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O Leão de Flandres

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O Leão de Flandres

Capítulo 22 · O Leão de Flandres

Capítulo 22

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Capítulo 22

_A vergonha deve manchar tua fronte,
Tu que queres ser escravo eternamente;
O remorso esmagará tua alma,
Rasgará teu peito com dor cortante._

PF VAN KERCKHOVEN

A pouca distância da cidade de Lille, num campo de extraordinária vastidão, instalara-se o exército francês; as incontáveis tendas necessárias para tanta gente cobriam bem meia milha de terreno. Como uma alta fortificação levantada cercava o lugar, de longe se teria pensado ver uma cidade forte, se o relinchar dos cavalos, a gritaria dos soldados, a fumaça das fogueiras e os mil galhardetes açoitados pelo vento não denunciassem ali um exército. A parte em que moravam os nobres cavaleiros era reconhecível pelos ricos estandartes e pelas bandeiras bordadas; enquanto ali se viam tendas de veludo e pavilhões de todas as cores, na outra parte encontravam-se apenas cabanas menores, de lona ou palha. Bem se poderia admirar como era possível que exército tão numeroso não morresse de fome, visto que naqueles tempos raramente se levavam mantimentos; contudo, havia abundância de tudo: via-se trigo caído na lama, e os melhores víveres eram pisoteados. Os franceses usavam um bom meio para obter tudo e, ao mesmo tempo, tornar-se odiosos aos flamengos: a cada instante, grandes bandos de soldados partiam do entrincheiramento para percorrer o país e roubar, saquear ou destruir tudo; os malvados homens de guerra haviam compreendido plenamente a intenção de seu comandante Robert d’Artois e, para executá-la, cometiam as atrocidades mais cruéis que se podem praticar na guerra. Como sinal da devastação com que ameaçavam a terra de Flandres, todos haviam pendurado pequenas vassouras em suas lanças, querendo dar a entender que vinham varrer e limpar Flandres; e, com efeito, nada negligenciaram para cumprir essa promessa. Em poucos dias, em toda a parte meridional do país não restava de pé uma única casa, nem igreja, nem castelo, nem mosteiro, nem sequer árvore alguma. Tudo fora desnudado e destruído. Nem idade nem sexo eram respeitados; mulheres e crianças eram violentadas ou assassinadas, e seus corpos, sem sepultura, deixados às aves de rapina.

Dessa maneira começaram os franceses sua marcha. O menor temor, o mais leve remorso, não vinha atingir os criminosos estrangeiros nessa obra perversa. Apoiados em sua força imensa, julgavam certa a vitória; mas por isso mesmo seus atos eram ainda mais covardes e vergonhosos. Mergulhavam as espadas no sangue inocente dos lactentes e desonravam, com luxúria maldita, a donzela indefesa cujo pai haviam matado diante dela. E toda Flandres devia sofrer o mesmo destino: assim haviam jurado por suas armas sem honra!

Na mesma manhã em que Gwyde se ocupava em recompensar os serviços fiéis de Deconinck e Breydel, o comandante francês convidara seus principais cavaleiros para um magnífico banquete.

A tenda do conde d’Artois era incomumente longa e ampla, dividida em diversos espaços; havia aposentos para os cavaleiros pertencentes ao seu séquito, aposentos para escudeiros e porta-armas, para copeiros e cozinheiros, e para outras pessoas particulares que o seguiam. No centro havia uma sala larga, destinada ora a banquetes semelhantes, ora à reunião do conselho de guerra, e capaz de conter grande número de cavaleiros. Sobre a seda listrada que cobria esse pavilhão, havia incontáveis pequenas flores-de-lis de prata; contra a fachada, acima da entrada, pendia o escudo de armas da casa de Artois; um pouco mais longe, sobre uma colina levantada, ondulava a grande bandeira dos lírios da França. Dentro desse recinto magnífico, coberto de ricas tapeçarias, haviam sido colocadas longas mesas entalhadas e assentos de veludo. Em verdade, um palácio não poderia mostrar mais riqueza nem esplendor.

Na cabeceira da mesa estava sentado meu senhor Robert, conde de Artois. Já se encontrava em idade avançada, mas ainda em plena força da vida. Uma cicatriz, que lhe deformava parte da face direita, testemunhava sua valentia na guerra e dava ainda mais dureza aos seus traços. Embora suas faces estivessem gastas por rugas profundas e manchas escuras, seus olhos ainda brilhavam com todo o fogo do ardor viril sob as pesadas sobrancelhas. Sua aparência era cruel, e seus olhares selvagens revelavam nele o guerreiro implacável.

Ao lado dele, à direita, estava sentado o ancião Sigis, rei de Melinde; a velhice prateara-lhe os cabelos e curvara-lhe a cabeça para a frente, e contudo ele queria estar na batalha. Na companhia de tantos velhos companheiros de armas, sentia voltar-lhe a coragem ao coração e prometia a si mesmo realizar ainda alguns belos feitos de guerra. O rosto do velho príncipe inspirava o maior respeito; nele estavam estampadas doçura e serenidade de alma. Certamente o bom Sigis não teria querido combater os flamengos, se lhe fosse conhecida a verdadeira situação; mas, a ele e a muitos outros, haviam enganado, alegando que os flamengos eram maus cristãos e que, portanto, fariam boa obra diante de Deus se os exterminassem até o último[120]. Naquele tempo de fé ardentíssima, bastava acusar alguém de heresia para fazer dele inimigo mortal de todos.

À esquerda do comandante estava Balthazar, rei de Maiorca, guerreiro impetuoso e valente; e isso bastava ver em seus traços, pois era mesmo impossível suportar o olhar fixo de seus olhos negros. Uma alegria selvagem iluminava-lhe o rosto, porque agora esperava recuperar seu reino, que lhe fora tomado pelos mouros. Ao lado dele estava De Chatillon, antigo governador de Flandres, aquele homem que, como instrumento da rainha Joana, fora a causa de todas as desgraças ocorridas; era culpa sua que tantos franceses houvessem sido mortos em Bruges e em Gante; ele era a causa da terrível matança humana que ainda devia seguir-se. Que quantidade de sangue clamando por vingança não pairava sobre a cabeça daquele tirano! Lembrava-se de como os brugenses o haviam expulsado de sua cidade, coberto de vergonha, e prometia a si mesmo uma revanche não pequena. Parecia-lhe impossível que os flamengos resistissem à força reunida de tantos reis, príncipes e condes; por isso já triunfava em seu coração e mostrava um rosto alegre.

Depois dele vinha seu irmão Guy de Saint-Pol, não menos vingativo que ele; então se podia ver Thibaud, duque da Lorena, entre os senhores Jean de Barlas e Renauld de Trie; viera auxiliar os franceses com seiscentos cavalos e dois mil arqueiros. Rodolf de Nesle, cavaleiro bravo e generoso, sentava-se ao lado de meu senhor Henri de Ligny, à esquerda da mesa; desagrado e tristeza desenhavam-se em seu rosto, e era visível que as ameaças cruéis pronunciadas pelos cavaleiros contra Flandres não lhe agradavam. No meio do lado direito, entre Louis de Clermont e o conde Jean d’Aumale, estava Godfried de Brabant, que trouxera aos franceses quinhentos cavalos[121].

Ao lado destes admirava-se a grande estatura do zelandês Hugo van Arkel; sua cabeça erguia-se acima dos outros cavaleiros, e seu corpo poderoso indicava suficientemente quão terrível devia ser tal combatente no campo de batalha. Havia longos anos esse cavaleiro não tinha outra morada senão um ou outro acampamento; famoso em toda parte por sua disposição guerreira e por belos feitos de armas, reunira um bando de oitocentos homens destemidos e ia com eles a todos os países onde houvesse combate. Mais de uma vez fizera a vitória pender, por sua entrada em cena, para o lado do príncipe a quem servia, e estava, como seus homens, coberto de feridas. Esse combater incessante era sua vida e seu prazer; não podia suportar o repouso. Juntara-se ao exército francês porque ali encontrara muitos de seus irmãos de armas: impelido apenas pela inclinação à guerra, pouco se importava por quem ou por que motivo lutaria.

Ainda estavam ali, entre outros, os senhores Simon de Piemont, Louis de Beaujeu, Froald, castelão de Douai, e Alin de Bretagne.

Outro gênero de cavaleiros encontrava-se na parte inferior da mesa. Como se os franceses não quisessem misturar-se com eles, estavam todos sentados uns ao lado dos outros no lugar menos honroso. Em verdade, nisso os franceses não estavam errados: esses cavaleiros eram desprezíveis; pois, enquanto seus vassalos, como verdadeiros flamengos, esperavam o inimigo, esses seus senhores feudais estavam no exército francês. Que cegueira levava aqueles bastardos a rasgar o seio da própria mãe, como fazem as serpentes? Iam, sob um estandarte inimigo, derramar em solo pátrio o sangue de seus compatriotas, talvez o sangue de um irmão ou de um amigo íntimo; e por quê? Para transformar em chão de escravos a terra que lhes dera a vida e submetê-la aos estrangeiros.

Esses miseráveis não tinham alma para perceber que vergonha e desprezo lhes pendiam sobre a cabeça, nem para sentir no próprio coração a mordida de um verme! Os nomes desses flamengos bastardos ficaram guardados para a posteridade; entre muitos outros, eram os principais Hendrik van Boutersem, Geldof van Wingene, Arnold van Eikhove e seu filho mais velho, Hendrik van Wilre, Willem van Redinge, Arnold van Hofstad, Willem van Cranendonk e Jan van Raneel[122].

Todos os cavaleiros comiam em pratos de prata lavrada e bebiam os vinhos mais finos em copos de ouro. Os vasos que estavam diante de Robert d’Artois e dos dois reis eram mais preciosos e maiores que os dos outros senhores; seus emblemas de armas neles haviam sido artisticamente entalhados, e mais de uma pedra de valor incalculável brilhava em suas bordas. Durante a refeição, muito se discorreu sobre a situação; pelas palavras dos convidados podia-se compreender que sorte terrível estava reservada à condenada Flandres.

— Sim, sim — respondeu o comandante a uma pergunta de De Chatillon —, tudo deve ser destruído. Esses flamengos malditos não podem ser domados senão pelo fogo e pela espada. E deixaríamos viver esse bando de camponeses? Então nunca acabaríamos com eles. É preciso pôr fim a isto, meus senhores; façamos jogo breve, para que não tenhamos de manchar por mais tempo nossas espadas com esse sangue ruim.

— Em verdade — disse Jan van Raneel, o leliar[123] —, em verdade, meu senhor d’Artois, tendes razão; pois não é possível conseguir coisa alguma com esses rebeldes. São ricos demais e logo se julgariam acima de nós: já não querem reconhecer que nós, nascidos de sangue nobre, possamos tratá-los como nossos súditos, como se o dinheiro que ganharam com trabalho manual pudesse tornar-lhes o sangue mais nobre. Construíram em Bruges e em Gante casas que superam nossos castelos em esplendor; não é isso uma afronta contra nós? Certamente, não podemos suportar isso por mais tempo.

— Se não quisermos travar uma nova guerra todos os dias — observou Jan van Cranendonk —, todos os artesãos devem ser abatidos, pois os sobreviventes não ficarão quietos. Por isso acho que meu senhor d’Artois tem a maior razão do mundo em não poupar nenhum.

— E que fareis quando houverdes assassinado todos os vossos vassalos? — perguntou o corpulento Hugo van Arkel, rindo. — Por minha fé! Então podereis vós mesmos lavrar vossas terras. Um belo futuro, em verdade!

— Oh — respondeu Jan van Raneel —, conheço um bom meio de remediar isso. Quando Flandres estiver limpa dessa ralé teimosa, chamarei homens livres franceses da Normandia e lhes darei minhas terras.

— Desse modo, Flandres bem poderia tornar-se uma verdadeira parte da França. É um bom plano; vou propô-lo ao rei, para que ele estimule os outros senhores feudais a usar também esse meio. Creio que isso não seria difícil.

— Certamente não, senhor. Não achais boa a minha proposta?

— Sim, sim, faremos isso; comecemos apenas por limpar o lugar.

Os traços de Rodolf de Nesle carregaram-se de íntimo desgosto; as palavras que ouvia desagradavam-lhe muito, pois sua generosidade se revoltava contra tanta crueldade. Falou com ardor:

— Mas, meu senhor d’Artois, pergunto-vos: somos cavaleiros ou não? E a honra nada mais é para nós, para que procedamos assim, pior que sarracenos? Por Deus, levais a crueldade longe demais; asseguro-vos que isso será para nós uma vergonha diante do mundo inteiro. Combatamos o exército dos flamengos e vençamo-lo; baste-nos isso! E não chameis esse povo de bando de camponeses; teremos ocupação bastante com ele. E não estão eles sob o filho de seu príncipe?

— Condestável De Nesle — bradou d’Artois, exaltado contra ele —, sei que amais os flamengos em extremo. Esse amor vos honra, de fato! É certamente vossa filha que vos inspira sentimentos tão louváveis[124]?

— Meu senhor d’Artois — respondeu Rodolf —, o fato de minha filha morar em Flandres não me impede de ser tão bom francês quanto qualquer outro; minha espada já o provou o bastante, e por isso tenho razão para crer que estes cavaleiros não darão ouvidos às vossas palavras zombeteiras. Mas há algo que me toca mais de perto: a honra da cavalaria, e asseguro-vos que a pondes em grande perigo.

— Que diabo! — gritou o comandante. — Não se diria que quereis poupar esses rebeldes? Não mereceram a morte, já que assassinaram sem piedade sete mil franceses?

— Sem dúvida, fizeram-se culpados de morte, e também vingarei quanto puder a coroa de meu príncipe; mas apenas naqueles que forem encontrados com a arma na mão. Apelo a todos estes cavaleiros: acaso convém que usemos nossas espadas em obra de carrascos e matemos camponeses dependentes indefesos enquanto estão lavrando o campo?

— Ele tem razão! — bradou Hugo van Arkel com ira. — Não combatemos mouros, meus senhores, e é uma obra vergonhosa a que nos propõem. Pensai que temos cristãos diante de nós. Ainda corre sangue diets em minhas veias[125], e não tolerarei que tratem meus irmãos como cães; eles fazem a guerra em campo aberto e, portanto, devem ser combatidos segundo as leis da guerra.

— Por São Tiago, meu patrono! — retomou d’Artois. — É possível que defendais esses camponeses ruins? Nosso príncipe, bom demais, já experimentou todos os outros meios para domá-los, mas tudo foi em vão. Devemos, então, deixar que assassinem nossos homens, que insultem e difamem nosso rei, e ainda preservar a vida desses servos revoltosos! Por minha alma, isso não acontecerá. Sei que ordens me foram dadas, e hei de cumpri-las e fazê-las cumprir.

— Meu senhor d’Artois — interveio Rodolf de Nesle com ardor mais violento —, não sei que ordens recebestes, mas vos digo que não obedecerei a elas, se forem contrárias à honra da cavalaria; nem o próprio rei tem direito de mandar-me manchar minhas armas. E escutai, meus senhores, se tenho razão ou não: esta manhã saí muito cedo do acampamento e encontrei por toda parte os sinais da devastação mais terrível. As igrejas estão queimadas e os altares, roubados; montes de corpos de criancinhas e mulheres jazem nos campos e são dilacerados pelos corvos. É esse o procedimento de guerreiros honrados? Isso vos pergunto.

Tendo dito essas palavras, levantou-se da mesa e ergueu uma parte da cobertura da tenda.

— Vede, meus senhores — retomou ele, apontando para o campo —, deixai vossos olhos correrem em todas as direções; encontrareis por toda parte as chamas da devastação. O céu está escurecido pela fumaça; ali arde uma comunidade inteira. Que significa tal guerra? É pior do que se os cruéis normandos tivessem voltado para transformar o mundo num matadouro!

Robert d’Artois ficou vermelho de cólera; moveu-se impaciente em seu assento e bradou:

— Por todos os santos do céu! Não tolerarei que se fale assim diante de mim. Sei o que devo fazer; Flandres deve ser varrida, e não posso evitá-lo. Essa discussão me desagrada muito, e peço ao senhor condestável que não se exprima mais dessa maneira. Guarde ele pura a sua espada; nós também o faremos. Afinal, os atos de nossos soldados não podem tornar-se vergonha nossa. Acabemos, pois, com esta conversa desagradável, e que cada um cumpra o seu dever.

Ergueu sua taça de ouro e bradou:

— À honra da França e à destruição dos rebeldes!

Rodolf de Nesle repetiu: “À honra da França”, e acentuou de propósito essas palavras. Todos compreenderam que ele não queria beber à destruição dos flamengos. Hugo van Arkel pôs a mão no copo que estava diante dele, mas não o ergueu da mesa e não falou. Todos os outros repetiram com exatidão o brado do comandante e beberam à destruição dos flamengos.

Havia alguns momentos que o rosto de Hugo van Arkel assumira uma expressão singular; nele se liam desprezo e desgosto. Fitava rigidamente o comandante, como alguém que se preparara para desafiá-lo.

— Se eu ainda beber à honra da França, que Deus me castigue! — gritou ele.

Robert d’Artois inflamou-se de fúria; bateu com tal força sua taça sobre a mesa que os vasos dos outros cavaleiros saltaram. Então bradou:

— Por Deus, meu senhor Van Arkel, haveis de beber à honra da França... Eu o quero!

— Senhor — respondeu Hugo com fingida frieza —, não bebo à devastação de uma terra cristã. Há muito combato em todas as regiões, mas nunca encontrei cavaleiros que quisessem carregar a consciência com atrocidades tão terríveis.

— Vós me dareis satisfação; eu o quero, digo-vos!

— E eu não o quero — respondeu Hugo. — Ouvi, meu senhor d’Artois: já me dissestes que meus homens exigiam pagamento alto demais e que vos custavam caro. Pois bem, não tereis mais de pagá-los; não quero mais servir em vosso exército. Assim termina nossa disputa.

Todos os cavaleiros, e até o próprio comandante, espantaram-se com tais palavras, pois consideravam a partida de Hugo uma verdadeira perda. O zelandês empurrou o assento para trás e gritou, enquanto atirava uma de suas luvas sobre a mesa:

— Meus senhores, digo que todos vós mentis! Insulto-vos cara a cara. Eis minha luva; quem quiser, pode recolhê-la. Eu o desafio no campo.

Quase todos os cavaleiros agarraram impetuosamente a luva, também Rodolf de Nesle; mas Robert d’Artois lançara-se tão depressa para a frente que a apanhara antes dos outros.

— Aceito vosso desafio — disse ele. — Vamos, partamos!

O velho rei Sigis de Melinde ergueu-se e levou a mão sobre a mesa, como sinal de que queria falar. O grande respeito que os dois contendores sentiam por ele os conteve; ficaram em silêncio para ouvi-lo. O ancião falou:

— Meus senhores, queiram deixar baixar um pouco vosso ímpeto e ouvi meu conselho. Vós, conde Robert, neste momento não sois senhor de vossa vida; se tombásseis, o exército de vosso príncipe ficaria sem comandante e, por conseguinte, exposto à desordem e à divisão. Isso não podeis arriscar. A vós, meu senhor Van Arkel, pergunto se duvidais da valentia de meu senhor d’Artois.

— De modo algum — respondeu Van Arkel —, reconheço meu senhor Robert como cavaleiro intrépido e corajoso.

— Pois bem — retomou o rei de Melinde —, ouvis, comandante: não se diminui vossa honra. Nada vos resta senão vingar a afronta feita à França. Aconselho-vos, a ambos, a adiar o combate singular para o dia seguinte à batalha. Peço-vos, meus senhores, dizei-o todos: meu conselho não se funda em sábia prudência?

— Sim, sim — responderam os cavaleiros —, a menos que o comandante queira conceder a um de nós a graça de recolher a luva por ele.

— Cale-se isso! — gritou d’Artois. — Não quero ouvir falar.

— Meu senhor Van Arkel, aceitais o adiamento?

— Isso não me cabe. Lancei minha luva; o comandante a recolheu. Que ele determine o tempo que fixa para devolvê-la a mim.

— Assim seja — disse Robert d’Artois. — Se a batalha não durar até o pôr do sol, irei procurar-vos ainda esta mesma noite.

— Não vos deis esse trabalho — respondeu Hugo —, estarei diante de vós antes do que pensais.

Ainda trocaram algumas ameaças, mas a coisa não foi além.

— Meus senhores — interveio o rei Sigis —, não convém que faleis mais disso. Mandemos encher de novo as taças e esquecei vosso mau ímpeto. Sentai-vos, meu senhor Van Arkel.

— Não, não — gritou Hugo —, não me sento. Deixo o exército neste instante. Adeus, meus senhores; veremos uns aos outros no campo de batalha. Que Deus vos tenha sob sua guarda!

Com isso saiu da tenda e reuniu seus oitocentos homens; pouco tempo depois ouviu-se o clangor das trombetas e o rumor das armas de um bando que partia. Hugo van Arkel deixou o acampamento dos franceses e, ainda naquela mesma noite, veio aos flamengos, a quem ofereceu seus serviços. Pode-se imaginar com que alegria o receberam, pois ele e seus homens eram famosos como invencíveis, e mereciam essa fama[126].

Os cavaleiros franceses haviam-se sentado novamente à mesa e bebiam tranquilos. Enquanto falavam da temeridade de Hugo, entrou na tenda um arauto, que se inclinou respeitosamente diante dos cavaleiros; suas roupas e armas estavam cobertas de pó, e o suor lhe escorria da testa. Tudo indicava que se apressara muito na viagem e correra quase sem fôlego. Os cavaleiros o contemplavam com curiosidade, enquanto ele tirava debaixo da armadura uma folha de pergaminho. Depois de entregá-la ao comandante, disse:

— Senhor, este escrito testemunha que fui enviado a vós por meu senhor Van Lens, de Kortrijk, para queixar-me de nossa necessidade.

— Pois bem, fala! — gritou d’Artois com impaciência. — Meu senhor Van Lens não consegue defender o castelo de Kortrijk contra um bando de homens a pé?

— Seja-me permitido dizer-vos que vos enganais, nobre senhor — respondeu o mensageiro. — Os flamengos têm um exército que não se deve desprezar; é como se tivessem sido conjurados todos de uma vez. São mais de trinta mil homens e têm cavalos e máquinas de guerra em abundância; constroem terríveis engenhos de arremesso para atacar o castelo. Nossos víveres e nossas flechas estão esgotados, e já começamos a comer alguns de nossos piores cavalos. Se Vossa Alteza esperar ainda mais um dia para socorrer meu senhor Van Lens, todos os franceses em Kortrijk já estarão mortos, pois não há saída por onde escapar. Os senhores Van Lens, De Mortenay e De Rayecourt vos suplicam humildemente que vos digneis salvá-los desse perigo[127].

— Meus senhores — bradou Robert d’Artois —, esta é uma bela ocasião; não poderíamos desejar melhor: todos os flamengos correram juntos para Kortrijk. Vamos atacá-los, e que Deus me castigue se muitos fugirem: os pés de nossos cavalos farão justiça a esse povo ruim. Tu, mensageiro, fica no acampamento; amanhã estarás conosco em Kortrijk. Agora, mais um gole pelos últimos. Meus senhores! Ide e preparai vossos corpos para a marcha: partiremos o mais depressa possível.

Depois de alguns instantes, todos deixaram a tenda para cumprir a ordem de seu chefe. De todos os cantos do acampamento soaram as trombetas, chamando os soldados do campo; os cavalos relinchavam, as armas chocavam-se umas contra as outras com rangido, e um rumor sinistro de guerra se ergueu acima das diversas partes do acampamento. Algumas horas depois, todas as tendas estavam dobradas e carregadas nos carros de bagagem; tudo estava pronto. Ainda faltava, é verdade, grande número de soldados, que se demoravam saqueando aqui e ali; mas isso não podia ser notado em exército tão poderoso. Cada comandante pôs-se à frente de seus corpos; os cavaleiros reuniram-se em duas divisões, e o exército saiu do entrincheiramento na seguinte ordem: a primeira divisão que vinha do acampamento com estandartes ao vento compunha-se de três mil dos melhores homens de armas, em corcéis leves; tinham na mão longos machados de haste, e longas espadas pendiam da parte dianteira das selas. Seu equipamento não era tão pesado quanto o dos outros cavaleiros; por isso iam à frente, destinados às primeiras escaramuças. Imediatamente depois deles seguiam quatro mil arqueiros a pé; avançavam majestosamente em fileiras compactas, protegendo o rosto dos raios do sol com altos escudos quadrados.

Suas aljavas estavam cheias de flechas, e uma espada curta sem bainha brilhava à cintura. Eram guerreiros vindos do sul da França; mais da metade eram espanhóis e lombardos. Jean de Barlas, guerreiro corajoso, cavalgava de um lado para outro junto desses dois corpos e comandava-os como chefe supremo.

A segunda divisão estava sob o comando de Renauld de Trie e contava três mil e duzentos cavaleiros pesados. Montavam altos e fortes cavalos de guerra e traziam uma espada larga e reluzente sobre o ombro direito; armaduras de ferro bruto envolviam seus corpos, e placas feitas de uma só peça estavam presas por correias a todos os seus membros. A região de Orléans fornecera a maior parte desses homens.

Meu senhor o condestável De Nesle conduzia a terceira divisão. Primeiro vinha um corpo de setecentos nobres cavaleiros, com equipamentos cintilantes sobre o corpo e graciosos galhardetes em suas longas lanças; penachos ondulantes caíam de seus elmos para trás, sobre as costas; seus emblemas de armas estavam pintados em todas as cores nas armaduras. Os cavalos que montavam estavam revestidos de ferro da cabeça aos pés, e borlas elegantes balançavam por todos os lados. Desse corpo se erguiam mais de duzentos estandartes bordados. Era, em verdade, a tropa de cavaleiros mais magnífica que se poderia ver naquele tempo: todos estavam armados com a maior riqueza. Atrás deles vinham ainda dois mil soldados a cavalo, com longos martelos de guerra aos ombros; junto à sela pendia ainda uma espada de golpe. Eram formados por bandeiras pertencentes ao exército permanente do rei Filipe, o Belo.

À frente da quarta divisão cavalgava meu senhor Louis de Clermont, guerreiro experiente, como comandante. Ela compunha-se de três mil e seiscentos cavaleiros com lanças, vindos do reino de Navarra. Via-se bastante, por seu equipamento regular, que eram homens bem treinados e escolhidos. Diante da primeira fileira cavalgava o porta-estandarte com o grande estandarte de Navarra.

Robert, conde de Artois, comandante supremo do exército, tomara sob seu comando a divisão central. Todos os cavaleiros que não haviam trazido homens, ou que os haviam colocado em outros corpos, estavam com ele; os reis de Maiorca e Melinde cavalgavam ao seu lado. Entre todos os outros, podia-se reconhecer Thibaut II, duque da Lorena, por seu equipamento magnífico; igualmente se distinguiam os belos estandartes dos senhores Jean, conde de Tarcanville, Angelin de Vimeu, Renold de Longueval, Farald de Reims, Arnold van Wesemaal, marechal de Brabant, Robert de Montfort e um número infinito de outros, que se haviam formado num só corpo.

Essa divisão superava ainda a terceira em esplendor: os elmos dos cavaleiros eram prateados ou dourados, e suas armaduras, adornadas com botões de ouro nas articulações. O sol, lançando seus raios ardentes sobre todo o aço brilhante de seus equipamentos, transformava aquela massa esplêndida em ardor flamejante. As grandes espadas de guerra pendentes das selas oscilavam de um lado para outro e batiam com som claro nas coberturas de ferro dos cavalos; daí nascia um rumor lúgubre, que os acompanhava pelo caminho como música de guerra contínua. Depois dos nobres cavaleiros seguiam cinco mil outros cavaleiros com machados de haste e martelos de armas. A essa divisão pertenciam ainda dezesseis mil homens a pé, divididos em três corpos. O primeiro era formado por mil besteiros; tinham apenas uma couraça de aço e um elmo quadrado e chato como armas defensivas; pequenas aljavas cheias de virotes de ferro pendiam de seus cintos, e longas espadas, de seus lados. A segunda parte contava seis mil homens com maças, guarnecidas na extremidade grossa com terríveis pontas de aço. A terceira parte compunha-se de quebra-elmos com longos machados. Todos esses homens tinham vindo da Gasconha, do Languedoc e da Auvergne.

Meu senhor Jacques de Chatillon, o governador, comandava a sexta divisão. As numerosas fileiras compunham-se de três mil e duzentos soldados a cavalo. Nos galhardetes de suas lanças, haviam pintado vassouras flamejantes, em sinal de que queriam limpar Flandres; seus cavalos eram dos mais pesados do exército e, contudo, mal podiam avançar sob a carga de todo o ferro que os cobria, tão pesadamente estavam carregados.

Seguiam então a sétima e a oitava divisões; a primeira sob o comando de Jean, conde de Aumale, a outra sob meu senhor Ferry da Lorena. Cada uma delas compunha-se de dois mil e setecentos cavaleiros, todos homens da Lorena, da Normandia e da Picardia.

Meu senhor Godfried de Brabant, com seus próprios vassalos, em número de setecentos cavaleiros bem equipados, formava a nona divisão.

A décima e última parte do exército fora confiada a meu senhor Guy de Saint-Pol; ele estava encarregado da retaguarda e devia guardar o trem de bagagem.

Três mil e quatrocentos cavaleiros de todas as armas iam à frente; depois vinha ainda uma nuvem de homens a pé com arcos e espadas de golpe, cujo número chegava a cerca de sete mil. Parte deles afastava-se do exército em todas as direções e corria com tochas ardentes, para destruir tudo quanto pudesse pegar fogo. Por fim seguiam os incontáveis carros de bagagem, carregados de tendas e máquinas de guerra[128].

O exército francês, dividido em dez corpos e com mais de sessenta mil homens, avançava lentamente pelos campos e seguia o caminho que levava a Kortrijk. O olhar não podia medir a extensão daquela massa terrível; os primeiros já se tornavam invisíveis no horizonte antes que os últimos saíssem do entrincheiramento; isso levou mais de uma hora.

Milhares de galhardetes açoitados pelo vento flutuavam acima do exército em marcha, e o sol se refletia com brilho magnífico nos equipamentos das tropas soberbas. Os cavalos relinchavam com violência e gemiam sob sua carga; as armas rangiam e soavam umas contra as outras; de todos aqueles ruídos diversos nascia um rumor surdo, como o bramido do mar em tempestade. Era tão monótono que não perturbava o silêncio dos campos abandonados. Por toda parte por onde aqueles guerreiros destruidores haviam passado, as chamas subiam ao céu com grossas nuvens de fumaça. Nenhuma morada escapava à devastação, nenhum homem, nenhum animal era poupado; as crônicas dão testemunho disso. No dia seguinte, quando as chamas haviam queimado e derrubado tudo, não se podia encontrar mais nem ser humano nem obra humana; Flandres, desde Lille até Douai e Kortrijk, estava devastada de modo tão terrível que os vândalos franceses bem podiam vangloriar-se de tê-la varrido como com uma vassoura[129].

Alta noite, o exército de meu senhor d’Artois chegou às proximidades de Kortrijk. De Chatillon conhecia muito bem a região, pela razão de haver morado tempo bastante na cidade; por isso foi chamado pelo comandante para indicar o lugar de acampamento que escolheriam.

Depois de uma breve consulta, desviaram-se um pouco para a direita com as diversas divisões e armaram suas tendas no Pottelberg e nos campos ao redor[130]. Meu senhor d’Artois, com os dois reis e ainda alguns senhores importantes, hospedou-se no castelo Hoog-Mosser, situado perto do Pottelberg. Numerosas guardas foram postadas, e os demais entregaram-se ao repouso sem suspeita; apoiavam-se demais na superioridade de seu número para pensar que alguém ousaria atacá-los.

Assim, os franceses estavam a um quarto de hora do acampamento das corporações de ofício; os postos avançados podiam ver uns aos outros caminhando na escuridão.

Os flamengos, sabendo que o inimigo chegara, haviam dobrado suas guardas e ordenado que ninguém fosse repousar senão armado.
* * * * *

O Leão de Flandres

Sinopse

Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.

Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.

O Leão de Flandres

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O Leão de Flandres

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