Universo da obra
Universo da obra
Diz-se muitas vezes que no campo
A serpente se põe sob as flores
E assim surpreende os que caminham
E chegam junto das flores.
Sei de algo mais próprio à traição:
Serpente e flor ao mesmo tempo.
Perguntais-me o que é, em verdadeira fé?
Digo: essa coisa é uma mulher.
COES, LIEDEKENS
A viagem que o conde Gwyde ia empreender por conselho do senhor De Valois era muito perigosa para ele e para a Terra de Flandres: havia para a França razões demasiado importantes para conservar o rico Flandres em seu poder tanto tempo quanto possível.
Philippe le Bel e sua esposa Joana de Navarra, para sustentar seus gastos desregrados, haviam puxado para seus cofres todo o dinheiro do reino; e, contudo, as somas enormes que lhes eram concedidas pelo povo nunca tinham bastado para satisfazer seus desejos insaciáveis. Não podendo encontrar outro meio de obter dinheiro, Philippe falsificou as moedas do reino, impôs tributos insuportáveis aos três estados do país e, ainda assim, não tinha o bastante. Seus ministros cobiçosos, e acima de todos Enguerrand de Marigny, impeliam-no diariamente à imposição de taxas e gabelas[33], apesar do murmúrio do povo e dos sinais de uma revolução. É incompreensível que Philippe le Bel, que também tantas vezes expulsava os judeus da França para vender-lhes, por grandes somas, a permissão de voltar, apesar de suas rapinas, tivesse sempre tão grande falta de dinheiro.
A falsificação das moedas era um ato funesto; pois os mercadores, não querendo vender seus bens por dinheiro sem curso, deixaram a França. O povo empobreceu, os tributos deixaram de ser pagos, e o rei viu-se na situação mais arriscada. Flandres, pelo contrário, florescia pela indústria de seus habitantes. Todas as nações do mundo conhecido viam-na como sua segunda Pátria e formavam em nosso solo o entreposto geral de suas mercadorias. Só em Bruges negociava-se mais dinheiro e mais bens do que em toda a França, e essa cidade era verdadeiramente uma mina de ouro. Philippe le Bel sabia disso. Por isso havia, há alguns anos, posto tudo em obra para submeter a terra de Flandres a seu poder. Primeiro exigira do conde Gwyde coisas impossíveis, a fim de forçá-lo à desobediência; depois, mantivera presa sua filha Philippa; e enfim tomara e confiscara a terra de Flandres pela força das armas.
O velho conde havia considerado tudo isso e não escondia de si mesmo as prováveis consequências de sua viagem; mas a tristeza que sentia pela prisão de sua filha mais jovem não lhe permitia desprezar esse meio, que podia libertá-la. O salvo-conduto que lhe fora dado por Charles de Valois também podia, de algum modo, tranquilizá-lo.
Pôs-se, portanto, a caminho com seus dois filhos, Robrecht e Willem, e cinquenta nobres flamengos. Charles de Valois, com grande número de cavaleiros franceses, acompanhou-o na viagem.
Chegando a Compiègne com seus nobres, o conde foi, por intervenção do senhor De Valois, esplendidamente hospedado enquanto aguardava que uma ordem real o chamasse à corte. O generoso francês fez tanto junto do rei, seu irmão, que este se inclinou para a misericórdia e convocou Gwyde sozinho à corte.
O velho conde, cheio de esperança acariciante, dirigiu-se com confiança ao palácio real.
Ali foi conduzido a uma sala grande e magnífica. Ao fundo desse aposento ficava o trono real: tapeçarias de veludo azul-celeste, bordadas de lírios de ouro, desciam dele de ambos os lados até o chão, e um tapete tecido com fios de ouro e prata jazia diante dos degraus daquele rico assento. Philippe le Bel caminhava de um lado para outro pela sala com seu filho Louis Hutin[34]. Atrás deles seguiam muitos senhores franceses, entre os quais havia um que muitas vezes tomava parte na conversa do rei. Esse favorito era o senhor De Nogaret, que, por ordem de Philippe, ousara prender e maltratar o papa Bonifácio[35].
Assim que Gwyde foi anunciado, o rei recuou para junto do trono, mas não subiu a ele. Seu filho Louis permaneceu a seu lado; os outros senhores alinharam-se em duas fileiras junto à parede. Então o velho conde de Flandres aproximou-se com passo lento e dobrou um joelho diante do rei.
— Vassalo! — falou este. — Convém-vos essa atitude humilde, depois de todo o desgosto que nos causastes. Merecestes a morte e estais condenado; contudo, apraz-nos, em nossa graça real, ouvir-vos. Levantai-vos e falai!
O velho conde ergueu-se e respondeu:
— Meu senhor e soberano! Com confiança em vossa justiça real, apresentei-me aos pés de Vossa Majestade, para que ela proceda comigo segundo sua vontade.
— Essa submissão — retomou o rei — vem tarde; aliastes-vos a Eduardo da Inglaterra, meu inimigo, contra mim; levantastes-vos contra vosso senhor como vassalo infiel, e fostes orgulhoso o bastante para declarar-lhe guerra. Vossa terra foi confiscada por vossa desobediência.
— Ó soberano — falou Gwyde —, deixai que eu encontre graça diante de vós. Que Vossa Majestade considere que dor e que sofrimento sentiu um pai quando lhe arrancaram sua filha. Não rezei com profunda aflição? Não supliquei para recebê-la de volta? Ó rei! Se vos arrancassem vosso filho, meu futuro senhor Louis, que agora está tão varonil a vosso lado; se vos arrancassem este e o encerrassem num país estrangeiro, a dor não levaria Vossa Majestade a tudo, para vingar e libertar esse sangue que de vós nasceu? Oh, sim, vosso coração de pai me entende. Encontrarei misericórdia a vossos pés.
Philippe le Bel olhou para o filho com ternura; naquele instante, avaliou as desgraças de Gwyde e sentiu íntima compaixão pelo infeliz conde.
— Sire — gritou Louis com emoção —, oh, sede-lhe misericordioso por amor de mim! Tende piedade dele e de sua filha, eu vos suplico.
O rei recobrou-se e retomou uma expressão severa:
— Não vos deixeis seduzir tão facilmente pelas palavras de um vassalo desobediente, meu filho — falou ele. — Contudo, não quero ser inexorável, se me puderem provar que ele foi movido apenas pelo amor de pai e não pelo orgulho.
— Senhor — retomou Gwyde —, é conhecido de Vossa Majestade que, para reaver minha filha, empreguei tudo quanto era possível. Nenhum de meus esforços pôde triunfar; minhas súplicas, minhas orações foram rejeitadas, e tudo, até a intervenção do papa, foi infrutífero. Que podia eu fazer, então? Acariciei-me com a esperança de que as armas pudessem operar a libertação de minha filha; mas a sorte não me foi favorável, e Vossa Majestade alcançou a vitória.
— Mas — interrompeu o rei — que podemos nós fazer por vós? Destes exemplo funesto a nossos vassalos: se formos misericordiosos convosco, todos se levantarão contra nós, e talvez vos unireis novamente a nossos inimigos.
— Ó meu soberano — respondeu Gwyde —, apraza a Vossa Majestade devolver a infeliz Philippa a seu pai, e eu vos juro, pela honra de minha Casa, que uma fidelidade indissolúvel me prenderá à vossa Coroa.
— E Flandres pagará as somas exigidas, e nos dareis o dinheiro necessário para compensar os custos que vossa desobediência nos causou?
— A graça que Vossa Majestade me pode conceder nunca me custará demasiado. Cumprirei respeitosamente vossas ordens. Mas minha filha, ó rei, minha filha!
— Vossa filha? — repetiu Philippe le Bel, em dúvida. Então pensou em Joana de Navarra, que não soltaria de boa vontade a filha do conde de Flandres. Não ousou seguir a boa inspiração de seu coração, pois temia demasiado a ira da orgulhosa rainha Joana. Querendo, portanto, nada prometer de modo firme a Gwyde sobre esse assunto, falou: — Pois bem, as boas palavras de nosso amado irmão fizeram muito por vós. Tende boa esperança, pois vosso destino me toca. Fostes culpado, mas vossa punição é amarga; procurarei adoçá-la. Contudo, não nos apraz hoje receber-vos em graça: nova investigação deve preceder esta questão de importância. Também desejamos que, diante de todos os senhores, nossos vassalos, façais vossa submissão, para que tomem exemplo de vós. Ide e deixai-nos agora, para que possamos considerar o que podemos fazer por um senhor feudal infiel.
A essa ordem, o conde de Flandres saiu da sala. Ainda não havia deixado o palácio quando já corria entre todos os senhores franceses o rumor de que o rei lhe devolveria sua terra e sua filha. Muitos lhe desejaram felicidade de coração; outros, que haviam erguido suas esperanças de ambição sobre a tomada de Flandres, sentiram a esse respeito íntimo despeito. Contudo, como nada podiam contra a vontade do rei, nada deixaram perceber.
Alegria e confiança voltaram entre os senhores flamengos: acariciavam-se com doce esperança e rejubilavam-se antecipadamente com a libertação da Pátria. Parecia-lhes que nada poderia impedir o bom resultado de seu esforço, pois o rei, além do bom acolhimento que dera ao conde, havia assegurado ao senhor De Valois que queria tratar Gwyde com grandeza de alma.
Vós, que lutastes contra o destino e, nessa luta, sofrestes e chorastes, com que facilidade a alegria entra em vosso coração longamente oprimido! Com que leveza esqueceis vossas dores para abraçar uma felicidade incerta, como se o cálice do infortúnio para vós tivesse sido esvaziado, enquanto o mais amargo, o fundo, vos resta. Encontrais um sorriso em todos os semblantes e apertas a mão de todos os que parecem alegrar-se com vossa ventura. Mas não confieis na roda instável da Fortuna enganosa, nem na expressão daqueles que, no infortúnio, eram vossos inimigos. Pois a inveja e a traição se escondem sob esses rostos duplos, assim como a víbora sob as flores, e o escorpião sob o ananás dourado[36]. Em vão se procura o rastro da serpente no campo; sente-se sua mordida venenosa, e não se sabe por onde ela chegou até nós. Assim também trabalham no escuro os homens invejosos e rancorosos, pois conhecem a própria maldade e se envergonham de seus atos. Seus dardos nos atingem o coração, e nós os julgamos nossos amigos, porque não podemos ver suas almas negras em seus rostos lisonjeiros. O segredo e a ambiguidade são para eles manto impenetrável; sim, o animal venenoso às vezes anda sob os raios do sol, mas eles nunca.
O conde Gwyde já tomava as providências necessárias para, quando voltasse a Flandres, cumprir as ordens do rei e fazer seus súditos esquecerem a guerra por meio de uma longa paz. O próprio Robrecht de Bethune não duvidava da graça prometida; pois, desde que seu pai estivera na corte, todos os senhores franceses haviam sido extremamente amáveis e respeitosos com os flamengos. Isso era, segundo eles acreditavam, prova da boa vontade do rei: sabiam que as intenções e pensamentos dos soberanos sempre se encontram no semblante instável dos cortesãos.
De Chatillon também visitara muitas vezes o conde e o saudara com felicitações, mas escondia-se um segredo diabólico em seu coração, e ele sorria de modo torto para ocultá-lo. Joana de Navarra, sua prima, prometera-lhe a Terra de Flandres em feudo; todos os seus planos ambiciosos tinham por objetivo a obtenção desse rico condado, e agora essa esperança se desfazia como um sonho.
Não há paixão que torne o homem mais apto ao mal que a ambição política: ela esmaga sem piedade tudo o que lhe embaraça o caminho e não olha para trás, para os horrores já cometidos, pois seus olhos permanecem sempre obstinadamente fixos no objetivo perseguido. De Chatillon, possuído por essa paixão, resolveu praticar um ato traiçoeiro, inspirado pelo interesse próprio, e disfarçou-o diante de sua consciência com o nome de dever.
No mesmo dia em que chegou de Flandres à corte com os outros senhores, chamou um de seus servidores mais fiéis, deu-lhe seu melhor cavalo e enviou-o a toda pressa para Paris.
Uma carta que entregou a esse mensageiro devia informar de tudo a rainha e Enguerrand de Marigny e chamá-los a Compiègne.
Foi plenamente bem-sucedido em sua intenção traiçoeira. Joana de Navarra inflamou-se em furor violento ao ler a carta. Os flamengos recebidos em graça! Ela, que lhes havia jurado ódio eterno, deixaria sua presa escapar assim? E Enguerrand de Marigny, que já havia dissipado ou gasto de antemão o dinheiro que se devia arrancar de Flandres pela força! Essas duas pessoas tinham interesse demasiado grande na ruína de Flandres para tolerar sua libertação. Assim que receberam a notícia, partiram em rápida carreira para Compiègne e caíram como raio no quarto do rei.
— Sire! — gritou Joana. — Nada sou mais para vós, para que recebais assim meus inimigos em graça, sem minha permissão? Ou vos abandonou o juízo, para quererdes aquecer no peito essas serpentes flamengas para vossa própria ruína?
— Senhora — respondeu Philippe le Bel com calma —, conviria a vós respeitar um pouco mais vosso esposo e rei. Se me apraz conceder graça ao velho conde de Flandres, minha vontade se cumprirá.
— Não — gritou Joana, vermelha de ira —, isso não se cumprirá. Não o quero, ouvis? Sire! Não o quero. Como? Esses rebeldes que decapitaram meus tios[38] ficarão impunes? Hão de vangloriar-se de haver ultrajado impunemente a rainha de Navarra em seu sangue?
— A cólera vos arrebata, senhora! — respondeu o rei. — Pensai com calma e dizei-me: não é justo que Philippa seja devolvida a seu pai?
Então a fúria de Joana tornou-se ainda mais violenta.
— Devolver Philippa? — exclamou ela. — Mas, Sire, não pensais nisso. Então ela se casa com o filho de Eduardo da Inglaterra, e vosso próprio filho fica privado dessa esperança. Não, não, isso nunca acontecerá, eu vo-lo juro. E mais ainda: Philippa é minha prisioneira; faltar-vos-á poder para tirá-la de minhas mãos.
— Mas, senhora — gritou Philippe —, vós vos excedeis. Pensai que essa linguagem altiva me desagrada muito e que sou livre para vos dar provas de minha ira. Minha vontade é a vontade de vosso soberano.
— E quereis devolver Flandres ao orgulhoso Gwyde? Quereis colocá-lo em condições de fazer-vos guerra outra vez? Esse ato irrefletido vos causará triste arrependimento, eu vos asseguro, Sire. Quanto a mim, uma vez que vejo que me estimam tão pouco que uma questão que tanto me importa foi decidida sem minha intervenção, partirei para meu reino de Navarra, e Philippa me seguirá[37]!
Essa última fala atuou poderosamente sobre o ânimo do rei. Navarra era a melhor parte da França, e Philippe le Bel não gostaria de se ver privado dela.
Como Joana já o ameaçara muitas vezes com essa partida, temia que ela talvez um dia a executasse. Depois de alguma reflexão, falou:
— Irritais-vos sem razão, senhora. Quem vos diz que quero devolver Flandres? Ainda nada decidi a respeito dessa questão.
— Vossas palavras dão bastante a conhecer vossa intenção — respondeu Joana. — Mas seja como for, digo-vos que, se me desprezardes a ponto de rejeitar meu conselho, eu vos deixarei, pois não quero ficar exposta às consequências de vossa imprudência. A guerra contra Flandres esgotou os cofres do reino, e agora que tendes o meio de repor tudo, quereis receber esses rebeldes em graça! Nunca nossas finanças estiveram em estado pior. O senhor De Marigny pode provar-vos isso.
Enguerrand de Marigny apresentou-se ao rei ao ouvir essas palavras.
— Sire, é-me impossível — falou ele — pagar por mais tempo os soldados. O povo já não quer arcar com os tributos. O preboste dos mercadores de Paris recusou o subsídio, e muito em breve já não poderei prover as despesas da Casa do rei. A alteração das moedas também já não pode ser feita: só Flandres pode nos socorrer. Os oficiais de tributos que enviei para lá estão ocupados em arrecadar os valores que nos salvarão dessa situação. Considerai, ó Sire, que abandonar esse país vos expõe a grandes desgraças.
— Todo o dinheiro que se levantou sobre o terceiro estado já desapareceu? — perguntou Philippe, abatido.
— Sire — respondeu Enguerrand —, devolvi a Étienne Barbette os valores que os arrendatários de impostos de Paris haviam emprestado a Vossa Majestade. Resta nada, ou muito pouco, no tesouro do reino.
A rainha Joana viu com alegria que essa notícia entristecia muito o rei. Agora pensou que não seria difícil obter a sentença de Gwyde. Aproximou-se do esposo com astúcia e falou:
— Vedes bem, Sire, que meu conselho é importante para vós. Como podeis, para favorecer revoltosos, perder de vista a salvação da França? Eles ultrajaram a vós e a mim, ajudaram nossos inimigos, ousaram desprezar nossas ordens. O dinheiro que possuem os torna soberbos e inchados. Nada é mais fácil do que arrancar deles esse dinheiro excessivo; ainda poderão beijar vossas mãos reais por lhes deixardes a vida, pois todos eles devem a morte.
— Mas, senhor De Marigny — perguntou o rei —, não conheceis meio algum de prover ainda por algum tempo as despesas do reino? Pois não penso que os valores de Flandres virão tão depressa; essa situação me lança no maior desespero.
— Não conheço meio, Sire. Já usamos tantos!
— Escutai — interveio Joana —, se quiserdes seguir meu conselho e tratar Gwyde segundo meu desejo, levantarei um empréstimo extraordinário sobre meu reino de Navarra, e assim não teremos de pensar por muito tempo nesses assuntos importunos.
Fosse por fraqueza de ânimo ou desejo de dinheiro, o rei cedeu ao desejo de Joana, e o velho Gwyde foi entregue a ela. A mulher traiçoeira decidiu fazer o conde de Flandres lançar-se aos pés do rei e não o deixar regressar à sua pátria.
* * * * *
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
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