Universo da obra
Universo da obra
_Seu peito estava apertado, a cabeça inclinada;
O entusiasmo já não brilhava em seus olhos,
Tão cavados pelo definhamento e pelo tempo;
O sinal de uma sombria luta da alma
Marcava o rosto jovem e delicadamente traçado._
JOH. ALF. DE LAET
Meses já haviam passado desde a rendição da cidade de Bruges. De Chatillon nomeara o senhor De Mortenay governador da cidade e voltara a Kortrijk, pois não confiava bastante nos habitantes de Bruges para morar dentro de seus muros. Os soldados que deixara na cidade conquistada cometiam toda sorte de crimes e atormentavam os burgueses de modo cruel. Avessos a essa opressão, os mercadores estrangeiros voltaram em sua maior parte para a terra natal, e o comércio de Bruges decaía mais e mais a cada dia[69]. Os artesãos viam com dor e íntimo desejo de vingança a ruína de sua prosperidade; contudo, as medidas tomadas pelos franceses eram, naquele momento, severas o bastante para conter-lhes a cólera. Grande parte das fortificações fora arrasada, e construía-se um castelo forte para dominar e subjugar a cidade.
Para grande espanto de seus concidadãos, Deconinck deixava tudo isso acontecer sem resistência e caminhava tranquilo, quase indiferente, pelas ruas. Nas assembleias dos tecelões, predizia a libertação da Pátria e assim mantinha aquecidos os corações de seus irmãos, cheios de nobre esperança.
Breydel já não parecia o mesmo: uma meditação sombria envelhecera seus traços juvenis, e suas sobrancelhas haviam caído sobre os cílios. A cabeça altiva do bravo flamengo pendia inclinada, como se uma carga dolorosa a tivesse abatido. Ah! A submissão e a visão dos franceses arrogantes eram uma víbora enroscada em seu coração, ferindo-o cruelmente. Para ele já não havia alegria nem prazer: raramente saía de casa, pois a Bruges vencida era agora uma prisão cujo ar o sufocava. Essa dor nobre e magnânima não o deixava um só instante, e seus irmãos não conseguiam consolá-lo nem movê-lo por coisa alguma. Nos olhos dos franceses, lia-se para ele, como uma censura, a palavra ultrajante: “Escravo!”
Certa manhã, estava muito cedo em sua loja e, continuando as cismas da noite, apoiava a mão esquerda em um cepo de talhar; seus olhares incertos vagavam pelos pedaços de carne que pendiam da parede, mas ele não os via, pois sua alma estava mergulhada em outros pensamentos. Depois de permanecer assim imóvel por longo tempo, sua mão direita, sem que ele o quisesse, envolveu o cabo de um machado de açougueiro, muito maior que os outros, e que parecia destinado a uso especial; assim que o aço reluzente lhe caiu sob os olhos, passou um sorriso incompreensível por seus traços amargurados, e ele ficou por muito tempo fitando o instrumento de morte.
De súbito, seu rosto tornou-se sombrio: com furiosa irritação, lançou o machado ao chão e pôs o pé sobre ele.
— Vá! — gritou. — Um escravo não precisa de arma!
E então deixou a mão cair de novo sobre o cepo.
Nesse momento, a porta da loja se abriu, e Breydel espantou-se muito ao reconhecer Deconinck.
— Desejo-lhe bom dia, mestre — disse ele. — Que triste notícia me traz tão cedo?
— Meu amigo Jan — respondeu Deconinck —, não lhe pergunto por que está tão triste: conheço sua alma generosa. O pensamento da escravidão o faz morrer; vejo isso bem.
— Cale-se, mestre, cale-se sobre isso, pois me parece que as paredes de minha casa repetem essa palavra zombeteira. Ó meu amigo, se eu tivesse morrido sobre os muros de nossa cidade, teria poupado a mim mesmo tão amarga dor! Quantos franceses inimigos teriam então encontrado o túmulo junto de mim! Mas esses dias gloriosos passaram...
Deconinck fitava com comoção o deão dos açougueiros; por seu próprio sofrimento, compreendia como aquela dor devia ser mortal para uma alma como a de Breydel, e respondeu:
— Console-se, meu generoso amigo, e pense que o fogo adormecido sob a cinza não se apaga. Um dia esses tempos gloriosos voltarão: o ar nebuloso da escravidão clareia, e o sol da liberdade já nos enviou alguns de seus raios. Você não compreende isso, mas pode acreditar em mim: aproxima-se a hora da libertação. Hoje ainda não estamos bastante oprimidos. As mãos da escravidão devem apertar mais dolorosamente, para que os próprios covardes rompam os elos da corrente. E então, meu bravo irmão, então nossa querida cidade natal erguerá de novo o Leão Negro de Flandres acima dos povos...
Breydel contemplou o deão dos tecelões durante essas palavras com uma expressão singular: um sorriso de felicidade e esperança iluminou seu rosto, e, como se o peito comprimido quisesse aliviar-se, um longo suspiro saiu-lhe do peito. Tomou a mão de Deconinck, levou-a ao coração e disse:
— Só você, ó amigo, me conhece; só você pode tocar e consolar minha alma.
— Mas, mestre Jan — retomou Deconinck —, minha visita tem outro fim. Você sabe que prometemos proteger a jovem Machteld?
— Ó maldição! — gritou Breydel com impetuosidade. Um pressentimento angustioso tingiu suas faces com o fogo da ira, e ele suspirou: — Meu amigo, que notícia terrível, que notícia infame?
— Os franceses raptaram e levaram a filha de nosso senhor! — foi a resposta.
O açougueiro deu um passo à frente, ergueu o machado do chão e o apertou no punho com cólera ardente. Seus lábios se moviam, mas nenhuma palavra saía de sua boca; enfim, duas lágrimas brilhantes rolaram-lhe pelas faces, lágrimas de furor e vingança.
— Ó Leão de Flandres! — rompeu ele. — Assim tratam seus filhos. E eu tolerarei isso? Não, por minha salvação, não. Acabou, Deconinck, acabou. Não escuto nada. Hoje preciso ver sangue, muito sangue, ou morro!
— Acalme-se, meu amigo — respondeu Deconinck. — Acalme-se e use a razão, pois sua vida pertence à Pátria, e você não pode arriscá-la inutilmente.
— Não quero ouvir nada — retomou Jan Breydel. — Agradeço seu sábio conselho, mas não vou nem posso segui-lo; poupe suas palavras, elas são inúteis.
— Mas, mestre Jan, não se deixe arrebatar assim. Sozinho, você não pode expulsar os franceses, pode?
— Isso não importa. Não penso tão longe. Vingança pela filha do Leão, e depois a morte. Ah, agora sou feliz! Meu espírito se soltou, meu coração volta a bater tão forte e vigoroso! Mas vou me acalmar; diga-me então o que mais sabe desse acontecimento.
— Ah, não muito! Esta manhã, fui acordado muito cedo para receber uma criada do senhor Van Nieuwland. Por ela soube que a nobre Machteld fora levada durante a noite e que o traidor Brakels servira de guia aos franceses.
— Brakels? — gritou Breydel. — Mais um para meu machado. Ele não servirá mais aos franceses!
— Para onde levaram a donzela, não sei. Apenas se poderia suspeitar do castelo de Male, pois a criada ouviu esse nome duas vezes na boca dos soldados. Você vê bem, Breydel, que seria melhor esperar informações mais precisas do que agir tão irrefletidamente; além disso, é quase certo que a nobre dama já foi levada para a França.
— Você bate à porta de um surdo, meu amigo — gritou Breydel. — Digo-lhe, em verdade, que nada pode me mover. Quero sair e sairei. Perdoe-me por deixá-lo neste instante.
Escondeu o machado sob a cota e voltou-se, apressado, para a porta; mas Deconinck, com movimento ainda mais rápido, colocara-se diante dele, impedindo-lhe assim a saída. Como um tigre caído numa armadilha, Breydel lançou olhares fugidios pela loja e pareceu procurar uma passagem. Seu corpo inclinou-se para a frente e seus membros se retesaram, como se se preparasse para saltar contra os obstáculos de sua fuga.
— Abandone esses esforços inúteis — disse-lhe Deconinck. — Garanto que você não sairá com esse machado. Você me é amigo demasiado caro, e considero dever meu guardá-lo da desgraça.
— Deixe-me passar, ó mestre Pieter — gritou o deão dos açougueiros. — Eu lhe suplico, deixe-me sair. Você me tortura sem piedade.
— Não, nisto sou inflexível. Pensa que é senhor de si, que pode arriscar a vida conforme a vontade? Ah, não, mestre; Deus o dotou de uma alma maior e alimentou em você membros mais poderosos para fazê-lo viver como baluarte da liberdade comum. Lembre-se dessa alta missão, mestre, e não desperdice seus dons em vinganças inúteis.
Enquanto Deconinck falava assim, a violência do açougueiro se acalmou. Sua atitude ficou tranquila, e poder-se-ia pensar que ele se deixara convencer pela sábia razão do amigo. Isso não era fingimento, mas também não era a verdadeira expressão de seus sentimentos. Ele oscilava entre o desejo de vingança e a calma, sem conseguir apaziguar-se interiormente.
— Você tem razão, meu amigo — disse ele. — Deixo-me levar com facilidade demais; mas você sabe: há ardores a cujos impulsos não se pode resistir. Pendurarei de novo minha arma ali na parede; agora você há de me deixar sair, pois ainda hoje preciso ir a Torhout buscar gado.
— Agora não vou mais retê-lo, embora saiba que hoje você não irá a Torhout.
— Certamente, mestre; não tenho mais gado em meus estábulos, e preciso providenciá-lo antes da noite.
— Você não pode me enganar, mestre Jan: conheço-o há muito tempo. Por suas pupilas vejo o fundo de sua alma; você vai direto para Male.
— Você é um feiticeiro, mestre Pieter, pois, assim Deus me ajude, conhece meus pensamentos melhor que eu mesmo. Sim, vou a Male; mas lhe garanto que é apenas para saber da infeliz filha de nosso senhor. Prometo adiar a vingança para um dia mais favorável.
Os dois deões saíram juntos pela porta e separaram-se depois de ainda conversarem algum tempo na rua. Após meia hora de caminhada, Breydel chegou à aldeia de Male.
O senhorio de Male fica a curta milha de Bruges[70]. No ano de nossa narrativa, compunha-se de umas trinta cabanas de palha, construídas aqui e ali dentro da jurisdição do castelo feudal. Entre as florestas impenetráveis que cercavam a aldeia, o trabalho abrira os campos mais férteis. Como a terra, naquela região, parecia agradecida a seus habitantes e os recompensava com rica colheita, facilmente se poderia pensar que os camponeses de Male viviam em fartura. E, no entanto, a roupa e todo o aspecto dos moradores traziam o sinal da necessidade. Escravidão e domínio opressivo eram as fontes de sua pobreza: o suor de seus rostos não corria para eles nem para suas famílias. Tudo era para o senhor feudal, seu mestre; e consideravam-se felizes quando, após entregar os tributos e prestações feudais, ainda lhes restava o bastante para alimentar os membros durante o ano de pesado trabalho.
A pouca distância do castelo havia uma praça quadrada, em torno da qual algumas casas de pedra se erguiam mais próximas umas das outras; no centro, uma coluna de pedra levantava-se como uma agulha, e nela havia uma corrente com coleira de ferro. Era o sinal da justiça condal, o pelourinho comum ao qual se expunham os criminosos. De um lado, erguia-se uma pequena capela, e o cemitério avançava seus muros alguns passos sobre a praça.
Junto a ela ficava uma casa bastante alta, a única venda ou taverna onde se vendiam vinho e cerveja em Male. O nome dessa hospedaria estava talhado acima da porta, mas de modo tão grosseiro e inábil que seria difícil reconhecer São Martinho naquele quadro de pedra. O térreo, ou aposento inferior, era tão largo quanto as paredes exteriores permitiam. Uma lareira ampla, de fato disforme, que avançava alguns pés com sua laje, ocupava o fundo da sala e não deixava outro espaço senão um cantinho de cada lado, onde sementes e raízes de plantas pendiam para secar. As outras paredes, caiadas de branco, estavam carregadas de toda sorte de utensílios de madeira e estanho; um machado de guerra e algumas facas grandes em bainhas de couro pendiam em um lugar próprio. A fumaça que subia continuamente da lareira para a sala manchara as vigas do andar superior com uma cor triste; um tom tão baço e tão marrom quanto a própria escuridão se espalhava por toda parte e dava àquele lugar um aspecto que fazia estremecer. Embora o sol brilhasse intensamente, a luz ali dentro era incerta, pois as janelas, de construção meio românica, meio gótica, elevavam-se a quase sete pés acima do chão e eram formadas por pequenos vidros. Pesadas cadeiras e mesas ainda mais pesadas estavam aqui e ali pela sala.
A taberneira corria de um lado para outro para servir e encher as taças das numerosas pessoas que naquele momento se entretinham bebendo. As taças ou copos de estanho não paravam, e os gritos alegres dos hóspedes misturavam-se em um zumbido confuso do qual nada se podia compreender. Junto à lareira, percebia-se pelos sons viris e marcados que se falava flamengo, enquanto na sala tons mais afeminados e sibilantes denunciavam a língua francesa. Entre os que se expressavam nessa língua estrangeira e pertenciam à guarnição do castelo, havia um chamado Leroux, que punha mais força em suas palavras e falava aos companheiros como um superior; contudo, era apenas soldado como eles, mas seus membros extraordinariamente fortes e a força que lhe era própria haviam-lhe dado essa superioridade.
Enquanto os soldados franceses esvaziavam suas taças entre exclamações alegres, outro soldado entrou na taverna e lhes disse:
— Ah, ora! Camaradas, trago boas notícias. Vamos deixar esta maldita terra de Flandres, e talvez amanhã já vejamos de novo a nossa bela França!
Os soldados se admiraram dessa fala e voltaram para o mensageiro olhos cheios de pergunta duvidosa.
— Sim — retomou ele —, partimos amanhã com a bela nobre dama que esta noite veio nos visitar em hora tão imprópria.
— É verdade o que você diz? — perguntou Leroux.
— Por minha fé, camaradas! Nosso senhor De Saint-Pol me enviou para avisá-los.
— Pois então desejo a nobre dama e você na forca de Montfaucon! — gritou Leroux.
— Veja só, por que essa notícia o irrita? Não volta de bom grado para a França?
— Não, pelo diabo! Aqui saboreamos os frutos da vitória, e não me agradaria abandoná-los tão cedo.
— Oh, não se aflija tanto; voltaremos dentro de poucos dias. Precisamos apenas acompanhar nosso senhor De Saint-Pol até Lille.
No momento em que Leroux ia responder, a porta se abriu, e um flamengo entrou na taverna. Olhou os franceses com audácia despreocupada, sentou-se sozinho a uma mesa e gritou:
— Ei, taverneiro! Uma caneca de cerveja. Depressa, pois tenho pressa!
— Agora mesmo, mestre Breydel — foi a resposta.
— Este é um belo flamengo — murmurou um soldado ao ouvido de Leroux. — Não é tão alto quanto você, mas que corpo poderoso, e que voz! Este não é um camponês, por minha alma!
— De fato — respondeu Leroux —, é um belo sujeito. Tem olhos de leão. Sinto-me inclinado à amizade por ele.
— Que diabo! — gritou Jan Breydel, levantando-se. — Onde está você, hospedeiro? Minha garganta arde terrivelmente.
— Diga, flamengo — perguntou Leroux —, você sabe francês?
— Mais do que me agrada — respondeu Breydel na mesma língua.
— Pois bem, já que vejo que está impaciente e com sede, ofereço-lhe minha taça. Beba! Espero que lhe faça bem.
Breydel tomou a taça da mão do soldado com um sinal de agradecimento e disse, enquanto a levava aos lábios:
— À sua saúde e à sua sorte na guerra!
Contudo, assim que algumas gotas de vinho lhe subiram à boca, pôs o copo sobre a mesa com repugnância.
— Que diabo, você se assusta com a nobre bebida? Os flamengos não estão acostumados a isto — gritou Leroux, rindo.
— É vinho francês! — respondeu Breydel, tão indiferente como se aquele mau gosto fosse uma sensação natural.
Os soldados olharam uns para os outros com espanto, e um despeito visível moveu as faces de Leroux. A expressão fria do rosto de Breydel, porém, causara-lhe tamanha impressão que ele deixou o flamengo voltar ao seu banco sem dizer mais nada. Enquanto isso, o taverneiro trouxera a cerveja pedida, e o deão dos açougueiros bebeu várias vezes sem prestar atenção aos franceses.
— Pois então, camaradas — gritou Leroux, erguendo o copo —, bebamos mais uma vez com vontade, para que não se diga que partimos de garganta seca. À saúde da bela nobre dama, enquanto esperamos que o fogo a queime!
Jan Breydel conteve-se ao ouvir essa palavra, pois um movimento repentino se passara nele, e seus olhos se fixaram com desprezo nos soldados, embora eles não o tivessem notado.
— É um bocado de rei — disse um francês, zombando —, pois, por minha vida, nunca vi mulher tão bela. Eu daria meu punho direito por uma noiva assim!
— Espere um pouco — respondeu Leroux —, em Bruges ainda há outras iguais. Os partidários do Leão começam de novo a resmungar e a se amotinar; isso é bom sinal para nós, pois depois da tempestade as mulheres não caem em nossa presa?
Breydel rangeu os dentes de ira íntima; mas ainda não havia esquecido sua promessa nem as palavras de Deconinck. Escutou com mais atenção quando Leroux disse estas palavras:
— É um bocado de rei, você diz! Não creio; ela é tratada com cortesia demais. Eu antes acreditaria que seja mulher de algum poderoso rebelde e que será levada para a França junto dos outros.
O deão dos açougueiros levantara-se do banco e, para esconder a comoção, andava pela sala com descuido, cantando entre dentes, em voz baixa, algumas palavras de uma canção popular que dizia assim:
Não vedes o Leão Negro erguer-se,
Tão altivo no soberbo campo de ouro?
Não vedes suas fortes garras gigantes,
Cujo só golpe derruba o inimigo?
Não vedes seus olhos sangrentos arderem?
Não vedes sua juba larga e revolta?
Esse leão é nosso Leão de Flandres,
Que, mesmo em repouso, desafia o mundo[71].
Assim que os franceses ouviram aqueles tons, ergueram ao mesmo tempo a cabeça e pareceram extremamente espantados.
— Escutem — disse um deles —, este é o canto dos partidários do Leão. Que diabo, esse flamengo ousa cantá-lo diante de nós?
Embora Jan Breydel tivesse ouvido essas palavras, não deixou de continuar o canto; ao contrário, ergueu a voz como se quisesse desafiar os franceses:
Ele cravou as garras no Oriente,
E o exército do Oriente fugiu, trêmulo;
Seu olhar destruiu as meias-luas
Do indômito sarraceno.
Depois voltou para o Ocidente
E deu, como prêmio da bravura,
Aos mais destemidos de seus filhos
Um trono de rei ou de imperador[72].
— Mas o que significa esse canto que eles têm eternamente na boca? — perguntou Leroux a um flamengo do castelo que estava sentado junto dele.
— Bem, ele diz que o Leão Negro de Flandres cravou suas garras nas meias-luas dos sarracenos e que fez do conde Balduíno um imperador.
— Escute aqui, flamengo! — gritou Leroux a Breydel. — Você deve confessar que esse terrível Leão Negro teve de fugir diante da bandeira de lírios de nosso poderoso soberano, Philippe le Bel, e agora está morto para sempre.
Mestre Jan sorriu com desprezo zombeteiro e respondeu:
— Ainda há um refrão na canção; ouça:
Ele dorme agora. Que o rei dos valões
O aperte em grilhões de ferro;
Que mande livremente seus bandos de ladrões
Sobre a Pátria dos leões...
Pois, se o Leão desperta, ladrões,
Sereis todos rasgados por sua garra;
Então vosso soberbo lírio branco
Será por ele manchado de sangue e lama.
Pergunte agora o que isto significa!
Depois de mandar explicar o sentido dessas palavras, Leroux lançou o banco para trás com fúria; encheu a taça até a borda e gritou:
— Que eu beba a morte com este gole de vinho se não lhe quebrar o pescoço caso diga mais uma palavra!
Jan Breydel riu com escárnio dessa ameaça e respondeu:
— Não jure assim, pois você faz a conta sem o hospedeiro. Pensa que vou me calar por sua causa? Nem por todos os valões do mundo eu guardaria uma só palavra no peito! E veja, para provar isso, bebo em honra do Leão; e desafio os franceses, ouviu?
— Camaradas — disse Leroux, trêmulo de raiva —, deixem-me sozinho com o flamengo; ele morrerá por minhas mãos.
Enquanto dizia essas palavras, aproximou-se de Breydel e gritou:
— Você mente, e viva o Lírio!
— Você é que mente, e honra ao Leão Negro de Flandres! — gritou Breydel contra ele.
— Pois venha — retomou o francês. — Você é forte; quero provar-lhe que o Lírio não deve ceder a nenhum Leão. Lutaremos até a morte.
— Está entendido — respondeu Jan Breydel. — Vamos tratar de fazê-lo depressa. Alegra-me ter encontrado um inimigo corajoso; isso vale o esforço.
Já estavam fora da taverna quando disseram essas palavras, e avançaram praguejando entre as árvores. Quando encontraram um lugar adequado, recuaram alguns passos cada um e prepararam-se para uma luta terrível. Breydel lançou sua faca ao chão e arregaçou as mangas da cota até os ombros: seus braços musculosos espantaram os soldados que estavam de lado para ver o combate. Como Breydel não tinha outra arma senão um punhal de cruz, Leroux atirou longe a espada e o broquel, ficando também sem arma. Voltou-se para os companheiros e disse:
— Ah, ora! Aconteça o que acontecer, não quero que me ajudem. O combate deve ser honrado, pois meu inimigo é um bravo flamengo[73].
— Está pronto? — gritou Breydel.
— Estou pronto! — foi a resposta.
A essa palavra, os dois combatentes enfiaram a cabeça entre os ombros; seus olhos faiscavam sob as sobrancelhas baixas, os dentes e os lábios se cerraram com violência, e então se lançaram um contra o outro como dois touros furiosos.
Um pesado soco caiu de ambos os lados sobre um peito, como o martelo sobre a bigorna, e cada combatente recuou sibilando; mas isso apenas acendeu ainda mais a cólera. Um mugido sombrio saiu-lhes da garganta com a respiração rascante, e eles se enlaçaram com os braços como dois cinturões de ferro em torno do corpo. Agora faziam um ao outro curvar-se alternadamente por força terrível: braços, pernas, coxas, todos os membros de seus corpos pareciam ter força e vida próprias, pois todas essas partes torciam-se horrendamente umas contra as outras, e muitas vezes os combatentes gemiam pelas dolorosas pressões que lhes causavam aqueles movimentos laboriosos. O fogo da fúria brilhava em seus rostos ardentes, e o branco de seus olhos estava coberto de veias vermelhas. Entretanto, nenhum dos dois conseguia mover o outro do lugar: dir-se-ia que seus pés estavam enraizados no chão que pisavam. As veias surgiam como cordas nos braços de Breydel, de tão inchadas que estavam. Suor fumegante corria em torrentes pelas faces dos lutadores, enquanto a respiração lhes ficava curta e ardente. Viam-se seus peitos subir e descer rapidamente; mas nada se ouvia, a não ser algumas maldições murmuradas entre suspiros abafados.
Depois de se apertarem e se torcerem assim por algum tempo, o francês lançou os pés para trás, passou os braços em torno do pescoço de Breydel e pressionou-lhe a cabeça para baixo com força tão irresistível que ele vacilou e se inclinou para a frente. Sem lhe dar tempo de se erguer, e fortalecido por essa vantagem, Leroux fez ainda um esforço mais poderoso, e Breydel teve de dobrar os joelhos sob aquela força opressora.
— O Leão já está de joelhos! — gritou Leroux, enquanto dava em Breydel um golpe tão terrível na cabeça que o sangue lhe saltou da boca. Mas o próprio golpe fizera o francês soltar Breydel com uma das mãos. No momento em que erguia o punho para continuar a matar o flamengo, este saltou de pé e recuou três passos. Rápido como o relâmpago, voou bufando sobre o francês e o abraçou com tal fúria que as costelas lhe rangeram no corpo; mas Leroux rolava e torcia os membros como serpentes em torno do corpo de Breydel, com uma força reforçada pela arte e pelo hábito. O jovem flamengo sentiu que suas pernas, pressionadas pelos joelhos do francês, dobravam-se e perdiam o chão. Aquele combate prolongado, no qual pela primeira vez na vida via sua coragem falhar, era-lhe mais doloroso que o inferno. Espuma fervente subiu-lhe aos lábios, e ele enlouqueceu de fúria. Então soltou o francês de repente e, curvando a cabeça contra o peito, lançou-se sobre ele. Como o aríete que bate contra uma muralha, a fronte de Breydel chocou-se contra o peito de seu inimigo; este deu passos vacilantes para trás, e o sangue também lhe saltou pelo nariz e pela boca. Antes que pudesse recuperar-se, o punho do flamengo caiu como uma pedra esmagadora sobre seu crânio, e, com um grito doloroso, ele tombou estendido no chão[74].
— Você sentiu a garra do Leão! — suspirou Breydel.
Os soldados que assistiam ao combate haviam encorajado o companheiro com palavras e exclamações, mas não haviam interferido de outro modo. Enquanto erguiam do chão o agonizante Leroux, Breydel deixou o lugar com passo lento e voltou à taverna. Pediu outra caneca de cerveja e bebeu várias vezes, para aplacar a sede ardente que o tomara.
Já estava havia algum tempo sentado à mesa, e seu cansaço começava a diminuir, quando a porta se abriu atrás dele. Antes que pudesse virar-se para ver quem entrava, foi agarrado por quatro homens fortes e lançado ao chão; num instante, a casa estava cheia de franceses armados. Breydel lutou por longo tempo, em esforços inúteis, contra os inimigos; por fim, exausto e impotente, ficou imóvel e olhou os franceses com um daqueles olhares venenosos que são os prenúncios da morte recebida ou dada. Muitos dos soldados tremiam ao ver o flamengo estendido, pois, enquanto seu corpo jazia imóvel no chão, seus olhos flamejantes vagavam ao redor com tamanha audácia e ameaça que os corações dos espectadores se apertavam com terrível pressentimento.
Um cavaleiro, que pelas roupas se reconhecia como superior, aproximou-se cautelosamente de Breydel e, depois de ordenar que não lhe permitissem nenhum movimento, disse ao flamengo:
— Conhecemo-nos de longa data, servo temerário! Você matou no bosque de Wijnendale o escudeiro do senhor De Chatillon e ousou ameaçar a nós, cavaleiros, com sua faca. Agora, de novo, ousa assassinar um dos meus melhores homens em terra de minha jurisdição. Receberá segundo seus atos: ainda hoje se erguerá para você uma forca sobre os muros de Male, para que os rebeldes de Bruges tomem exemplo.
— Por todos os santos do Céu! — gritou Breydel. — O senhor é um caluniador: defendi meu corpo honestamente em combate; e, se não me impedisse com violência traiçoeira, eu lhe provaria que não tenho arrependimento.
— Você ousou insultar as armas da França...
— Vinguei o Leão Negro de minha Pátria, e o faria ainda. Mas, por amor de Deus, senhor, não me deixe assim no chão como um boi abatido, ou mate-me neste instante. Deixarei que me conduzam com paciência...
Sem soltá-lo, e por ordem de De Saint-Pol, os soldados fizeram Breydel levantar-se e o levaram com toda cautela até a porta. O flamengo cativo avançava lentamente entre os guerreiros; dois dos mais fortes seguravam-no pelos braços, quatro outros iam à frente e atrás dele, de tal modo que lhe era impossível escapar. Isso também não era sua intenção; fiel à promessa, não oferecia a menor resistência.
Enquanto avançavam assim com o prisioneiro, os soldados despejaram zombarias ofensivas contra ele. Breydel sentia, diante das palavras escarnecedoras, um despeito inexprimível e desejava intimamente a morte; contudo, lutava contra sua ira, até que lhe disseram:
— Ah, ora! Belo flamengo, se amanhã você dançar lindamente para nós na corda, espantaremos os corvos do seu corpo.
O deão dos açougueiros lançou um olhar de desprezo ao soldado que assim zombava de sua desgraça. Este retomou:
— Não me olhe tão ferozmente, maldito partidário do Leão, ou eu lhe bato no rosto.
— Ó francês covarde! — gritou Breydel. — Assim são vocês. Um inimigo prisioneiro vocês insultam e escarnecem, mercenários sem nobreza de um senhor desprezível...
Uma bofetada, dada pelo soldado, interrompeu-lhe a fala. Ele se calou de súbito e baixou a cabeça como se deixasse cair a coragem. Mas não era isso: uma ira íntima arrebatava sua alma, e, como o fogo que arde no seio dos vulcões, queimava no coração do flamengo um desejo furioso de vingança. Os soldados continuavam a lançar-lhe injúrias e tornavam-se ainda mais mordazes por causa de seu silêncio.
Junto à ponte do castelo, pararam de rir de repente, e seus rostos empalideceram de medo e espanto. Nesse instante, Breydel reuniu todas as forças que a natureza lhe dera tão generosamente e arrancou os braços das mãos de seus guardas. Saltou como um leopardo sobre os dois soldados que mais o haviam provocado e cravou-lhes as mãos como duas garras apertadas na garganta.
— Por você, ó Leão de Flandres, quero morrer — gritou ele —, mas não numa forca, não sem vingança!
Enquanto dizia essas palavras, apertava tão cerradamente a garganta dos soldados que suas faces se tornaram pálidas e cor de chumbo; e, com um braço que em giros irresistíveis lançava para lá e para cá os corpos de seus inimigos, batia-lhes as cabeças uma contra a outra com fúria cruel. Tornados impotentes pelo estrangulamento, eles não ofereciam resistência, pois seus braços pendiam frouxos junto ao corpo. Esse feito, porém, deu-se em menos tempo do que nos é necessário para descrevê-lo[75].
À vista do perigo dos companheiros, os outros franceses correram praguejando; mas Breydel deixou os estrangulados caírem ao chão e, depois de se desvencilhar dos demais inimigos, fugiu depressa. Os soldados o seguiram em sua corrida até junto de um fosso largo. Acostumado a viver nos prados e campinas, Breydel saltou sobre a água como um cervo e continuou correndo para Sint-Kruis. Dois soldados que também se atreveram a saltar o fosso caíram nele até o pescoço e tiveram então de abandonar toda perseguição. O deão dos açougueiros chegou cheio de ira a Bruges e foi diretamente para sua casa; não encontrou ninguém ali senão um jovem aprendiz que justamente se preparava para sair.
— Onde estão meus hóspedes? — gritou Breydel com impaciência.
— Ora, mestre — respondeu o rapaz —, foram para a sede, pois os açougueiros foram convocados às pressas.
— O que está acontecendo de novo?
— Não sei bem, mestre, mas o arauto da cidade leu na Pui uma ordem segundo a qual todos os burgueses que ganham o sustento com trabalho manual deverão pagar, a cada semana, aos sábados, uma moeda de prata de seu salário aos cobradores do tributo[76]. Pelo rumor geral, essa é a causa das assembleias das corporações que o deão dos tecelões mandou convocar.
— Fique aqui e feche a loja — disse Breydel. — Diga a minha mãe que esta noite não volto para casa. Que ela nada tema.
Tomou da parede seu machado habitual; depois de escondê-lo sob a cota, deixou a casa e dirigiu-se à sede da corporação. Assim que entrou no salão, um grito de alegria murmurante correu entre os companheiros, e eles gritaram:
— Ah, ali está Breydel, nosso deão!
Aquele que o substituíra temporariamente levantou-se e ofereceu-lhe a grande cadeira; mas Breydel, em vez de se colocar, como de costume, na cabeceira, pegou uma cadeira menor e deixou-se cair nela com um sorriso amargo.
— Ó meus irmãos! — gritou ele. — Venham e deem-me a mão, pois preciso tanto da amizade de vocês! A mim e à nossa corporação sem mácula fizeram hoje uma afronta que não pode ser apagada!
Os mestres e companheiros se comprimiram em torno da cadeira de Breydel. Jamais tinham visto nele dor e perturbação tão profundas; parecia morrer em torturas inexprimíveis. Todos os olhos se fixaram nele, interrogativos. Depois de um longo suspiro, ele retomou:
— Vocês, verdadeiros filhos de Bruges, já sofreram comigo por tempo demais a afronta; também não podem suportar a escravidão. Mas, ó Céu! Se soubessem o que me aconteceu hoje! Chorariam como crianças. Ah, ultraje que fere! Não ouso dizê-lo, a vergonha me tortura...
Já todos aqueles rostos morenos de homens se tingiam com o vermelho da cólera; ainda não sabiam de que deviam se enfurecer, e, no entanto, seus punhos se cerravam convulsivamente e maldições rolavam de suas bocas.
— Escutem — retomou Breydel —, e não desfaleçam de vergonha, ó meus bravos irmãos; escutem bem... Os franceses bateram no rosto de seu deão, e esta face, esta, foi manchada por uma bofetada infame!
A cólera que tomou os açougueiros diante dessas palavras não se pode descrever. Gritos de morte inauditos ecoaram contra a abóbada do salão, e cada um fez em si mesmo o juramento de vingar aquela afronta.
— Com que — perguntou Breydel — se lava semelhante mancha?
— Com sangue! — foi o grito geral.
— Vocês me compreendem, irmãos — retomou o deão. — Sim, só o sangue e a morte dos ultrajadores podem me purificar. Saibam que a guarnição do castelo de Male me tratou assim. Exijo que repitam minhas palavras: juro pelo Deus que me ouve que o sol de amanhã não encontrará mais castelo em Male!
— Juramos por Deus! — repetiram todos os açougueiros com alegre desejo de vingança.
— Venham — disse Breydel —, vamos. Cada um volte à sua casa, prepare-se em silêncio e leve seu melhor machado. Providenciem outras armas, se possível, bem como ferramentas para cortar ramagem, pois precisamos escalar o castelo. Às onze horas da noite, todos nos reuniremos no Eksterbos, atrás de Sint-Kruis.
Depois de dar aos mais velhos ainda algumas instruções especiais, deixou a sede, e os companheiros saíram depois dele.
À noite, pouco antes da hora marcada soar no relógio de Sint-Kruis, podia-se ver, entre as árvores, à fraca claridade da lua crescente, muitas pessoas caminhando por todos os caminhos em torno da aldeia. Todos seguiam na mesma direção e desapareciam, um após outro, no Eksterbos.
Alguns traziam bestas, outros, clavas; mas a maioria não tinha arma visível. Jan Breydel estava no ponto mais profundo do pequeno bosque, deliberando com os mestres da corporação por qual lado do castelo se ousaria o ataque.
Por fim, concordaram em encher o fosso de madeira ao lado da ponte e tentar assim alcançar a muralha. O deão caminhava às pressas entre os companheiros, que em grande número se ocupavam em derrubar arbustos e pequenas árvores e amarrá-los em feixes. Assim que se certificou de que não faltavam escadas, deu ordem de partir, e os açougueiros deixaram o bosque para destruir o castelo de Male.
Segundo o testemunho das crônicas, eram setecentos; e, no entanto, estavam tão unidos no desejo de alcançar a vingança que nenhum som imprudente saía daquela multidão. Nada se ouvia, senão o roçar dos galhos arrastados e o latido dos cães assustados por aquele ruído estranho. A um tiro de arco do castelo, pararam, e então Breydel avançou com alguns companheiros para espiar a fortaleza. A sentinela que vigiava acima do portão ouvira o rumor de seus passos, mas, em dúvida, escutou com mais atenção e avançou sobre a muralha.
— Espere — disse um dos companheiros de Breydel —, vou mandar esse guarda incômodo para dentro!
Com essas palavras, armou a mola de sua besta e mirou na sentinela. O virote atingiu o alvo, pois se despedaçou sobre a couraça do francês. Este, assustado pelo golpe, correu para fora das muralhas e gritou com toda a força:
— França! O inimigo! Às armas! Às armas!
— Avante, camaradas! — gritou Breydel. — Avante! Por aqui com os feixes!
Os açougueiros vieram, um a um, lançar seus galhos e arbustos no fosso; logo este ficou suficientemente cheio para que se pudesse passar por cima deles como por uma ponte até o pé da muralha. As escadas foram plantadas, e parte dos flamengos subiu às muralhas sem encontrar resistência. Ao grito da sentinela, os soldados da guarnição haviam saltado de seus leitos, e, depois de alguns instantes, mais de cinquenta estavam vestidos e armados. Seu número crescia rapidamente; os gritos dos açougueiros haviam despertado os adormecidos melhor que o chamado da guarda.
Jan Breydel achava-se com apenas trinta de seus companheiros dentro do castelo quando uma multidão de cavaleiros e soldados caiu sobre ele. No primeiro choque, muitos açougueiros tombaram ao chão, pois, como não tinham cotas de malha, as flechas dos franceses penetravam sem obstáculo em seus corpos. Contudo, isso não durou muito; em pouco tempo, todos os flamengos estavam dentro dos muros.
— Vejam, irmãos — gritou Breydel —, eu começo a carnificina. Sigam-me!
Como um arado que abre para si mesmo um sulco na terra, Breydel abriu caminho através dos franceses. Cada golpe de seu machado custava a vida a um inimigo, e o sangue de suas vítimas corria em riachos sobre sua cota. Os outros flamengos, tão furiosos quanto ele, caíam de todos os lados sobre os soldados, e seus gritos de júbilo abafavam os gritos de morte dos franceses agonizantes[77].
Enquanto se combatia desse modo no pátio externo e nas muralhas do castelo, o castelão, senhor De Saint-Pol, mandara selar às pressas alguns cavalos. Assim que lhe comunicaram que já não havia esperança e que a maior parte dos soldados estava abatida, mandou abrir a poterna. Então arrancaram à força do edifício uma mulher em pranto e, depois de acomodá-la nos braços de um soldado sobre um dos cavalos, esses cavaleiros atravessaram juntos o fosso a nado e desapareceram entre as árvores do bosque.
Era impossível aos franceses resistir à violência dos açougueiros, tanto mais que estes últimos eram mais numerosos que seus inimigos. Assim, uma hora depois, não havia em Male um único vivente a não ser aqueles que haviam recebido a vida em solo flamengo. Procurou-se por mais de duas horas, à luz de tochas, em todos os quartos e porões do castelo, mas não se encontrou mais nenhum inimigo, pois os que haviam escapado tinham fugido pela poterna para o campo.
Depois que um criado do castelo lhe indicou cuidadosamente todos os lugares, Breydel acreditou, com razão, que a donzela Machteld fora levada. Entregou-se então por completo à sua fúria e pôs fogo ao esplêndido castelo pelos quatro cantos. Enquanto as chamas subiam até o céu e grandes pedaços de muralha já desabavam com ranger terrível, os açougueiros derrubavam árvores, pontes e tudo o que podia ser destruído, até que o castelo oferecesse o espetáculo da maior devastação.
Os sinos das aldeias vizinhas tocaram a rebate pedindo socorro, e os camponeses deixaram suas cabanas para apagar o incêndio, mas era tarde demais. Do castelo condal nada restava senão os quatro muros em brasa. Ouviu-se a voz clara de Breydel, que gritava:
— Sim, sim, que o sol de amanhã procure em vão o castelo de Male!
Cumprida a vingança, os açougueiros reuniram-se de novo e deixaram Male em canto coral jubiloso; cantavam a canção do Leão Negro.
* * * * *
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
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