Universo da obra
Universo da obra
Tio Daniel e tia Elise não ficaram nem um pouco surpresos quando Eline, poucos dias depois da partida de St. Clare e Vincent, lhes disse que pretendia voltar para Haia. Sabiam como Eline era caprichosa, como ansiava ora por isto, ora por aquilo, e nunca estava satisfeita. Mas, dessa vez, não era por capricho que Eline ansiava por outro lugar para morar. Depois da soirée em que St. Clare lhe perguntara, um tanto bruscamente, como ela fora parar ali, pareceu-lhe que um véu se erguera diante de seus olhos, como se de súbito se tornasse claro para ela que não estava em seu lugar junto ao tio e à tia, e especialmente no círculo deles; e foi por respeito, por amizade, talvez por amor a St. Clare, que decidiu deixar os conhecidos de Bruxelas.
Escreveu a Henk e pediu-lhe que tomasse para ela dois quartos numa pensão para senhoras ou em um dos novos hotéis imponentes. Em resposta, recebeu cartas de Henk, de Betsy e da velha Madame van Raat, todos lhe pedindo que não fosse morar em aposentos, mas que fizesse sua casa com eles. Betsy escreveu que perdoava e esquecia tudo o que acontecera, se Eline, por sua parte, também perdoasse e esquecesse, e implorava a Eline que não fosse tão excêntrica a ponto de viver sozinha quando havia lugar para ela na casa da irmã. A velha Madame van Raat também escreveu de modo muito insistente e muito afetuoso, mas Eline recusou com repetidas expressões de gratidão; estava decidida a não deixar que ninguém a fizesse mudar de ideia.
Henk, portanto, com o rosto abatido, deu de ombros e, com Betsy, escolheu dois belos aposentos numa grande pensão no Bezuidenhout. Então Eline veio para Haia.
Ela se recordou de como, no verão anterior, exausta de suas errâncias, viera a Haia para ficar com Madame van Raat. Comparou a languidez daqueles dias com o esgotamento que agora, por assim dizer, a minava com segurança, e nem sequer sentiu forças para chorar por isso. Por causa da consideração que tinha por St. Clare, concentrara os últimos restos vacilantes de força para voltar a ser como fora antes: cativante, amável, se não brilhante; e agora que St. Clare partira, descobria como, por mais franca e natural que tivesse sido com ele, ainda assim se excitara involuntariamente, como se não quisesse lhe parecer por completo aquele ser absolutamente gasto, o cadáver vivo que era. Agora que aquela excitação já não era necessária, desabou, inteiramente quebrada. A emoção causada por sua última confissão também a enervara muito, e tornou-se para ela uma certeza que nunca mais conseguiria despertar de seu esgotamento físico e de sua inanição moral.
A tosse era muito violenta, e Reyer voltou a tratá-la, mas ela nunca lhe falou do médico de Bruxelas, que lhe receitara as gotas de morfina, pois se lembrava de que Reyer jamais lhe permitiria tomar um opiáceo. Era fevereiro, o frio era intenso, e ela não saía de casa. Quando se levantava pela manhã, sentia-se como antes se sentira na casa de Madame van Raat: cansada e lânguida demais para vestir-se. Envolvia-se no peignoir e afundava num sofá. Então vinha sobre ela uma sensação deliciosa de não precisar se incomodar com ninguém, de não haver necessidade de se vestir, e de poder permanecer como estava, de chinelos, enquanto quisesse.
Muitas vezes Madame van Raat ou Betsy, Madame Verstraeten ou Marie e Lili a encontravam assim, sem se vestir, desgrenhada, olhando fixamente pela janela. Ela não lia, não fazia nada, e hora após hora passava sem que sequer pensasse. Às vezes, de repente, atirava-se no chão, o rosto apertado contra o tapete, e então tudo ficava escuro, oh, tão escuro ao redor dela, até que uma batida na porta, a criada trazendo o jantar, a fazia erguer-se com um susto repentino. Então se sentava e comia muito pouco, e depois um sorrisinho pálido pairava em torno de seus lábios, no qual se misturavam ao mesmo tempo algo de satírico e algo de idiota.
As noites que se seguiam a esses dias eram, para Eline, verdadeiras horas de terror. Tudo dentro dela começava a viver, e ela se sentia como se estivesse eletrizada pelo horror, de modo que não conseguia dormir. Seu cérebro girava loucamente. Sons agudos e misteriosos lhe corriam pelos ouvidos. Um verdadeiro turbilhão de lembranças rodopiava sem cessar em sua mente. Visões de todas as formas e figuras erguiam-se ao redor dela. Assustava-se com tudo: com uma sombra que caía ao longo da parede, com um alfinete que cintilava no chão; então tomava as gotas, e por fim um sono pesado caía sobre ela como um manto de chumbo.
Por minutos inteiros ficava parada diante do espelho, fitando os traços desbotados. As lágrimas então lhe subiam aos olhos, cujo brilho estava apagado para sempre, e pensava nos dias antigos, ansiava de novo por aquele passado, sem se perguntar de fato o que fora aquele passado. Pois, ultimamente, já não era capaz de pensamento contínuo. Era como se diante de seus pensamentos tivesse sido colocada uma barreira que ela não conseguia atravessar. Mas era justamente aquele embotamento que agora a tomava que, em certa medida, diminuía sua melancolia, a qual, se seu cérebro estivesse em sua clareza normal, certamente teria subido a uma crise insuportável.
Em vez dessa melancolia, porém, ela atravessava horas de dúvida, nas quais não sabia o que fazer com seu eu inútil, sua existência inútil, que se arrastava entre aquelas quatro paredes, tendo apenas os acessos violentos de tosse para romper a monotonia exaustiva. Então caía em pranto amargo por seus desejos não realizados, e se contorcia no chão, estendendo os braços para uma imagem que vagamente tomava forma diante de seus olhos; pois, tanto em seus sonhos quanto em seus pensamentos de vigília, as formas de Otto e St. Clare começavam a confundir-se em sua mente. As observações e frases, as ideias de um, ela atribuía ao outro, e já não podia dizer qual dos dois amara de verdade, ou qual deles ainda amava.
Quando, nessas dúvidas, tentava continuar o fio do pensamento, aquela barreira intransponível a detinha, e sua impotência a enfurecia; com o punho cerrado batia na própria testa, como se ali dentro houvesse algo quebrado que ela quisesse reparar.
— O que será? — perguntava então a si mesma, em desespero. — Por que esqueço tantas coisas que aconteceram, e das quais só consigo lembrar que aconteceram? Todo esse embotamento aqui na minha cabeça! Antes a dor mais horrível do que esse embotamento! É como se eu estivesse enlouquecendo!
Um arrepio lhe subia pelas costas como uma serpente fria diante desse pensamento. Supondo que enlouquecesse, que fariam então com ela? Mas não queria prosseguir com hipóteses tão terríveis, embora lhe parecesse que, se apenas conseguisse pensar até o fim aquele espectro de loucura nascente, atravessaria de súbito a barreira colocada diante de seus pensamentos. Mas, uma vez atravessada essa barreira, então, então de fato estaria louca.
Nesses momentos, cobria o rosto com as mãos e apertava os dedos nos ouvidos, como se não quisesse ouvir, não quisesse ver; como se a primeira impressão que recebesse agora fosse fazê-la enlouquecer. E essa ideia a aterrorizava tanto que nada dizia a Reyer sobre aquele embotamento.
Sua ociosidade ininterrupta e apática fazia com que se entregasse por completo, como uma escrava, às estranhas fantasias e ideias que frequentemente se elevavam aos êxtases mais insensatos, dos quais despertava de repente em pavor. Reclinada no sofá, os dedos arrancando nervosamente as borlas das almofadas, brincando com os cabelos soltos que lhe pendiam desgrenhados em torno da cabeça, seus pensamentos voltavam às ilusões teatrais dos dias em que cantava duetos com Paul e pensava amar Fabrice. Então se tornava atriz; via o palco, o público, sorria e fazia reverências, flores choviam sobre ela. Inteiramente inconsciente de si mesma, levantava-se do sofá e, com a voz quebrada, cantarolava suavemente um recitativo, uma frase de alguma ária italiana; e movia-se pelo quarto como se representasse um papel. Representava, estendia os braços em movimentos de desespero ou erguia-os com anseio em direção ao amante fugitivo; caía de joelhos e imaginava que era arrastada para a frente, embora rezasse e implorasse misericórdia.
Diversos papéis se erguiam confusamente em seu cérebro: Marguerite, Juliette, Lucia, Isabelle, Mireille. De todos esses, no espaço de poucos minutos, atravessava as cenas mais trágicas; e de repente, rudemente desperta daquela loucura, via-se de novo sozinha no quarto, fazendo os movimentos mais estranhos. Então recuava aterrorizada de si mesma e pensava, trêmula:
— Céus! Será que isso está vindo sobre mim?
Depois desses momentos, permanecia deitada, olhando ao redor com olhos assustados, como se esperasse que alguma catástrofe esmagadora acontecesse, como se as feições das estatuetas, as figuras nos quadros e nos pratos ao redor dela fossem de repente ganhar vida e rir dela, uma risada dura, escarninha, cruel como a dos demônios.
Depois de um dia assim, fazia o possível, em seu terror silencioso, para voltar a ser ela mesma. De manhã, ao despertar do sono artificial e pesado, levantava-se depressa, vestia-se com muito cuidado e saía para fazer compras; depois ia tomar café com Henk e Betsy, com os Verstraeten ou com Madame van Raat. Queixava-se de sua solidão e, como nesses momentos se mostrava bastante amável, convidavam-na aqui e ali, por piedade, para ficar para o jantar. Então a noite passava de modo suficientemente alegre, e ela voltava para casa contente por mais um dia ter acabado, mas quase desfalecendo de cansaço por causa das emoções incomuns, por sua alegria artificialmente excitada, antinatural e cheia de risadas estridentes, misturadas a tosses. E por um dia assim ela tinha de pagar caro à noite; as gotas não lhe traziam alívio, permanecia a noite inteira desesperadamente desperta, lutando com horríveis pesadelos, assombrada por espectros de seu cérebro doente.
Os conhecidos falavam muito de Eline, e Betsy comentava frequentemente, com rosto sério, que temia que ela não estivesse nada bem. Eline estava tão estranha agora, e Reyer também não estava satisfeito; e os conhecidos tinham pena dela. Pobre Eline! Antes era tão bonita, tão elegante, tão alegre; agora era como uma sombra do que fora. Sim, de fato, estava muito doente. Isso se via facilmente.
Chovia — uma chuva de março fria, penetrante — e Betsy estava em casa, sentada no pequeno boudoir violeta que se abria para a estufa. Estava um tanto escuro, mas Betsy puxara a poltrona para a luz e lia Les Pêcheurs d’Islande, de Pierre Loti. O livro, porém, a entediava; como podiam pescadores ser tão sentimentais? De vez em quando, seu olhar deslizava pelas palmeiras da estufa e pelo jardim despido, onde os galhos nus gotejavam de chuva. Ben estava sentado no chão, junto à poltrona. De repente soltou um suspiro.
— Que foi, Ben? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Betsy.
— Não, mamãe — respondeu ele, olhando para cima, surpreso, com sua vozinha penosa.
— Então por que suspira, criança?
— Não sei, mamãe.
Ela o fitou por um momento, perscrutadora, depois pousou o livro.
— Venha cá, Ben.
— Aonde, mamãe querida?
— Aqui, no meu colo.
Ele subiu devagar para o colo dela e sorriu. Ultimamente, a voz brusca de Betsy muitas vezes tinha algo de suave quando ela se dirigia ao único filho.
— Você gosta da sua mamãe? — perguntou ela, acariciando-o.
— Gosto.
— Então me dê um beijo.
Ele atirou os bracinhos em volta do pescoço dela.
— Vamos, me dê um beijo!
Ainda com o mesmo sorrisinho apático, ele a beijou.
— Mamãe nunca é má com você, é? — perguntou Betsy.
— Não.
— Você vai ficar assim com mamãe?
— Vou.
Ele se aconchegou, aquele menino grande de sete anos, contra o peito dela.
— Diga, Ben, não há nada que você queira? Não gostaria de ganhar alguma coisa bonita da mamãe?
— Não.
— Por exemplo, um cavalinho com carruagem — um cavalo de verdade, um pônei? Então Herman poderia ensinar você a dirigir.
— Ah, não, obrigado — disse ele, num tom como se ela o aborrecesse um pouco.
Ela quase se impacientou, e esteve a ponto de repreendê-lo, de dizer-lhe que era um menino miserável, mas a impaciência durou apenas um segundo. Apertou-o mais contra si e o beijou.
— Mas, se houver alguma coisa que você queira, precisa me dizer — falou ela, quase chorando. — Vai me dizer, Ben? Diga, criança, vai mesmo dizer à mamãe?
— Vou — respondeu ele, num tom de grande satisfação.
E ela fechou os olhos, estremecendo ao pensar que seu filho era um idiota. Era como uma maldição que caíra sobre ela. Mas por quê? Como ela merecera isso? O que fizera?
Não leu mais, e manteve-o no colo, onde ele ficou quieto, com a cabeça apoiada em seu ombro, quando ela ouviu alguém se aproximar pelo salon. Era Eline.
— Bom dia, Eline.
— Bom dia, Betsy. Bom dia, Ben.
— Imagine você saindo com esta chuva!
— Vim de cabriolé. Não conseguia mais ficar em casa. O tempo me deixava tão melancólica, e eu pensei que ia enlouquecer de ennui. Oh, meu Deus!
Ela se abandonou e, com um grito de desespero, deixou-se cair numa cadeira, retirando o pequeno véu.
— Imagine ficar sempre encerrada entre as quatro paredes do quarto, sem ver ninguém, sem nada que desperte qualquer interesse. Isso não basta para enlouquecer uma pessoa? De todo modo, eu não aguento mais; com certeza vou ficar doida.
— Eline, prends garde, l’enfant t’écoute.
— Ele... ele não entende isso, e provavelmente nunca entenderá — continuou ela, com voz rouca. — Ben, venha cá; venha cá um instante. Sabe o que você deve fazer quando crescer? Nunca pensar em nada, homenzinho, faça o que fizer. Não pense de jeito nenhum. Coma, beba, divirta-se enquanto puder, e depois... depois... você deve se casar! Mas não deve pensar, está ouvindo?
— Eline, vraiment tu es folle — gritou Betsy depressa, temendo mais pelo filho do que pela irmã.
Eline riu alto, e seu riso e as palavras estridentes de sua voz excitada assustaram Ben. Com os olhos grandes e a boca aberta, ele a fitava. Mas ela continuou a rir.
— Ah, ele não entende nada disso, o homenzinho. Hein, você não sabe do que a tia está delirando, sabe? Mas é delicioso delirar assim. Eu queria poder fazer alguma coisa muito desesperada, alguma loucura terrível, algo absolutamente ridículo, mas não consigo pensar em nada. Minha mente está tão embotada agora que não consigo pensar. Se Elise estivesse aqui, ela saberia alguma coisa. Sabe o que fizemos um dia, Elise e eu, na primeira vez em que fiquei em Bruxelas? Nunca tive coragem de contar a ninguém, mas agora ouso dizer qualquer coisa. Nada mais me incomoda. Imagine só: uma noite saímos juntas para passear, sozinhas, entende, só por uma pequena aventura. Não diga uma palavra disso a ninguém, ouviu? Então encontramos dois cavalheiros, dois cavalheiros muito simpáticos, que não conhecíamos de modo algum. Fomos passear com eles — num landau aberto, e depois... depois fomos com eles a um café.
Sua história era interrompida continuamente por pequenas risadas nervosas e estridentes, e, com as últimas palavras, ela irrompeu num acesso incontrolável de riso histérico. Nem uma palavra de toda a história era verdadeira, mas naquele momento ela mesma acreditava nela.
— Imagine, num café... num café! E depois...
— Eline, por favor, pare com essa conversa de louca — disse Betsy, em voz baixa.
— Ah! Imagino que você ache isso terrivelmente chocante, hein? Mas fique tranquila: não foi tão ruim assim.
Ela ainda ria, meio chorando, e afinal rompeu em soluços histéricos.
— Oh, aquele miserável Reyer! Tenho sempre uma dor terrível aqui na cabeça, e ele não se importa. Está sempre me aborrecendo com minha tosse. Eu sei que tusso; isso não é novidade. E, oh, meu Deus, é tão horrivelmente monótono naquela pensão.
— Por que então você não vem ficar conosco?
— Ah, isso jamais daria certo. Em três dias estaríamos nos agarrando pelos cabelos — riu Eline, ruidosamente. — Agora que nos vemos raramente, é muito melhor.
— De verdade, eu faria o possível para que você se sentisse confortável — implorou Betsy, terrivelmente alarmada com o estado de excitação de Eline. — Teríamos o maior cuidado com você, e eu me adaptaria a você em tudo.
— Mas eu não me adaptaria a você. Não, muito obrigada. Dou valor à minha liberdade acima de tudo. Como você consegue ser tão provocadora? Começaríamos a discutir imediatamente. Ora, já estamos discutindo agora.
— Por que diz isso? Eu não estou discutindo. Não haveria nada que eu quisesse mais do que você vir para cá esta noite, se quiser.
— Betsy, pare agora mesmo com isso, ou você nunca mais me verá. Não quero morar com você outra vez. Não quero, pronto! Já tive o bastante.
E cantarolou uma melodia.
— Então você fica para jantar esta tarde? — perguntou Betsy.
— Claro! Mas estou cansada. Você não vai me achar muito animada. O que vão fazer esta noite?
— Vamos aos Oudendyken. Você não foi convidada?
— Não. Nunca os visito.
— Por que não?
— Por mim, os Oudendyken podem se fritar. Oh, minha cabeça... posso me deitar num sofá?
— Naturalmente.
— Então vou para o quarto de Henk. Lá há um sofá tão confortável.
— Não há fogo lá.
— Ah, isso não tem importância.
Subiu para o gabinete de Henk. Deitou-se no sofá, e pouco depois, exausta por sua excitação, o sono a venceu. Foi arrancada do sono por um passo pesado no patamar. Antes que estivesse bem desperta, Henk entrou.
— Ora, maninha, o que você está fazendo aqui no escuro? E como está frio aqui!
— Frio! — repetiu ela, com um olhar de sonâmbula. — Sim, agora também sinto. Estou tremendo... mas dormi.
— Venha para baixo. O jantar logo estará pronto. Betsy disse que você ficaria; não vai ficar?
— Vou. Oh, Henk, que terrível eu ter dormido aqui!
— Terrível! Por quê?
— Agora não vou dormir esta noite — gritou ela em desespero, e atirou a cabeça no ombro dele, soluçando.
— Por que você não vem antes ficar conosco outra vez? — perguntou ele, suavemente. — Ficaria tão confortável conosco.
— Não, isso não.
— Por que não?
— Não daria certo. Tenho certeza. É muito bondoso de sua parte, Henk, pedir isso, mas não daria certo. Às vezes sinto como se pudesse bater em Betsy, e sinto isso justo no momento em que ela fala comigo com delicadeza, como fez esta tarde, por exemplo. Tive de me conter com todas as forças para não bater nela.
Ele suspirou, com o rosto desesperado. Para ele, ela continuava sendo um enigma.
— Então vamos descer — disse ele.
E, enquanto desciam, ela se apoiou pesadamente no braço dele, tremendo com o frio que só agora começava a sentir.
O inverno passou, e Eline permaneceu no mesmo estado.
— Não lhe faria bem ir para o campo no verão? — perguntou Reyer. — Não quero dizer que viajasse de um lugar para outro; isso a cansaria demais. Mas poderia fazer uma pequena estada em algum lugar tranquilo e fresco, em meio a arredores agradáveis.
Seus pensamentos voltaram a Horze. Oh, se tivesse sido esposa de Otto, então o frescor grato, a sombra, o afeto teriam sido dela.
— Não conheço tal lugar — respondeu, lânguida.
— Talvez eu conheça alguma coisa para a senhorita. Conheço pessoas muito gentis em Gelderland. Têm uma pequena propriedade campestre cercada por magníficas florestas de pinheiros.
— Pelo amor de Deus — gritou Eline, apaixonadamente —, nada de florestas de pinheiros!
— Mas a vida no campo a fortaleceria.
— É impossível me fortalecer. Por favor, senhor Reyer, deixe-me ficar onde estou.
— A senhorita dorme melhor agora?
— Oh, sim, razoavelmente.
Não era verdade. Ela nunca dormia à noite, e de dia apenas cochilava um pouco, entorpecia-se um pouco. As gotas já não faziam efeito, e apenas a levavam a um êxtase contínuo e rodopiante, a um estado cheio de apatia e terror, no qual ora delirava como atriz, ora se arrastava gemendo pelo chão. Reyer a observou penetrantemente.
— Senhorita Vere, por favor, diga-me a verdade. Tem o hábito de tomar outros remédios além daqueles que prescrevo?
— O que o faz pensar isso?
— Responda-me a verdade, senhorita Vere.
— Claro que não. Como pode pensar uma coisa dessas? Eu não teria coragem. Não, não, pode ficar perfeitamente tranquilo quanto a isso.
Reyer saiu e, em sua carruagem, esqueceu por um momento o caderno de notas, mergulhado em pensamentos sobre a senhorita Vere. Depois soltou um suspiro sem esperança. Mal ele deixara o quarto, Eline se levantou. Vestia apenas um peignoir cinza, frouxo, que pendia em torno de sua figura emagrecida. Diante do espelho, mergulhou as mãos nos cabelos soltos. Eles tinham ficado muito ralos, e ela riu disso enquanto os fios soltos caíam entre seus dedos. Então se atirou ao chão.
— Não quero — balbuciou. — Não quero mais vê-lo, esse Reyer. Ele me faz pior do que sou. Não posso mais suportá-lo. Vou escrever para que não volte.
Mas não sentiu energia suficiente para isso, e permaneceu deitada no chão, enquanto seus dedos traçavam as figuras do tapete. Começou a cantarolar baixinho. Pela porta, o sol lançava sobre o assoalho um quadrado dourado, e milhares de pequenas partículas de poeira dançavam naquela luz de ouro. O brilho irritou Eline, e ela recuou.
— Oh, esse sol! — sussurrou, com olhos estranhos, grandes e opacos. — Odeio esse sol. Quero chuva e vento — chuva fria e vento frio — a chuva que penetra em meu peito, através do meu vestido preto de tule.
De súbito se ergueu e apertou as mãos contra o peito, como se quisesse impedir que o vento lhe abrisse o manto sobre os ombros.
— Jeanne! Jeanne! — começou, em seu delírio. — Por favor, por favor, receba-me. Fugi de Betsy, porque ela é insuportável. Esta noite, no jantar na casa dos Hovel, ela disse todo tipo de coisa desagradável sobre Vincent, e você sabe que amo Vincent; por causa dele rompi meu noivado, meu noivado com Otto. Oh, como ele me aborrecia com sua calma eterna, sempre calmo... sempre calmo! Eu... eu vou enlouquecer sob toda essa calma; mas, de verdade, Henk, vou procurar Lawrence e pedir-lhe perdão. Mas não me bata, Henk! Oh, Lawrence, Lawrence, eu te amo tanto! Não se zangue comigo, Lawrence; veja se eu não te amo! Aqui está o seu retrato, que sempre trago no peito.
Ela se ajoelhara junto ao sofá e erguera o rosto como se visse alguém. De repente, sobressaltou-se de terror e, apressada, com um arrepio, levantou-se.
— Meu Deus! Lá vem outra vez — pensou, tornando a ter consciência de si mesma.
Parecia haver uma luta em seu cérebro, uma luta entre seus sentidos impotentes e sua loucura cada vez maior. Com um movimento incerto, pegou um livro que estava sobre a mesa e o abriu, para obrigar-se a ser sensata e a ler. Era a partitura de Le Tribut de Zamora, que certa vez adquirira durante sua paixão por Fabrice. Não ousava erguer os olhos, temendo ver sua insanidade tomar alguma forma horrenda diante dela. Não ousava mover-se, por terror de si mesma, e teria salvado de bom grado os sentidos em fuga se pudesse, por assim dizer, desaparecer para fora de si própria. E o raio de sol mais uma vez encheu o quarto, inflamando o cetim das cortinas e refletindo-se na porcelana dos vasos japoneses e no latão polido e cintilante dos ornamentos. Baixinho, ela começou a cantar alguma coisa para si, de modo inteiramente inconsciente, com a voz rouca e áspera de tanto tossir. Então bateram à porta.
— Quem é? — perguntou, alarmada.
— Sou eu, senhorita — gritou uma voz. — Trouxe o almoço.
— Não, obrigada, Sophie, não tenho apetite.
— A senhorita não quer tomar nada?
— Não, obrigada.
— Então a senhorita toca a campainha quando quiser alguma coisa, não é?
— Sim, sim.
Ouviu a criada descer a escada, ouviu o tilintar dos pratos e copos na bandeja. Eline lançou outro olhar ao papel de Xaïma, ergueu a cabeça com orgulho e fez um gesto heroico com a mão, enquanto começava a cantar com voz fraca, interrompida pela tosse.
Às cinco e meia, Sophie trouxe o jantar e pôs a pequena mesa redonda com muito cuidado. Mas Eline mal tocou na comida, e ficou contente quando Sophie a levou de volta. Pegou alguns cartões que Sophie trouxera consigo, cartões de Madame Verstraeten e de Lili.
— A velha Madame van Raat também esteve aqui, mas foi embora.
Eline ficou sozinha. A noite caía, o sol afundava lentamente a oeste, mas a claridade demorava a desaparecer. Do armário, Eline tirou um pequeno frasco e contou cuidadosamente algumas gotas, que deixou cair num copo d’água. Bebeu devagar. Ah, se ao menos lhe trouxessem algum alívio! Tantas vezes ultimamente tinham sido inúteis.
Estava cansada depois de seu longo dia de ociosidade e delírios meio insanos, e queria recolher-se cedo para descansar. Não, não acenderia o gás; ficaria mais um pouco no crepúsculo, e então... então tentaria dormir. Mas tudo começou a ferver, a borbulhar, a latejar em sua cabeça. Ofegou, e, sem se importar com o ar da noite que começava a soprar para dentro do quarto, deixou o peignoir cinza deslizar dos ombros. Seus braços eram finos, seu peito era cavado, e ela se olhou com um sorriso triste enquanto os dedos passavam pelos cabelos ralos. E porque escurecia, porque apesar das gotas não dormiria, porque estava muito pálida e branca entre as rendas e os bordados do vestido, porque se aterrorizava com a escuridão crescente, a loucura voltou mais uma vez:
“Ah, perfido! Spergiuro!”
começou a cantarolar, como em fúria, erguendo o braço. Era a cena de Beethoven na qual Vincent costumava sentir o aroma de verbena. Em seu canto, repreendia um amante infiel por sua promessa quebrada, e seu rosto exprimia a mais trágica dor, um amor ferido que se vingaria. Mandava o amante partir, mas os deuses, do alto, o esmagariam sob o castigo deles. De súbito arrancou um lençol da cama e envolveu-se no longo tecido branco, que, na fraca luz da noite, caía em torno dela como um manto de mármore.
“Oh no! Fermate, vindici Dei!”
cantou, roucamente, e sua voz se partiu em tosses; dessa vez com os olhos derretidos, pois em outro estado de espírito invocava agora a misericórdia dos deuses para o infiel; por mais que ele tivesse mudado, ela permanecia a mesma, não queria vingança, vivera e agora morreria por ele. E murmurou lentamente o Adagio, muito lentamente, enquanto as pregas brancas de sua draperia, com os movimentos suplicantes que fazia com os braços, subiam e desciam sem cessar. Assim continuou cantando, cantando, até que um lamento lhe subiu à garganta, e nesse lamento, de repente, começou a representar, como pela nobre arte de uma prima donna. Parecia-lhe que o amante já fugira, e que ela se voltava para o coro que a cercava com piedade:
“Se in tanto affa—a—a—anno!”
murmurou, quase chorando, em cadências aflitas, e sua agonia aumentou, o lamento se elevou, e ela gritou cada vez mais alto:
“Non son degna di pieta!”
Sobressaltou-se violentamente, aterrorizada pelas notas penetrantes e agudas de sua voz quebrada, e arrancou o lençol dos ombros, sentando-se a tremer. Teriam ouvido? perguntou-se. Olhou apenas de relance pela porta-janela aberta para a rua. Não; havia apenas algumas pessoas caminhando na escuridão crescente. Mas na casa? Bem, de todo modo, agora não podia evitar. Seria sensata outra vez. Soluçou, mas riu também. Riu de si mesma. Se se excitasse assim, nunca dormiria. De repente se atirou sobre a cama em desordem e fechou os olhos, mas o sono não veio.
— Oh, céus! Oh, meu Deus! — gemeu. — Oh, meu Deus, eu vos peço, deixai-me dormir.
E chorou amargamente, sem cessar. Então um pensamento lhe atravessou o cérebro. E se bebesse algumas gotas a mais do que o médico de Bruxelas prescrevera? Isso lhe faria mal? Achava que não, porque a dose que costumava tomar agora não lhe trazia alívio nenhum. Quantas gotas, perguntou-se, poderia acrescentar sem risco? Tantas quantas já tomara? Não, seria demais, é claro. Quem sabe o que poderia acontecer? Mas, por exemplo, metade a mais! Portanto, três gotas a mais? Não, não, não ousava. O médico a advertira com tanta insistência para ser cuidadosa. Ainda assim, aquelas poucas gotas eram muito tentadoras, e ela se levantou. Pegou o pequeno frasco para contar as três gotas. Uma... duas... três... quatro... cinco; as duas últimas caíram no copo antes que tivesse tempo de afastar o frasco. Cinco: seria demais? Hesitou um instante. Com aquelas cinco gotas teria certeza de dormir. Ainda hesitou, mas de repente tomou uma decisão, atraída pela perspectiva do repouso. E bebeu.
Deitou-se no chão, junto à porta-janela aberta. O suor frio lhe brotou por todo o corpo, e sentiu uma torpeza apoderar-se dela; mas era uma torpeza estranha, muito diferente da que costumava sentir.
— Oh, grande Deus! — pensou. — Será... será que tomei demais?
Não, não, isso seria terrível demais. A morte era tão negra, tão vazia, tão misteriosa; mas, ainda assim, se fosse isso? E de súbito seus temores se dissolveram numa calma sem medida. Bem, se fosse isso, já não se importaria. E começou a rir com risadinhas nervosas, inaudíveis, enquanto a torpeza descia sobre ela com um peso esmagador, como o punho pesado de um gigante. Com a mão, quis defender-se daqueles punhos gigantescos, e seus dedos se enredaram num cordão em torno do pescoço. Ah, aquilo era... aquilo era o retrato dele, o retrato de Otto. Teria, de fato, tomado demais? Quando viesse a manhã, será que ela...? Estremeceu. Na manhã seguinte bateriam em vão à sua porta, e por fim a encontrariam ali deitada? Um pensamento terrível. Estava encharcada de suor, e seus dedos tornaram a buscar o medalhão. Não, aquele retrato não encontrariam em seu peito. Ergueu-se e arrancou o retrato do medalhão. Já não conseguia distingui-lo, pois escurecera em seu quarto, e em seus olhos a luz já falhava; apenas o clarão amarelo do lampião da rua caía com reflexo opaco dentro do aposento. Mas via a imagem com os olhos da mente; com os dedos tocava o pequeno pedaço de cartão, e o beijou, beijou-o repetidas vezes.
— Oh, Otto — balbuciou, com voz pesada e trabalhosa —, era você, você somente, meu Otto, não Vincent, não St. Clare, ninguém além de você. Você... oh, meu Otto... oh, Otto... oh, grande Deus!
E lutou desesperadamente entre a agonia da morte e uma resignação calma. Então, depois de cobrir o retrato de beijos apaixonados, colocou-o na boca, em desespero, sem lhe restar força para rasgá-lo ou destruí-lo de outro modo que não fosse engolindo-o. Assim, enquanto um sopro trêmulo lhe sacudia todo o corpo, mastigou, mastigou a prova descartada do retrato — do retrato de Otto.
Ainda chorava, não com soluços intermitentes, já não com amargura alguma, mas como uma criança, com pequenos sons suaves e infantis, gemendo de leve, o peito erguendo-se em movimentos fracos e ondulantes. Era um choro no qual ressoava algo como uma risadinha, uma risadinha de insanidade. Depois aquietou-se e aninhou a cabeça nos braços, ainda no chão, junto à janela aberta. Não se moveu mais, desesperada de terror diante do que a cercava, desesperada de terror diante do que viria. Parecia-lhe que por todo o seu corpo espumava e fervia um mar escuro e tempestuoso, que engolia todo pensamento em seu cérebro e no qual ela afundava gradualmente. E, com toda a última energia que ainda lhe restava, tentou lutar contra esse mar, mas a pressão era pesada demais, e ela caiu, caiu de volta, completamente exausta, completamente enervada, irremediavelmente entorpecida por um silvo tempestuoso nos ouvidos e no cérebro.
— Grande Deus! Grande Deus! — gemeu, com uma voz que se tornava mais fraca e mais rouca a cada momento, uma voz cheia de um desespero selvagem que já não tinha força de expressão. Então, gota a gota, lenta e suavemente, sua consciência escoou, e ela dormiu — o sono da Eternidade.
O lampião da rua se apagou, e o grande quarto ficou escuro como um túmulo. Um mausoléu de negrura impenetrável, no meio do qual, branco e indistinto, jazia um cadáver. Depois, o frio da noite entrou no aposento, e lentamente a névoa cinza-pérola do amanhecer se ergueu para dissipar a pesada escuridão.
Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.
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