma ou duas coisas que quero lhe dizer — interrompeu Frans. — Em primeiro lugar, vim aqui sem perder um minuto porque temi que vocês estivessem terrivelmente ansiosos por ela.

— Meu velho, não sei como lhe agradecer.

— Não pense nisso agora. Mas Eline declarou positivamente que não voltaria para vocês. Ora, não preciso lhe dizer que um caso desses logo se espalha; as pessoas começam a falar, e tudo isso... não é nada agradável. E os criados também sabem de tudo, não sabem?

Betsy lançou a Frans um olhar agradecido por tocar naquele ponto.

— Ora, mas como evitar? — gritou Henk, impaciente. — As pessoas sempre falarão.

— Sim, isso é verdade; mas, de todo modo, vá à minha casa assim que puder amanhã e veja se consegue persuadir Eline a voltar. Isto, naturalmente, se ela não estiver doente; agora há pouco achei que estava um tanto febril. Portanto, é melhor deixá-la descansar um pouco por enquanto; mas vá o mais cedo possível amanhã.

— Está bem — disse Henk, com um olhar atordoado.

— Creio que ela estava delirando quando saí para buscar um cabriolé, mas, ainda assim, parecia muito determinada. Não queria voltar, e me entregou suas chaves. Pediu-me — e olhou para Betsy — que arrumasse as coisas dela aqui e as empacotasse. Mas penso que disse tudo em sua paixão; espero, em todo caso, que a esta hora amanhã tenhamos chegado a algum arranjo amistoso.

— Olhe aqui, Ferelyn! — disse Betsy, inquieta. — Você pode compreender muito bem o desespero em que estou. Meu Deus, não é a primeira altercação que tenho com Eline, mas quem poderia imaginá-la capaz de uma loucura dessas? E, como você diz, toda Haia estará falando disso. Portanto, se conseguir persuadi-la a voltar, serei eternamente grata a você. Nossa casa está sempre aberta para ela; e quanto àquelas chaves, é melhor deixá-las aqui. Sou da sua opinião e penso que tudo ainda se ajeitará. Santo Deus! Que bênção que ela tenha ido para vocês! Mas numa noite dessas, sozinha, lá fora, naquela tempestade! Como pôde fazer isso? Santo Deus! Como pôde fazer isso?

Frans ainda precisava tratar de uma ou duas coisas com Henk, que lhe pediu que ficasse até de manhã, pois Frans mandara embora o cabriolé, e o tempo continuava medonhamente tempestuoso. Gerard conduziu Frans ao quarto de vestir de Henk, onde ele tirou as roupas molhadas.

Bem cedo, na manhã seguinte, Henk foi de carro com Frans a um oculista. Era apenas uma veia que se rompera no olho de Henk, e, depois que um pequeno grão de vidro foi retirado com uma lanceta, ele se sentiu muito aliviado. Mas, atravessando-lhe a face, havia um corte comprido e feio.

— Pareço ter estado na guerra — disse ele, tentando sorrir para Ferelyn assim que estavam novamente na carruagem, a caminho da Hugo de Grootstraat —, e, de fato, meu velho, parece que estamos todos em guerra neste momento. Já tive o bastante disso.

Ferelyn não pôde deixar de sentir pena dele ao ver aquele rosto honesto e bondoso coberto por uma melancolia sombria. Era bastante evidente que Henk aguardava com muita apreensão a entrevista com Eline. Mas a provação lhe foi poupada. Eline recusou-se apaixonadamente a recebê-lo, e, no quarto ao lado, ele ficou sentado, escutando com ansiedade as censuras que ela dirigia a Frans. Por que Frans queria trazer Henk? Por que ela dera suas chaves a Frans? Será que Frans também já não era digno de confiança?

A voz de Eline soava rouca e áspera, e a Henk pareceu que ela delirava. Depois ouviu um sussurro suave, repreensivo, de Jeanne, seguido pelos soluços de Eline, que se acusava de ingratidão.

Logo Frans voltou, encolhendo os ombros.

— Ela não quer vê-lo. É melhor você se resignar. Creio que está com uma febre violenta. Acha que Reyer ainda está em casa? Se estiver, eu iria até ele, se fosse você.

— Está bem — disse Henk, abatido. — Eu vou.

Eline ainda estava deitada no sofá, coberta com cobertores de lã, e gemia baixinho como se sentisse dor.

— Você é tão boa comigo, Jany, mas é claro que vê que não posso ficar aqui e incomodá-los desse jeito — prosseguiu, tristemente. — Vocês não têm muito espaço. Devo ser um estorvo para vocês. Esta tarde irei para um hotel.

Jeanne sentou-se ao lado dela e tomou-lhe as mãos entre as suas.

— Eline, seja razoável agora e não fale mais nisso. Acredite, você está doente; ficará aqui conosco, quietinha. Não vou insistir para que volte à casa de Betsy, mas então você não deve falar em ir para um hotel.

— Sim, mas se estou doente... eu não creio que esteja, mas você diz que estou... se estou doente, levará algum tempo antes que eu possa sair daqui outra vez. E... e... oh, perdoe-me por dizer isto... eu sei que vocês não podem arcar com isso, querida Jany; perdoe-me, perdoe-me por dizê-lo.

Jeanne olhou para Eline com ternura, e seus olhos se encheram de lágrimas.

— Se é por isso, Eline, então pague-nos e fique aqui; pague-nos e não fale mais em hotel. Não terei vergonha disso; você pode me pagar, se quiser. Mas fique aqui... fique.

Eline ergueu-se de súbito, com seus olhos selvagens e arregalados e os cabelos em desalinho, que Jeanne em vão afastava de suas têmporas. E agarrou-se a Jeanne com uma intensidade repentina, como se, em sua dor ardente, mergulhasse nas águas refrescantes e gratas da piedade e da simpatia.

— Oh, querida! meu anjo! — gritou. — Perdoe-me, eu... eu não quis magoá-la, mas... mas... oh, sim, ficarei com prazer, você é tão boa. Posso ficar?

Naquela tarde, a velha Madame van Raat e Madame Verstraeten foram visitar Eline e tentaram persuadi-la a voltar para a Nassauplein. Eline, porém, recusou-se a recebê-las. Até Betsy permitiu que Jeanne a convencesse a visitar Eline e lhe pedisse perdão. Jeanne achava que era dever de Betsy tentar fazer as pazes com a irmã doente, e que isso poderia produzir um efeito favorável nela. Mas Eline também não quis ver Betsy. E, no quarto ao lado, Betsy, com a sogra e a tia, ouviu, como Henk ouvira naquela manhã em silêncio e ansiedade, Eline declarar a Jeanne que não queria, não queria ver ninguém. Só Jeanne, e mais ninguém, ela queria ao seu redor! Em pouco tempo, a briga de Eline com os Van Raat e sua fuga para os Ferelyn tornaram-se o assunto geral das conversas. Dos detalhes da disputa, não se sabia muito; apenas, disso todos estavam certos: naquela noite de tempestade, Eline fora vista sentada numa carruagem com um vigia noturno e um rapaz, e isso, para dizer o mínimo, achavam mais que estranho! Mas Eline sempre fora um tanto excêntrica. No inverno, tinha o hábito de fazer caminhadas sozinha, de manhã cedo, pelo bosque; que moça respeitável pensaria em fazer uma coisa dessas? Agora, aquele caso com Erlevoort também, aquilo era um pouco misterioso; e agora havia aquele romance com um rapaz e um vigia noturno! Era pena, sem dúvida, pois ela era realmente uma moça tão agradável, tão bonita e graciosa; mas não tinham sido sempre uma família estranha, aqueles Vere?

Betsy estava louca de despeito com esses comentários, e mal se atrevia a aparecer em qualquer lugar, buscando refúgio apenas na casa dos Verstraeten e junto de Emilie de Woude.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
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