Universo da obra
Universo da obra
_A quadrilha de salteadores detém-se; o capitão chama lá de fora
O anão que guarda o castelo; ele manda abrir a porta,
Baixar a ponte levadiça e entrar os cavaleiros.
Quem, do bosque, tivesse podido ver a fortaleza
Quando os salteadores e a presa nela se precipitavam
Decerto teria pensado que um dos deuses infernais
Lhe abria diante dos olhos o eterno lugar de tormentos:
À luz das tochas, não se via senão tudo quanto fazia estremecer;
As crinas meio iluminadas dos cavalos brancos de espuma,
Os elmos reluzentes junto das espadas faiscantes,
E, no meio da férrea tropa de salteadores,
A frágil donzela arrancada aos seus.
Esse quadro sombrio, que sobre os muros musgosos
E cinzentos se destacava a uma luz vacilante,
E, com ele, o tinir das correntes, o ranger
Das armas, o relinchar dos corcéis e o áspero
Rumor dos gritos e das maldições, mas sobretudo
Um grito de mulher, que soava como, em lúgubre tempestade,
O assobio cortante do vento. Tudo isso fazia
Que o espírito, pelos olhos e pelos ouvidos ao mesmo tempo, se tomasse de medo._
JOH. ALF. DE LAET.
No ano de 1280, um incêndio terrível havia destruído por completo a antiga Halle junto ao Mercado. A torre de madeira que a coroava perecera nas chamas, com todos os forais da cidade de Bruges[68]. Algumas paredes sólidas, entretanto, tinham ficado de pé, intactas, na parte inferior do edifício; e, com elas, alguns aposentos que às vezes eram usados como corpos da guarda.
Os soldados franceses haviam escolhido aquelas salas abandonadas da antiga Halle como lugares de reunião, e ali passavam as horas vazias entre bebedeiras e jogos de dados.
Algum tempo depois da partida de Adolf van Nieuwland, achavam-se oito soldados franceses em uma das partes mais profundas dessas ruínas. Uma grande lâmpada de barro cozido lançava seus raios amarelos sobre os rostos tostados dos guerreiros, e um fumo sinuoso subia da chama até a abóbada: nas paredes, sob o brilho forte da lâmpada, ainda se podiam notar alguns ornamentos danificados de construção românica; uma imagem da Virgem, sem mãos, e cujo rosto fora deformado pelo tempo, estava em um nicho ao fundo do aposento. Quatro soldados sentavam-se junto de uma pesada mesa de madeira e jogavam dados com ardor; alguns outros estavam de pé junto dos companheiros e acompanhavam os lances com curiosidade. Via-se que esses homens não tinham vindo ali apenas para jogar, pois o elmo brilhava em suas cabeças, e largas espadas pendiam de seus cintos, como se estivessem preparados para a guerra.
Um dos jogadores, depois de alguns instantes, levantou-se da mesa e lançou os dados para longe, despeitado.
— Desejo todos vocês ao diabo! — gritou ele. — Creio que aquele velho bretão não joga limpo, pois seria espantoso que eu não vencesse sequer uma vez em cinquenta. Agora o jogo me aborrece; estou fora.
— Ele não ousa mais jogar! — gritou o vencedor, com zombaria triunfante. — Que diabo, Jehan, sua bolsa ainda não está vazia, está? E foge assim do inimigo?
— Arrisque mais uma vez — disse outro. — Talvez a sorte mude desta vez.
O soldado a quem chamavam Jehan ficou por longo tempo em dúvida se deveria provar a sorte mais uma vez; por fim, enfiou a mão entre a cota de armas e tirou dali uma joia cintilante. Era um colar das mais finas pérolas, adornado com fechos de ouro.
— Aqui está — disse ele. — Aposto estas pérolas contra aquilo que você ganhou de mim: o mais belo colar que já brilhou sobre o peito de uma mulher flamenga! Se eu ainda perder desta vez, não me restará um só fio da presa.
O bretão tomou a joia na mão e examinou-a cuidadosamente.
— Bem, que seja — gritou ele. — Em quantos lances?
— Em dois — respondeu Jehan. — Jogue primeiro.
Um monte de moedas de ouro jazia sobre a mesa ao lado da joia preciosa. Todos os olhos se fixaram, com ardor ansioso, nos dados que rolavam, enquanto os corações dos jogadores batiam de temor. No primeiro lance, a sorte pareceu declarar-se por Jehan, pois ele tirou dez, e seu companheiro, cinco. Enquanto sentia a maior esperança de recuperar seu dinheiro, viu que o bretão levava os dados secretamente à boca e os molhava de um lado. Ira íntima e desejo de vingança tingiram-lhe as faces de vermelho intenso, quando percebeu que truques falsos eram a causa de sua perda. Fingiu, contudo, não ter notado nada, e disse:
— Jogue, então; por que hesita? O medo tomou conta de você?
— Não, não — gritou o bretão, enquanto deixava os dados rolarem habilmente de suas mãos. — A sorte pode mudar. Veja bem: doze!
Então Jehan lançou os dados à mesa com descuido. Como desta vez, infelizmente, obtivera apenas seis, o bretão apanhou a joia da mesa com exclamações alegres e escondeu-a sob a armadura. Jehan felicitou-o com palavras fingidas pela vitória e pareceu não se comover com a perda; uma ira encoberta ardia em seu peito, e ele mal conseguia conter-se. Enquanto o alegre vencedor falava com outro companheiro, Jehan cochichou algo ao ouvido dos que estavam perto dele, e pareceu, pelos olhares, recomendar-lhes atenção ao bretão. Depois gritou:
— Já que ganhou tudo de mim, camarada, você não me negará arriscar a sorte mais uma vez. Aposto o dinheiro que devemos ganhar esta noite contra soma igual. Aceita?
— Sim, por certo; nunca recuo!
Jehan tomou os dados e tirou dezoito em duas jogadas. Enquanto o outro puxava para si os dados da mesa e, falando, parecia mantê-los nas mãos sem intenção alguma, os soldados que estavam junto de Jehan puseram nele a maior atenção. Viram claramente que o bretão levava mais uma vez os dados aos lábios e, por esse truque, tirava uma vez dez e outra doze.
— Você perdeu, meu amigo Jehan! — gritou ele.
Um terrível soco foi a resposta que recebeu a esse grito; o sangue saltou-lhe da boca, e por um instante ficou atordoado, pois o golpe lhe atingira violentamente a cabeça.
— Você é um patife, um ladrão! — berrou Jehan. — Não vi, por acaso, que molhava os dados e assim me ganhou falsamente o dinheiro? Você vai me devolver tudo, ou...
O bretão não lhe deu tempo de prosseguir, mas arrancou a espada larga do cinto e avançou, entre blasfêmias horrendas. Jehan também se preparara para lutar e jurava que se vingaria com sangue; mas a coisa não chegou tão longe. As duas lâminas já reluziam à luz da lâmpada, e tudo parecia anunciar um derramamento de sangue inevitável, quando outro homem de guerra entrou no aposento.
Os olhares altivos e dominadores que lançou aos contendores fizeram-no reconhecer, ao primeiro lance de vista, como superior. Assim que os soldados o perceberam, as maldições e injúrias morreram em suas bocas, e as espadas voltaram depressa aos cintos. Jehan e o bretão encararam-se como se se convocassem para outra ocasião, e aproximaram-se, com os demais, do superior que lhes perguntou:
— Estão prontos, homens?
— Estamos prontos, senhor De Cressines — foi a resposta.
— O maior silêncio! — retomou o superior. — Lembrem-se de que a casa para onde este burguês nos conduz está sob a proteção de nosso comandante De Chatillon. O primeiro que tocar em qualquer coisa haverá de arrepender-se amargamente. Sigam-me!
O burguês que devia servir de guia a esses soldados franceses não era outro senão mestre Brakels, o leliar, que fora banido da corporação dos tecelões. Quando os soldados chegaram à rua com seu superior, Brakels foi à frente em silêncio e levou-os pela escuridão até a Spaansestraat, à porta da residência do senhor Van Nieuwland. Ali os soldados se alinharam junto ao muro e não deixaram escapar um suspiro do peito, para que ninguém os percebesse.
Mestre Brakels fez cair de leve a aldrava do portão. Depois de alguns instantes, uma criada veio ao corredor e perguntou, desconfiada, quem batia tão tarde.
— Abra depressa — respondeu Brakels. — Venho da parte de mestre Deconinck, com uma notícia urgente para a Senhora Machteld de Bethune. Não espere um instante, pois a donzela está em grande perigo.
A criada, longe de suspeitar da traição, puxou os ferrolhos: abriu a porta com mais pressa do que teria usado em outro momento. Mas quão grande foi seu espanto quando oito soldados franceses, atrás do flamengo, entraram aos empurrões no corredor. Um grito alto ecoou até as salas mais profundas da casa, e a criada quis salvar-se pela fuga: foi impedida pelo senhor De Cressines e teve de ficar parada em silêncio.
— Onde está sua senhora, Machteld de Bethune? — perguntou De Cressines com fria calma.
— Faz já duas horas que minha senhora se recolheu, e agora dorme — balbuciou a criada apavorada.
— Vá até ela — retomou o superior — e diga-lhe que se vista; pois neste instante deve deixar esta casa e vir conosco. Obedeça; seria penoso para mim ter de usar violência.
A criada subiu angustiada a escada e despertou a irmã de Adolf.
— Ó senhora! — exclamou ela. — Erga-se depressa de seu leito; sua casa está cheia de soldados.
— Céus! — suspirou Maria. — Que está dizendo? Soldados em nossa casa! O que exigem?
— Querem levar daqui a donzela de Bethune neste instante. Eu lhe imploro, minha senhora, apresse-se, pois ela ainda dorme. Tremo só de pensar que os soldados entrem em seu quarto.
Com pressa febril, e sem responder, a espantada Maria passou um manto largo em torno do corpo e desceu com a criada até junto do senhor De Cressines, que ainda estava no corredor. Dois criados da casa tinham acorrido ao grito da moça e estavam agora, desolados, entre os soldados franceses; haviam sido agarrados e mantidos presos.
— Senhor — perguntou Maria ao superior —, queira dizer-me por que vem assim, de noite, à minha casa?
— Com prazer, minha nobre senhora — foi a resposta. — É uma ordem do governador. A donzela Machteld de Bethune, que mora aqui, deve seguir-nos neste instante. Não tema por ela maus-tratos: dou-lhe minha palavra de que não consentirei que uma só palavra a ultraje.
— Ó senhor — gritou Maria —, se soubesse que destino prepara para essa infeliz donzela, iria embora daqui; pois ouço dizer que é um cavaleiro honrado.
— A senhora disse bem, minha senhora; tais empresas não me agradam de modo algum. Mas cumprirei pontualmente a ordem de meu comandante. Queira, portanto, entregar a donzela Machteld em nossas mãos. Não podemos esperar mais; poupe-me palavras desagradáveis.
Maria percebeu bem que nada poderia afastar aquele golpe; por isso ocultou dos guerreiros estrangeiros sua dor íntima e não chorou. Com ira visível, voltou os olhos para o flamengo que estava em um canto do corredor, e pareceu censurá-lo por sua traição com o olhar. Mestre Brakels não teve coragem de encarar a donzela irritada. Tremia, pois agora previa a vingança que o perseguiria, e deu alguns passos para trás, como se procurasse sair pela porta.
— Vigiem esse flamengo! — gritou De Cressines a seus homens.
— Impeçam-no de partir; pois quem, como ele, trai os amigos, é capaz de tudo.
Mestre Brakels foi agarrado pelo braço e levado à força para o meio dos soldados. Traidor era o nome que lhe davam, e o desprezo daqueles a quem servira foi sua recompensa.
Maria deixou o corredor e entrou, com o coração angustiado, no quarto da jovem Machteld; ficou como atordoada diante do leito e contemplou a moça infeliz, que parecia dormir tão mansamente. Embora agora estivesse tão imóvel, via-se, contudo, que se agitara durante o sono, pois o laço de seus longos cabelos se soltara, e agora os cachos louros repousavam, com ondulação suave e acariciante, sobre a coberta. Uma pérola cintilante brilhava sob cada pálpebra, e a respiração da donzela era difícil e ardente. De repente, ela tirou a mão de sob a coberta e moveu-a com gestos aflitos diante do leito, como se quisesse afastar algo que a entristecia profundamente. Suspiros incompreensíveis misturavam-se em sua boca ao nome de Adolf, e ela o repetiu muitas vezes, como alguém que implora socorro.
Lágrimas saltaram dos olhos de Maria, pois aquela cena lhe foi fundo ao coração: sua compaixão aumentou ao pensar nas dores que ainda viriam ferir a jovem nobre. Por mais penoso que fosse levar tal notícia funesta à amiga, não podia hesitar; o tempo era precioso. A cada instante os soldados poderiam entrar no quarto, e que vergonha, que sofrimento não seria isso para a nobre Machteld! Movida por esse pensamento, Maria tomou a mão da amiga e despertou-a com estas palavras:
— Minha querida donzela, acorde; tenho algo urgente a lhe dizer.
O toque de Maria assustara violentamente a jovem; ela abriu muito os olhos e tremia enquanto olhava a amiga com incerteza.
— É mesmo você, Maria, que me fala assim? — perguntou ela, passando as mãos sobre os cílios úmidos. — O que a traz a mim em hora tão imprópria?
— Ó amiga infeliz — rompeu Maria em pranto —, levante-se, para que eu a vista. Levante-se depressa; uma grande desgraça a espera.
A espantada Machteld saltou do leito e fitou com angústia os olhos de Maria; esta soluçava amargamente enquanto vestia Machteld, e não respondia às perguntas da jovem senão no momento em que lhe ofereceu um longo traje de montaria e lhe disse, com suspiro apertado:
— A senhora vai viajar, ó nobre dama. Que São Jorge a proteja!
— Ah! Por que este traje de montaria, minha querida Maria? Agora vejo que destino me espera! Meu sonho amargo não mentiu, pois, quando você me acordou, eu era levada para a França, para junto de Joana de Navarra. Oh, Senhor, agora toda esperança está perdida! Não verei mais Adolf, e aquele doce futuro que me acalentava tornou-se amargo. Ó Leão, meu pai!... Talvez o senhor já não encontre sua filha na terra...
Maria, tomada de amarga dor, sentara-se numa cadeira e soluçava em silêncio entre lágrimas. Não tinha forças para confirmar com palavras o medo da amiga. Depois de alguns instantes, a donzela aflita lançou-se ao seu pescoço e disse:
— Não chore assim por mim, minha doce amiga. A desgraça e a adversidade me são conhecidas há muito tempo: para a Casa de Flandres não há mais descanso nem alegria.
— Criança infeliz e nobre! — suspirou Maria. — Você não sabe que soldados franceses a esperam lá embaixo e que será levada imediatamente!
A jovem empalideceu e estremeceu muito ao ouvir essas palavras.
— Soldados? — gritou ela. — Ficarei então exposta à grosseria de mercenários sem nobreza? Querida Maria, proteja-me... Meu Deus, pudesse eu morrer agora! Ó Leão de Flandres, se soubesse que ultraje fazem ao seu sangue!
— Não se assuste assim, nobre dama; há com eles um cavaleiro honrado.
— Chegou, então, a hora fatal! Devo deixá-la, Maria, e a rainha má de Navarra também me encarcerará, como a meu pai. Pois seja! Há um juiz no Céu, e ele não me abandonará...
— Depressa, donzela, ponha o traje de montaria; ouço os passos dos soldados.
Enquanto Machteld passava o vestido em torno do corpo, abriu-se a porta do quarto; a criada entrou e disse:
— Senhora, o senhor francês manda perguntar se a nobre Machteld de Bethune está pronta e se lhe é permitido comparecer diante dela.
— Que venha — foi a resposta.
O senhor De Cressines havia seguido a criada pela escada e entrou imediatamente no aposento. Inclinou-se com cortesia diante da donzela e deu a entender, por seus olhares compassivos, que cumpria aquela missão contra a vontade.
— Senhora — disse ele —, não me leve a mal se peço que me acompanhe imediatamente; não posso esperar um único instante mais.
— Eu o seguirei obedientemente — respondeu Machteld, contendo as lágrimas. — Espero, senhor, que, como cavaleiro honrado, me preserve de todo ultraje.
— Eu lhe juro, nobre dama — gritou De Cressines, comovido pela submissão da jovem —, que nada lhe acontecerá enquanto estiver sob minha proteção.
— E seus soldados, senhor?
— Meus soldados, senhora, não a tocarão nem lhe dirigirão palavra. Que esta garantia lhe baste. Partimos.
As duas donzelas abraçaram-se com ternura angustiada, e as lágrimas lhes vieram mais abundantes às faces. O amargo adeus foi repetido muitas vezes, e muitas vezes retomaram o abraço. Por fim, seguiram o superior até o corredor.
— Ó senhor — gritou Maria —, diga-me, por favor, para onde leva minha amiga infeliz?
— Para a França — respondeu De Cressines; e, voltando-se para os soldados, ordenou: — Prestem atenção às minhas palavras: quem ousar dizer uma palavra inconveniente a esta nobre dama será severamente castigado; quero que a tratem segundo a ilustreza de seu nascimento. Que tragam os cavalos que estão na Halsestraat.
Machteld ficou muda junto dos soldados; suas lágrimas corriam em silêncio sob o véu que lhe cobria o rosto.
Uma de suas mãos pendia na mão de Maria, e ambas estavam imóveis, como duas estátuas sobre uma mesma coluna. As palavras não bastavam para exprimir as dolorosas comoções que apertavam seus corações naquele amargo adeus.
Trazidos os cavalos à porta, a donzela foi ajudada pelo senhor De Cressines a subir num corcel ligeiro.
Quando todos estavam na sela, Machteld aproximou os lábios do ouvido da soluçante Maria e falou-lhe de Adolf. A irmã recebeu, em favor do generoso jovem, uma promessa de amor inquebrantável e muitas palavras de consolo.
Mestre Brakels e os criados foram soltos, e a comitiva correu rapidamente pelas ruas de Bruges. Alguns instantes depois, estavam em campo aberto e em caminhos que Machteld não conseguia reconhecer; a noite era escura, e um silêncio solene pairava sobre a natureza adormecida. O senhor De Cressines permanecia sempre ao lado de Machteld; como não queria perturbar a donzela em sua tristeza, não lhe falava, e talvez tivesse feito toda a viagem em silêncio, se a jovem Machteld não lhe tivesse perguntado primeiro:
— É-me permitido, senhor, saber algo sobre o destino que me espera? E posso perguntar de quem veio a ordem que me arranca de minha casa?
— A ordem me foi dada pelo senhor De Chatillon — respondeu De Cressines. — Provavelmente também lhe foi enviada por instância superior, pois sua viagem termina em Compiègne.
— Sim — suspirou a triste donzela —, Joana de Navarra me espera. Não lhe bastou encarcerar meu pai e todos os meus parentes; faltava eu. Agora sua vingança está plenamente cumprida. Ó senhor, o senhor tem uma rainha má!
— Um homem não poderia dizer isso diante de mim. É verdade, nobre dama, nossa rainha trata os flamengos com muito rigor, e sinto a maior compaixão pelo valente senhor de Bethune; mas não posso ouvir injúrias contra meus soberanos.
— Perdoe-me, senhor; sua lealdade de cavaleiro merece minha estima. Não me queixarei mais de sua rainha, e considero-me feliz, em meu infortúnio, por ter um cavaleiro honrado como guia.
— Seria para mim verdadeiro prazer acompanhá-la até Compiègne, mas essa honra não me foi concedida: daqui a mais um quarto de hora, a senhora terá outra companhia, donzela. Isso, porém, não pode alterar sua condição; os cavaleiros franceses nunca esquecem o que devem às damas.
— É verdade, senhor, os nobres franceses são corteses e honrados conosco; mas quem me garante que não serão soldados?
— Oh! Isso não acontecerá, senhora; levo-a ao castelo de Male e devo entregá-la ao castelão, o senhor De Saint-Pol. Até ali vai a minha missão.
Ainda falaram por algum tempo, até que enfim chegaram diante da ponte do castelo de Male. Ao se aproximarem, a sentinela acima do portão chamou os soldados de vigia, e a grade levadiça foi erguida. Pouco depois, a ponte caiu com estrondo, e toda a comitiva entrou no castelo.
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
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