Universo da obra
Universo da obra
_Flandres e o Leão! é nosso brado._
LODEWYK VAN VELTHEM
Gwyde dera ordem para que todo o exército, cada qual sob seu comandante, estivesse disposto na manhã seguinte, diante do acampamento, no Groeningekouter; queria fazer uma revista geral.
Segundo essa ordem, os flamengos haviam-se arranjado com habilidade, no lugar indicado, em formação quadrangular, como se fossem os quatro alicerces de um edifício. Cada corpo compunha-se de oito fileiras cerradas: os quatro mil tecelões de Deconinck formavam a extremidade superior da ala direita. A primeira fileira de sua tropa era toda de besteiros, cujas pesadas bestas repousavam para trás, sobre os ombros, enquanto virotes de ferro pendiam em aljavas ao lado; não tinham outra defesa além de uma placa grosseira de ferro, presa ao peito por quatro correias. Acima das seis fileiras mais profundas, milhares de lanças erguiam-se a dez pés de altura; essa arma, o célebre goedendag, era a mais temida pelos franceses, pois com ela se podia atravessar facilmente um cavalo; nenhuma armadura podia proteger contra seu golpe violento, e todo cavaleiro atingido por ela caía infalivelmente da sela.
Do mesmo lado estavam também os elegantes homens de Ypres; sua fileira dianteira compunha-se de quinhentos homens corpulentos, cujas roupas eram vermelhas como o coral mais fino. De seus belos elmos desciam penachos macios até os ombros; grandes maças, guarnecidas de pontas de aço, tinham a extremidade grossa junto ao pé, enquanto o cabo repousava, seguro pelo punho, contra os rins. Pequenas placas de ferro também estavam presas por correias aos braços e às coxas. As demais fileiras desse belo corpo estavam todas vestidas de verde; os arcos de aço, desarmados, erguiam-se acima de suas cabeças.
A ala esquerda compunha-se apenas dos dez mil homens de Breydel. De um lado, os inumeráveis machados dos açougueiros reluziam aos olhos dos outros soldados; estes desviavam sem cessar a cabeça, pois o ardor do sol, refletido naqueles espelhos de aço, ameaçava cegá-los. Os macecliers não trajavam com gala: calções curtos e pardos e um gibão da mesma cor eram todo o seu vestuário; tinham as mangas arregaçadas até o cotovelo, costume habitual entre eles, pois se orgulhavam dos músculos vigorosos que podiam mostrar. Muitos eram louros, mas queimados pelo sol; longas cicatrizes, trazidas de combates anteriores, abriam-se como sulcos profundos em seus rostos. Para eles, eram ramos de louro, testemunhos de sua valentia. Os traços de Breydel contrastavam singularmente com aqueles semblantes sombrios e curtidos; enquanto a maioria de seus companheiros, por sua expressão terrível, lançava espanto no coração de quem os via, o rosto de Breydel era agradável e nobre: belos olhos azuis flamejavam sob sobrancelhas finas, longos cachos louros rolavam sobre a gola do gibão, e uma barba suave alongava o oval elegante de seu rosto. Sua expressão era graciosa, porque agora estava alegre e satisfeito; mas, quando a cólera vinha arrebatá-lo, não havia cabeça de leão que o superasse em ferocidade. Então suas faces se cobriam de rugas, seus dentes se cerravam com fúria, e suas sobrancelhas desciam, angulosas e franzidas, sobre os olhos.
No terceiro flanco estavam os homens de Veurne, com os homens de armas de Arnold de Oudenaarde e de Boudewyn de Papenrode. A corporação de Veurne contava mil fundeiros e quinhentos quebra-elmos; os primeiros ficavam nas fileiras da frente e vestiam-se inteiramente de couro, para que a funda, ao girar, não se prendesse naquela superfície lisa. Ao redor da cintura havia um largo tubo de couro, preso como cinto; nele ficavam as pedras redondas que deviam arremessar contra o inimigo. Na mão direita pendia uma tira de couro, em cujo meio se formava uma cavidade. Eram as fundas, arma terrível, com a qual sabiam atingir os inimigos com tamanha precisão que as pedras pesadas lançadas por eles raramente erravam o alvo. Atrás destes ficavam os quebra-elmos; estavam bem cobertos de placas de ferro e traziam elmos pesados na cabeça. Sua arma era o machado de guerra de cabo longo; acima do aço do machado havia uma grossa ponta de ferro com a qual perfuravam elmos e armaduras. Por isso eram chamados quebra-elmos. Os homens de Oudenaarde e de Papenrode, que estavam do mesmo lado, tinham toda sorte de armas; contudo, as duas primeiras fileiras eram formadas apenas por arqueiros, e os demais traziam lanças, maças ou espadas de golpe.
A última ala, que fechava o quadrado, compunha-se de toda a cavalaria do exército, os mil e cem homens a cavalo que Jan, conde de Namur, enviara a seu irmão Gwyde. Essa tropa era somente ferro e aço: nada se podia ver além dos olhos dos cavaleiros, diante das aberturas dos elmos, e dos pés dos cavalos, que apareciam por baixo de suas coberturas de ferro. Espadas longas e largas repousavam sobre as placas dos ombros de suas armaduras, e penachos ondulantes flutuavam ao vento, atrás de suas costas.
Assim estava disposto o exército, segundo a ordem do comandante. O maior silêncio reinava entre os corpos; os soldados bem perguntavam uns aos outros o que devia acontecer, mas falavam tão baixo que ninguém, além do companheiro, podia ouvi-los. Gwyde e todos os outros cavaleiros que não haviam trazido tropa estavam hospedados em Kortrijk; todo o exército já permanecia havia algum tempo na disposição descrita, e nenhum deles ainda aparecera.
De súbito, viu-se a bandeira de meu senhor Gwyde sair por baixo da porta da cidade; meu senhor Van Renesse[116], que, na ausência do comandante, estava junto ao exército como chefe supremo, bradou:
— Armas ao alto! Cerrai e alinhai as fileiras! Silêncio!
Ao primeiro comando do nobre senhor Van Renesse, cada qual pôs sua arma na posição devida; depois apertaram-se mais uns contra os outros e alinharam-se em retas uniformes. Mal isso se fizera, a cavalaria se abriu para deixar entrar no quadrado o comandante com seu numeroso séquito.
À frente cavalgava o porta-estandarte com a bandeira de Flandres; o Leão Negro sobre o campo de ouro ondulava elegantemente junto à cabeça do cavalo e parecia mostrar as garras, como sinal de vitória, aos flamengos jubilosos. Um pouco atrás vinha Gwyde com seu primo Willem de Gulik. O jovem comandante trazia uma armadura reluzente, na qual as armas de Flandres estavam artisticamente gravadas; seu elmo ostentava um belo penacho, que descia até o dorso do cavalo. Na armadura de Willem de Gulik havia uma larga cruz vermelha; a veste branca de sacerdote aparecia por baixo da cota de armas e descia até além da sela. Seu elmo não tinha penacho, e todo o seu equipamento era simples, sem ornamentos. Imediatamente depois desses ilustres senhores seguia Adolf de Nieuwland; suas armas eram vistosas, botões dourados cobriam por toda parte as tiras que prendiam as placas de sua armadura; o penacho de seu elmo era verde, e as luvas de ferro que trazia eram prateadas. Por baixo de sua cota de malha podia-se ver pender um véu verde; esse presente de amor ele guardava sobre o coração como coisa sagrada. Ao lado dele cavalgava sua amada Machteld, num palafrém branco como a neve. A ilustre donzela ainda estava pálida, embora já não estivesse doente; a vinda de seu Adolf expulsara-lhe a enfermidade. Uma veste de montaria azul-celeste, do mais fino veludo, salpicada de pequenos leões de prata, caía em longas pregas sobre seus pés até perto do chão, e um véu de seda descia da ponta de sua touca até o cavalo. Ela contemplava o jovem Adolf com íntimo amor; ele era tão belo, tão digno aos seus olhos enamorados!
Depois vinha ainda uma trintena de cavaleiros e nobres senhoras, todos vestidos com o maior luxo, tão tranquilos e tão alegres como se fossem assistir a algum torneio. Por fim seguiam quatro escudeiros a pé; os dois primeiros traziam cada qual uma rica armadura e uma espada de guerra nos braços; os outros traziam cada qual um elmo e um escudo de armas. Enquanto os corpos permaneciam em silêncio solene, esse séquito esplêndido chegou ao meio do quadrado e ali parou.
Gwyde mandou vir seu arauto e deu-lhe uma folha de pergaminho para proclamar seu conteúdo.
— Acrescenta o nome de guerra, Leão de Flandres, pois isso alegra nossa boa gente de Bruges — disse ele.
A curiosidade dos soldados manifestou-se por um breve movimento e pela maior atenção; percebiam bem que algum segredo havia por baixo de todas aquelas formas solenes, pois certamente não era sem intenção que suas damas se haviam adornado com tamanho luxo. O arauto avançou, soprou três vezes a trombeta e bradou com voz poderosa:
— Nós, Gwyde de Namur, em nome de nosso conde e irmão Robrecht de Bethune, Leão de Flandres, a todos os que estas lerem ou ouvirem ler, saúde e paz!
— Considerando...
De súbito, ele se deteve; um murmúrio sibilante correu entre os diversos corpos, e, enquanto cada qual erguia a arma com pressa, os besteiros armaram suas bestas como se algum perigo os ameaçasse.
— O inimigo! O inimigo! — gritaram.
Ao longe via-se aproximar um exército numeroso; milhares de homens avançavam em grossas fileiras, e não se podia ver o fim delas. Duvidava-se muito, porém, se era ou não o inimigo, pois não havia cavalaria alguma. Logo se viu um cavaleiro separar-se daquela massa desconhecida e vir a galope cerrado para o acampamento; inclinava-se para a frente sobre o pescoço do corcel, de tal modo que não se podia reconhecê-lo, embora já estivesse muito perto. Aproximando-se ainda mais do exército admirado, gritou enquanto avançava sem cessar:
— Flandres, o Leão! Flandres, o Leão! Aqui estão os ganteses!
Reconheceram o velho guerreiro; um alegre clamor respondeu ao seu brado, e seu nome subiu de todas as bocas:
— Salve Gante! Salve meu senhor Jan Borluut! Bem-vindos, nossos bons irmãos!
Os flamengos, vendo que auxílio tão inesperado, exército tão numeroso, lhes chegava, já não podiam conter a alegria; os comandantes tiveram de empregar todos os esforços para mantê-los nas fileiras. Agitavam-se impetuosamente e deliravam de alegria, como se estivessem fora de si. Meu senhor Jan Borluut gritou-lhes:
— Tende coragem, meus amigos, Flandres será livre. Trago cinco mil homens bem armados e intrépidos[117].
E então os corpos exaltados responderam:
— Salve! Salve o herói de Woeringen! Borluut! Borluut!
Meu senhor Borluut chegou até o jovem conde e pensou saudá-lo com palavras corteses, mas Gwyde atalhou:
— Deixai essas fórmulas, meu senhor Jan; dai-me a mão como amigo. Estou tão contente por terdes vindo, vós que vivestes sob a armadura e possuís sabedoria tão profunda. Eu já estava desanimado, pois não vos via chegar. Demorastes muito...
— Oh, sim, nobre Gwyde — foi a resposta —, mais do que eu queria; mas aqueles malditos leliares me impediram. Poderia Vossa Nobreza crer, senhor, que em Gante se tramara entre eles uma conspiração para trazer de novo os franceses à cidade? Não queriam deixar-nos sair para socorrer nossos irmãos; mas, graças a Deus, não conseguiram, pois o povo os odeia e despreza ao extremo. Os ganteses expulsaram o magistrado para o castelo e arrombaram as portas da cidade. Ali vêm agora cinco mil homens destemidos, que anseiam pelo combate tanto quanto por uma refeição; hoje ainda não provaram um pedaço de pão.
— Bem pensei que grandes obstáculos vos detivessem, meu senhor Borluut, e temia que não viésseis.
— Ora, nobre Gwyde, nesse caso que o fogo de São João me queimasse! Eu não estaria em Kortrijk? Eu, que derramei meu sangue por estrangeiros, deixaria de socorrer minha pátria na necessidade? Os franceses haverão de sentir isso. Não me sinto com trinta anos sequer; e meus homens, ó céus! Esperai apenas, nobre senhor, até que chegue a hora sangrenta, e reparai no Leão Branco de Gante: vereis como os franceses hão de cair.
— Alegrais-me, senhor Borluut; todos os nossos homens são igualmente corajosos, igualmente intrépidos. Se tivéssemos de perder a batalha, não seriam muitos os flamengos que voltariam para casa, asseguro-vos.
— Perder, dizeis? Perder, senhor Gwyde? Isso não creio; nossos homens estão demasiado cheios de boa vontade. E Breydel, então? A vitória está estampada em seu rosto. Vede, senhor, eu apostaria minha cabeça que, se deixassem Breydel agir, ele atravessaria com seus açougueiros os sessenta e dois mil franceses como quem penetra um campo de trigo. Deus e meu senhor São Jorge nos ajudarão; tende boa esperança. Mas perdoai-me, senhor Gwyde, ali está meu exército. Deixo-vos por um instante.
Os ganteses já estavam no Groeningekouter; cansados e inteiramente cobertos de pó, pois haviam marchado a passo rápido sob o sol ardente. Suas armas eram de todos os tipos; entre eles se podiam encontrar também todos os corpos que já descrevemos. Uns quarenta nobres corriam à frente, a cavalo; eram em sua maioria amigos do velho guerreiro Jan Borluut: meu senhor Van Leerne, Jan de Coyeghem, Boudewyn Steppe, Simon Bette, Pauwel de Severen e seu filho, Jan de Aarsele, o jovem senhor Van Vinkt, Thomas de Vorselaar, Jan de Machelen, Willem e Robrecht Wennemaar, e ainda grande número de outros[118]. No meio desse exército ondulava o estandarte de Gante com seu Leão Branco. Os brugenses, que agora sentiam como haviam sido injustas suas injúrias contra os ganteses, bradavam repetidas vezes:
— Bem-vindos! Bem-vindos, nossos irmãos! Salve Gante!
Jan Borluut, enquanto isso, formou seus homens em corpos regulares diante da ala esquerda do quadrado; queria como que exibir seus bravos ganteses, para que os brugenses vissem que eles também não ficavam atrás em amor à pátria. Por ordem de Gwyde, deixou o acampamento e entrou em Kortrijk, para permitir que seus homens gozassem o descanso tão necessário em boas hospedarias.
Assim que os ganteses partiram, Jan van Renesse entrou no quadrado e bradou:
— Armas ao alto! Silêncio!
O séquito que se colocara no meio do exército dispôs-se novamente como antes; todos se calaram à ordem do senhor Van Renesse, e a atenção de todos voltou-se para o arauto, que repetiu os três toques de trombeta. Então leu em voz alta:
— Nós, Gwyde de Namur, em nome de nosso conde e irmão Robrecht de Bethune, Leão de Flandres, a todos os que estas lerem ou ouvirem ler, saúde e paz!
— Considerando os bons e leais serviços prestados à terra de Flandres e a nós mesmos pelo mestre Deconinck e pelo mestre Breydel, de Bruges;
— Querendo dar a seus homens, com conhecimento de todos os nossos súditos, uma prova de nossas boas graças;
— Querendo, além disso, recompensar como convém e pertence o seu generoso amor à pátria, para que seus serviços fiéis permaneçam em eterna lembrança e memória; assim, visto que nosso conde e pai, Gwyde de Flandres, nos deu o poder necessário para tanto, fazemos saber:
— Pieter Deconinck, deão dos tecelões de lã, e Jan Breydel, deão dos macecliers, de nossa boa cidade de Bruges, e seus descendentes para todo o sempre, são e permanecerão de sangue nobre, gozando de todos os privilégios que os senhores feudais gozam em nossa terra de Flandres;
— E, para que possam usá-los com honra, concede-se a cada um deles a vigésima parte de nossa portagem em nossa boa cidade de Bruges, para manutenção de suas casas.
Antes que o proclamador terminasse, o júbilo estrondoso dos tecelões e dos açougueiros veio abafar sua voz. O grande favor concedido a seus deões era também a recompensa de sua bravura; parte da honra daí resultante devia recair sobre as corporações de ofício. Se não estivessem tão seguros da fidelidade e do amor popular dos deões, sem dúvida teriam encarado aquele enobrecimento com olhar irado, como manobra política dos nobres; teriam dito: “Assim os senhores feudais nos arrancam os defensores de nossos direitos e seduzem nossos deões com seus favores.” Em outro caso, essa suspeita não teria sido sem fundamento, pois assim agem quase sempre os príncipes, e assim os homens se deixam quase sempre seduzir pela ambição. Não é, pois, de admirar que o povo nutra ódio amargo contra aqueles de seus irmãos que se elevam em demasia, pois, de generosos amigos do povo como eram, tornam-se aduladores baixos e covardes, e sustentam o poder que os fez; sabem que com ele subirão e cairão, e preveem que o povo, que abandonaram, os repelirá e desprezará como desertores.
As corporações de Bruges confiavam demais em Deconinck e em Breydel para formar naquele momento pensamentos semelhantes. Agora seus deões eram nobres; agora tinham dois homens admitidos no conselho do conde, que podiam encarar os inimigos de seus privilégios e combatê-los publicamente. Sentiam quanto sua força devia crescer por isso e, desse modo, entregaram-se à alegria mais franca; repetiram por tanto tempo seus gritos de júbilo que seus peitos se cansaram. Depois o rumor passou, e a alegria permaneceu visível apenas nos traços de seus rostos e em seus movimentos.
Adolf de Nieuwland veio até os deões e pediu-lhes que se apresentassem ao comandante; eles obedeceram e caminharam devagar até o séquito dos cavaleiros.
No rosto do deão dos tecelões não se lia alegria alguma. Aproximou-se majestoso e calmo, sem que paixão alguma parecesse arrebatá-lo; no entanto, havia puro contentamento e nobre orgulho em seu coração. Mas sua prudência habitual havia submetido de tal modo os traços de seu rosto à própria vontade que raramente se podia ler nele sua emoção. Agora queria guardar para si a força de um dia, se, em momento de necessidade, exigissem dele algo contra a vantagem do povo, poder dizer ao príncipe: “Quem vos pediu vossos favores? Que me destes, então, para exigir de mim a injustiça?”
Não se dava o mesmo com o deão dos açougueiros: este jamais se contivera; a menor paixão, o mais leve sentimento que lhe movesse o coração, imprimia-se em seu rosto, e podia-se ver sem esforço que a mais ampla franqueza era uma de suas virtudes. Também não conseguiu reter as lágrimas que então lhe escorriam dos olhos azuis; inclinou a cabeça para escondê-las e foi colocar-se, com o coração palpitante, ao lado de seu amigo Deconinck.
Todos os cavaleiros e nobres senhoras haviam descido dos cavalos e os entregado aos escudeiros. Gwyde mandou os quatro porta-armas avançarem e ofereceu aos deões os preciosos equipamentos; vestiram-lhes a armadura e prenderam-lhes à cabeça o elmo com o penacho azul.
Os brugenses assistiam à solenidade em atento silêncio. Seus corações estavam cheios de satisfação, e eles se comoviam como se aquela honra lhes fosse feita a eles próprios. Estando os deões armados, fizeram-nos dobrar um joelho em terra; então Gwyde avançou e ergueu a espada de guerra acima da cabeça de Deconinck:
— Meu senhor Deconinck — disse ele —, sede cavaleiro fiel, não rompais jamais a honra e não tomeis a espada senão pela pátria e por vosso príncipe.
Com essas palavras, tocou levemente o deão dos tecelões na nuca com a espada de guerra, conforme a exigência da cavalaria. O mesmo se fez com Jan Breydel, que também foi armado cavaleiro. Ao mesmo tempo, Machteld saiu do séquito e colocou-se diante dos deões ajoelhados; tomou alternadamente os dois escudos de armas dos braços dos pajens e pendurou-os ao pescoço dos dois cidadãos enobrecidos. Muitos dos espectadores notaram que ela pendurara primeiro o escudo ao pescoço de Breydel, e que certamente o fizera de propósito, pois para isso precisara dar alguns passos para o lado.
— Estes emblemas de armas vos são concedidos por meu pai — disse ela, voltando-se mais para Breydel. — Sei, nobres senhores, que os conservareis sem mancha, e alegro-me por poder colaborar na recompensa de vosso amor à pátria[119].
Breydel contemplou a jovem nobre com profunda gratidão: em seus olhos lia-se o juramento da mais ardente afeição e sacrifício; também recebeu de Machteld um daqueles sorrisos que ela não concedera a ninguém além de Adolf. O arrebatado deão dos açougueiros sem dúvida se teria lançado aos pés da boa donzela nobre, mas a atitude solene dos cavaleiros ao redor impressionava-o com força demais: ficou espantado e imóvel, sem fala, pois não podia compreender o que acontecera.
Machteld não amava muito o deão dos tecelões; sentia por ele uma aversão sem saber de onde nascera aquele sentimento singular. Não que duvidasse de sua alta sabedoria ou da retidão de sua índole; não, reconhecia em Deconinck todas as qualidades que podem engrandecer um homem, e contudo não conseguia forçar seu coração a um sentimento mais justo por ele. Nisso era igual a todas as mulheres: o homem sério, cuja alma vive solitária e oculta no amplo crânio, em cujos lábios o sorriso aparece tão raramente quanto uma palavra inútil ou lisonjeira, cujo rosto está sempre sombrio e tomado de profunda reflexão, não pode agradar às mulheres. Elas sentem demais a fraqueza de seu espírito diante de tais homens, que assim fazem recair sobre elas toda a força de suas faculdades masculinas. Que se torna, afinal, uma mulher diante de tal homem? Uma criatura frágil, nascida para brincar na terra, amar e sofrer.
Ao contrário, Machteld sentia uma afeição particular por Jan Breydel. Aquele rosto, aberto a todos como um livro no qual se leem as emoções do coração; aquele doce sorriso que corria pelo semblante viril como um sopro de vento brincalhão pelas ervas do vale; e, depois, aquela expressão de cólera e heroísmo, que inspirava às mulheres não medo, mas admiração. Tudo isso falava a favor de Breydel no coração da donzela nobre. Se ela não amasse Adolf, e se Breydel fosse um jovem senhor, talvez seu amor se tivesse fixado nele. Durante a solenidade passada, vira com desgosto que sempre punham Deconinck antes de Breydel, e procurou, tanto quanto podia contribuir para isso, desfazer essa precedência.
— Meus senhores, agora podeis voltar aos vossos homens — disse Gwyde. — Esperamos que venhais esta noite ao nosso conselho; precisamos ter convosco uma conversa mais longa. Fazei agora vossos corpos retornarem ao acampamento.
Deconinck inclinou-se cortês e retirou-se; Breydel fez o mesmo, mas, mal se afastara alguns passos, sentiu o incômodo das armas que lhe apertavam o corpo por todos os lados. Voltou depressa para diante de Gwyde e disse:
— Nobre conde, peço ainda uma graça a Vossa Nobreza.
— Falai, senhor Breydel; ela vos será concedida.
— Vede, ilustre senhor — retomou o deão —, hoje me concedestes uma grande mercê; mas não quereis impedir-me de combater nossos inimigos, quereis?
Os cavaleiros aproximaram-se mais do deão; suas palavras os espantaram muito.
— Que quereis dizer? — perguntou Gwyde.
— Que estas armas me apertam e beliscam por toda parte, senhor conde! Não consigo mover-me nesta armadura, e este elmo pesa tanto sobre minha cabeça que não posso mexer o pescoço; asseguro-vos que, nesta prisão de ferro, eu me deixaria matar como um bezerro amarrado.
— Esta armadura vos protegerá das espadas dos franceses — observou um cavaleiro.
— Sim, mas — atalhou Breydel — eu não preciso de nada disso. Quando estou livre, com meu machado no punho, nada temo. Francamente, eu ficaria ali em bela figura, tão duro e tão envergonhado! Não, não, meus senhores, não quero isto em meu corpo nem por ouro. Por conseguinte, senhor conde, peço que me permitais permanecer cidadão até depois da batalha; então travarei conhecimento com esta armadura incômoda.
— Podeis fazer como vos aprouver, meu senhor Breydel — respondeu Gwyde. — Contudo, sois e continuais cavaleiro.
— Muito bem! — gritou o deão com alegria. — Então sou o cavaleiro do machado! Obrigado, obrigado, ilustre senhor.
A essa exclamação, deixou o séquito e correu para seus homens; estes o receberam com sonoras felicitações e não cessavam de manifestar sua alegria por toda sorte de gritos. Breydel ainda estava a alguns passos das fileiras de seus açougueiros quando toda a armadura já jazia no chão. Conservou apenas o escudo de armas que Machteld lhe pendurara ao pescoço.
— Aelbrecht, meu amigo — gritou ele a um de seus homens —, recolhe essas armas e leva-as para minha tenda; não quero ferro no corpo enquanto vossos peitos nus ousam esperar a arma inimiga. Quero assistir à quermesse em traje de maceclier. Fizeram-me nobre, meus companheiros, mas, por São Jorge, isso nada muda! Meu coração é e continua sendo coração de açougueiro; os franceses hão de senti-lo bem. Vamos, iremos ao acampamento; beberei vinho convosco como antes, dou a cada um uma medida. E salve o Leão Negro!
Esse brado foi repetido por todos os companheiros; formou-se certa desordem nas fileiras, e eles queriam dirigir-se impetuosamente ao acampamento, pois a promessa do deão os enchera de alegria.
— Ho, ho! Homens! — gritou Breydel. — Assim não! Cada qual em sua fileira, ou ficaremos de mal.
Os outros corpos já estavam em movimento e voltavam para a trincheira, com trombetas soantes e bandeiras ao vento; o séquito dos cavaleiros entrou pela porta da cidade e desapareceu atrás das muralhas.
Algum tempo depois, todos os flamengos estavam diante de suas tendas, ocupados em conversar sobre o enobrecimento dos deões. Grande número de açougueiros sentava-se no chão, em amplo círculo, com os hanapes na mão; grandes jarros cheios de vinho estavam ao lado deles, e, em uníssono, cantavam a canção do Leão Negro. No meio deles, sobre um tonel vazio, sentava-se o enobrecido Breydel, que, como solista, iniciava cada refrão. Bebia em repetidos goles pela libertação da pátria e procurava, por maior familiaridade, fazer esquecer a mudança de sua condição, pois temia que seus companheiros pensassem que ele já não queria ser, como antes, amigo e camarada deles.
Deconinck encerrara-se em sua tenda para escapar às felicitações de seus tecelões; comovia-se demais com aquelas provas de afeição, e esse abalo ele mal podia esconder. Por isso permaneceu sozinho o dia inteiro, enquanto o exército se entregava à mais íntima alegria.
* * * * *
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.