Universo da obra
Universo da obra
Ergue-se o Leão, que garra e dente
Tão altivo oferece ao inimigo.
P. VAN DUYSE
Atrás da aldeia de Sint-Kruis, a alguns tiros de arco de Bruges, havia um pequeno bosque chamado Eksterbos, sob cujas árvores sombrias os habitantes da cidade populosa costumavam ir recrear-se aos domingos. Os troncos das árvores estavam bastante afastados uns dos outros, e uma relva macia revestia o chão como um tapete florido.
Às duas horas da noite, Breydel já se achava no lugar combinado. A escuridão era insondável; a lua se escondera atrás de nuvens pesadas; o vento soprava de leve, sussurrante como um suspiro através da folhagem, e o crepitar monótono das folhas aumentava ainda mais o horror daquela noite terrível.
No Eksterbos, nada se podia distinguir à primeira vista; mas, com mais atenção, ter-se-iam percebido numerosas sombras humanas estendidas no chão. Junto a cada um desses corpos brilhava uma estrela faiscante, de modo que a relva parecia ter-se transformado em firmamento; milhares de pontos luminosos, como que espalhados a mãos-cheias, cintilavam sobre ela. Essas estrelas não eram outra coisa senão os machados em cujo aço liso se refletia a pouca luz da noite.
Mais de dois mil açougueiros jaziam em fileiras e na mesma atitude sobre a terra. Seus corações batiam com esforço, e o sangue lhes corria depressa, pois a hora longamente desejada, a hora da vingança e da libertação, estava próxima. O mais profundo silêncio reinava entre esses homens, e algo secreto e aterrador pairava como um véu de feitiço sobre o exército mudo.
Breydel jazia mais para dentro do bosque. Um de seus companheiros, a quem amava particularmente por sua intrepidez, estendera-se no chão ao lado dele. Com voz abafada, mantiveram a seguinte conversa:
— Os franceses não esperam esse estranho despertar — suspirou Breydel. — Dormem bem, pois têm a consciência endurecida, esses malfeitores. Estou curioso para ver que careta lhes surgirá no rosto quando virem ao mesmo tempo minha arma e a morte.
— Ah! Meu machado corta como navalha; afiei-o até arrancar os pelos do meu braço, e espero que esta noite fique bem cego, ou não voltarei a afiá-lo!
— As coisas foram longe demais, Mertyn. Os franceses nos tratam como um bando de bois estúpidos, e pensam que nos curvaremos à sua tirania; mas Deus sabe que não nos conhecem, e se enganam quando nos julgam pelos malditos leliares.
— Sim, esses bastardos gritam “Salve a França”; acariciam o estrangeiro, mas algo também os espera, pois, quando afiei meu machado com tanto trabalho, não me esqueci deles!
— Ah, não, Mertyn, você não deve derramar o sangue de seus compatriotas. Deconinck o proibiu.
— E Jan van Gistel, esse traidor covarde, continuará vivo? Não, por minha alma!
— Jan van Gistel morrerá; ele deve prestar contas pela morte do velho amigo de Deconinck. Mas que seja o único.
— Então os outros bastardos ficarão impunes? Veja, mestre, esse pensamento me atormenta; não consigo aceitá-lo no coração.
— O castigo deles será bastante grande: a vergonha e o desprezo serão seu quinhão. E diga-me, Mertyn, você não treme ao pensar que qualquer um poderá cuspir-lhe no rosto e dizer: “Você é um bastardo, um covarde, um traidor da Pátria”? É isso que lhes acontecerá.
— Ah, sim, mestre, suas palavras fazem correr um arrepio frio por todo o meu corpo! Que castigo terrível, na verdade mil vezes mais doloroso que a morte. Que inferno seria isso para eles, se tivessem uma alma flamenga!
Então se calaram por alguns instantes, ouvindo ao longe como passos de homens; mas esse ruído logo se apagou. Breydel retomou:
— Esses valões malvados assassinaram minha velha mãe. Eu vi: uma espada inimiga atravessou o coração que tanto me amava. Não tiveram compaixão dela porque dera à luz um flamengo inflexível; mas agora não terei compaixão deles, e vingarei ao mesmo tempo meu sangue e a Pátria.
— Daremos quartel, mestre? Faremos prisioneiros?
— Maldito seja eu se fizer prisioneiro ou poupar a vida de alguém! Eles dão quartel? Não; ganham coragem assassinando, pisoteiam os corpos de nossos irmãos sob os cascos de seus cavalos. E você pensa, Mertyn, que agora, agora que a sombra ensanguentada de minha querida mãe flutua sempre diante de meus olhos, eu poderei ver um francês sem ser tomado por uma fúria louca? Ah! Eu os morderia e os despedaçaria com os dentes, se meu machado se quebrasse sobre tantas vítimas. Mas isso não pode acontecer; minha arma é há muito tempo uma companheira fiel.
— Escute, mestre, o ruído aumenta na estrada de Damme! Espere um pouco!
Ele encostou o ouvido no chão, levantou-o de novo e disse:
— Mestre, os tecelões não estão longe daqui; mais uns quatro tiros de arco.
— Então venha, vamos nos levantar. Passe em silêncio pelas fileiras e cuide para que ninguém se erga. Vou ao encontro de Deconinck, para que ele saiba em que alamedas pode dispor seus homens.
Alguns instantes depois, quatro mil tecelões penetraram no bosque por diversos lados. Deitaram-se no chão, conforme a ordem recebida, e calaram-se. A chegada deles perturbou muito pouco o silêncio, e logo não se ouviu mais nada. Apenas se podia ver alguns homens indo de uma companhia a outra; estes levavam aos chefes a ordem de se dirigirem à extremidade oriental do bosque.
Quando ali chegaram em grande número, formaram círculo em torno de Deconinck para receber suas instruções. O deão dos tecelões começou deste modo:
— Irmãos, hoje o sol deve iluminar nossa liberdade ou nossa morte. Reúnam, portanto, toda a intrepidez que o amor à Pátria lhes possa inspirar; pensem bem que devem lutar pela cidade onde repousam os ossos de seus pais, pela cidade onde esteve o berço de vocês. Não deem quartel a ninguém; matem todos os franceses que lhes caírem nas mãos e não deixem raiz dessa erva estrangeira. Nós ou eles devemos morrer! Há entre vocês alguém que ainda sinta alguma compaixão por aqueles que enforcaram e esmagaram tão impiedosamente nossos irmãos, por esses traidores que aprisionaram nosso conde e envenenaram sua filha?
Um murmúrio tão sombrio e tão vingativo, que só o tom bastava para apertar o coração de medo, ficou por um instante suspenso sob a folhagem das árvores.
— Eles morrerão! — foi a resposta dos chefes.
— Pois bem — retomou Deconinck —, ainda hoje seremos livres; mas precisaremos de mais coragem ainda para conservar nossa liberdade, pois o rei francês sem dúvida virá a Flandres com um novo exército.
— Tanto melhor — interrompeu Breydel —, então haverá mais filhos que chorarão seus pais, como eu choro minha pobre mãe. Que Deus lhe tenha a alma!
As palavras do deão dos açougueiros haviam interrompido o discurso de Deconinck. Temendo que se esgotasse o tempo necessário para dar as instruções, ele prosseguiu:
— Eis o que devem fazer: assim que três horas soarem no sino de Sint-Kruis, farão seus homens levantar-se, formar fileiras e avançar até a estrada. Irei com alguns companheiros até junto das muralhas da cidade; alguns instantes depois, quando a porta for aberta pelos partidários do Leão que deixei na cidade, todos entrarão em silêncio e tomarão a seguinte direção: mestre Breydel, com os açougueiros, tomará a Speypoort, fará guardá-la e depois seguirá com seus homens por todas as ruas ao redor da Snaggaardsbrug; mestre Lindens, tome o senhor a Katelijnepoort e envie seus homens por todas as ruas até a Igreja de Nossa Senhora. As corporações dos curtidores e dos sapateiros ocuparão a Gentpoort até o Steen e o Burg; as outras corporações, sob o deão dos pedreiros, tomarão a Dampoort e se espalharão em torno da igreja de São Donaciano; eu, com meus dois mil homens, irei para a Boeveriepoort. Todo o bairro dali até a Ezelpoort e a Grote Markt será cercado por meus companheiros. Quando tiverem assim surpreendido os guardas das portas, fiquem nas ruas o mais quietos possível, pois não devemos acordar os valões antes que tudo esteja preparado. Escutem bem: assim que ouvirem o brado patriótico “Flandres, o Leão!”, repitam-no ao mesmo tempo; esse será o sinal e poderá fazê-los reconhecer uns aos outros na escuridão. Depois arrombarão as portas das casas onde os franceses estiverem hospedados e matarão todos.
Um dos chefes observou:
— Sim, mestre, mas não poderemos distinguir os franceses de nossos concidadãos, pois em geral os encontraremos na cama e despidos.
— Há um meio fácil de evitar qualquer engano nisso. Ouçam o que devem fazer. Se à primeira vista não puderem ver se aquele que encontram é francês ou flamengo, ordenem-lhe que diga “schild en vriend!” Todo aquele que não puder pronunciar essas palavras tem língua francesa; matem-no.
O sino de Sint-Kruis lançou seus ecos três vezes sobre o bosque.
— Mais uma coisa! — disse Deconinck à pressa. — Saibam que tomei sob minha proteção a casa do senhor De Mortenay; que ela não seja violada nem assaltada por vocês. Ninguém ponha o pé além da soleira da morada desse nobre inimigo. Vão agora depressa a seus homens, comuniquem-lhes minhas ordens e façam como lhes disse. Depressa! Pouco ruído, eu lhes peço.
Os chefes se dirigiram cada um a seu bando e os levaram, um após o outro, até a beira da estrada. Deconinck dispôs grande número de tecelões ao longo do caminho, até um tiro de arco da cidade; ele sozinho se aproximou mais da muralha e atravessou a escuridão com o olhar. Uma mecha, cuja ponta ardente escondia na mão, reluzia com brilho vermelho entre seus dedos. Percebeu uma cabeça que se erguia um pouco acima da muralha da cidade; era o tecelão que visitara na véspera. Então o deão tirou de sob a cota um feixe de linho, pôs o feixe no chão e soprou com força sobre a mecha. Logo uma chama luminosa subiu sobre o campo, e a cabeça do tecelão desapareceu atrás da muralha da cidade. Não fazia ainda quatro instantes que o sinal fora dado quando a sentinela postada sobre a muralha caiu com um grito doloroso e foi lançada por cima do muro; depois ouviram-se ainda, atrás da porta, algum entrechoque de armas e alguns lamentos de homens moribundos. Mas a esse ruído seguiu-se imediatamente o silêncio da morte.
Com a maior cautela, todas as corporações entraram em Bruges; cada chefe se dirigiu com seus homens ao bairro que Deconinck lhe havia indicado. Um quarto de hora mais tarde, os vigias de todas as portas estavam mortos, e cada corporação se encontrava em seu lugar. Diante de cada porta das hospedarias onde os franceses estavam alojados, oito partidários do Leão se mantinham prontos para abrir passagem com martelos e machados. Nenhuma rua estava sem ocupação: a cidade, em todas as suas partes, estava repleta de partidários do Leão, que agora esperavam apenas o sinal de começar.
Deconinck estava no meio da Vrijdagmarkt. Depois de breve reflexão, pronunciou a maldição dos franceses, bradando:
— Flandres, o Leão! O que é valão é traição! Matem todos!
Esse brado, sentença dos estrangeiros, correu por cinco mil bocas. É fácil imaginar que horrendo uivo, que terrível confusão de gritos de morte nasceu dele. No mesmo instante, todas as portas foram arrombadas ou despedaçadas.
Os partidários do Leão correram, cheios de vingança, aos quartos dos franceses e mataram todos os que não conseguiam pronunciar as palavras “schild en vriend”. Como em algumas casas havia mais franceses do que se podia matar em tão pouco tempo, muitos tiveram tempo de vestir-se e tomar as armas nas mãos, sobretudo no bairro em que De Chatillon estava alojado com sua numerosa guarda. Apesar da fúria de Breydel e de seus homens, cerca de seiscentos franceses tinham conseguido reunir-se desse modo; muitos que, embora feridos, haviam escapado ao massacre, dirigiam-se das outras ruas para a Snaggaardsbrug e aumentaram tanto o número dos fugitivos que, chegando por fim a quase mil, decidiram vender cara a vida.
Estavam em grupo compacto contra as casas e defendiam-se desesperadamente dos açougueiros. Muitos entre eles tinham bestas e derrubaram mais de um partidário do Leão; mas isso aumentava a loucura furiosa dos que viam cair seus companheiros. Ouvia-se a voz de De Chatillon animando os seus à resistência; percebia-se também o senhor De Mortenay, cuja espada gigantesca reluzia na escuridão como um raio.
Breydel enfurecia-se como um possesso e golpeava à esquerda e à direita entre os franceses. Já estava alguns pés acima do chão, tamanho era o número de inimigos que derrubara sob os pés. Torrentes de sangue corriam sob os cadáveres, e o grito “Flandres, o Leão! Matem todos!” misturava-se em ecos pavorosos aos últimos clamores dos moribundos.
O senhor Jan van Gistel também se encontrava entre os franceses.
Como sabia que sua morte era infalível se os flamengos alcançassem a vitória, gritava sem cessar:
— Salve a França! Salve a França!
Pensava, com isso, animar os soldados.
Mas Jan Breydel reconheceu sua voz.
— Homens! — gritou ele com fúria louca. — Preciso da alma do bastardo! Adiante, isto já durou demais. Quem me ama, siga-me!
A essas palavras, lançou-se com seu machado ao meio dos franceses e derrubou de súbito todos os que estavam ao redor; seus companheiros, vendo isso, caíram sobre o inimigo com tamanha ferocidade que, empurrando-o contra o muro, mataram cerca de quinhentos de seus homens. Nesse instante extremo, nessa hora lúgubre de morte, De Mortenay lembrou-se das palavras e da promessa de Deconinck; alegrou-se por ainda poder salvar o governador e bradou:
— Sou De Mortenay, deixem-me passar!
Os partidários do Leão deixaram-no passar com respeito e não o impediram em nada.
— Por aqui, por aqui, sigam-me, companheiros! — gritou ele aos franceses restantes, pensando salvá-los assim; mas os flamengos golpeavam-nos de modo terrível. O número dos fugitivos tornou-se tão pequeno que, com De Chatillon, não mais que trinta pessoas conseguiram chegar à casa do senhor De Mortenay; todos os outros jaziam no chão, contorcendo-se em seu sangue. Breydel deteve seus homens diante da porta do governador da cidade e proibiu-os de entrar na casa; cercou o bairro para que ninguém pudesse fugir e fez ele próprio a guarda diante da entrada da morada de De Mortenay.
Enquanto esse combate ocorria, Deconinck ainda procurava na Steenstraat, junto a São Salvador, o último francês. Faziam o mesmo as outras corporações nos bairros que lhes haviam sido atribuídos. Lançavam os corpos dos mortos para fora das casas até que, estando as ruas inteiramente cobertas deles, mal se pudesse avançar na escuridão. Muitos soldados da guarnição haviam-se disfarçado e pensavam escapar assim por uma ou outra porta; mas não conseguiram, pois lhes ordenavam pronunciar as palavras “schild en vriend”. Assim que se ouvia o som de sua voz, um machado caía sobre sua nuca, e eles tombavam à terra com um suspiro. De todos os bairros da cidade subiam, confusos e trovejantes, os gritos: “Flandres, o Leão! O que é valão é traição! Matem todos!” Aqui e ali, ainda corria um francês diante de um partidário do Leão que o perseguia; mas então logo caía sobre outra arma e morria alguns passos adiante.
Essa vingança durou até que o sol já estivesse acima do horizonte e viesse secar o sangue derramado, iluminando os corpos de cinco mil franceses. Cinco mil estrangeiros foram sacrificados naquela noite às sombras dos flamengos assassinados: há uma página sangrenta nas Crônicas de Flandres, e esse número terrível ali está anotado com exatidão.
Diante da morada do senhor De Mortenay via-se algo raro, algo terrível. Mil açougueiros jaziam no chão, com seus machados na mão e os olhos ameaçadores e cheios de desejo de vingança fixos na porta. Seus braços nus e suas cotas estavam tingidos de sangue, e entre eles havia numerosos cadáveres, estendidos como eles; mas pareciam não lhes dar atenção. Alguns companheiros de outras corporações passavam aqui e ali por cima dos açougueiros deitados e procuravam os corpos dos flamengos caídos para lhes dar sepultura.
Embora parecessem dominados por uma ira íntima, nenhum insulto saía da boca dos açougueiros.
A morada de De Mortenay era sagrada para eles, segundo a palavra dada. Não queriam quebrar a promessa feita por Deconinck; além disso, tinham grande estima pelo governador da cidade e, portanto, contentavam-se em ocupar e vigiar o bairro.
O senhor De Chatillon e Jan van Gistel, o leliar, haviam fugido para a casa de De Mortenay. A maior aflição os invadira, pois uma morte inevitável pairava diante de seus olhos. De Chatillon era um cavaleiro corajoso e esperava seu destino com sangue-frio; Jan van Gistel, ao contrário, estava pálido e tremia. Apesar do esforço que fazia sobre si mesmo, não conseguia esconder o medo e despertava a compaixão dos franceses ali presentes, até mesmo de De Chatillon, que corria o mesmo perigo. Esses senhores estavam num salão superior voltado para a rua. De tempos em tempos, iam à janela e olhavam com horror para os açougueiros deitados diante da porta, como um bando de lobos à espera da presa. Tendo Van Gistel também ido à janela, Jan Breydel o notou e o ameaçou com o machado. Um movimento impetuoso percorreu os açougueiros; todos ergueram suas armas contra o traidor que queriam matar. Como se apertou o coração do leliar quando esses mil machados reluziram contra ele como uma sentença de morte! Voltou-se para os outros cavaleiros e disse em tom triste:
— Devemos morrer, meus senhores; não há misericórdia para nós, pois anseiam por nosso sangue como cães sedentos. Não irão embora. Ó Deus, que faremos?
De Chatillon respondeu:
— Perecer pelas mãos dessa ralé não é coisa honrosa. Eu gostaria de ter tombado como cavaleiro, com a espada no punho; mas assim é!
A frieza de De Chatillon entristeceu Van Gistel ainda mais.
— Assim é! — repetiu ele. — Ó Deus, que momento terrível! Como nos martirizarão! Mas, senhor De Mortenay, suplico-lhe por amor de Deus; o senhor, que tem tanta influência sobre eles, pergunte se não querem poupar nossa vida por grande resgate. Não quero morrer pelas mãos deles, e darei tudo o que exigirem, por mais que seja.
— Perguntarei — respondeu De Mortenay —, mas não se mostre, ou eles o arrancarão da casa.
Abriu a janela e gritou:
— Mestre Breydel, o senhor Van Gistel pergunta se o senhor lhe concederia salvo-conduto por grande resgate. Exija o que quiser; determine o senhor mesmo a soma. Não recuse, eu lhe peço.
Breydel gritou aos companheiros com uma risada amarga:
— Homens, eles nos oferecem dinheiro! Pensam que a vingança de um povo pode ser paga com dinheiro. Devemos aceitar isto?
— Precisamos do leliar! — uivaram os açougueiros.
— Ele deve morrer, o traidor! O flamengo bastardo!
Esses gritos soaram terríveis aos ouvidos de Van Gistel; parecia-lhe que os machados já lhe davam o golpe de morte. De Mortenay deixou passar a exigência impetuosa de vingança e gritou de novo:
— Vocês me disseram que minha morada era lugar salvo; por que quebram agora a palavra dada?
— Respeitaremos sua morada — respondeu Breydel —, mas juro ao senhor que nem De Chatillon nem Van Gistel deixarão a cidade vivos; o sangue deles pagará o sangue de nossos irmãos, e não iremos embora antes que nossos machados tenham dado o último golpe em suas nucas.
— E eu posso deixar livremente a cidade?
— O senhor, senhor De Mortenay, com seus criados, pode ir aonde quiser. Nenhum fio de cabelo de sua cabeça será tocado. Mas não nos engane, pois conhecemos muito bem os homens que procuramos.
— Pois então, digo-lhes que dentro de uma hora quero partir para Courtrai.
— Deus o tenha sob sua guarda.
— Não têm então compaixão alguma de cavaleiros indefesos?
— Eles não tiveram compaixão de nossos irmãos; precisamos de seu sangue! A forca que eles plantaram ainda está de pé.
De Mortenay fechou a janela e disse aos cavaleiros:
— Meus senhores, lamento por vocês; eles querem derramar seu sangue. Ah, os senhores correm grande perigo! Mas espero ainda poder salvá-los com o auxílio do Senhor. Há uma saída atrás do jardim, por onde poderão talvez escapar de seus inimigos sedentos de sangue. Disfarcem-se e montem a cavalo; então sairei pela porta com meus criados e, enquanto atraio assim a atenção dos açougueiros para mim, os senhores fugirão às pressas pelos fundos rumo às muralhas. Junto à Smedenpoort, o muro está quebrado. Não lhes será difícil alcançar o campo; seus cavalos não poderão ser detidos.
De Chatillon e Van Gistel aceitaram esse meio com alegria. O governador vestiu as roupas de seu capelão, e Van Gistel, as de um criado humilde; trinta outros franceses que restavam tiraram os cavalos dos estábulos e se prepararam para fugir com seu comandante.
Quando todos estavam montados, o senhor De Mortenay saiu com seus criados para a rua onde jaziam os açougueiros. Estes, sem pensar que poderiam ser enganados em outro ponto, levantaram-se e observaram com atenção todos os que acompanhavam o governador da cidade. Mas, de repente, o brado “Flandres, o Leão! O que é valão é traição! Matem todos!” ergueu-se em outra rua, e ouviram-se ecoar atrás da esquina os passos de cavalos a galope. Com a maior rapidez, todos os açougueiros correram confusos e uivantes para o lugar de onde vinha o ruído, mas era tarde demais. De Chatillon e Van Gistel haviam escapado. Dos trinta homens que os acompanhavam, vinte tinham sido pisoteados, pois por toda parte por onde passavam encontravam inimigos que caíam sobre eles; mas a sorte quis que os dois cavaleiros escapassem. Fugiram por trás de St.-Claren até a muralha da cidade e chegaram à Smedenpoort. Ali saltaram com seus cavalos para o fosso e o atravessaram a nado com grande perigo, pois o escudeiro de De Chatillon afogou-se com o cavalo que montava.
Os açougueiros haviam perseguido os franceses em fuga até a porta; quando viram seus dois arqui-inimigos desaparecerem ao longe entre as árvores, a fúria mais violenta tomou conta deles. Gritavam e praguejavam de despeito; agora, afinal, a vingança lhes parecia incompleta. Depois de manterem por algum tempo, como mudos, os olhos fixos no lugar onde De Chatillon desaparecera, desceram da muralha e voltaram contrariados para a Vrijdagmarkt. De súbito, outro ruído despertou sua atenção. No meio da cidade elevava-se uma multidão de vozes confusas, que de quando em quando enchiam o ar de ecos longos e ressonantes, como se um príncipe fizesse sua entrada festiva. Os açougueiros não podiam entender aqueles gritos triunfantes; as vozes ainda estavam longe demais. Pouco a pouco a torrente jubilosa se aproximou, e logo os brados de vitória se tornaram inteligíveis:
— Salve o Leão Azul! Salve nosso deão! Flandres está livre, salve! Salve!
Uma multidão incontável de todos os habitantes de Bruges avançava pela rua como uma nuvem de tempestade. O júbilo desses flamengos que haviam conquistado a liberdade chocava-se contra os muros das casas e rolava como trovão surdo sobre a cidade. Mulheres e crianças corriam entre os homens de ofício armados, e as palmas alegres se uniam ao brado incessante:
— Salve! Salve o Leão Azul!
Do meio daquelas fileiras erguia-se um estandarte branco, em cujas dobras ondulantes fora trabalhado, em seda azul, um leão rampante. Era a grande bandeira da cidade de Bruges, que por tanto tempo tivera de ceder diante do Lírio. Agora fora arrancada novamente de seu esconderijo; agora brilhava acima dos cadáveres dos inimigos exterminados; agora o retorno desse símbolo sagrado era saudado com mil ecos felizes.
Um homem de pequena estatura carregava o sinal aclamado e o mantinha, com os braços fechados sobre o peito, junto ao coração, como se ele lhe inspirasse um amor íntimo. Lágrimas corriam em abundância por suas faces, lágrimas de amor à Pátria e de felicidade, pois uma expressão indizível de bem-aventurança pairava sobre seus traços. Ele, que nunca chorara nas maiores desgraças, agora derramava lágrimas, agora que recolocara seu deus, o Leão de sua cidade pátria, no altar da Liberdade.
Os olhos dos incontáveis cidadãos voltavam-se sem cessar para aquele homem, e então o grito “Salve Deconinck! Salve o Leão Azul!” era retomado com mais força. Assim que o deão dos tecelões se aproximou da Vrijdagmarkt com o estandarte, uma alegria louca encheu os corações dos açougueiros; eles também repetiram muitas vezes o brado jubiloso de vitória e apertaram as mãos uns dos outros com ardente amor, pois o sentimento de amor à Pátria incendeia os corações em nobres ardores. Breydel lançou-se para a frente como fora de si, chegou sob o estandarte e estendeu as duas mãos ao Leão com impaciência visível. Deconinck ofereceu a bandeira ao deão dos açougueiros e disse:
— Tome, meu amigo; isto nós reconquistamos hoje: o símbolo de nossos pais livres!
Breydel não respondeu; seu coração estava cheio demais. Tremendo de emoção, passou os braços em torno do pano do estandarte e abraçou assim o Leão Azul. Escondeu a cabeça nas dobras da seda e chorou por alguns instantes sem se mover; depois soltou a bandeira e caiu, no mais extremo arrebatamento, contra o peito de Deconinck.
Enquanto os dois deãos se apertavam ardentemente nos braços, o povo não cessava de gritar; havia um rumor jubiloso, um clamor arrebatador pairando sobre aquelas mil cabeças, e um movimento flutuante exprimia sua alegria inquieta. A Vrijdagmarkt não era ampla o bastante para dar lugar a todos os cidadãos presentes, por mais que estivessem comprimidos até quase sufocar. A Steenstraat ainda estava cheia de gente até a igreja de São Salvador; do mesmo modo, as ruas Smeden e Boeverie estavam cobertas, até certa distância, pelas mulheres e crianças menos impetuosas.
O deão dos tecelões voltou-se para o centro da praça e aproximou-se da forca que ainda estava de pé. Os corpos dos flamengos enforcados tinham sido retirados e já enterrados; mas haviam deixado ali, de propósito, os oito laços, como lembrança da tirania. O estandarte com o Leão de Bruges foi plantado junto ao instrumento de morte e saudado então por novos gritos de alegria. Depois de erguer mais uma vez os olhos para o brasão reconquistado, Deconinck desceu lentamente ao chão, ajoelhou-se, baixou a cabeça e rezou com as mãos unidas.
Quando se deixa cair uma pedra numa água adormecida, o movimento corre em círculos trêmulos por toda a extensão do lago. O pensamento e a intenção de Deconinck espalharam-se da mesma maneira entre os cidadãos, embora a maioria não o visse. Primeiro ajoelharam-se e se calaram aqueles que estavam ao redor dele; estes transmitiram o movimento aos outros, e assim todas as cabeças foram se inclinando uma após outra. As vozes desapareceram primeiro no centro do amplo círculo e diminuíram sempre, até que o maior silêncio caiu sobre as fileiras. Oito mil joelhos tocaram o chão ainda ensanguentado, e oito mil cabeças se humilharam diante de Deus, que criou os homens para a liberdade. Que harmonia devia soar naquele momento diante do trono do Senhor! Como lhe devia ser agradável aquela prece solene, que vinha deslizar a seus pés como uma homenagem sussurrante!
Após breve tempo, Deconinck levantou-se da terra e, enquanto o silêncio ainda continuava, falou em voz alta, para que muitos pudessem ouvi-lo:
— Irmãos, hoje o sol tem uma luz mais bela para nós; o ar está puro em nossa cidade. O hálito dos estrangeiros já não vem contaminá-lo. Os orgulhosos valões pensaram que seríamos e permaneceríamos seus escravos; mas agora aprenderam, à custa da própria vida, que nosso Leão pode dormir, mas não morrer. Reconquistamos a herança de nossos pais e apagamos com sangue as pegadas dos estrangeiros; mas nem todos os nossos inimigos estão mortos. A França nos enviará ainda mais mercenários armados, pois sangue pede sangue. Isso nada é: agora somos invencíveis. Contudo, não deverão repousar sobre a vitória conquistada. Conservem seus corações grandes, valentes, e não deixem afrouxar o fogo nobre que neste instante arde em seus peitos. Que cada um vá agora para sua morada e se alegre com sua família pela feliz libertação. Rejubilem-se e bebam o vinho da alegria, pois este é o mais belo dia que viverão. Os cidadãos que não tiverem vinho podem ir à Halle; ali será distribuída uma medida para cada homem.
Os gritos, que voltavam a crescer pouco a pouco, impediram o deão de prosseguir em sua fala. Ele fez sinal aos deãos que estavam perto e seguiu com eles para o lado da Steenstraat. As fileiras se abriram respeitosamente diante dele, e por toda parte o acolhia o som alegre dos cidadãos arrebatados. Agora todos se comprimiam em direção ao estandarte plantado junto à forca; todos vinham por sua vez contemplar, com exaltação, o Leão Azul, e olhavam para esse sinal de sua cidade como para o rosto de um amigo que, depois de longas viagens por terras estrangeiras, volta para junto de seus irmãos. Estendiam as mãos para o alto e faziam gestos tão alegres que, a um olhar frio e indiferente, teriam parecido sem juízo.
Logo chegaram à praça companheiros que já tinham buscado vinho, com suas bilhas, e espalharam a notícia feliz de que na Halle se servia uma medida para cada um. Uma hora depois, cada homem tinha na mão seu vaso de beber. Assim terminou aquele dia memorável, sem desordem e sem disputa. Havia um único sentimento em todos os corações: o sentimento que acaricia a alma de um prisioneiro quando ele torna a ver o sol acima da cabeça e o vasto mundo passa a ser sua única prisão.
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.