Universo da obra
Universo da obra
Vejo, no florescer da juventude, meu prazer e minha esperança fugirem,
E, angustiada, luto com cuidados e tristeza.
Será meu destino, Deus, suspirar sempre, sempre?
Não ouves meu queixume?
MARIA DOOLAEGHE
Jan Breydel tinha-se estabelecido com seus setecentos açougueiros nas proximidades da cidade de Damme, a uma milha de Bruges. Três mil outros companheiros de todas as corporações de ofício haviam vindo colocar-se sob suas ordens; ele se achava, pois, à frente de uma tropa pequena em número, mas poderosa pela coragem e pela intrepidez, pois os corações desses homens ansiavam intimamente por liberdade e vingança. No bosque que o deão escolhera como lugar de acampamento, o solo, por uma extensão de um quarto de hora de caminho, estava coberto de choupanas de campanha.
Na manhã de dezoito de maio, pouco antes de De Chatillon entrar em Bruges, inúmeras fogueiras fumegavam diante das linhas regulares daquele acampamento. Contudo, via-se pouca gente junto às cabanas; havia ali mulheres e crianças em número suficiente, mas raramente aparecia um homem, e, quando aparecia, era uma sentinela. A certa distância do acampamento, atrás das árvores que estendiam seus ramos sobre as cabanas, havia uma clareira sem matagal que a embaraçasse e sem cabanas sobre o solo. Dali se ouvia um rumor vibrante de vozes misturadas, enquanto golpes surdos vinham de quando em quando dominar aquele murmúrio uniforme. A bigorna ressoava clara sob os martelos dos ferreiros, e as maiores árvores caíam com estrondo diante dos machados dos açougueiros. Longos pedaços de madeira eram torneados, alisados e munidos de uma ponta de ferro. Já se viam grandes montes desses goedendags ou lanças empilhados no chão. Outros companheiros entrelaçavam ramos de salgueiro para formar broquéis e os entregavam, um após outro, à corporação dos curtidores, para que fossem cobertos de couro de boi. Os carpinteiros fabricavam também toda sorte de pesadas máquinas de guerra para assaltar cidades, em especial springaldos e outros engenhos de arremesso.
Jan Breydel andava de um lado para outro e animava os companheiros com palavras alegres. Muitas vezes tomava ele mesmo o machado das mãos de seus açougueiros e então, para espanto deles, punha abaixo uma árvore em pouco tempo, com força prodigiosa.
À esquerda daquela clareira erguia-se uma tenda magnífica, de pano azul-celeste, com guarnições de prata. Na parte superior pendia um escudo no qual fora trabalhado um leão negro em campo de ouro; por esse brasão, podia-se adivinhar que ali morava uma pessoa de sangue condal. Era Machteld, que se colocara sob a proteção das corporações de ofício e estava acampada entre elas. Duas mulheres da ilustre casa de Renesse tinham vindo da Zelândia para lhe servir de damas de companhia e amigas; nada lhe faltava: o mais magnífico mobiliário e as roupas mais preciosas lhe haviam sido enviados pelo nobre zelandês. Duas longas fileiras de açougueiros, com machados reluzentes, postavam-se dos dois lados da tenda e serviam de guarda à jovem condessa.
O deão dos tecelões passeava de um lado para outro diante da entrada. Parecia mergulhado em profunda meditação, pois seus olhos estavam sempre voltados para o chão. Os guardas o observavam em silêncio e não ousavam falar, tamanho era o respeito que tinham pelo pensamento daquele homem que, para eles, era grande e nobre. Nessa reflexão, ocupava-se em formar um plano geral de acampamento. Para que não faltasse o necessário, ele próprio dividira todo o exército em três corpos: mandara acampar em Damme, sob o comando de Breydel, os açougueiros e os companheiros de diversas corporações; o capitão Lindens partira com dois mil tecelões para Sluis; e o próprio Deconinck permanecia com outros dois mil em Aardenburg. Mas aquela distância necessária entre as partes do exército lhe causava desgosto; ele preferiria reunir todos os bandos antes do retorno do senhor Gwyde. Por isso viera a Damme e já tratara do assunto com Jan Breydel. Agora esperava que lhe fosse permitido ver e saudar a filha de seu senhor.
Enquanto ainda ponderava o plano, caminhando, o cortinado da tenda foi puxado para o lado, e Machteld avançou devagar pelo tapete que ficava diante da entrada. Estava pálida e consumida; suas pernas enfraquecidas mal a sustentavam; vacilava nos poucos passos que dava e apoiava-se pesadamente no braço da jovem Adelheid de Renesse, que a acompanhava. Suas vestes eram ricas, mas sem ostentação; rejeitara todos os adornos e não trazia outra joia além da placa peitoral de ouro com o Leão Negro de Flandres.
Deconinck descobrira a cabeça diante de sua senhora e permanecia em atitude respeitosa. Machteld sorriu com expressão tocante; em suas faces se misturavam dor amarga e doce alegria, pois se alegrava por ver o deão. Com voz fraca, disse:
— Seja saudado, mestre Deconinck, nosso amigo! O senhor vê: não estou bem; meu peito enfermo respira com tanto esforço. Mas não posso ficar sempre assim em minha tenda; a tristeza me domina nessa morada estreita. Quero ver trabalhar os fiéis súditos de meu pai, se meus pés puderem levar-me até lá. O senhor me acompanhará; peço-lhe, mestre, responda às minhas perguntas; suas explicações aliviarão meu espírito doente. Não desejo que os guardas nos sigam. O ar puro da manhã me reanima muito!
Deconinck, acompanhando sua senhora, começou a entretê-la sobre muitas coisas; com seu engenho e sua eloquência habituais, sabia encontrar palavras consoladoras para ela, e assim afastou por um momento seus pensamentos negros. Chegando ao meio dos homens de ofício, a jovem nobre foi saudada por toda parte com jubilosos cumprimentos. Logo se tornou geral o brado:
— Salve! Salve a nobre filha do Leão!
O grito correu com longos ecos pelo bosque, e Machteld sentiu uma alegria pura diante dos sinais daquele amor ardente. Aproximou-se do deão dos açougueiros e disse cordialmente:
— Mestre Breydel, vi-o de longe; o senhor trabalha com mais ardor que o último de seus companheiros. Parece que esse trabalho lhe agrada.
Breydel respondeu:
— Minha senhora, estamos fazendo goedendags que devem libertar a Pátria e o Leão, nosso senhor. Regozijo-me muitíssimo com este trabalho, pois me parece que na ponta de cada goedendag que deixamos pronto já há um francês espetado. E não se admire, ilustre condessa, se golpeio estas árvores com tanto ardor: sonho que golpeio o inimigo, e essa vingança imaginária faz meu coração inchar de coragem!
Machteld admirava o jovem homem cujos olhares denunciavam o fogo heroico que seu coração continha em abundância; seu rosto trazia, como o de uma divindade grega, os sinais das doces paixões e dos ardores flamejantes. Ela olhava com agrado aqueles olhos em que a altivez viril cintilava sob longos cílios, e aqueles traços suaves que, como espelho de uma alma nobre, brilhavam com a expressão de um sacrifício desinteressado e de amor à Pátria. Com um sorriso afável, disse:
— Mestre Breydel, sua companhia me seria agradável, se lhe aprouvesse seguir-nos.
Jan Breydel atirou o machado ao chão, ajeitou sobre as orelhas as mechas louras de seus cabelos, pôs o gorro com mais graça sobre a cabeça e seguiu a jovem nobre cheio de orgulho. Machteld sussurrou em voz baixa a Deconinck:
— Se meu pai tivesse a seu serviço mil homens tão fiéis e destemidos, os franceses não ficariam muito tempo em Flandres.
Deconinck respondeu:
— Há apenas um flamengo igual a Breydel. Raramente a natureza faz nascer corações tão flamejantes em corpos tão poderosos, e isso é uma sábia disposição de Deus; do contrário, os homens, conscientes de suas forças, seriam orgulhosos demais, como aqueles gigantes da Antiguidade que queriam escalar o Céu...
Ele pretendia prosseguir em seu discurso, mas uma sentinela com broquel e espada veio correndo até eles, sem fôlego, e disse a Breydel, seu deão:
— Mestre, meus companheiros da guarda do acampamento me enviaram ao senhor para anunciar que, diante da porta de nossa cidade de Bruges, vê-se subir uma espessa nuvem de poeira da estrada, e que se ouve um rumor bramante, como o estrondo de um exército: a massa deixa a cidade e vem para nosso acampamento.
Breydel gritou com tamanha força que todos ouviram:
— Às armas! Às armas! Cada um se coloque em sua companhia! Depressa!
Os trabalhadores agarraram suas armas com ímpeto e correram desordenados uns entre os outros, mas isso durou apenas um instante. As companhias se formaram de súbito, e logo os companheiros estavam imóveis em suas fileiras cerradas. Breydel dispôs quinhentos homens escolhidos em torno da tenda de Machteld; a jovem nobre voltara às pressas para dentro dela. Uma carroça e alguns cavalos soltos foram trazidos para diante da tenda, e tudo foi preparado para uma retirada. Depois Breydel saiu do bosque com toda a pressa, acompanhado de seus demais homens, e pôs-se em ordem de batalha para receber o inimigo.
Logo perceberam que se haviam enganado, pois a massa que levantava poeira no ar avançava sem ordem: mulheres e crianças corriam em multidão, umas entre as outras. As mulheres faziam gestos lúgubres de lamentação ao redor de uma liteira conduzida por homens. Embora a causa de se armarem houvesse desaparecido, os homens de ofício permaneceram em suas fileiras; apoiavam-se nas armas e esperavam com curiosidade saber o que aquilo significava. Por fim, a massa chegou diante do acampamento. Enquanto muitas mulheres e crianças penetravam pelas fileiras para abraçar o marido ou o pai, uma cena terrível se abriu diante do centro das companhias.
Quatro homens trouxeram a padiola até pequena distância do deão dos açougueiros e colocaram no chão dois corpos de mulheres; as vestes delas estavam manchadas por longos rastros de sangue. Não se podia ver seus traços, pois havia um véu negro sobre suas cabeças. Enquanto os corpos eram retirados da padiola e postos no chão, as mulheres enchiam o ar de lamentos; de início, nada se podia distinguir além do dilacerante “Ai! Ai!”. Por fim, uma voz gritou:
— Os franceses as assassinaram cruelmente!
Esse grito levou fúria e desejo de vingança aos homens de ofício, que até então haviam esperado com assombro. Mas o deão Breydel voltou-se para eles e bradou:
— O primeiro que sair de sua fileira será severamente castigado!
Ele era torturado por uma inquietação dolorosa, como se um pressentimento da desgraça que o atingira lhe houvesse apertado o coração de antemão; com ímpeto, correu até os corpos estendidos no chão e arrancou o pano de seus rostos.
Mas, ó Deus! Que terrível foi para ele aquilo que seus olhos desgraçados viram! Nenhum suspiro lhe escapou do peito, nenhum membro se moveu nele, e ele permaneceu como se uma tempestade de sangue o houvesse golpeado. Ficou mais pálido que um cadáver, e os cabelos se lhe eriçaram na cabeça; mantinha os olhos fixos, rígidos e imóveis, nos olhos vidrados dos corpos mortos. Seus lábios tremiam, e dir-se-ia que chegara a hora de sua morte.
Naquele estado, permaneceu apenas alguns instantes; logo um sopro estertorante passou-lhe pela garganta. Desesperado, lançou-se para suas fileiras, ergueu ao mesmo tempo ambos os braços e gritou dolorosamente:
— Ó desgraça! Desgraça! Minha velha mãe... minha pobre irmã!
A essas palavras, atirou-se nos braços de Deconinck e, sem forças, ficou pendido contra o peito do amigo. Fitava ao redor com olhos alucinados e fazia seus companheiros tremerem de angústia e compaixão. Em sua fúria sombria, levou à boca o machado que trazia e mordeu-lhe o cabo como um insano, com tanta força que um pedaço de madeira lhe ficou entre os dentes; mas logo lhe tiraram aquela arma perigosa. Deconinck ordenou aos companheiros que voltassem em ordem ao trabalho, até que um comando os chamasse às armas. Embora preferissem tomar rápida vingança, não ousaram opor-se àquela ordem, pois lhes fora dado a conhecer que o deão dos tecelões de lã fora nomeado lugar-tenente geral pelo jovem Gwyde. Resmungando, voltaram ao bosque e retomaram o trabalho contra a vontade.
Quando os dois deãos chegaram à tenda de Breydel, o deão dos açougueiros sentou-se à mesa, abatido e exausto, e deixou a cabeça cair pesadamente. Não falava e olhava para Deconinck com um rosto estranho: um sorriso envenenado marcava seus traços; dir-se-ia que zombava da própria desgraça.
Deconinck lhe disse:
— Meu infeliz amigo, acalme-se, por amor de Deus.
Breydel repetiu:
— Acalmar-me! Acalmar-me! Não estou calmo? Já me viu tão tranquilo?
O deão dos tecelões retomou:
— Ó meu amigo, como é amarga a dor de sua alma! Vejo a morte em seu rosto. Consolá-lo eu não posso; sua desgraça é grande demais; não sei que bálsamo poderia curar tais feridas.
Breydel respondeu:
— Eu sei. O bálsamo que pode me curar é conhecido por mim, mas falta-me o poder. Ó minha pobre mãe! Eles mergulharam as mãos em seu sangue porque seu filho é flamengo; e esse filho, ó maldição, esse filho não pode vingá-la!
A expressão de seu rosto mudou com aquela exclamação: seus dentes se juntaram asperamente e rangeram; suas mãos agarraram as traves da mesa como se quisesse quebrá-la. Contudo, voltou a se acalmar, e seu rosto mostrou mais tristeza.
Deconinck disse:
— Agora, mestre, porte-se como homem. Vença também o desespero, esse inimigo da alma. Seja mais corajoso diante das dores amargas que hoje o ferem. O sangue de sua mãe será vingado.
O sorriso terrível voltou aos lábios de Breydel. Ele respondeu:
— Vingado! Como promete com leveza aquilo que não pode cumprir. Quem pode me vingar? O senhor não. Acredita que uma torrente de sangue francês baste para recomprar a vida de minha mãe? O sangue de um tirano devolve a vida às suas vítimas? Oh, não; elas estão mortas. E para sempre, para toda a eternidade, meu amigo! Sofrerei em silêncio e sem queixar-me; nada pode me consolar. Somos fracos demais, e nossos inimigos, poderosos demais.
Deconinck não respondeu às palavras de Breydel e parecia ponderar algo importante. Às vezes surgia em seu rosto uma expressão como se ele fizesse violência a si mesmo para esconder uma cólera interior. O deão dos açougueiros o observava com curiosidade, pensando que algo extraordinário se passava no peito de seu amigo profundo. A expressão colérica desapareceu do rosto de Deconinck; ele se levantou lentamente e disse:
— Nossos inimigos são poderosos demais, diz? Amanhã não dirá mais isso. Eles usaram a traição e a maldade em proveito próprio, e não temeram derramar sangue inocente, como se já não houvesse um Anjo da Vingança junto ao trono do Senhor. Não sabem que a vida de todos eles está em minhas mãos, e que posso esmagá-los como se a onipotência me tivesse sido concedida por Deus. Procuram seu poder na traição e na maldade infame. Pois bem, sua própria espada os aniquilará. Está dito!
Naquele momento, Deconinck parecia um profeta que pronuncia a maldição do Senhor sobre a criminosa Jerusalém; havia algo tão terrível no tom de sua voz que Breydel escutou a sentença dos inimigos com religioso respeito.
Deconinck prosseguiu:
— Espere um pouco. Mandarei chamar um dos recém-chegados, para sabermos como tudo aconteceu. Não se deixe arrebatar pelo relato dele. Prometo-lhe uma vingança que o próprio senhor não ousaria exigir, pois agora se chegou ao ponto em que a paciência se torna vergonha.
Um furor íntimo acendeu-lhe o rosto. Ele, que de ordinário era tão calmo, ardia agora em ira mais violenta que Breydel, embora isso ainda não se pudesse notar inteiramente em seu semblante. Depois de deixar a tenda por alguns instantes, voltou com um companheiro de ofício e fez com que ele narrasse, com todos os pormenores, os acontecimentos daquele dia em Bruges. Por ele souberam o número do novo exército de De Chatillon, a morte dos cidadãos enforcados e o terrível saque da cidade.
Breydel ouviu esse relato com frieza, pois todas aquelas maldades não lhe eram tão dolorosas quanto o assassinato daquela que o carregara no seio. Deconinck, ao contrário, tornava-se cada vez mais enfurecido à medida que a terrível cena se desenrolava. Para ele, as circunstâncias daquele relato eram muito tristes, mas não era assim que encarava a questão. Pátria e libertação eram os dois sentimentos capazes de incendiá-lo em tal paixão. Agora via que realmente chegara a hora e que era preciso começar sem demora; além disso, aquela execução cruel podia assustar os flamengos e tirar-lhes a coragem. Mandou embora o companheiro e apoiou silenciosamente a cabeça na mão, enquanto Breydel esperava com impaciência o que ele diria.
Deconinck aproximou-se de súbito de Breydel e bradou:
— Amigo, afie seu machado, expulse a tristeza do coração! Vamos quebrar as correntes da Pátria!
Breydel perguntou:
— Que quer dizer?
Deconinck respondeu:
— Escute: o lavrador espera que o frio da manhã reúna todas as lagartas num só ninho; então corta o ninho da árvore, põe-no sob o pé e esmaga de uma vez a bicharia. Entende isto?
Breydel gritou:
— Termine sua profecia. Ó meu amigo, um raio de luz dissipa meu sombrio desespero. Termine, termine!
— Pois bem, os franceses também se aninharam em nossa cidade pátria como bichos nocivos; também serão esmagados como se uma montanha lhes caísse em cima. Alegre-se, mestre Jan: estão condenados. A morte de sua mãe será paga com juros, e a Pátria se erguerá sem correntes desse banho de sangue.
Breydel deixou os olhos correrem impetuosamente pela tenda e procurou o machado; então se lembrou de que o haviam tirado dele. Tomou a mão de Deconinck com emoção e gritou:
— Meu amigo, muitas vezes me salvou, mas então me dava apenas a vida; agora recebo por seu intermédio a felicidade e a alegria. Diga-me depressa como realizaremos essa vingança, para que eu não duvide mais.
— Tenha um instante de paciência; logo ouvirá. Este plano devo expô-lo a todos os deãos. Mandarei chamá-los.
Saiu apressadamente da tenda, chamou uma sentinela e enviou-a ao bosque para convocar todos os chefes. Algum tempo depois, eles estavam em número de trinta, em círculo, fora da tenda. Deconinck falou-lhes deste modo:
— Companheiros, chegou a hora solene: devemos conquistar a liberdade ou a morte. Já carregamos por tempo bastante a mancha da vergonha sobre a fronte; é tempo de pedir aos inimigos contas pelo sangue de nossos irmãos. E, se tivermos de morrer pela Pátria, pensem, ó companheiros, que as correntes da escravidão caem à beira do túmulo e que, livres e sem desonra, dormiremos junto de nossos pais. Mas não: venceremos, eu sei. O Leão Negro de Flandres não pode perecer. Vejam se não temos o direito ao nosso lado. Os franceses saquearam nossa terra, encarceraram nosso conde e os nobres, a flor dos verdadeiros flamengos. Envenenaram Philippa, devastaram nossa cidade de Bruges e enforcaram em seu próprio chão os mais honrados de nossos irmãos. Os corpos ensanguentados da mãe e da irmã de nosso infeliz amigo Breydel repousam entre nós. Esses corpos, e os de todos aqueles que morreram pelas mãos dos tiranos estrangeiros, têm vozes que clamam por vingança em seus corações! Pois bem, enterrem no coração, como num túmulo, aquilo que lhes vou dizer. Os franceses hoje se cansaram numa obra má; dormirão profundamente. Mas que Deus me castigue com o fogo eterno se esse sono, para a maioria deles, não há de durar até o Juízo Final! Não digam nada aos seus companheiros, mas conduzam-nos amanhã, duas horas antes do nascer do sol, para trás de Sint-Kruis, no Eksterbos. Parto imediatamente para Aardenburg, a fim de preparar meus homens e mandar avisar o capitão Lindens, pois ainda hoje preciso estar em Bruges. Isso os surpreende, mas, ainda assim, hão de concordar comigo que há em Bruges um francês que não podemos matar: seu sangue recairia sobre nossas cabeças.
Muitas vozes responderam:
— O senhor De Mortenay!
Deconinck retomou:
— Esse cavaleiro sempre nos tratou com bondade; mostrou que as desgraças de nossa Pátria o tocavam. Muitas vezes conteve o abominável Jan van Gistel em suas perseguições cruéis e obteve graça para os condenados. Não podemos, portanto, tingir nossas armas com esse sangue nobre. É para impedir isso que quero ir hoje a Bruges, qualquer que seja o perigo.
Um dos deãos interveio:
— Mas como entraremos amanhã na cidade, se as portas estão fechadas antes do nascer do sol?
Deconinck respondeu:
— As portas serão abertas para nós. Não voltarei da cidade antes que a vingança esteja certa e infalível. Já lhes disse o bastante: amanhã, no lugar de reunião, darei ordens mais precisas; mantenham seus homens prontos. Vou partir com nossa jovem condessa; ela não deve ver esta cena de sangue.
Durante esse discurso, Breydel não dera o menor sinal de aprovação, mas uma alegria violenta brilhava em seu rosto. Assim que os deãos partiram, lançou-se ao pescoço de Deconinck e falou, enquanto duas lágrimas lhe corriam pelas faces:
— O senhor me despertou do desespero, meu querido amigo. Agora poderei chorar tranquilamente sobre os corpos de minha mãe e de minha irmã, e entregá-las à terra com sentimento piedoso. E depois, quando a sepultura se fechar sobre elas... Oh, que me restará então no mundo para amar?
A resposta foi:
— Sua Pátria e o engrandecimento dela!
— Sim, sim, Pátria e liberdade... e vingança! Pois agora, entende, meu amigo, agora eu choraria de despeito se os franceses deixassem nossa terra. Então meu machado não poderia mais fender cabeças, eu não poderia pisotear seus cadáveres como os cascos de seus cavalos pisotearam nossos irmãos. A liberdade sozinha eu rejeitaria; a vista do sangue correndo é a única coisa que ainda pode me agradar, agora que eles trespassaram o coração sob o qual recebi a vida. Parta depressa e vá com Deus, para que tudo dê certo, pois tenho sede da vingança prometida.
Deconinck deixou Breydel com estas palavras:
— Segredo e prudência, meu amigo!
Antes de deixar o acampamento, mandou preparar tudo para a partida da nobre Machteld e, depois de falar com ela por alguns instantes, montou um cavalo ligeiro e desapareceu na direção de Aardenburg.
Enquanto isso, os corpos da mãe e da irmã de Breydel haviam sido lavados e recompostos pelas mulheres. Primeiro tinham revestido por dentro uma tenda com pano negro; no meio dela, estenderam os dois corpos sobre um leito. Um pano fúnebre sombrio os cobria; apenas os rostos estavam descobertos. Ao redor daquele leito solene ardiam oito velas de cera amarela; um crucifixo com uma pia de água benta de prata e alguns ramos de palma ficava à cabeceira, enquanto mulheres chorosas sentavam-se ali perto, rezando em voz baixa.
Imediatamente depois da partida de Deconinck, Breydel foi ao bosque e ordenou que o trabalho cessasse; mandou todos os homens de ofício às tendas para descansar e anunciou-lhes que no dia seguinte deveriam partir antes do romper da luz. Depois de tomar ainda algumas providências para fazer as mulheres e as crianças permanecerem no acampamento, dirigiu-se à cabana onde jazia recomposto o corpo de sua mãe. Ao chegar, mandou as mulheres sair e fechou bem a porta.
Mais de um chefe veio à tenda para poder falar com o deão, fosse para pedir instruções, fosse para receber ordens. Mas, por mais que batessem, não obtiveram resposta alguma. No princípio, respeitaram a dor em que seu mestre sem dúvida estava mergulhado naquele instante; mas, quando já haviam esperado quatro horas diante da porta, sem que o menor ruído se tivesse feito ouvir na tenda mortuária, o medo os invadiu. Não ousavam exprimir seus pensamentos: estaria Breydel morto? Teria o machado, ou a dor, partido o fio de sua vida?
De repente, a porta se abriu, e Breydel apareceu diante deles sem parecer notar sua presença. Ninguém falou, pois os traços do deão tinham algo que apertava o coração com frio e tirava a fala. Ele estava pálido; seus olhares vagavam obstinados e loucos ao redor, e muitos perceberam que dois dedos de sua mão direita estavam tingidos de sangue. Ninguém ousou aproximar-se dele; a morte irradiava de seus olhos, e cada olhar entrava como uma seta na alma daqueles que o fitavam.
Esse sangue que lhe grudava nos dedos os fazia estremecer acima de tudo; uma terrível suspeita lhes permitia adivinhar onde o havia buscado. Decerto tocara a ferida da mãe; talvez tivesse sentido aquele coração que tanto o amara, e daqueles contatos terríveis extraíra a loucura que devia dar-lhe mais força e mais sede de vingança. Assim caminhou sem fala pelo bosque, até que a noite, envolvendo o acampamento em trevas, o ocultou dos olhos de seus companheiros.
Chegando a Aardenburg, Deconinck colocou seus dois mil tecelões sob o comando de um dos principais chefes e enviou um mensageiro com instruções ao capitão Lindens. Quando tomou todas as medidas necessárias para reunir em Sint-Kruis as forças das três divisões do exército, montou novamente a cavalo e seguiu diretamente para Bruges. Deixou seu cavalo ligeiro numa hospedaria e entrou a pé na cidade. Nada o deteve, pois já era noite adentro; as portas estavam abertas e não se viam outros soldados além da sentinela na muralha. Um repouso de morte, um silêncio assustador, reinava nas ruas pelas quais devia passar. Logo parou diante de uma casa modesta atrás da igreja de São Donaciano e pensou em bater; mas percebeu que aquela morada não tinha porta e que a entrada estava fechada por um comprido pano. Essa casa e seus aposentos deviam ser-lhe bem conhecidos, pois, erguendo o pano, entrou com ousadia na loja e logo passou a um pequeno quarto dos fundos, iluminado pela chama vacilante de uma lâmpada. Entre os móveis quebrados espalhados pelo chão, uma mulher sentava-se chorando junto a uma mesa; apertava contra o peito dois filhos pequenos e os beijava, suspirando, como se se considerasse feliz por ao menos aquela riqueza lhe ter restado. Mais adiante, num canto que apenas recebia em parte os raios pálidos da lâmpada, sentava-se um homem com a cabeça na mão e parecia dormir.
Com a aparição inesperada de Deconinck, a mulher assustou-se tanto que apertou ainda mais os filhos contra o peito e deu um grito alto para manifestar sua aflição. O homem levou às pressas a mão à faca curta, mas, reconhecendo seu deão, levantou-se e disse:
— Ó mestre, que encargo doloroso me impôs quando me ordenou ficar na cidade: só a graça de Deus nos salvou de uma morte inevitável. Nossas casas foram saqueadas, nossos irmãos enforcados e assassinados, e Deus sabe o que acontecerá amanhã. Oh, dê-me licença para ir para junto do senhor em Aardenburg, eu lhe suplico.
Deconinck não respondeu a esse pedido; chamou com um sinal do dedo o homem de ofício e foi com ele até a loja, onde reinava a maior escuridão. Então falou em voz baixa:
— Geeraert, quando deixei a cidade, mandei que permanecesse com outros trinta companheiros, para que pudessem descobrir os planos dos franceses. Escolhi-o para isso porque conheço sua coragem e seu puro amor à Pátria. Talvez a visão da morte de seus companheiros tenha enchido seu coração de medo. Se foi assim, permito que ainda hoje parta para Aardenburg.
Geeraert respondeu:
— Mestre, suas palavras me entristecem; não temo a morte de modo algum. Mas minha mulher, meus pobres filhos, ficam aqui expostos a todos os males. O medo e a aflição os adoecem; choram e rezam o dia inteiro, e a noite não lhes devolve forças. Se pudesse ver como estão pálidos! E eu, diante de todo esse sofrimento, de toda essa angústia, não haveria de misturar minhas lágrimas às deles? Sou, afinal, o pai e o protetor de todos eles. E não é só de mim que imploram o consolo que não lhes posso dar? Ó mestre, creia em mim: um pai sofre mais do que a mulher e os filhos podem sofrer. Contudo, eu lhe juro, estou pronto a esquecer tudo pela Pátria, sim, até meu próprio sangue; e, se puder me usar para alguma coisa, pode contar comigo. Fale, pois sinto que tem algo importante a me ordenar.
Deconinck tomou a mão do bravo Geeraert e a apertou com emoção. Pensou consigo: “Mais uma alma como a de Jan Breydel!”
Então exclamou:
— Geeraert, você é um digno companheiro; obrigado por sua fidelidade e sua coragem. Escute, pois tenho pouco tempo. Irá depressa aos seus companheiros para avisá-los: esta noite, em segredo, vocês se dirigirão ao Peperstraatje; você sozinho subirá à muralha entre as portas de Damme e de Kruis; deite-se rente ao chão e olhe na direção de Sint-Kruis. Assim que vir um fogo no campo, ataque com seus companheiros a guarda da porta; abra-a, e sete mil flamengos estarão diante dela.
— A porta estará aberta na hora marcada; não tema, eu lhe peço — respondeu Geeraert com frieza.
— Está dito?
— Está dito!
— Boa noite, então, meu valoroso amigo. Fique com Deus!
— E que Ele o acompanhe, mestre!
Deconinck deixou o homem de ofício voltar para junto da mulher e saiu da casa. Ao chegar à velha Halle, foi até uma magnífica morada; bateu, e a porta foi aberta.
— Que quer, flamengo? — perguntou o criado.
— Desejo falar com o senhor De Mortenay.
— Sim, mas não está armado? Pois gente como vocês não é de confiança.
— Que lhe importa isso? Vá e diga a seu mestre que Deconinck quer falar com ele.
— Ó Senhor, meu Deus! O senhor se chama Deconinck? Então vem certamente com uma má intenção...
A essas palavras, o criado correu apressadamente para cima e voltou depois de alguns instantes.
Suspirou:
— Pode subir. Faça o favor de me seguir.
Levou Deconinck escada acima até a entrada de um quarto. De Mortenay estava sentado junto a uma pequena mesa, sobre a qual seu elmo e sua espada repousavam ao lado das luvas de ferro. Olhou o deão com assombro; este inclinou-se diante do governador da cidade e disse:
— Senhor De Mortenay, vim até aqui confiando em sua honra, sabendo que não terei de me arrepender desta ousadia.
De Mortenay respondeu:
— De fato, voltará como veio.
Deconinck retomou:
— Sua magnanimidade tornou-se um provérbio entre nós. É também por causa dela, e para mostrar-lhe que nós, flamengos, estimamos um inimigo honrado, que vim a Vossa Senhoria. De Chatillon entregou hoje nossa cidade à fúria de seus soldados; mandou enforcar oito de nossos irmãos inocentes. Reconheça comigo, senhor De Mortenay, que é nosso dever vingar a morte deles, pois que podia o governador imputar-lhes, senão que não quiseram curvar-se a suas ordens tirânicas?
— O súdito deve obedecer a seu senhor; por mais severo que seja o castigo, não lhe é permitido julgar os atos de seus superiores.
— Tem razão, senhor De Mortenay. Assim se fala na França, e, como Vossa Senhoria é súdito natural do rei Philippe le Bel, convém-lhe cumprir suas ordens. Mas nós somos flamengos livres e não podemos suportar por mais tempo essas correntes vergonhosas. Agora que o governador levou a crueldade tão longe, asseguro-lhe que em breve correrão torrentes de sangue; e, se a sorte nos fosse desfavorável e os senhores alcançassem a vitória, restariam a vocês poucos escravos, pois queremos morrer. Contudo, seja como for, e esta é a causa de minha vinda, aconteça o que acontecer, nenhum fio de cabelo de sua cabeça será tocado por nós. A casa em que estiver será sagrada para nós; nenhum flamengo porá o pé além da soleira de sua morada. Receba minha palavra de honra.
— Agradeço aos flamengos o afeto que me dedicam — respondeu De Mortenay —, mas recuso a proteção que me oferece e jamais farei uso dela. Se algo assim realmente acontecesse, eu estaria sob a bandeira do governador, e não em minha casa; e, se eu morrer, será com a espada no punho. Mas não creio que as coisas cheguem a esse ponto, pois as revoltas logo serão sufocadas. Quanto ao senhor, deão, deixe o país depressa; aconselho-o como amigo.
— Não, senhor, não deixo minha terra: os ossos de meus pais repousam nesse chão. Peço-lhe, considere que todas as coisas são possíveis e que o sangue francês pode ser derramado por nós; nesse caso, poderá recordar minhas palavras. Era tudo o que eu tinha a dizer a Vossa Senhoria. Desejo-lhe adeus; que Deus o tome sob sua guarda!
De Mortenay meditou com mais atenção sobre as palavras do deão e descobriu, para sua grande tristeza, que um segredo terrível se escondia sob elas; decidiu, portanto, incitar De Chatillon à vigilância no dia seguinte e ordenar ele próprio algumas medidas para a segurança da cidade. Não pensando que aquilo que temia devesse acontecer tão depressa, deitou-se e dormiu tranquilo.
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
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