Leia agora
O Leão de Flandres

Universo da obra

O Leão de Flandres

Capítulo 3 · O Leão de Flandres

Capítulo 3

3 de 25 ≈ 25 min de leitura

Capítulo 3

Tomo os deuses por testemunhas de meus esforços
para abrandar o destino de meus filhos e o vosso.

JAN TEN BRINK, MEDEIA

O cavaleiro ou o pedinte[26] que era admitido pelos moradores de Wijnendale por cortesia ou compaixão encontrava-se primeiro numa praça quadrada sob o céu azul. À direita, via os estábulos, nos quais cem cavalos podiam permanecer sem aperto; junto deles, os montes de esterco cobertos de incontáveis pombos e patos a ciscar. À esquerda, o edifício em que os homens de armas e os pajens de bagagem tinham alojamento; mais ao fundo, ficavam os engenhos de assalto que se levavam à guerra: primeiro os grandes aríetes[27] e bodes, com seus cavaletes e carros; depois as espingardas antigas para lançar setas contra as cidades sitiadas, e as máquinas de arremesso com que se podiam enviar grandes pedras contra torres e muralhas; mais adiante ainda, toda espécie de pontes de assalto, estrepe, tonéis incendiários e infinitos outros instrumentos de guerra.

Bem diante do viajante que entrava, o palácio condal erguia-se majestosamente com suas torrezinhas acima dos edifícios mais baixos que o cercavam. Uma escada de pedra, ao pé da qual repousavam dois leões negros, subia até o primeiro andar e dava entrada a uma longa sequência de salas quadradas. Muitas delas eram providas de cama para receber os hóspedes ocasionais; outras eram ornadas com armas antigas dos condes passados ou com bandeiras e flâmulas conquistadas.

À direita, no canto desse vasto edifício, havia uma sala menor que se distinguia das demais em tudo. Na tapeçaria que cobria a parede, via-se representada, como por pessoas vivas, toda a história da sexta cruzada. De um lado estava Gwyde[28], vestido de ferro dos pés à cabeça e rodeado de cavaleiros, aos quais entregava a cruz. Ao fundo, via-se um grupo de homens de guerra que já se pusera a caminho. O segundo lado representava a batalha de Mansura, ocorrida em 1250, na qual os cristãos alcançaram a vitória. São Luís, rei da França, e o conde Gwyde eram reconhecíveis entre os outros por suas bandeiras. O terceiro lado era uma cena horrenda. Numerosos cavaleiros cristãos, atingidos pela peste, jaziam morrendo num campo árido, entre cadáveres lúgubres e carcaças de cavalos; corvos negros voavam sobre esse exército desgraçado e esperavam que algum homem morresse para saciar-se de sua carne. O quarto lado representava o alegre retorno do conde de Flandres. Sua primeira mulher, Fogaets de Bethune, jazia chorando contra seu peito, enquanto seus filhos Robrecht e Boudewyn lhe apertavam as mãos com amor. Esse era o último quadro.

Junto à lareira de mármore, na qual ardia um pequeno fogo de lenha, sentava-se o velho conde de Flandres numa pesada cadeira de braços. Tomado por profundas recordações, apoiava a cabeça na mão direita e olhava sem atenção para seu filho Willem, que lia orações num livro com fechos de prata. Machteld, a jovem filha de Robrecht de Bethune, estava do outro lado do aposento com seu falcão. Acariciava a ave sem reparar no velho Gwyde nem em seu filho. Enquanto o conde pensava, com sombrio pressentimento, em suas desgraças passadas, e Willem suplicava ao céu por misericórdia, Machteld brincava com seu falcão querido e nem pensava que a herança de seu pai fora conquistada e confiscada pelos franceses. Contudo, a donzela infantil não era insensível; mas sua tristeza nunca durava mais que o acontecimento que lhe abalava o coração. Quando lhe haviam anunciado que todas as cidades de Flandres tinham sido tomadas pelo inimigo, ela irrompera em lágrimas abundantes e chorara amargamente; mas já na noite desse mesmo dia o falcão tornara a ser acariciado, e as lágrimas da jovem tinham secado e sido esquecidas.

Depois de muito tempo a fitar seu filho com olhares incertos, Gwyde deixou de súbito a mão cair de sob a cabeça e perguntou:

— Willem, meu filho, mas que pedis sempre a Deus com tanto ardor?

— Rezo por minha pobre irmã Philippa — foi a resposta do jovem. — Deus sabe, ó meu pai, se a rainha Joana já não a empurrou para o túmulo... mas então minhas orações são por sua alma!

Inclinou profundamente a cabeça ao dizer isso, como se quisesse esconder as duas lágrimas que lhe caíam.

O velho pai suspirou com dor surda. Sentia que a lúgubre previsão de Willem podia tornar-se verdadeira, pois Joana de Navarra era uma mulher má; no entanto, não deixou transparecer seu abatimento e falou:

— Não é sensato, Willem, entristecer-se com dolorosos pressentimentos. A esperança foi dada ao mortal na terra como consolo; por que, então, não haveríeis de esperar? Desde a prisão de vossa irmã, estais triste e definhais, sem que um sorriso jamais se erga em vosso rosto. É louvável que não contempleis insensível o destino de vossa irmã; mas, em nome de Deus, saí de vosso escuro desespero!

— Sorrir, dizeis, pai? Sorrir, enquanto nossa pobre Philippa está numa masmorra? Não, não posso. Suas lágrimas correm em silêncio sobre o chão frio de sua prisão; ela se queixa ao Céu de sua tristeza; chama por vós, meu pai, chama por todos nós, pedindo alívio. E quem lhe responde? O eco sombrio dos subterrâneos do Louvre! Não a vedes, pálida como a morte, fraca e magra como uma flor que morre, com os braços erguidos a Deus? Não a ouvis, chamando: ó meu pai, meus irmãos! Libertai-me, morro acorrentada!... Isto vejo e ouço em meu coração; isto sinto em minha alma, e haveria eu de sorrir? Não, que então o Senhor me castigue!

Machteld, que havia escutado pela metade esse discurso triste, pousou depressa o falcão nas costas de uma cadeira e caiu, entre um violento fluxo de lágrimas e soluços doloridos, aos pés do avô. Pôs a cabeça no joelho dele e exclamou com dor:

— Minha querida tia está morta? Ó Deus, que tristeza! Está morta? Nunca mais a verei? Ai, pai! Amparai-me, vou desfalecer...

O conde ergueu-a ternamente do chão e falou com bondade:

— Acalmai-vos, minha querida Machteld; não choreis. Philippa não está morta.

— Não está morta? — perguntou a jovem com espanto. — Por que então o senhor Willem fala em morrer?

— Não o compreendestes bem — respondeu o conde. — A situação de Philippa não mudou.

Enquanto a jovem Machteld enxugava as lágrimas com um pano, lançou um olhar de censura a Willem e falou, soluçando:

— Sempre me entristeceis inutilmente, senhor! Logo se pensaria que esquecestes todas as palavras consoladoras, pois falais sempre de modo tão terrível que vossa fala me faz tremer. Meu falcão tem medo de vossa voz, ela soa tão oca! Isso de vossa parte não é cortês, senhor! E me desgosta muito!

Willem olhou a jovem com olhos que pareciam suplicar compaixão por sua dor. Assim que Machteld recebeu aquele olhar triste, correu até ele e tomou-lhe ternamente uma das mãos entre as suas.

— Oh, perdoai-me, meu querido Willem — disse ela —, eu vos amo muito, mas então também não deveis me atormentar mais com essa palavra feia, morrer, que fazeis soar sempre em meus ouvidos. Perdoai-me, eu vos peço.

Antes que Willem pudesse responder, ela já correra de volta ao falcão e recomeçara seu passatempo, embora ainda não tivesse parado de chorar.

— Meu filho — falou Gwyde —, não vos perturbem as palavras da donzela Machteld. Sabeis que a malícia não se abriga nela.

— Perdoo-lhe de todo o coração, senhor meu pai, pois a amo como a uma irmã. A tristeza que mostrou pela morte imaginada de Philippa me serviu de consolo.

A essas palavras, Willem abriu novamente o livro e leu em voz alta:

— Jesus Cristo, salvador, tende piedade de minha irmã. Por vossa amarga paixão, libertai-a, ó Senhor! Sancta Maria, Mãe de Deus, eu vos peço, ouvi-me, consolai-a na masmorra escura, ó Santa Virgem!

Gwyde esperou até que a oração chegasse ao fim e então perguntou:

— Mas dizei-me uma coisa, Willem: não vos parece que devemos grande gratidão ao senhor De Valois?

— O senhor De Valois é o cavaleiro mais digno que conheço — respondeu o jovem. — Não nos tratou ele com generosidade? Respeitou vossos cabelos brancos e até vos consolou. Sei bem que nossas desgraças e a prisão de minha irmã teriam fim se isso estivesse em seu poder. Deus lhe conceda a bem-aventurança eterna por seus nobres sentimentos!

— Sim, que Deus lhe seja misericordioso em sua última hora! — retomou o conde Gwyde. — Podeis compreender, meu filho, que ele, nosso inimigo, seja bastante generoso para se pôr em perigo por nós e tomar sobre si o ódio de Joana de Navarra?

— Sim, compreendo isso, senhor meu pai, desde que falais de Charles de Valois. Mas que pode ele fazer por nós e por nossa irmã?

— Escutai, Willem! Esta manhã, cavalgando com ele para a caça, indicou-me um meio pelo qual, com a ajuda de Deus, poderemos reconciliar o rei Philippe le Bel.

O jovem bateu as mãos uma na outra com jubilosa exaltação e gritou:

— Ó Céu, seu bom anjo falou por sua boca! E que deveis fazer para isso, meu pai?

— Ir com meus nobres encontrar o rei em Compiègne[29] e lançar-me a seus pés.

— E a rainha Joana?

— A implacável Joana de Navarra está em Paris com Enguerrand de Marigny. Nunca houve momento mais favorável que este.

— Que o Senhor permita que vossa esperança não seja frustrada! Quando quereis empreender essa perigosa viagem, meu pai?

— Depois de amanhã o senhor De Valois virá a Wijnendale com seu séquito para nos conduzir. Mandei chamar os nobres que ainda me permanecem fiéis em meu infortúnio para lhes dar conhecimento disso. Mas vosso irmão Robrecht não vem. Por que ficaria tanto tempo fora do castelo?

— Esquecestes já a querela desta manhã, senhor meu pai? Ele tem de se purificar de uma desmentida; agora está certamente com De Chatillon.

— Tendes razão, Willem, isso me escapara. Essa querela pode prejudicar-nos, pois o senhor De Chatillon é poderoso na corte de Philippe le Bel.

Naqueles tempos, honra e fama eram os bens mais preciosos do cavaleiro. Também não podia ele deixar-se tocar por nenhuma aparência de calúnia sem exigir contas dela. Por isso, os duelos eram ocupações diárias, e pouca atenção se lhes dava.

Gwyde levantou-se e falou:

— Ouço a ponte cair. Com certeza meus homens de feudo já chegaram. Vinde, vamos à grande sala.

Saíram do aposento e deixaram a jovem Machteld sozinha.

Logo chegaram os senhores de Maldegem, de Rode, de Courtrai, de Oudenaarde, de Heile, de Nevele, de Roubaix, o senhor Wouter de Lovendegem com seus dois irmãos e muitos outros, em número de cinquenta e dois, entrando um a um na sala junto do velho conde[30]. Alguns deles estavam temporariamente alojados no castelo; outros tinham seus senhorios na planície vizinha.

Todos esperavam com curiosidade a notícia ou a ordem que o conde lhes comunicaria, e estavam de cabeça descoberta diante de seu senhor.

Pouco depois, este começou seu discurso e falou:

— Meus senhores, é do conhecimento de Vossas Nobrezas que a fidelidade que eu consagrara a meu senhor e rei Philippe foi a causa de minhas desgraças. Quando ele me ordenou que exigisse as contas das administrações das comunas, quis, como fiel senhor feudal, satisfazer sua exigência. Bruges recusou-se a obedecer-me, e meus súditos se levantaram contra mim. Quando fui à França com minha filha para prestar homenagem ao rei, ele nos prendeu a todos; minha infeliz filha ainda se entristece nas masmorras do Louvre. Tudo isso sabeis, pois fostes os fiéis companheiros de vosso soberano. Eu quis, como convinha à minha dignidade, defender meu direito pelas armas; mas a sorte estava contra nós, o perjuro Eduardo da Inglaterra rompeu a aliança que havíamos feito e nos abandonou na necessidade. Agora minha terra foi confiscada; tornei-me o menor entre Vossas Nobrezas, e meus cabelos brancos já não podem portar a coroa condal. Tendes outro senhor!

— Ainda não! — gritou Wouter de Lovendegem. — Pois então quebro para sempre minha espada. Não conheço outro senhor senão o nobre Gwyde de Dampierre!

— Senhor Van Lovendegem, vosso fiel amor me é sumamente agradável; mas ouvi-me até o fim com sangue-frio, senhor. De Valois conquistou Flandres pelas armas e recebeu-a em feudo de seu régio irmão Philippe. Se ele não fosse tão generoso, eu não estaria aqui em Wijnendale com Vossas Nobrezas; pois foi ele próprio quem me chamou de Rupelmonde para esta agradável morada. Mais ainda: decidiu reconstruir a Casa de Flandres e recolocar-me outra vez no assento condal. É sobre isso que tenho de tratar com Vossas Nobrezas, pois preciso de vossa ajuda.

A admiração dos senhores que escutavam atentos aumentou visivelmente com essa última fala. Parecia-lhes inacreditável que Charles de Valois quisesse devolver a terra que conquistara. Olharam para o conde com espanto. Este retomou, depois de breve pausa:

— Meus senhores, não duvido de vosso amor por mim; por isso falo com plena esperança de que me concedereis este último pedido, que consiste nisto: depois de amanhã parto para a França a fim de me lançar aos pés do rei, e desejo ser acompanhado por Vossas Nobrezas.

Os senhores responderam um após outro que estavam prontos para a viagem e que queriam acompanhar e assistir seu conde em toda parte. Havia um que não falava, e esse era Diederik de Vos.

— Senhor Diederik — perguntou o conde —, não ireis conosco?

— Sim, sim, por minha honra! — gritou Diederik. — De Vos irá junto, ainda que seja para a boca do inferno. Mas digo-vos, nobre conde, e perdoai-me, digo-vos que aqui não é preciso ser uma raposa para notar onde está o laço. Já prenderam Vossa Alteza uma vez, e ela corre outra vez pela mesma trilha. Deus permita que tudo acabe bem! Mas asseguro-vos que Philippe le Bel não apanhará a Raposa.

— Julgais e falais levianamente, senhor! — retomou Gwyde. — Charles de Valois escreve-nos um salvo-conduto e promete-nos, por sua honra, que nos trará de volta a Flandres sem impedimento.

Os senhores, que conheciam a retidão de De Valois, confiaram nessa promessa e continuaram a conversar com seu conde. Enquanto isso, Diederik de Vos saiu despercebido da sala e foi caminhar e refletir no pátio exterior.

Após alguns instantes, a ponte foi baixada e Robrecht de Bethune entrou no castelo. Diederik aproximou-se dele depois que desmontou e falou:

— Não é preciso perguntar, senhor Robrecht, como tratastes vosso inimigo: a espada do Leão nunca mentiu. Com certeza o senhor De Chatillon está a caminho do outro mundo?

— Não — respondeu Robrecht —, minha espada caiu sobre seu elmo com tanta força que ele não falará por três dias; contudo, não morreu. Louvado seja Deus! Mas outra desgraça nos aconteceu hoje. Adolf van Nieuwland, sendo meu companheiro de armas, lutou contra De Saint-Pol. Adolf já havia ferido De Saint-Pol na cabeça quando a armadura do desventurado donzel falhou, e a arma inimiga o feriu mortalmente. Dentro de alguns instantes o vereis, pois meus homens o trazem para o castelo.

— Mas, senhor Van Bethune — perguntou Diederik —, não pensais que essa viagem à França é um ato temerário?

— Que viagem? Vós me espantais!

— Ainda nada sabeis disso?

— Nem uma palavra!

— Pois bem, partimos depois de amanhã com nosso conde Gwyde para a França.

— Que é isto, Diederik, meu amigo? Estais gracejando. Como, para a França?

— Sim, sim, senhor Robrecht, para lançar-nos aos pés do rei francês e pedir perdão. Nunca vi um gato entrar por vontade própria no saco, mas, pelo diabo, é bem possível que eu o veja em breve em Compiègne, ou então falta-me juízo.

— Estais bem certo do que dizeis, Diederik? Não zombeis, vós me entristeceis.

— Certo? Tende a bondade de entrar na sala. Vereis todos os senhores junto de nosso conde, vosso pai. Depois de amanhã viajamos para a prisão; crede em mim e fazei uma cruz na porta de Wijnendale.

Robrecht, ao ouvir essa novidade, não pôde conter a cólera.

— Diederik, meu amigo — gritou ele —, peço-vos: mandai levar o ferido Adolf para meu quarto, no leito da esquerda, e cuidai dele até eu voltar. Mandai chamar mestre Rogaert, para que ligue a ferida.

Enquanto dizia isso, correu impaciente para a sala onde os senhores estavam com o conde e abriu caminho à força entre eles até diante do pai.

Os cavaleiros se admiraram grandemente, pois Robrecht ainda estava de armadura completa e todo coberto de ferro.

— Ó meu senhor e pai — falou ele —, que se diz? Ireis entregar-vos nas mãos de vossos inimigos, para que eles carreguem vossos cabelos brancos de afronta, para que a infame Joana vos lance em ferros?

— Sim, meu filho — respondeu Gwyde com majestade —, sim, vou à França, e vós comigo. Esta é a vontade de vosso pai.

— Pois bem, seja assim — retomou Robrecht —, irei convosco. Mas o lançar-se aos pés, essa vergonha?

— Eu me lançarei aos pés, e vós comigo — foi a resposta inflexível.

— Eu? — gritou Robrecht com furor. — Eu me lançar aos pés? Não, antes morra eu uma morte desgraçada; que Deus me perdoe. Eu, Robrecht de Bethune, prostrar-me diante de nosso inimigo? Como? O Leão de Flandres há de baixar a cabeça diante de um francês, diante de um falsificador de moeda[31], diante de um perjuro? Então que a terra se abra sob meus pés!

O conde deixou passar alguns instantes. Quando pensou que Robrecht estava um pouco mais calmo, retomou:

— E vós também o fareis, meu filho!

— Não, nunca — gritou Robrecht —, nunca virá tal desonra sobre minhas armas. Curvar-me diante de um estrangeiro, eu? Não conheceis vosso filho, meu pai.

— Robrecht — retomou Gwyde friamente —, a vontade de vosso pai é uma lei que não podeis quebrar. Eu o quero!

— Não — gritou Robrecht mais uma vez —, o Leão de Flandres morde, não acaricia. Só Deus, e vós, pai, vistes minha cabeça curvada; e peço ao Senhor que me esmague sob seu raio se eu me curvar diante de outro homem na terra.

— Mas, Robrecht — retomou o pai —, não tendes compaixão de mim, de vossa desventurada irmã Philippa, de vossa Pátria, para rejeitardes o único meio que ainda nos pode salvar?

Robrecht, tomado por dor e fúria, torceu os punhos com impulso violento.

— Que exigis agora, ó senhor e pai? — respondeu ele. — Que um francês olhe para mim como para um escravo? Só esse pensamento me faria morrer de vergonha. Não, não, nunca! Vossa ordem, até mesmo vossa súplica, é inútil: não o farei.

Duas lágrimas brilharam nas faces cavadas do velho conde. A expressão singular de seu rosto fez os cavaleiros presentes duvidarem se era alegria ou dor que o atingira, pois um sorriso consolado parecia pairar sobre seu semblante.

Robrecht foi profundamente tocado pelas lágrimas do pai: sentiu o inferno e suas dores no coração. Seu arrebatamento aumentou ainda mais; gritou como fora de si:

— Amaldiçoai-me, maldizei-me, ó meu soberano e pai! Mas juro-vos por Deus Todo-Poderoso que nunca rastejarei nem me curvarei diante de um francês, e não obedecerei a vosso mandado!

Robrecht de Bethune assustou-se com as próprias palavras. Tornou-se pálido e tremeu em todos os membros; seus dedos se retorciam convulsivamente nas palmas das mãos, e ouviam-se as escamas de ferro de suas luvas rangerem umas contra as outras. Sentiu a coragem faltar-lhe e esperou, com angústia mortal, a maldição do pai.

Enquanto os cavaleiros, no maior espanto, aguardavam a resposta do conde, este passou os braços fracos ao redor do pescoço de Robrecht e gritou, com lágrimas de alegria e amor:

— Ó meu nobre filho! Meu sangue, o sangue dos condes de Flandres, corre puro em vossas veias. Vossa desobediência me deu o dia mais feliz de minha vida. Agora posso morrer! Abraçai-me ainda, ó meu filho, pois sinto uma felicidade indizível.

Havia admiração e compaixão nos corações de todos os senhores presentes. Com solene silêncio, contemplaram esse abraço. O velho conde soltou o filho e voltou-se, cheio de entusiasmo, para seus homens de feudo.

— Vede, meus senhores — falou ele —, assim eu também era em meus anos mais jovens; assim foram sempre os Dampierres. Julgai, pelo que ouvistes e vistes, se Robrecht não merece a coroa condal. Ó Flandres, assim são teus homens! Sim, Robrecht, tendes razão. Um conde de Flandres não deve baixar a cabeça diante de estrangeiro algum. Mas sou velho, sou pai da prisioneira Philippa e de vós, meu bravo filho; dobrarei meu joelho diante de Philippe le Bel. Assim ordena Deus! Ireis comigo. Não curveis a cabeça; mantende-a erguida, para que o conde que vier depois de mim fique livre de culpa e vergonha!

Depois disso, discutiu-se mais amplamente a preparação da viagem; conversou-se sobre mais de uma questão política. Robrecht de Bethune, já calmo e frio, deixou a sala e foi ao aposento menor onde se achava Machteld. Tomou a jovem donzela pela mão e colocou-a numa poltrona; depois, sem soltar-lhe a mão, puxou outra cadeira para junto dela e sentou-se ao seu lado.

— Minha querida Machteld — falou ele —, amais vosso pai, não é verdade?

— Oh, sim, bem o sabeis — gritou a jovem, enquanto passava as mãos macias pela face áspera do cavaleiro.

— Mas — retomou Robrecht —, se um homem arriscasse a vida para me defender, não o amaríeis também?

— Certamente sim — foi a resposta —, e por isso eu lhe seria eternamente grata.

— Pois bem, minha filha, um cavaleiro defendeu vosso pai contra um inimigo e está mortalmente ferido.

— Ai, Deus! — exclamou Machteld. — Rezarei quarenta dias por ele, e ainda mais, para que se cure.

— Sim, fazei isso; mas ainda vos peço outra coisa.

— Falai, senhor meu pai. Sou vossa serva obediente.

— Entendei-me bem, Machteld. Vou viajar por alguns dias; e vosso avô e todos os nobres que conheceis partem igualmente. Quem dará de beber ao pobre cavaleiro ferido quando ele tiver sede?

— Quem? Eu, senhor meu pai. Não o abandonarei até que volteis. Levarei meu falcão para o quarto dele e lhe farei sempre companhia. Não temais que eu o entregue aos criados: minha própria mão lhe sustentará a taça junto aos lábios. Oh! Será para mim grande alegria se ele se curar.

— Isto é muito bom, minha filha, conheço vosso coração compassivo; mas ainda deveis prometer-me que nos primeiros dias de sua doença não fareis barulho no quarto, nem permitireis que os criados o façam.

— Oh, não, não temais por isso, senhor meu pai. Falarei bem baixinho ao meu falcão, para que o cavaleiro enfermo não ouça.

Robrecht tomou a jovem Machteld pela mão e levou-a para fora do aposento.

— Vou mostrar-vos o doente — disse ele —, mas não faleis alto diante dele.

Adolf van Nieuwland fora carregado pelos homens para uma sala da morada de Robrecht e posto num leito.

Dois cirurgiões haviam tratado a ferida e estavam, com Diederik de Vos, junto da cama. O sofredor não dava sinal de vida; seu rosto estava pálido, e seus olhos, fechados.

— Pois bem, mestre Rogaert — perguntou Robrecht a um dos cirurgiões —, como vai nosso infeliz amigo?

— Mal — respondeu Rogaert —, muito mal, senhor Van Bethune. Ainda não posso dizer o que se pode esperar; contudo, minha opinião é que ele não morrerá.

— A ferida não é mortal?

— Sim, mortal e não mortal: a natureza é o melhor cirurgião; muitas vezes realiza o que nem ervas nem pedras podem fazer[32]. Coloquei em seu peito um espinho da verdadeira Coroa; essa santa relíquia nos ajudará.

Durante essa conversa, Machteld aproximara-se pouco a pouco do doente. Impelida pela curiosidade, tentava ver o rosto do cavaleiro sofredor.

De súbito reconheceu Adolf van Nieuwland e recuou com um grito de espanto.

— Vinde, senhor meu pai! — gritou ela. — Vamos, não fiquemos aqui, eu vos peço! Oh, vamos!

Robrecht admirou-se do medo que tão subitamente se apoderara de sua filha. Pensou que o rosto pálido do ferido fosse a causa daquela emoção e respondeu:

— Oh, criança, tendes medo de um homem enfermo que precisa de vossa ajuda? Que fareis, então, quando estiverdes sozinha com ele?

— Oh, não, pai, não o temo. Mas não sei... não gosto de ficar aqui. Vinde, ou dai-me licença para partir, pois não me sinto bem.

— Ide, minha filha — falou Robrecht —, isso passará.

Permaneceu convencido de que a expressão sombria dos traços do donzel assustara sua filha; mas enganava-se muito.

Machteld era uma donzela simples de dezesseis anos. Nunca conhecera o amor e ainda não sabia ao certo o que significava essa palavra. Contudo, cada vez que Adolf van Nieuwland a fitara, ela ficara vermelha até a testa; cada vez que ouvia a voz ou o nome de Adolf, seu coração acendia-se num ardor desconhecido e batia violentamente. A imagem do jovem pairava, contra a vontade dela, sem cessar diante de seus olhos, e nenhum sonho inquietava seu sono sem que ele nele se misturasse. Ela não sabia que respondia ao amor do donzel por ela com um amor secreto e mais forte. Esse sentimento íntimo morava desconhecido em seu peito. A vergonha que sempre a atingia diante dele era a causa de seu medo dele, e também a causa do grito que deixara escapar junto ao leito do enfermo.

Agora teria de permanecer sozinha em seu quarto com esse inimigo de sua tranquilidade; teria de falar com ele, tocar-lhe a cabeça e as mãos. Compreende-se como a pobre criança era torturada por essa ideia. Assim que esteve em seu quarto, as lágrimas jorraram-lhe dos olhos, e chorou longamente; apesar disso, decidiu cumprir sua tarefa humana e portar-se segundo a vontade de seu pai.

Robrecht de Bethune permaneceu até a noite junto ao leito de Adolf, esperando que ele recuperasse a audição e a fala; mas essa esperança foi frustrada. O ferido respirava fraca e lentamente: não se notava o menor movimento em seu corpo. Mestre Rogaert começou a temer seriamente por sua vida, pois uma febre leve se manifestava e já lhe ardia nas têmporas.

Os nobres senhores que não estavam alojados em Wijnendale deixaram o castelo com satisfação: como cavaleiros fiéis, alegravam-se por poder ainda uma vez agradar e servir a seu velho soberano. Os que permaneciam no castelo condal recolheram-se a seus aposentos de dormir. Duas horas mais tarde, nada mais se ouvia em Wijnendale senão o chamado das guardas, o latido dos cães e o piar das corujas noturnas.
* * * * *

O Leão de Flandres

Sinopse

Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.

Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.

O Leão de Flandres

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Leão de Flandres

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Leão de Flandres

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Leão de Flandres Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir