Leia agora
O Leão de Flandres

Universo da obra

O Leão de Flandres

Capítulo 6 · O Leão de Flandres

Capítulo 6

6 de 25 ≈ 36 min de leitura

Capítulo 6

Pobre rosinha! mal aberta,
Desde esta manhã somente,
Jazes do caule partida,
Já pisada sobre o chão?
Mal nascida, já chorando,
Mal em flor, já a findar;
Pobre rosinha, com tuas cores,
Quem te pôde assim matar?

F. DE VISSER

Naquele tempo havia em Flandres duas facções que se erguiam uma contra a outra e nada poupavam para causar, entre si, todo o dano possível. A maior parte dos nobres e governantes se declarara, em todas as ocasiões, a favor do Governo francês, e por isso recebera o nome de leliares, por serem partidários do brasão dos lírios da França.[43] A razão pela qual favoreciam assim os inimigos da pátria será facilmente compreendida pelo que segue.

Alguns anos antes, as custosas justas de cavalaria, as guerras internas e as longínquas cruzadas haviam empobrecido a maior parte dos senhores nobres. Por isso, foram obrigados a vender aos habitantes, por grandes somas, seus direitos sobre cidades ou senhorios, concedendo-lhes liberdades e privilégios. As cidades empobreceram de imediato, mas logo sua libertação comprada produziu os mais belos frutos. O povo miúdo, que antes pertencia de corpo e bens aos nobres, compreendeu então que o suor de seu rosto já não corria para senhores injustos: escolheu burgomestres e conselheiros, formando um governo no qual os senhores da terra não tinham a menor ingerência. As corporações de ofício trabalhavam juntas pelo bem comum e nomeavam deões que administravam seus negócios.

Atraídos pela mais favorável hospitalidade, estrangeiros de todas as províncias vinham para Flandres, e o comércio ganhou uma vida, uma atividade que teria sido impossível sob o domínio coercitivo dos senhores feudais. A manufatura floresceu, o povo enriqueceu e, orgulhoso de seu valor por tanto tempo desconhecido, ergueu-se mais de uma vez, de armas na mão, contra seus antigos senhores. Os nobres, vendo por isso grandemente reduzidos seus direitos e bens, tentaram diminuir, por astúcia e violência, a força crescente das comunas populares. Jamais o conseguiram, porém; pois as riquezas das cidades também lhes permitiam levantar um exército e, assim, defender as liberdades existentes e conservá-las intactas. Na França as coisas não se passavam desse modo. Filipe, o Belo, por necessidade de dinheiro, havia convocado algumas vezes o terceiro estado, ou os homens das boas cidades, para a assembleia geral; mas isso dava ao povo apenas um valor passageiro, logo anulado pelos senhores feudais.

Os nobres remanescentes, que em Flandres já não tinham muito a dizer e possuíam apenas, como qualquer outro, os direitos de propriedade, lamentavam profundamente o poder perdido: o único meio de recuperá-lo era derrubar as comunas florescentes. Como a liberdade ainda não brilhara na França, e o domínio dos senhores feudais ali ainda era exclusivo e coercitivo, esperavam que Filipe, o Belo, também transformasse o estado das coisas em Flandres e os restituísse a seus antigos direitos. Por isso favoreciam a França contra Flandres e receberam o nome de leliares como marca de vergonha. Eles eram numerosos em Bruges, então, com Veneza, a cidade mercantil mais rica do mundo; até os burgomestres e demais membros do governo municipal, nomeados por influência francesa, eram todos leliares.

A prisão do conde e dos nobres que lhe permaneceram fiéis foi recebida por eles com alegria; pois agora Flandres estava confiscada em benefício de Filipe, o Belo, e este podia, por consequência, anular inteiramente as leis e os privilégios das comunas.

O povo soube do perjúrio da Corte francesa com a maior consternação: o amor que sempre tivera por seus condes tornou-se ainda mais intenso pela compaixão, e irrompeu em murmúrios contra aquela quebra de juramento. Mas as tropas francesas, espalhadas por toda parte em grande número, e a discórdia que reinava entre os burgueses, tornaram desanimados, por aquele tempo, os sinceros partidários do Leão.[44] Filipe, o Belo, permaneceu tranquilamente na posse da herança de Gwyde.

Assim que a triste notícia chegou a Flandres, Maria, irmã de Adolf van Nieuwland, partiu com numerosos servos para Wijnendale e mandou transportar seu irmão ferido, numa liteira, para a casa paterna em Bruges. A jovem Machteld, que agora se via tão dolorosamente separada de todos os seus parentes de sangue, seguiu essa nova amiga e deixou o castelo de Wijnendale, que recebera uma guarnição francesa.

A casa de Nieuwland ficava na Spaansestraat, em Bruges. Duas torrezinhas redondas se erguiam nos dois cantos da fachada, com seus galos de cata-vento acima do telhado, dominando todos os edifícios ao redor; duas pilastras de pedra azul, de ordem grega, sustentavam a abóbada que formava o portal; acima dele ficava o escudo de Nieuwland, com esta inscrição sobre o elmo: Pulchrum pro patria mori. De cada lado do escudo havia um anjo com ramos de palma na mão.

Num aposento bastante recuado para ficar livre do rumor incessante da rua, jazia o enfermo Adolf sobre um rico leito. Estava extremamente pálido, e a dor que a ferida lhe causava o emagrecera a tal ponto que já mal se podia reconhecê-lo. À cabeceira do leito, sobre uma mesinha, havia uma pequena jarra e uma taça de prata; na parede pendia a armadura que cedera sob a lança de De Saint-Pol e através da qual Adolf recebera sua ferida. Tudo em torno dele era mortal e silencioso; estando as janelas meio fechadas, o aposento era iluminado apenas por um clarão incerto, e nada se ouvia além dos penosos arquejos do cavaleiro e do roçar de um vestido de seda.

Num canto do quarto, Machteld estava sentada com a mão diante dos olhos: lágrimas corriam em silêncio por entre seus dedos finos e surdos suspiros escapavam de seu peito oprimido. O falcão, pousado no encosto da cadeira, parecia não ser insensível à tristeza de sua senhora; pois enfiara a cabeça, desanimado, entre as penas, e não se movia.

A jovem, que antes fora tão franca e alegre que nenhuma dor parecia atingi-la, estava agora inteiramente transformada. A prisão de todos os que lhe eram caros abalara tão violentamente seu coração juvenil que tudo se tornara negro e sombrio a seus olhos. O céu já não era azul para ela, os campos já não eram verdes; seus sonhos já não se entreteciam de fios de ouro e prata. Agora, somente a tristeza e o desespero silencioso encontravam caminho até seu coração; ante a dolorosa lembrança da prisão de seu pai, nada podia consolá-la.

Depois de permanecer assim algum tempo sem se mover, levantou-se devagar e tomou o falcão sobre a mão. Contemplou a ave, chorando, e falou com voz muito suave, enquanto de vez em quando enxugava as lágrimas de suas faces pálidas:

— Ó minha ave fiel, não sofra assim: nosso senhor pai voltará em breve. A perversa rainha de Navarra não lhe fará mal; pois rezei com tanto fervor a meu senhor São Miguel[45] por ele. E Deus é justo! Não se aflija mais, meu querido falcão.

A jovem chorava lágrimas ardentes. Embora suas palavras parecessem consoladoras e cheias de esperança, não era assim em seu coração: a tristeza mais profunda o apertava. Ela prosseguiu:

— Meu pobre falcão, agora você não poderá mais caçar nos vales do castelo paterno, pois os franceses moram em nosso belo Wijnendale. Eles puseram nosso infeliz pai numa masmorra e o prenderam em pesadas correntes. Agora ele está naquele cubículo escuro, suspirando tão miseravelmente, e quem sabe se a cruel Joana não o fará morrer! Ó minha querida ave, então nós também morreremos de angústia. Só o pensamento, esse pensamento terrível, faz minhas forças me abandonarem. Ah, pouse aí, pois minha mão trêmula já não pode sustentá-lo...

A criança desesperada afundou exausta na cadeira; contudo, seu rosto não ficou mais pálido, pois havia muito as rosas de suas faces tinham murchado, e suas pálpebras, pelo choro constante, haviam-se tingido de vermelho. A suavidade de seus traços desaparecera, e seus olhos estavam sem brilho nem vivacidade.

Por muito tempo permaneceu mergulhada em sua melancolia; pensava alternadamente em tudo quanto ainda podia afundá-la mais no desespero. Então a lembrança sombria trazia-lhe ao redor os sonhos mais sinistros: via seu pai infeliz acorrentado numa masmorra úmida, ouvia o chocalhar de suas correntes e os ecos que, naquela morada pavorosa, repetiam seus suspiros dolorosos. O veneno, tão frequentemente usado na França, também brincava sem cessar em sua imaginação, e as cenas mais terríveis passavam, uma após outra, diante de seus olhos. Desse modo a jovem era torturada sem descanso e entristecida até a morte.

Um suspiro surdo veio do leito.

Machteld enxugou depressa as lágrimas das faces e correu até o enfermo, tomada de aflita solicitude. Depois de verter a bebida na taça de prata, passou a mão direita sob a cabeça de Adolf e, erguendo-o um pouco, levou a taça à sua boca.

Os olhos do cavaleiro se abriram de todo e se fixaram com estranha expressão na jovem donzela. Gratidão e amor reinavam em seu olhar débil, e um sorriso inexprimível percorreu seu rosto pálido.

Quem visse Machteld naquele instante teria percebido que suas faces estavam coloridas pelos tons mais vivos. Ela não podia suportar o rosto de Adolf sem que o rubor da vergonha lhe subisse à fronte. Apesar de sua fria tristeza, seu coração batia tão violentamente, e o sangue corria com tanta força por suas veias, que de súbito ela voltou a ser a bela Machteld. Agora parecia uma formosa rosa, sobre cujas pétalas macias as gotas de orvalho brilham como diamantes ao sol da manhã; pois as lágrimas da jovem ainda rolavam sem cessar por suas faces ricamente coradas.

Desde que fora ferido, o cavaleiro ainda não falara de modo inteligível; até parecia não ouvir as palavras que lhe dirigiam. Mas isso não era verdade. Quando Machteld, nos primeiros dias de sua doença, lhe falava com ternura, dizendo: “Cure-se, meu pobre Adolf, meu querido Adolf, rezarei pelo senhor; pois sua morte me tornaria ainda mais infeliz na terra”, além de muitas outras frases que ela sussurrava sem suspeitar junto de seu leito, Adolf ouvira e compreendera tudo, embora lhe faltasse a força de falar.

Durante a noite passada, uma melhora notável se operara no estado de Adolf. A natureza, auxiliada pelas doces palavras de Machteld, concedera-lhe, depois de longa luta, um sono salutar e deixara que dele haurisse mais força e vida. O suspiro que lhe subiu do peito ao despertar foi mais alto e mais longo que todas as respirações que sua ferida até então lhe permitira.

Assim que Machteld retirou a taça de sua boca, ficou muito espantada, pois ele falou com voz fraca, mas clara:

— Ó nobre donzela! Ó meu anjo da guarda! Agradeço ao bom Deus por me ter conduzido tão perto do túmulo. Sou digno de seus cuidados, ó nobre senhora, para que sua mão ilustre sustente minha cabeça com tanta bondade? Seja bendita por cuidar de um pobre cavaleiro...

A jovem tremeu ao ouvir essas palavras. Faltou-lhe inteiramente a coragem, e talvez tal comoção lhe tivesse tirado a fala, se outros pensamentos tristes não a tivessem diminuído.

— Senhor Van Nieuwland — disse ela ao cavaleiro em voz suave —, o senhor arriscou a vida por meu pai e quase a perdeu; ama-o como eu o amo. Não me cabe então demonstrar-lhe minha gratidão e cuidar do senhor como de um irmão?

— Oh! Palavra bendita! — exclamou Adolf com toda a força que havia recuperado. — Seu irmão? Ó donzela, a senhora me cura com essa única palavra. Ainda que meu corpo estivesse todo trespassado, eu não poderia morrer agora que me chama de irmão. O que a senhora já não fez por mim, ó ilustre filha de meu senhor? Suas orações cantaram tão continuamente em meus ouvidos, sua voz consoladora fortaleceu tantas vezes meu coração. E, em meu doloroso torpor, pareceu-me que um anjo de Deus afastava a morte de meu leito: um anjo que me sustentava a cabeça, que saciava com compaixão minha sede ardente e me assegurava sem cessar que eu não morreria. Só esse anjo me salvou, pois minha alma gostava tanto de permanecer perto dele que certamente teria abandonado o corpo fraco se o anjo o tivesse abandonado.

Enquanto o cavaleiro dizia isso, fitava Machteld com olhos de amor. A jovem donzela já erguera duas vezes os olhos e tornara a baixá-los. Em seu coração, os sons da voz de Adolf ressoavam com uma força misteriosa; pois ela respirava depressa e parecia sofrer em violenta luta de alma.

— Senhor Adolf, cale-se, pelo amor de Deus — exclamou ela. — O senhor vai se fazer mal. Mestre Rogaert disse que não se deve falar em seu quarto. O anjo que o senhor viu era meu senhor São Miguel, a quem rezei para que viesse assisti-lo.

— Sim — respondeu Adolf —, creio que era um espírito do céu; mas agora essa visão bendita ainda não me deixou. A senhora, ó nobre Machteld, foi quem reteve minha alma. Ouvi sua voz: sua mão ergueu minha cabeça; a senhora me deu de beber e me consolou. Ah, a senhora não sabe que gratidão por si cresceu em meu coração! Que Deus me devolva um dia as horas de saúde, para que eu possa honrar sua alta bondade.

— Ai, meu Deus! — exclamou Machteld. — Repouse a cabeça, senhor, eu lhe peço; não fale mais, pois não devo ouvi-lo. Vou depressa chamar sua boa irmã Maria, para que ela se alegre comigo por sua melhora.

Ela deixou o cavaleiro e, alguns instantes depois, voltou ao quarto acompanhada por Maria. Fortalecida pela companhia da amiga, já não estava tão envergonhada; contudo, o rubor permaneceu em suas faces. A alegria que sentia pelo estado mais favorável de Adolf era visível, contra sua vontade, nos traços de seu rosto e em toda a sua atitude. Seus movimentos eram mais rápidos e inquietos: suas lágrimas já não corriam, e a ave fiel recebia de novo palavras mais alegres.

Assim que entrou no quarto com Maria, tomou o falcão da cadeira sobre a mão e aproximou-se com ele do leito de Adolf.

— Meu querido irmão — exclamou Maria, dando-lhe um beijo na face pálida —, você está se curando! Agora esses sonhos sombrios me deixarão. Ah, estou tão contente! Quantas vezes chorei junto de seu leito com amargo pesar, quantas vezes pensei que você ia morrer! Mas agora minha tristeza desaparece. Quer beber, meu irmão?

— Não, minha boa Maria — respondeu Adolf —, nunca sofri sede em minha doença; a generosa Machteld me deu de beber com tanto cuidado! Assim, na primeira vez em que puder ir a Sint-Kruis[46], minha oração chamará a bênção de Deus sobre ela, para que nenhuma desgraça jamais a toque.

Enquanto ele dizia isso, Machteld falava ao ouvido de seu falcão sobre a feliz melhora. A ave, vendo sua senhora tão alegre, sacudiu as penas como se tivesse de se preparar para a caça.

— Veja, minha ave fiel — exclamou a jovem, voltando a cabeça do falcão para Adolf —, veja, agora se cura o senhor Van Nieuwland, que vimos jazer tanto tempo sem fala. Agora poderemos conversar outra vez, e agora não ficaremos sempre assim no escuro. Agora nosso medo desaparece, e talvez nossas outras tristezas também desapareçam; pois agora você bem vê que Deus é bom e justo. Sim, meu belo falcão, assim também terminará um dia a amarga prisão de...

Nesse ponto Machteld sentiu que ia dizer algo que o cavaleiro enfermo não devia saber. Por mais depressa que interrompesse a fala, a palavra prisão soou muito estranha aos ouvidos de Adolf. As lágrimas que ele percebera nas faces da jovem ao despertar deram-lhe um pressentimento angustiado.

— Que diz a senhora, Machteld? — exclamou ele. — A prisão de quem? A senhora chora! Céu! Que lhe aconteceu?

Machteld não ousou responder; mas Maria, dotada de maior prudência, levou a boca ao ouvido dele e sussurrou:

— A prisão de Philippa, sua tia. Não fale mais disso com ela, pois ela chora continuamente. Agora que você está melhor, falarei daqui a pouco com você sobre assuntos importantes, se mestre Rogaert permitir; mas a jovem senhora não deve nos ouvir. Também espero mestre Rogaert. Agora fique quieto, meu irmão; levarei Machteld a outro quarto.

O cavaleiro pousou a cabeça no travesseiro e fingiu descansar. Então Maria voltou-se para Machteld e disse:

— Senhora, queira acompanhar-me; o senhor Adolf deseja dormir um pouco: sua gratidão pela senhora o faz falar demais.

Como a jovem nada desejava mais que deixar o quarto, pois já não ousava ficar sozinha com Adolf, seguiu de boa vontade a amiga.

Pouco depois, o cirurgião Rogaert veio à porta e foi conduzido por Maria até seu irmão.

— Pois bem, senhor Adolf — exclamou Rogaert, tomando-lhe a mão —, vai tudo bem, pelo que vejo. Agora, todo receio à parte: estamos salvos. Não é preciso ligar sua ferida neste momento. Beba bastante desta água e mantenha-se tão imóvel quanto puder. Em menos de um mês faremos juntos um passeio. Esta é minha estimativa; contudo, imprevistos podem nos atrasar. Como seu espírito não está tão enfermo quanto seu corpo, permito que a donzela Maria lhe conte o triste acontecimento; mas lhe peço, senhor Adolf, não se perturbe demais e permaneça sempre calmo.

Maria já havia aproximado duas cadeiras: sentou-se com mestre Rogaert junto à cabeceira. O cavaleiro enfermo os olhava com a maior curiosidade, e era visível em seu rosto que já se entristecia por antecipação.

— Deixe-me falar até o fim — começou Maria —, não interrompa minha fala e conserve-se firme, meu irmão. Na noite que lhe foi tão fatal, nosso conde reuniu seus senhores feudais fiéis e lhes declarou que queria viajar à França para lançar-se aos pés do rei Filipe, o Belo. Assim foi decidido, e Gwyde de Flandres partiu com os nobres para Compiègne; mas, ao chegarem lá, foram todos presos, e agora nossa terra está sob governo francês: Raoul de Nesle governa Flandres...[47]

A comoção que tomou o cavaleiro diante desse curto relato não foi tão violenta quanto se poderia esperar. Sem responder, parecia mergulhado em profunda reflexão.

— Não é uma desgraça? — perguntou Maria.

— Ó grande Deus! — clamou Adolf. — Que doce bem-aventurança reservas então para Gwyde, para que ele tenha de atravessar tantas provações neste mundo! Mas diga-me, Maria, o Leão de Flandres também está preso?

— Sim, meu irmão; o senhor Robrecht de Bethune está preso em Bourges, no Berry, e o senhor Willem em Rouen. De todos os nobres que estavam com o conde, apenas um escapou a esse triste destino, e esse não é outro senão o astuto Diederik.

— Agora compreendo a palavra interrompida e as lágrimas da infeliz Machteld. Sem pai, sem família, a filha dos condes de Flandres deve buscar amparo junto de estranhos! Como dói agora minha ferida, ó Deus; como é insuportável este leito! Meu caro amigo Rogaert, cure-me depressa, pelo amor de Deus, para que eu também faça algo por aquela que com tanto carinho velou por mim em minha doença. Não poupe dinheiro; use as ervas mais caras, as pedras mais nobres, para que eu possa sair da cama, pois agora não haverá repouso para mim!

— Mas, senhor Van Nieuwland — respondeu Rogaert —, não é possível apressar a cura de sua ferida: a natureza precisa de tempo para tornar a unir as partes machucadas. Paciência e repouso o ajudarão mais que ervas e pedras. Mas não é tudo o que queríamos lhe dizer. Saiba, então, que os franceses são senhores por toda parte e que se tornam cada vez mais audazes. Até aqui conseguimos ocultar a jovem Machteld do conhecimento deles; mas tememos que ela venha a ser descoberta, e é provável que a pobre donzela nobre também seja entregue a Joana de Navarra.

— Ó Deus! — bradou Adolf. — O senhor tem razão, mestre Rogaert, eles não a pouparão. Mas que faremos? Como sou infeliz, estendido aqui enquanto ela precisa de meu auxílio...

— Conheço um lugar — retomou Rogaert — onde Machteld estaria em segurança.

— Ah, o senhor me arranca do desespero! Diga depressa esse lugar.

— Não lhe parece, Adolf, que ela poderia viver com toda tranquilidade na terra de Gulik[48], junto de seu primo Willem?

O cavaleiro se assustou visivelmente com essa pergunta. Machteld procuraria refúgio em outro país e o deixaria! Esse pensamento apertou-lhe o coração com dor opressiva; ao mesmo tempo, ele reuniu todas as forças da alma para encontrar outro meio que não a afastasse tanto dele. Quando julgou tê-lo encontrado, uma doce expressão correu por seu rosto, e ele respondeu:

— Na verdade, mestre Rogaert, esse abrigo seria favorabilíssimo; mas, segundo o que o senhor disse, as tropas francesas estão espalhadas por toda a Flandres; portanto, parece-me muito perigoso que uma mulher empreenda essa viagem. Uma escolta não pode acompanhá-la, pois isso seria ainda pior. E eu deixaria a donzela Machteld partir sozinha com alguns criados? Ah, não! Devo guardá-la tanto quanto minha própria salvação, pois Robrecht de Bethune um dia me cobrará sua filha.

— Mas, senhor Adolf, permita-me dizer-lhe que o senhor expõe ainda mais a donzela se a mantém em Flandres. Pois quem a protegerá? O senhor não, não pode. Os senhores da cidade tampouco o farão, pois estão demasiado submetidos à França. Que seria então da pobre nobre senhora se fosse descoberta pelos franceses?

— Já encontrei seu protetor — respondeu Adolf. — Maria, quer mandar um criado ao deão dos tecelões de lã para que venha visitar-me? Mestre Rogaert, pretendo colocar nossa jovem nobre senhora sob a proteção da Comuna. Não acha que é uma boa inspiração?

— Sim, não é má ideia; mas o senhor não conseguirá, pois o povo está muito irritado com tudo o que se chama nobre: não querem ouvir falar disso. E, na verdade, senhor Adolf, eles não estão errados; pois a maioria dos nobres conspira com nossos inimigos e quer anular os direitos da comuna.

— Isso não pode me desviar de meu propósito, esteja certo, mestre Rogaert. Meu pai obteve por sua intercessão muitos privilégios para a cidade de Bruges; e o deão dos tecelões não esqueceu isso, nem seus companheiros. Se, contudo, meus esforços não tiverem êxito, procuraremos um meio seguro para fazer a donzela ser conduzida à terra de Gulik.

Depois de conversarem por mais de meia hora sobre esse assunto, mestre Deconinck, deão-mor dos tecelões de lã, entrou no quarto de Adolf.

Uma túnica de pano de lã pardo lhe caía do pescoço até os pés; essa vestimenta, sem ornamento nem debrum, diferia infinitamente das belas roupas dos nobres. Era visível que o deão dos tecelões rejeitara de propósito todo luxo, para mostrar sua condição humilde e assim opor orgulho a orgulho; pois aquela túnica de lã cobria o homem mais poderoso de Flandres. Na cabeça usava uma touca chata, sob a qual os cabelos lhe caíam meia medida sobre as orelhas. Um cinto prendia as largas pregas da túnica ao redor dos rins, e o cabo de uma faca de cruz brilhava a seu lado. Como havia perdido um olho, seus traços não eram muito agradáveis. Uma palidez excessiva, faces ossudas e rugas profundas na fronte davam a seu rosto um ar grave e pensativo. Em geral, nada se podia notar nele que o distinguisse dos outros; mas, assim que algo o inquietava ou interessava mais de perto, seu olhar tornava-se penetrante e vivo: então raios de inteligência e virilidade saíam do olho que lhe restava, e sua atitude se fazia orgulhosa e grande. Ao entrar, olhou como uma raposa desconfiada as pessoas que estavam no quarto, e em especial mestre Rogaert, pois percebeu nele mais astúcia que nos demais.

— Mestre Deconinck — disse Adolf —, faça o favor de se aproximar; tenho algo a lhe pedir, e o senhor não me recusará, se minha esperança no senhor tiver fundamento. Mas primeiro deve me prometer que não revelará a ninguém o segredo que vou lhe confiar.

— A justiça e os favores do senhor Van Nieuwland ainda não foram esquecidos entre os tecelões de lã — respondeu Deconinck —; por isso Vossa Nobreza pode contar comigo como com um servidor grato. Contudo, senhor, se seu pedido for contrário aos direitos do povo e da Comuna, eu lhe aconselharia guardar o segredo e nada me pedir.

— Desde quando — exclamou Adolf, um tanto ofendido —, desde quando, mestre, os senhores de Nieuwland diminuíram seus direitos? Essa linguagem me insulta!

— Perdoe-me, senhor, se minhas palavras o insultaram — respondeu o deão. — É tão difícil conhecer os bons entre os maus que se desconfia de todos com razão. Permita-me fazer-lhe uma pergunta, para que toda dúvida desapareça em mim: Vossa Nobreza é um leliar?

— Que o Senhor me castigue com uma doença incurável — exclamou Adolf —, não, mestre Deconinck; em mim bate um coração que não favorece em nada os franceses, pois o pedido que eu queria lhe fazer era justamente contra eles.

— Oh, fale então livremente, senhor; estou a seu serviço.

— Pois bem, o senhor sabe que nosso conde Gwyde está preso com todos os seus nobres; mas há alguém que permaneceu em Flandres e que, agora privada de todo auxílio e amparo, merece a compaixão dos flamengos por seu infortúnio e por sua ilustre linhagem.

— O senhor fala da donzela Machteld, filha do senhor de Bethune — interrompeu Deconinck.

— Como sabe disso? — perguntou Adolf, espantado.

— Sei ainda mais, senhor: o senhor não conseguiu trazer Machteld para sua casa tão secretamente que Deconinck não o soubesse, e ela não sairia daqui sem que eu o soubesse. Fique tranquilo, porém, pois posso assegurar a Vossa Nobreza que poucas pessoas em Bruges conhecem comigo esse segredo.

— O senhor é espantoso, mestre. Sua generosidade me assegura que protegeria essa jovem filha do Leão de Flandres contra a violência dos franceses, se fosse necessário.

Deconinck era um homem nascido do povo, mas uma dessas almas raras que, dotadas de entendimento e engenho, vêm ao mundo como condutoras de seus contemporâneos. Assim que os anos amadureceram suas capacidades, chamou seus irmãos para fora de seu torpor servil, fez-lhes compreender a força das uniões e ergueu-se com eles contra os tiranos. Estes quiseram reprimir pela violência esse despertar de seus antigos servos; mas foi-lhes impossível: Deconinck, por sua eloquência, fizera tão grandes os corações de seus irmãos que já não podiam suportar jugo algum. Quando, entretanto, eram às vezes esmagados pelas armas, todos curvavam obedientemente a cerviz, e Deconinck fingia por algum tempo que lhe faltavam a fala ou a razão; mas a raposa não dormia, pois, depois de retemperar em silêncio a coragem de seus irmãos, eles se lançavam todos juntos contra os dominadores, e a Comuna livrava-se sempre de suas cadeias. Todos os projetos políticos dos nobres se desfaziam em fumaça diante do engenho de Deconinck, e eles se viam, por meio dele, despojados de todos os direitos que tinham sobre o povo, sem poder impedir. Com verdade se pode dizer que Deconinck foi um dos maiores reformadores das relações políticas entre os nobres e as comunas; também os sonhos desse homem célebre consistiam unicamente no engrandecimento de um povo que jazera por tanto tempo na escura escravidão dos senhores feudais.

Quando Adolf van Nieuwland pôs a jovem Machteld sob sua proteção, ele sorriu de satisfação; pois aquilo era uma vitória para o povo que representava. Calculava as vantagens que a estada da ilustre donzela poderia trazer à execução do grande plano de libertação.

— Senhor Van Nieuwland — respondeu ele —, seu pedido muito me honra. Nada será poupado para guardar tão nobre rebento.

Querendo dar ainda mais autoridade à Comuna, acrescentou de propósito:

— É possível, entretanto, que ela seja levada daqui antes que eu possa acudir em seu auxílio.

Essa declaração desagradou muito a Adolf: ele entendeu pelas palavras do deão que este não queria dedicar-se de todo coração à causa, e retomou:

— Se o senhor não pode nos ajudar com atos, peço-lhe, mestre, que me aconselhe sobre o que se pode fazer de melhor para a proteção da filha de nosso senhor da terra.

— A corporação dos tecelões é forte o bastante para guardar a nobre senhora de todo mal — respondeu Deconinck com astúcia. — Posso assegurar-lhe que ela poderia viver aqui em Bruges tão segura quanto na Alemanha, se eu pudesse ser seu conselheiro.

— Mas quem o impede? — perguntou Adolf.

— Ah, senhor! A um simples homem de baixa condição não é dado governar sua senhora; contudo, se ela consentisse em agir segundo meu desejo, eu responderia por ela.

— Não entendo bem sua intenção, mestre. O que o senhor exigiria da donzela? Não quer levá-la a outro lugar, quer?

— Ah, não! Apenas que ela não saia à rua sem meu conhecimento, e que também não se recuse a sair quando eu julgar necessário. Além disso, o senhor terá plena liberdade para retirar de mim esse poder tão logo duvide da retidão de meus sentimentos.

Como Deconinck era tido em Flandres por um dos homens mais sábios, Adolf pensou que sua exigência se fundava na prudência, e portanto concedeu-lhe tudo o que pedia, com a condição de que ele respondesse pessoalmente pela donzela. O deão declarou então que não conhecia a nobre Machteld. Por isso, ela foi trazida ao quarto por Maria.

Deconinck inclinou-se profundamente e com muita humildade diante dela; enquanto isso, a jovem o olhava espantada, pois não sabia quem ele era. Enquanto ele se mantinha nessa postura diante dela, ouviu-se de repente grande barulho no corredor, como se duas pessoas estivessem discutindo.

— Espere! — gritou uma delas. — Que eu vá perguntar se o senhor pode entrar.

— Como? — gritou outra voz, mais forte. — Querem deixar os açougueiros de fora enquanto os tecelões estão aí? Depressa, saia do caminho, ou vai se arrepender!

A porta se abriu e um jovem de membros fortes e belas feições entrou no quarto. Uma túnica como a de Deconinck, mas ornada com mais gosto, era sua vestimenta, e uma grande faca de cruz pendia de seu cinto. No momento em que entrou no aposento, lançou os cabelos louros sobre os ombros e ficou parado, surpreso, junto à porta. Pensara encontrar o deão dos tecelões com alguns companheiros; mas agora, ao ver aquela magnífica donzela e Deconinck inclinado diante dela, não sabia o que imaginar.

Contudo, não se deixou perturbar por isso nem pelos olhares interrogativos de mestre Rogaert. Descobriu a cabeça, inclinou-se rapidamente diante de todos os presentes e foi direto até Deconinck. Batendo-lhe familiarmente no ombro, exclamou:

— Que diabo, mestre Pieter, já faz duas horas que o procuro. Corri a cidade inteira e em parte alguma pude encontrá-lo. Mas o senhor não sabe o que está acontecendo nem que notícia lhe trago!

— Pois bem, que sabe o senhor, mestre Breydel? — perguntou Deconinck com impaciência.

— Não me olhe tão fixo com esse olho cinzento, deão dos tecelões de lã! — gritou Jan Breydel. — Pois sabe muito bem que eu não tenho medo desse olhar de gato, mas tanto faz. Pois então, o rei Filipe, o Belo, e a maldita Joana de Navarra chegam amanhã a Bruges. E esses belos senhores do Magistrado pediram cem tecelões, quarenta açougueiros e sei lá quantas pessoas mais para fazer arcos triunfais, carros e palanques.

— E que significa isso de tão espantoso, para que o senhor corra até arrebentar?

— Como, deão, que significa? Mais do que o senhor pensa; pois não há um só açougueiro disposto a pôr mãos a essa obra, e há trezentos tecelões diante do Pand[49] esperando pelo senhor. Quanto a mim, que meus braços fiquem paralisados se eu fizer algo por isso. Os goedendags[50] estão prontos, as facas estão afiadas, e assim por diante. O senhor bem sabe, deão dos tecelões de lã, o que isso quer dizer em minha corporação.

Os presentes escutavam com curiosidade a fala solta do deão dos açougueiros. Sua voz era agradável e melodiosa, embora não tivesse o tom lânguido de mulher. Deconinck, julgando consigo mesmo que o propósito de Breydel era prejudicial, respondeu:

— Mestre Jan, saio com o senhor; deliberaremos entre nós as medidas necessárias. Mas primeiro deve reconhecer esta nobre senhora como filha do senhor Robrecht de Bethune.

Breydel, espantado, lançou-se de joelhos diante de Machteld, ergueu os olhos para ela e exclamou:

— Ó minha ilustre senhora! Perdoe-me as palavras irrefletidas que pronunciei sem saber diante da senhora. Que a nobre filha do Leão, nosso senhor, não as leve a mal a um homem de baixa condição.

— Levante-se, mestre — respondeu Machteld com bondade —, suas palavras não me ofenderam. O amor à pátria e o ódio a nossos inimigos as inspiraram ao senhor. Agradeço-lhe por sua fidelidade.

— Ó graciosa condessa — retomou Breydel, levantando-se —, Vossa Nobreza não pode acreditar quanta raiva tenho dos snakkers[51] e dos leliares. Se eu pudesse vingar o mal feito à Casa de Flandres, ah, se eu pudesse! Mas esse deão dos tecelões sempre me detém; talvez tenha razão, pois o que se adia não está perdido. Contudo, mal consigo me conter. Amanhã essa falsa rainha de Navarra entra em Bruges, mas que Deus me dê outros pensamentos, ou ela nunca mais verá sua odiosa França.

— Mestre — disse Machteld —, quer me prometer uma coisa?

— Eu prometer algo à senhora, nobre senhora? Como fala com bondade a seu indigno servidor! Um pensamento seu será para mim um mandamento sagrado, ó ilustre donzela!

— Pois desejo que não perturbe a paz enquanto seus novos príncipes estiverem aqui.

— Assim seja — respondeu Breydel com tristeza. — Eu teria preferido ouvir que Vossa Nobreza exigia meu braço e minha faca. Mas o que ainda não é, pode vir a ser.

Então dobrou mais uma vez um joelho diante da jovem Machteld e retomou:

— Peço, suplico, ó nobre filha do Leão, que não se esqueça de seu servidor Breydel se algum dia precisar de homens corajosos. A corporação dos açougueiros manterá seus goedendags e suas facas afiados para o seu serviço.

A jovem se assustou um pouco com aquela oferta sanguinária; mas os traços daquele que a fazia lhe agradavam muito.

— Mestre — respondeu ela —, tornarei conhecida sua fidelidade a meu senhor e pai, se Deus mo devolver. Só posso expressar-lhe minha gratidão.

Depois dessas palavras, o deão dos açougueiros levantou-se e puxou Deconinck pelo braço. Quando ambos deixaram o quarto e a casa de Nieuwland, as pessoas que ficaram ainda conversaram por muito tempo sobre aquela visita inesperada.

Estando os dois deões na rua, Deconinck começou:

— Mestre Jan, o senhor sabe que o Leão de Flandres sempre foi amigo do povo; por isso é nosso dever guardar sua filha como uma relíquia sagrada.

— Cale-se — respondeu Breydel —, o primeiro francês que olhar torto para ela conhecerá minha faca de cruz. Mas, mestre Pieter, não seria melhor fecharmos os portões e não deixarmos Joana entrar na cidade? Todos os açougueiros estão prontos: os goedendags estão atrás das portas e, ao primeiro chamado, os leliares vão para...

— Guarde-se de empreender algo violento — retomou Deconinck. — Receber com pompa seu senhor da terra é costume em toda parte; isso não pode desonrar a Comuna. É melhor conservar nossa força para tentativas mais importantes. A pátria está coberta de soldados franceses, e talvez nos mostremos insuficientes contra eles.

— Mas, mestre, isso já dura tanto. Melhor cortar o nó com uma boa faca do que trabalhar tanto tempo para desatá-lo. O senhor me entende bem!

— Ah, sim, mas não é boa ideia. A prudência, Breydel, é a faca mais poderosa; corta devagar, mas nunca perde o fio nem se quebra. Que pretende agora, fechar os portões? Nada se ganha com isso. Escute e guarde: deixe a tempestade passar um pouco em silêncio; deixe que os soldados partam em parte para a França; ceda um pouco aos franceses e aos leliares, para que relaxem a vigilância...

— Não — interrompeu Breydel —, isso não pode ser. Eles já começam a ficar tão arrogantes e tirânicos: roubam os camponeses do Vrije, violentam donzelas e mulheres, como se fôssemos seus escravos.

— Tanto melhor, mestre Jan, tanto melhor!

— Tanto melhor! Que quer dizer isso? Ora, mestre! Virou a túnica do avesso e quer usar sua astúcia de raposa para nos trair? Não sei, mas me parece que o senhor começa a cheirar bem ao Lírio. Que a peste o contamine, se isso for verdade!

— Não, não, meu amigo Jan; considere comigo que, quanto mais eles amarguram os ânimos, mais depressa se aproxima a libertação. Pois, se encobrissem seus atos e reinassem sob aparência de justiça, o povo adormeceria sob o jugo, e então o edifício de nossa liberdade ruiria para sempre. Saiba que a tirania dos senhores incuba, como mãe, a liberdade do povo. Contudo, se ousassem tocar nos privilégios de nossa cidade, eu seria o primeiro a exortá-lo à resistência; mas ainda não por violência aberta. Há outras armas que se podem empregar com mais segurança.

— Mestre — explodiu Jan Breydel —, eu o compreendo. O senhor sempre tem razão, como se suas palavras estivessem escritas em pergaminho. Mesmo assim me custa muito suportar esses franceses orgulhosos por tanto tempo; pois que Deus me castigue, antes sarraceno que valão![52] Mas o senhor diz muito bem: quanto mais um sapo se infla, mais depressa estoura. Tenho de reconhecer, contra a vontade, que a inteligência está entre os tecelões.

— Pois bem, mestre Breydel, assim também o destemor e o heroísmo vivem entre os açougueiros. Se unirmos sempre essas duas virtudes, prudência e coragem, os franceses não terão tempo de prender os grilhões aos nossos pés.

O deão dos açougueiros manifestou, com um sorriso aberto, sua alegria diante desse elogio.

— Sim — respondeu ele —, em minha corporação há homens valentes, mestre Pieter. E os valões hão de sabê-lo algum dia, quando a maçã amarga estiver madura. Mas, em boa hora! Como o senhor afastará do conhecimento dos reis a filha do Leão, nosso senhor?

— Vou deixá-la ser vista à luz do sol.

— Como assim, mestre? Deixar a donzela Machteld ser vista por Joana de Navarra? O senhor erra no juízo; creio que levou alguma pancada na cabeça.

— Não, nada disso. Amanhã, na entrada dos mestres estrangeiros, todos os tecelões estarão armados; o senhor conduzirá os açougueiros. Que poderão então os valões? Nada, o senhor sabe. Pois bem, colocarei a donzela Machteld à frente, para que Joana de Navarra a note bem. Ao mesmo tempo saberei o que a rainha traz no íntimo e o que devemos temer por Machteld.

— Justo, é isso, mestre Pieter. O senhor tem inteligência demais, ou que o diabo me carregue! Eu guardarei a filha do Leão e até desejaria que os franceses a insultassem, pois minhas mãos coçam terrivelmente. Mas hoje ainda preciso comprar algum gado vacum em Sijsele; portanto, o senhor fica de guarda pela jovem condessa.

— Agora fique calmo, meu amigo Jan, e não deixe o sangue ferver demais. Ali está o Pand da corporação dos tecelões.

Como Breydel dissera, havia incontáveis tecelões diante da porta. Todos tinham túnicas e toucas da mesma forma que as de seu deão. Aqui e ali havia um jovem companheiro, com cabelos mais longos e mais ornamentos nas roupas, mas isso não ia longe; pois não se tolerava muita vaidade na corporação.

Jan Breydel ainda trocou algumas palavras em voz baixa com Deconinck e deixou-o satisfeito.

Ao aproximar-se seu deão, os tecelões abriram alas e descobriram a cabeça respeitosamente. Entraram todos no Pand, seguindo seu mestre.
* * * * *

O Leão de Flandres

Sinopse

Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.

Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.

O Leão de Flandres

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Leão de Flandres

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Leão de Flandres

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Leão de Flandres Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 6 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir