Universo da obra
Universo da obra
_Agora se realiza tudo
O que ambos sonhastes:
Toda essa ventura indizível
Hoje aflui para vós._
JF WILLEMS
Embora grande parte dos corpos flamengos perseguisse em grupos o inimigo pelos campos, ainda restavam alguns corpos regulares no campo de batalha. Jan Borluut fizera seus homens permanecerem ali para guardar o campo até o dia seguinte, segundo o costume da guerra; poucos, por entusiasmo violento demais, haviam desobedecido a essa ordem. O corpo que ele tinha consigo ainda se compunha de três mil ganteses[164]; havia também muitos homens de todas as armas que, esgotados pelo esforço ou pelas feridas, não podiam perseguir o inimigo e, por conseguinte, haviam ficado no campo de batalha. Agora que a luta estava vencida, agora que se haviam rompido as amarras da pátria, os flamengos exaltados jubilavam com gritos alegres:
— Flandres, o Leão! O que é valão é falso! Vitória! Vitória!
E então os homens de Ypres e de Kortrijk respondiam das muralhas da cidade com clamores ainda mais fortes. Também eles podiam gritar vitória, pois, enquanto os dois exércitos se combatiam no Groeningekouter, o castelão de Lens caíra do castelo sobre a cidade com cem de seus homens e talvez a tivesse incendiado por completo; mas os homens de Ypres atacaram seu corpo com tanta intrepidez que, depois de longo combate, os franceses fugiram em desordem de volta ao castelo. Meu senhor Van Lens, contando seus homens, verificou que apenas a décima parte escapara à fúria dos cidadãos[165].
A maioria dos comandantes e nobres fora ao acampamento e se reunira ao redor do cavaleiro dourado. Com suas palavras, exprimiam-lhe toda a gratidão; mas ele, temendo dar-se a conhecer, não respondia. Gwyde, que estava ao seu lado, voltou-se para os cavaleiros e lhes disse:
— Meus senhores, o cavaleiro que salvou de modo tão maravilhoso a todos nós e à terra de Flandres é um cruzado que deseja não ser conhecido. O filho mais nobre de Flandres traz seu nome.
Os cavaleiros não falaram, mas cada um tentava adivinhar consigo quem poderia ser aquele homem tão nobre, tão valente e tão forte de corpo. Aqueles que haviam estado presentes ao encontro no bosque junto ao Dale já sabiam havia muito quem era; mas não ousavam revelar sua opinião, pois haviam prometido solenemente guardar segredo. Entre os outros, havia muitos que não duvidavam de que só poderia ser o próprio conde de Flandres; contudo, bastava-lhes que Gwyde houvesse dado a conhecer o desejo do cavaleiro dourado para fazer do silêncio um dever.
Depois de Robrecht falar algum tempo em voz baixa com Gwyde, fez correr o olhar por todos os corpos que estavam perto. Quando também olhou sobre o vasto campo de batalha, aproximou-se mais de Gwyde e disse:
— Não vejo Adolf de Nieuwland; a angústia me faz tremer. Vós o sabeis: se o jovem intrépido caiu sob a espada inimiga... então serão derramadas por ele lágrimas amarguíssimas!
— Tombado ele não estará, Robrecht; parece-me que ainda há pouco vi seu penacho verde entre as árvores do Neerlanderbos. Certamente persegue agora os inimigos restantes; vistes com que ímpeto irresistível ele sempre se lançava para o meio dos franceses. Não temais; Deus não terá permitido que morresse.
— Ó Gwyde! Se falásseis a verdade! Meu coração se parte ao imaginar que minha infeliz filha, num dia tão jubiloso, possa ser torturada por dores mortais. Peço-vos, meu irmão, fazei os homens de meu senhor Borluut percorrerem o campo de batalha, para que se procure se o corpo de Adolf não pode ser encontrado. Vou consolar minha enferma Machteld; que a companhia de seu pai lhe dê ao menos um momento feliz.
Saudou com a mão os cavaleiros ali presentes e correu depressa na direção da abadia de Groeninge. Gwyde ordenou a Jan Borluut que espalhasse seus homens pelo campo de batalha, para tirar os feridos de baixo dos cadáveres e trazer os cavaleiros mortos ao acampamento.
Os ganteses, entrando no campo de batalha, pararam de repente, como se uma visão terrível os tivesse emudecido. Agora que o arrebatamento do combate se extinguira neles, seus olhos vagavam com horror sobre aquele vasto massacre, onde cadáveres esmagados, cavalos, estandartes e membros decepados de tantos milhares de homens jaziam misturados, como que nadando em sangue[166]. Ao longe via-se aqui e ali um moribundo erguer o braço, como em prece por socorro, e estendê-lo suplicante. Um rumor pavoroso, cem vezes mais lúgubre que o silêncio mais imponente, pairava sobre os corpos amontoados. Era a voz dos feridos, clamando:
— Beber, beber... Pelo amor de Deus, beber!
O sol ardia com forte fulgor sobre seus músculos descobertos e os torturava com sede insuportável; os lábios colavam-se uns aos outros, e mal conseguiam formar uma queixa de morte entrecortada. O ar estava carregado de corvos negros como por uma tempestade; o grito grasnante daquelas aves de rapina famintas ressoava, como chamado da morte, sobre o campo de batalha, e enchia o coração dos vivos de sombrio abatimento. Logo as aves jubilantes desceram sobre os cadáveres e arrancaram com as garras os músculos ainda trêmulos. Os feridos lutavam com angústia contra aqueles inimigos horríveis e estremeciam de pavor ao pensar que cada um daqueles animais comeria parte de sua carne. Para eles, nenhuma sepultura além do corpo dos corvos; para eles, nenhum repouso depois da morte, nenhuma terra consagrada onde dormir até o dia final.
Que perspectiva terrível! Que pensamento capaz de esmagar o coração!
Incontáveis cães famintos haviam saído da cidade ao cheiro do sangue. Corriam de um cadáver a outro e uivavam uns para os outros em tons longos e tão pavorosos que se teria pensado que o inferno enviara seus demônios para cantar a chegada de tantas almas. Contudo, esses animais não rasgavam os corpos; ao contrário, pareciam fazer aquele alarido por tristeza pelos mortos. Embora às vezes sorvessem aqui ou ali o sangue dos homens misturado ao sangue dos cavalos, lutavam com fúria contra os corvos e protegiam assim muitos corpos de suas garras profanadoras. A todos esses ruídos assustadores juntava-se o relincho surdo, ou antes o uivo dos cavalos moribundos, e os gritos jubilosos de vitória dos homens que estavam na cidade. Horrível, horrível era a vista de tantos bravos caídos, que agora dormiam para sempre, com o azul da morte no rosto, entre seus membros dispersos[167].
O príncipe que provoca a guerra, que depois da batalha caminha pelo campo, que põe os pés reais no sangue que mandou derramar, deve ser aos próprios olhos uma criatura maligna, quando fala consigo mesmo e diz: “És tu aquele sobre cuja cabeça flutua tanto sangue nobre; és tu aquele que num só dia mandou matar mais gente do que todos os assassinos de teu reino mataram.”
Se então ele não deixa cair para sempre a espada maldita, que seja desprezado como criatura disforme; pois não tem coração, não tem alma e não é digno do nome de homem. E os povos, que admiram as grandes atrocidades tanto quanto as grandes virtudes, dão a tais homens o nome de herói e dizem: ele é grande. Porque derramou sangue humano em torrentes! Porque não matou como salteador sob o nome de salteador, mas como rei e sob o nome de rei! Que prazer criminoso encontram os homens em sua própria destruição, para recompensarem os instrumentos dela com tudo quanto se pode desejar na terra?
À medida que os ganteses se espalhavam pelo campo de batalha, os corvos levantavam voo diante deles e iam mais longe procurar presa. Procurava-se, entre todos os caídos, aqueles cujo peito ainda batia, e levavam-nos ao acampamento, para chamá-los de volta à vida. Um corpo numeroso fora tirar água fresca do riacho Gaverse em toda sorte de vasos, para aliviar os que ainda viviam. Era tocante e capaz de comover a alma ver com que avidez os feridos sorviam a água fria como se fosse a própria vida, e com que gratidão recebiam esse alívio das mãos de seus irmãos ou de seus inimigos, com uma lágrima cintilante de alegria[168]. Quando se cuidava de um deles, erguiam-se ali perto muitos braços suplicantes, e muitas vozes fracas suspiravam:
— Oh, aliviai-me também, uma única gota de água! Pela Paixão de nosso Salvador, eu vos suplico, irmãos, molhai meus lábios e livrai-me da morte...
Os ganteses haviam recebido ordem de levar ao acampamento os cavaleiros flamengos que encontrassem, mortos ou vivos. Já haviam deslocado quase metade dos corpos e examinado boa parte do campo de batalha. Os corpos dos nobres senhores Salomon de Zevekote, Philip van Hofstade, Eustachius Sporkyn, Jan van Severen e Pieter de Bruges já haviam sido carregados, e estavam ocupados em soltar a armadura do ferido Jan, senhor de Machelen. Aproximavam-se agora do lugar onde se havia combatido com mais obstinação, pois grandes montes de cadáveres jaziam ao redor deles, confusos e ensanguentados. Enquanto davam de beber a meu senhor Van Machelen, ouviram de repente um suspiro rouco, como se subisse da terra. Escutaram, mas não perceberam mais nada; nenhum dos corpos que jaziam ao redor dava o menor sinal de vida. Movendo os cadáveres para procurar o que se queixava, ouviram de novo o suspiro e notaram que ele subia um pouco mais adiante, entre cavalos abatidos. Imediatamente outros correram para junto deles, para ajudar os companheiros. Depois de longos esforços, arrastaram os cavalos para o lado e encontraram o cavaleiro moribundo.
Jazia estendido de costas; o sangue corria murmurante sob ele e se voltava, sinuoso como uma fonte, para o Groeningebeek. Membros decepados estavam espalhados ao redor; sua armadura fora esmagada debaixo de um cavalo; a mão direita ainda não abandonara a espada de guerra, enquanto a esquerda segurava um véu verde. Suas faces estavam pálidas e traziam o sinal da morte que se aproximava. Olhava, errante e fraco, para aqueles que vinham libertá-lo; seus cílios débeis já não tinham força para proteger do sol ardente as pupilas escurecidas. Jan Borluut reconheceu o infeliz Adolf de Nieuwland.
Às pressas, soltaram-lhe as correias da armadura; ergueram-lhe a cabeça da lama e umedeceram-lhe os lábios com água revigorante. Sua voz moribunda sussurrou algumas palavras incompreensíveis, e seus olhos se fecharam dessa vez por completo, como se sua alma tivesse fugido do corpo esmagado. O ar novo e o alívio da água o haviam abalado fortemente; permaneceu alguns instantes desfalecido. Depois, despertando outra vez, mas igualmente fraco, tomou a mão de meu senhor Borluut e falou tão devagar que entre cada palavra havia longa pausa:
— Eu morro... Vedes, meu senhor Jan, minha alma não ficará muito tempo na terra. Mas não choreis por mim. Morro satisfeito, agora que a pátria foi vingada...
Seu fôlego era curto demais para que pudesse falar mais; deixou a cabeça cair no braço de Jan Borluut e pareceu querer reunir mais força para aquilo que ainda desejava dizer-lhe. Então falou:
— Oh, eu vos peço, ouvi-me nesta hora de morte. Prometei-me que haveis de cumprir meu último desejo.
— Juro-o por Deus e por minha honra — respondeu Borluut, em tom surdo, que denunciava sua tristeza.
Adolf olhou-o com gratidão e retomou:
— Eu deixaria a terra sem tristeza, pois há ainda outro mundo depois deste; mas minha alma acostumou-se ao amor de uma imagem adorável. Lamentará a ausência dela depois da morte, e talvez eu não encontre repouso no túmulo frio. Ela me chamará, e eu não virei.
Duas lágrimas, que rolaram por suas faces, arrancaram lágrimas de dor dos olhos de todos os que o cercavam. Jan Borluut não o entendia; compreendia bem que o amor por uma mulher fazia o moribundo falar assim, mas não podia adivinhar quem seria aquela amada tão chorada. Escutou com mais atenção as palavras de Adolf. Este retomou:
— Amei Machteld com tanto ardor; ela me amava com tanta ternura; e agora, agora o destino rasga nossos corações sangrando, um do outro. Suplico-vos, meu senhor Jan, ide consolá-la; dai-lhe este véu, que foi mergulhado no sangue dos estrangeiros. Que ela o guarde como sinal de meu amor, que ainda depois de minha morte pense em mim, e que reze pelo alívio de minha alma. Sinto os impulsos de meu coração cessarem; a morte me tocou. Adeus... meu amigo, meu irmão, nós nos veremos lá...
Nesse adeus, tentou erguer a mão para apontar para o céu, mas já não pôde; seus olhos se fecharam, e a vida pareceu deter-se nele. Contudo, seu peito ainda batia, e o calor não abandonava o corpo. Jan Borluut conservava ainda alguma esperança duvidosa e mandou levar o cavaleiro ferido ao acampamento com toda a cautela possível.
Machteld, com a irmã de Adolf, retirara-se antes do combate para uma cela da abadia de Groeninge. Certamente não havia naquele momento, em Flandres, ninguém torturado por maior angústia que aquela infeliz donzela nobre. Através de todo gênero de desgraças, ela chegara enfim a ponto de Adolf lhe ser prometido por esposo, de a libertação de Flandres e a salvação de seu pai lhe sorrirem. Tudo quanto podia fazê-la feliz na terra estava arriscado na batalha que ia começar, contra força desigual.
Se os franceses conquistassem a vitória, ela previa a morte do pai, a morte do amado e a destruição de tudo em que depositara sua esperança.
Assim que a trombeta de guerra lançou seus sons sobre o campo de batalha, as duas mulheres estremeceram e empalideceram como se um golpe mortal as tivesse atingido ao mesmo tempo; ambas tremiam pelo homem cuja vida era também sua vida. Em momentos tão angustiantes, mal podiam exprimir as emoções da alma, pois cada palavra lhes gerava uma perspectiva mais sombria. Tinham-se deixado cair juntas no genuflexório; suas cabeças repousavam contra a estante, e as lágrimas corriam em silêncio por suas faces. Ali ficaram, rezando com fervor, sem se mover, como se estivessem em sono profundo. De tempos em tempos, um soluço surdo saía de seus peitos, quando o ruído do combate se erguia mais forte, e então Maria suspirava:
— Ó Deus todo-poderoso, Deus dos exércitos, tende piedade de nós. Socorrei-nos na necessidade, ó Senhor!
E a voz fina de Machteld respondia:
— Ó doce Jesus Salvador, protegei-o! E não o chameis a vós, ó Deus misericordioso!
— Santa Mãe de Deus, rogai por nós.
— Ó Mãe de Cristo, consoladora dos aflitos, rogai por ele!
Então o rumor trovejante da guerra vinha ressoar com mais terror em seus corações abalados, e suas mãos tremiam de medo como as folhas vacilantes dos choupos; suas cabeças se inclinavam mais fundo, as lágrimas jorravam mais abundantemente dos olhos, e a prece se tornava outra vez ininteligível, pois a angústia lhes tirava a voz.
A luta durou muito. O grito terrível dos corpos que se chocavam uns contra os outros pairou longamente acima da abadia de Groeninge; mas ainda mais longa foi a oração silenciosa das mulheres, pois o cavaleiro dourado já batia à porta do mosteiro e elas ainda não se haviam levantado do genuflexório. Passos de homem, ressoando pelo corredor da cela, fizeram-nas voltar a cabeça; fitavam a porta e ambas tremiam de doce pressentimento.
— Adolf volta! — suspirou Maria. — Oh, nossa prece foi ouvida.
Machteld escutou com mais atenção e respondeu, abatida:
— Não, não, não é ele; seu passo não é tão pesado. Ó Maria, talvez um mensageiro de desgraça!
Nesse instante, ouviu-se a porta da cela ranger nos gonzos; uma freira abriu-a e deixou entrar o cavaleiro dourado.
O corpo delicado de Machteld enrijeceu; seus olhos se fixaram, incertos, naquele que estava diante dela e abria os braços para recebê-la. Pareceu-lhe que um sonho mentiroso a enganava, mas essa impressão foi mais fugaz que o relâmpago que brilha e se extingue. Lançou-se impetuosamente para a frente e caiu, jubilosa, contra o peito do cavaleiro dourado.
— Meu pai! — gritou ela. — Ó meu querido pai! Vejo-vos de novo, livre, sem corrente! Deixai-me apertar-vos em meus braços. Ó Deus, como sois bom! Não afasteis de mim vossa face, amado pai; deixai-me derramar a alegria que sinto.
Robrecht de Bethune abraçou sua filha terna com alegria arrebatada; manteve-a contra o peito até que o entusiasmo dos dois corações se abrandasse um pouco, e depois depôs o elmo e as luvas de ferro sobre o genuflexório. Esgotado pelo esforço, puxou para si um assento e deixou-se cair nele. A amorosa Machteld lançou-se ao colo do pai e envolveu-lhe o pescoço com os dois braços; então contemplou com reverência admirada aquele cujo rosto era para ela tão salutar quanto a face da divindade, o homem cujo sangue nobre também corria em suas veias e que a amava com tanta ternura e intimidade. Escutava, de peito ofegante, as doces palavras que a voz querida fazia soar em seus ouvidos.
— Machteld — disse ele —, minha nobre filha, o Senhor nos provou longamente; mas agora todo o nosso sofrimento chegou ao fim. Flandres está livre, a pátria está vingada, o Leão Negro rasgou todas as flores-de-lis, e todos os estrangeiros foram derrotados. Não temas mais: os maus soldados que Joana de Navarra enviara estão mortos.
A moça recolhia as palavras dos lábios do pai com avidez angustiada; olhava-lhe errante nos olhos e sorria com expressão singular. A alegria arrebatava-a de tal modo que ela permanecia imóvel, como se estivesse privada de sentimento. Depois de alguns instantes, percebendo que o pai já não falava, exclamou:
— Ó Deus! A pátria está livre? Os franceses foram vencidos? E a vós, meu pai, possuo-vos de novo! Então ainda voltaremos ao nosso belo Wijnendale; a tristeza não tornará mais amargos vossos anos de velhice, e passarei minha vida tão alegre e tão feliz em vossos braços! Eu não podia esperar tamanha felicidade; não ousava pedir tanto a Deus em minhas orações.
— Escuta bem, minha filha, e não te desalentes, eu te peço: hoje devo deixar-te de novo. O generoso guerreiro que desta vez ainda me libertou das correntes recebeu minha palavra de honra de que eu voltaria assim que a batalha estivesse travada.
A moça deixou a cabeça pender em profunda tristeza sobre o peito e suspirou:
— Eles vos matarão, meu desventurado pai!
— Não tenhas tanto medo, Machteld — retomou Robrecht. — Meu irmão Gwyde aprisionou sessenta cavaleiros franceses de sangue nobre; far-se-á anunciar a Filipe, o Belo, que a vida deles fica empenhada pela minha, e não lhe é permitido sacrificar esses bravos restantes à sua sede de vingança. Nada mais tenho a temer; Flandres é mais poderosa que a França. Por isso te peço que não chores. Alegra-te: o mais belo futuro nos espera. Mandarei restaurar o castelo de Wijnendale para nos receber a todos de novo. Então ainda iremos juntos à caça de falcão; compreendes como será alegre nossa primeira saída?
Um sorriso de felicidade inexprimível e um beijo de terno amor foram a resposta de Machteld. “E meu esposo morará conosco!”, era o pensamento que ainda mais a acariciava. Ela disse:
— Mas, querido pai, não me falais de Adolf. Por que ele não vem convosco?
— Ainda alguns cuidados o ocupam, minha filha; ainda há inimigos dispersos correndo pelos campos, e certamente ele os persegue. Machteld, posso dizer-te que o amor te fez escolher o cavaleiro mais nobre que conheço; nunca vi ninguém portar-se com tanta bravura. Os inimigos caíam aos montes diante de sua espada; ele estava sempre no meio dos franceses e pôs-se cem vezes em perigo de vida. Agora também é minha vontade que ele receba tua mão como prova de sua fidelidade e de seu amor à pátria; ainda hoje, se Deus o permitir, eu te darei o homem de teu coração.
Machteld baixou a cabeça para esconder o rubor que lhe vinha tingir as faces. Tomou a mão do pai e acariciou-a com gratidão terna. Exaltada, Maria escutava os louvores feitos ao irmão; alegrava-se com o que ouvia e antevia, num sonho dourado, a alegria que devia tocar Adolf.
Enquanto a jovem Machteld contemplava o pai em êxtase, ouviu-se grande rumor de vozes confusas junto à porta principal do mosteiro. Isso durou apenas alguns instantes, e tudo voltou a silenciar. Logo a porta da cela se abriu, e Gwyde, irmão de Robrecht, entrou devagar, com o rosto abatido. Aproximou-se dele e falou:
— Uma grande desgraça, meu irmão, nos fere hoje num homem que é querido a todos nós. Os ganteses o recolheram do campo de batalha entre os mortos e o trouxeram aqui ao mosteiro; sua alma paira nos lábios, e talvez a hora de sua morte esteja próxima. Pede para vos ver ainda antes de deixar o mundo. Peço-vos, portanto, meu irmão, concedei-lhe essa última graça.
Voltando-se para a irmã de Adolf, acrescentou:
— Ele vos chama igualmente, nobre senhora.
Uma mesma queixa, um grito doloroso, escapou do peito das duas mulheres. Machteld caiu sem sentidos nos braços do pai e parecia morrer; Maria, sem querer ouvir nada, saltou para a porta com pranto de partir o coração e deixou o aposento. A esses gritos de dor, duas freiras entraram e receberam a fraca Machteld dos braços do cavaleiro dourado; este beijou a filha com dolorosa compaixão e quis ir visitar o moribundo Adolf, mas a donzela nobre abriu os olhos e, compreendendo sua intenção, arrancou-se das mãos das freiras. Agarrando-se ao corpo de Robrecht, exclamou:
— Deixai-me ir convosco, ó pai! Que ele me veja ainda uma vez. Ai de mim, que espada cruel atravessa meu peito! Meu pai, morro com ele; já sinto a morte em mim. Quero vê-lo; apressai-vos, vinde, oh, vinde depressa! Ele morre, ele, Adolf!
Robrecht olhou a filha com piedade; não achando palavras para consolá-la, envolveu-a com os dois braços e apertou-a contra o peito. Mas Machteld logo se desvencilhou desses laços ternos; puxou Robrecht pela mão, bradando:
— Ó pai, tende compaixão de mim! Vinde, para que eu ainda ouça uma vez a voz dele, para que seus olhos ainda me contemplem vivos uma vez!
Ajoelhou-se diante dele e retomou, enquanto as lágrimas corriam por suas faces como de duas fontes:
— Suplico-vos, pai, não rejeiteis meu pedido. Não é a tristeza que me arrebata; é o amor que me impele a ele. Ouvi-me, ó senhor e pai!
Robrecht teria preferido deixar sua filha com as freiras, pois temia, com razão, que a visão do cavaleiro moribundo a atingisse demais; contudo, já não podia rejeitar a súplica insistente de Machteld. Tomou-a pelo braço e disse:
— Pois bem, minha filha, vem comigo e visita teu infeliz Adolf. Mas peço-te: não me entristeças tanto com teu desespero; pensa que Deus nos concedeu hoje muitas grandes graças e que Ele pode irar-se com tua descrença.
Já estavam no corredor, fora da cela, quando ele terminou essas palavras.
Tinham levado Adolf à grande sala de refeições do mosteiro; um leito de penas fora posto no chão, e Adolf, cuidadosamente colocado sobre ele. Um sacerdote muito experiente em medicina examinara-lhe o corpo com grande atenção e não encontrara nele feridas abertas; longas marcas azuis desenhavam na pele os golpes recebidos, e fortes contusões haviam reunido e coagulado o sangue por baixo delas. Seus membros foram imediatamente lavados depois da sangria e untados com bálsamo fortificante. Pelo cuidado hábil do sacerdote, ele se fortalecera um pouco; entretanto, ainda parecia prestes a morrer, embora seus olhos já não fossem tão cinzentos nem tão vítreos. Ao redor do leito de morte, grande número de cavaleiros se calava e chorava seu amigo. Meu senhor Jan van Renesse, Arnold de Oudenaarde e Pieter Deconinck ajudavam o sacerdote em suas tarefas. Willem de Gulik, Jan Borluut e Boudewyn de Papenrode estavam do lado esquerdo, enquanto o jovem Gwyde, com Jan Breydel e os outros cavaleiros principais, fitava o ferido à cabeceira dos pés, de cabeça baixa.
Breydel era horrível de ver: tinha as faces arranhadas, um pano ensanguentado cobria metade de sua cabeça, seus braços e roupas estavam rasgados, e seu machado, rombudo pelos golpes, pendia ao lado. Os outros cavaleiros tinham igualmente um ou outro membro envolto em panos, e o equipamento de todos estava terrivelmente amassado e talhado. Maria, chorando, estava ajoelhada junto do irmão; tomara uma de suas mãos e a banhava de lágrimas, enquanto Adolf a olhava com olhos desfalecidos.
Assim que Robrecht entrou na sala com a filha, todos os cavaleiros foram tomados de comoção e assombro. Aquele que, como libertador secreto, viera a seu encontro na necessidade era o Leão de Flandres, seu conde! Todos puseram um joelho em terra com a mais profunda reverência e disseram:
— Honra ao Leão, nosso senhor!
Robrecht soltou a filha, ergueu do chão os senhores Jan Borluut e Van Renesse e beijou ambos na face. Fez sinal aos demais para que se levantassem e disse:
— Meus fiéis súditos, meus amigos, provastes-me hoje quão poderoso é um povo de heróis. Uso agora minha pequena coroa com mais orgulho do que Filipe, o Belo, usa a do reino da França, pois de vós posso, com justiça, orgulhar-me.
Machteld se lançara como se estivesse fora de si junto à cabeça de Adolf; esquecia naquele instante o pudor e a modéstia de seu sexo. Sem perceber, pousara várias vezes os lábios nas faces pálidas de seu amado; suas lágrimas corriam amargas, e soluços tristes saíam ardentes de seu peito oprimido.
Adolf sentiu-se reviver sob os beijos de amor de sua adorada Machteld; por muito tempo permaneceu sem fala, fitando aqueles olhos azuis, tão santos para ele, e revelou sua alegria por um sorriso suave, quase imperceptível. Por fim suspirou com voz fraca:
— Machteld, minha adorada amiga, eu quis merecer-vos por bravura e heroísmo; levei vosso véu através do exército inimigo, muitos franceses caíram sob minha espada; mas Deus me chamou para si. Devo deixar-vos: essa certeza me tortura. Vós, que tanto me amastes, vós que um dia devíeis transmitir aos meus filhos o sangue de vossa ilustre linhagem, não me fostes destinada. O Senhor dispôs de outro modo sobre nós dois.
A donzela nobre, torturada, passava as mãos trêmulas e ardentes pelos membros paralisados do cavaleiro. Quis pronunciar algumas palavras de consolo, mas sua voz sufocou em soluços surdos.
Então Adolf retomou:
— Não choreis, bem-amada Machteld; há ainda outra vida. Lá nossas almas se verão de novo, e então a morte odiosa já não poderá separar-nos. Ficai na terra, ó minha noiva pura; sede o amparo dos anos velhos de vosso ilustre pai, e pensai às vezes em vossas orações no homem que amastes.
O desventurado jovem não sabia que cada uma de suas palavras, como punhal envenenado, atravessava o coração de sua amante aflita. Esgotado por fala tão longa, apertou em silêncio a mão da amada. Robrecht de Bethune estava de cabeça baixa, olhando aquela cena; retinha lágrimas amargas nos olhos e encerrava a angústia no peito. Adolf o percebeu e disse:
— Ó meu senhor e conde, vossa mão generosa me concedeu o dom mais rico que se pode dar a um homem na terra; o céu vos recompensou. A terra de vossos pais está libertada; possuireis o trono do Leão em dias de paz. Morro com alegria, agora que o futuro promete dias mais felizes a vós e à vossa nobre filha. Oh, crede-me nesta hora de morte: vossa desgraça foi para mim, vosso indigno servo, mais dolorosa do que para vós mesmo. No segredo das noites, tantas vezes molhei meu leito de lágrimas quando pensava em vosso cativeiro e na opressão da pátria... Mas Deus! Que é isto? Parece-me que uma força nova me corre pelas veias. Poderia eu viver mais? Ó Machteld, pusestes a mão sobre meu peito; é isso que me revigora tão maravilhosamente.
Os olhos de Adolf brilharam com mais vivacidade; um suave sorriso pairou em seus lábios, e dir-se-ia que de súbito ele ia levantar-se da morte.
— Oh, não morrereis! — exclamou Machteld. — Aqui, em meu coração, há uma voz que me diz que o Senhor ainda não vos chamou.
Voltou-se com movimento apressado, ajoelhou-se, juntou as mãos e ergueu ao céu olhos suplicantes. Como se o Todo-Poderoso houvesse ouvido aquela prece silenciosa e solene, viram-se as forças voltarem a Adolf. Durante aquela cena, o sacerdote observara o enfermo com olhos agudos e sondara todas as emoções que o haviam atingido. Tomou e apalpou a mão de Adolf com intenção secreta, enquanto todos os espectadores acompanhavam seus movimentos com angústia. Pelo rosto do sacerdote, viam que nem toda esperança de salvação do ferido estava perdida. O religioso prosseguiu em silêncio; ergueu as pálpebras do enfermo e examinou-as, abriu-lhe a boca e fez a mão deslizar sobre seu peito nu. Feito isso, voltou-se para os cavaleiros ao redor e falou no tom da mais íntima convicção:
— Eu vos digo, meus senhores: a febre que devia matar este jovem cavaleiro passou. Ele não morrerá!
Todos os cavaleiros foram atingidos por emoção singular, e alguém teria pensado que uma sentença de morte soara da boca do sacerdote; mas aquela forte comoção de assombro logo lhes permitiu exprimir a alegria por palavras e gestos.
Maria respondeu ao anúncio do sacerdote com um grito alto e abraçou o irmão em arrebatamento. Machteld desfaleceu; suas forças a abandonaram. Erguendo-se de repente, caiu ofegante nos braços do pai e, como seu coração fora abalado demais por bendito êxtase, a princípio não pôde falar; contudo, seus olhos não se fecharam, e as cores também não abandonaram suas faces. Por fim exclamou:
— Ó meu pai, ó meu Adolf, agora sou feliz! Agradeço ao Deus bondoso por ter ouvido tão depressa a oração de sua humilde serva. Sim, vivereis, meu Adolf, meu noivo! Eu o vejo: vossos olhos brilham com o fogo da vida.
— Machteld — suspirou Adolf —, mulher adorada, que força tem junto de Deus vossa voz de anjo, para me chamar assim de volta da morte? Oh, sim, minha ternamente amada, viverei; o coração me bate tão forte!
Aquilo que todos viam como milagre era consequência natural do estado de Adolf. Ele não tinha feridas abertas nem profundas, mas muitas contusões; as dores torturantes causadas por elas haviam-lhe gerado uma febre perigosa, que devia arrebatá-lo. Mas a presença de Machteld, duplicando as forças de sua alma, expulsou dele a febre da morte, e assim escapou ao túmulo que já se abria diante dele.
Robrecht de Bethune deixou sua filha, perdida de felicidade, ajoelhada junto de Adolf e, vindo para diante dos cavaleiros, falou-lhes deste modo:
— Vós, homens mais nobres de Flandres, alcançastes hoje uma vitória que passará a nossos filhos como prova de vossa alta valentia; mostrastes ao mundo inteiro quanto custa ao estrangeiro ousar pôr o pé em nosso chão de Leões. O amor à pátria inflamou vossas almas heroicas em intrepidez desconhecida, e vossos braços, temperados por justa vingança, derrotaram os tiranos. A liberdade é preciosa a um povo que a selou com seu sangue. Agora todos os príncipes do Ocidente não podem mais fazer dos flamengos escravos por um só instante, pois morreríeis todos antes que alguém triunfasse sobre vós. Mas já não devemos temer isso: Flandres elevou-se hoje acima de todos os outros povos, e é a vós, homens nobres, que a pátria deve esse brilho. Queremos agora que a paz e o repouso recompensem nossos súditos por sua fidelidade; será para mim felicidade ser saudado por todos eles com o nome de pai, se nosso amor cuidadoso e nossos esforços incessantes para fazê-los felizes puderem merecer-nos esse nome. Contudo, se acontecesse de os franceses ousarem voltar, seríamos ainda o Leão de Flandres, e nosso martelo vos conduziria de novo à batalha. Pedimo-vos, meus senhores: assim que tiverdes retornado a vossos feudos, acalmai os ânimos, trazei tudo ao repouso, para que a vitória não seja manchada por tumulto; e sobretudo não permitais que o povo comece novas perseguições contra os leliares. Cabe a nós fazer justiça sobre eles. Devemos deixar-vos. Em nossa ausência obedecereis a nosso irmão Gwyde como vosso senhor e conde.
— Deixar-nos! — gritou Jan Borluut, incrédulo. — Voltareis à França? Não o façais, nobre conde; eles vingarão em vós sua derrota.
— Meus senhores — atalhou Robrecht —, pergunto-vos: quem entre vós, por medo da morte, quereria quebrar sua palavra de honra e sua fidelidade de cavaleiro?
Eles inclinaram ao mesmo tempo a cabeça e não disseram palavra; com tristeza, compreenderam que nada podia deter seu conde. Este prosseguiu:
— Meu senhor Deconinck, vossa profunda sabedoria nos foi de grande proveito e ainda o será; chamamo-vos ao nosso conselho e desejamos que permaneçais conosco na corte condal. Meu senhor Breydel, vossa bravura e fidelidade merecem grande recompensa; sede, de agora em diante e para sempre, comandante supremo de todos os vossos concidadãos que puderem servir-nos com armas; sabemos com quanta honestidade podeis exercer esse cargo.
— Além disso, também pertencereis à nossa corte e podereis viver nela, se isso vos aprouver. E vós, Adolf, vós que tantas vezes arriscastes a vida por nós e pela pátria, recebei como dada e concedida a criança que amo acima de tudo.
Havia algum tempo se ouvia grande rumor junto à porta principal da abadia. Era como se ali se formasse uma agitação popular. Esse ruído crescia sem cessar e, de quando em quando, elevava-se em vivo júbilo. Veio uma freira anunciar que grande multidão estava diante da porta e que gritavam sem cessar que queriam ver o cavaleiro dourado. Como a porta da sala estava aberta, o júbilo soou compreensível aos ouvidos dos cavaleiros:
— Flandres, o Leão! Salve nosso libertador! Salve, salve!
Robrecht voltou-se para a freira e disse:
— Queiram dizer-lhes que o cavaleiro dourado, a quem chamam, virá para junto deles dentro de poucos instantes.
Machteld pusera o braço sob a cabeça de Adolf e a erguera com cuidado terno; suaves palavras de amor, incompreensíveis, eram agora trocadas serenamente entre eles. De tempos em tempos, contudo, podiam-se colher em seus lábios as palavras noiva e noivo. Nenhuma lágrima corria mais dos olhos das mulheres. Maria estava ajoelhada do outro lado do leito e misturava sua doce voz de amiga àquela conversa consoladora e ardente. A alegria que enchia os corações das moças era uma emoção bendita, perceptível apenas em seus rostos; confiantes nas palavras solenes do sacerdote, já nada temiam; seus corações transbordavam de felicidade.
Robrecht de Bethune aproximou-se do cavaleiro enfermo, tomou-lhe a mão ainda frouxa e disse:
— Adolf de Nieuwland, minha querida Machteld é vossa esposa; que a bênção do Todo-Poderoso desça sobre vossas cabeças e dê a vossos filhos a bravura do pai e a ternura da mãe. Que o sangue ilustre dos condes de Flandres se misture à vossa nobre linhagem. Merecestes mais, mas não está em meu poder dar-vos presente mais precioso que a filha que devia ser o consolo e o amparo de meus anos velhos.
Juntou a mão de Machteld à de Adolf e retomou:
— Sede felizes, amai-vos tanto quanto amo a ambos. Vós, sacerdote, servo de Deus, dignai-vos juntar vossa bênção à minha, até que um casamento legítimo os una diante do altar.
O sacerdote aproximou-se e rezou em silêncio sobre os dois amantes trêmulos. Seus olhos estavam fixos no chão, seus corações batiam com força e, apesar da fraqueza de Adolf, sua mão ardia na mão de sua noiva adorada.
Robrecht avançou para junto de Gwyde.
— Meu querido irmão — disse ele —, desejo que esse casamento seja celebrado com pompa o mais depressa possível e confirmado pelas formas ordinárias da lei. Esse é meu íntimo desejo.
— Meus senhores, vou deixar-vos, com a esperança de que em breve poderei, livre e sem impedimento, trabalhar pela felicidade de meus fiéis súditos. Peço a todos vós que guardeis o mais profundo segredo sobre o verdadeiro nome do cavaleiro dourado; meu irmão Gwyde ordenará o mesmo aos homens da abadia.
Depois dessas palavras, foi até Adolf e beijou-o na face.
— Adeus, meu filho — disse ele.
E, apertando Machteld contra o peito:
— Adeus, minha amada Machteld. Não chores mais por mim; sou feliz, agora que a pátria foi vingada.
Então abraçou ainda seu irmão Gwyde, Willem de Gulik e alguns outros cavaleiros, seus amigos; apertou com comoção a mão de todos e gritou, ao partir:
— Adeus, adeus, todos vós, meus fiéis companheiros de armas!
No pátio, montou a cavalo e vestiu seu equipamento; deixou cair a parte dianteira do elmo e saiu pela porta. Multidão incontável de povo se reunira diante dela; assim que viram o cavaleiro dourado, dividiram-se em dois grupos para deixá-lo passar e começaram a saudá-lo com toda sorte de gritos de júbilo. “Salve o cavaleiro dourado, vitória! Vitória! Nosso libertador!” foi repetido cem vezes com novos clamores. Agitavam as mãos no ar em sinal de alegria e recolhiam a terra, como relíquia sagrada, das pegadas de seu cavalo. Em sua superstição, pensavam que São Jorge, invocado durante o combate em todas as igrejas de Kortrijk, viera sob aquela forma em auxílio deles. O passo lento do cavaleiro e seu silêncio confirmavam essa suposição, e muitos, enquanto ele passava, caíam de joelhos em oração. Seguiram-no pelos campos durante uma milha, jubilando, e pareciam não conseguir saciar os olhos; pois o cavaleiro dourado se tornava para eles cada vez mais maravilhoso, e sua imaginação o transfigurava numa forma semelhante àquela com que sonhavam os santos. Um sinal de Robrecht teria bastado para fazê-lo abrir passagem através daquela multidão, mas ele não queria diminuir a felicidade do povo e avançava em silêncio em meio ao cortejo.
Por fim, cravou as esporas no cavalo e desapareceu como uma seta entre as árvores da floresta. O povo tentou ainda descobrir sua armadura dourada entre a folhagem, mas em vão; o corcel já levara seu senhor para longe do alcance de seus olhos. Então olharam uns para os outros e suspiraram com tristeza:
— Ele voltou para o céu!
CONTINUAÇÃO HISTÓRICA ATÉ A LIBERTAÇÃO
DE ROBRECHT DE BETHUNE, VIGÉSIMO TERCEIRO CONDE DE FLANDRES
Dos sessenta mil homens enviados por Filipe, o Belo, para devastar Flandres, escaparam apenas cerca de sete mil, que, às pressas e por diversos caminhos, procuraram alcançar o solo francês. Guy de Saint-Pol reunira perto de Lille cinco mil deles num corpo e pretendia com eles entrar na França; mas uma parte do exército flamengo o atacou, derrotou-o em combate sangrento, e quase todos os seus homens encontraram ali a morte que lhes havia poupado o campo de batalha de Kortrijk. _A Excelente Crônica_ nos diz quantos franceses retornaram à pátria: “E de todos aqueles que puderam escapar e fugir, foram cerca de três mil homens de toda a grande multidão que ali se reunira para destruir Flandres por completo; e estes puderam levar a nova de sua aventura, que foi amarga.”
Os nobres mais importantes, os cavaleiros mais valentes, ficaram mortos diante de Kortrijk. Seu número era tão grande que, segundo a história, não houve castelo nem senhorio na França onde não se tomasse luto; por toda parte derramavam-se lágrimas pela morte de um esposo, de um pai ou de um irmão, e todo o país se encheu de queixas. Pelo cuidado dos comandantes flamengos, os reis tombados e os senhores mais ilustres foram sepultados na abadia de Groeninge, como se vê por uma antiga pintura que ainda existe na igreja de São Miguel, em Kortrijk. Ela traz a seguinte inscrição, transcrita literalmente no local pelo senhor P. Van Duyse: “A batalha de Groeninge, travada no dia 11 de julho de 1302, deu-se no Groeningekouter, por onde passa a estrada de Oudenaarde, junto à cidade de Kortrijk. Estes são os nomes dos nobres que foram mortos na luta e sepultados no mosteiro de Groeninge:
“Primeiro, o rei de Maiorca; o rei de Melinde; o duque de Coranen; o duque de Brabant; o bispo de Beauvais; o conde de Artois; o príncipe de Aspremont; Jacob van Simpel; o conde de Clermont; o príncipe de Champagne; o conde de Melli; o conde de Trappe; o conde de Ligny; o conde de Bonnen; o conde de Hainaut; o conde de Frison; o conde de la Marche; o conde de Bar; e ainda seus três irmãos, o senhor de Bentersam, o senhor de Wenmele, o castelão de Lille, o senhor de Flines, Clarion, irmão do rei de Melinde, meu senhor Jan van Creky, o senhor de Van Merle, o conde de Ligny em Barrois, o senhor de Marloos, o senhor de Albemarke, o irmão do bispo de Beauvais, o senhor de Versen, o senhor de Rochefort, meu senhor Gillis van Olingy, o senhor de Montfort, irmão de Godefroid, conde de Bonnen, e mais de setecentas esporas douradas.
“Deus seja misericordioso com todas as almas fiéis.”
Existe ainda na biblioteca do senhor Goethals-Vercruyssen, em Kortrijk, uma pedra que esteve sobre o túmulo do rei Sigis e que, com seus emblemas de armas, traz a seguinte inscrição: “No ano de Nosso Senhor de 1302, no dia de São Bento, no mês de julho, foi a batalha de Kortrijk. Sob esta pedra está sepultado o rei Sigis. Rogai a Deus por todas as almas. Amém. 1302.”
Além dos vasos de ouro, tecidos preciosos e armas ricas, encontraram-se no campo de batalha setecentas esporas douradas, que só os nobres podiam usar; penduraram-nas, com os estandartes conquistados, na abóbada da Igreja de Nossa Senhora, em Kortrijk, e daí o combate recebeu o nome de Batalha das Esporas de Ouro. Alguns milhares de cavalos também caíram em poder dos flamengos, que os usaram com grande vantagem nas guerras seguintes. Fora da Gentpoort, a pouca distância de Kortrijk, construiu-se em 1831, no meio do antigo campo de batalha, uma capela em honra de Nossa Senhora de Groeninge; no altar leem-se os nomes dos comandantes franceses tombados, e uma das esporas douradas autênticas está pendurada no meio da abóbada. Em Kortrijk, aquele dia memorável era celebrado todos os anos por uma solenidade pública e por divertimentos populares; a lembrança dessa festa permanece até hoje numa quermesse chamada dias de reunião. Todos os anos, no mês de julho, os pobres vão de casa em casa pedir roupas velhas para vendê-las, assim como se fez em 1302 com o rico saque; acompanhados por um violinista, dirigem-se ao Pottelberg, o antigo acampamento francês, e ali se alegram em comum.
Quando a notícia da perda do exército chegou à França, fez-se grande luto na corte. Filipe, o Belo, inflamou-se de fúria contra sua esposa Joana, cuja maldade era culpada por aquelas desgraças. Censurou-a com palavras amargas, como conta Lodewyk van Velthem, poeta que vivia naquele tempo e então escrevia sua crônica rimada, _Spiegel historiael_, com as seguintes palavras:
Então o rei lançou-lhe ao colo
Uma carta vermelha de sangue,
Pois, por aquela que ela escrevera,
Partira Artois, onde ficou morto,
Ferido por grandes dores.
E pouco adiante:
Disse então: Senhora rainha,
Guardai-vos em vosso luto;
Se antes o tivésseis pensado,
Tudo isto vós mesma causastes;
Não tendes de culpar ninguém,
Senão a vós mesma, se quereis confessá-lo!
Na maioria dos livros históricos franceses, encontra-se Joana de Navarra descrita de modo inteiramente diverso, e não como malvada. Os franceses, com seu caráter nacional, que considero muito louvável, desculpam facilmente os vícios de seus príncipes quando estes já estão mortos; mas a verdade é palpável demais em nossas crônicas para que se duvide da índole odiosa de Joana.
Como os magistrados de Gante eram todos leliares e pensavam que Filipe, o Belo, enviaria às pressas um novo exército a Flandres, quiseram manter suas portas fechadas para conservar a cidade para os franceses pelo maior tempo possível. Logo foram punidos pelos ganteses por esse intento traidor. O povo correu às armas, magistrados e leliares foram mortos, e os principais cidadãos levaram as chaves da cidade ao jovem Gwyde, a quem juraram fidelidade eterna.
Enquanto isso, Jan, conde de Namur, irmão de Robrecht de Bethune, veio a Flandres e tomou nas mãos o governo do país. Formou às pressas um exército novo e mais poderoso para poder resistir aos franceses, e pôs em ordem os governos das cidades. Sem deixar seus corpos repousarem por mais tempo, marchou contra Lille, que se rendeu depois de alguns assaltos; dali, marchando para Douai, tomou igualmente essa cidade e fez prisioneira a guarnição. A cidade de Kassel também se entregou sob certas condições. Depois de tomar aos franceses ainda algumas outras praças fortes, e vendo que não vinham novos inimigos da França, Jan de Namur enviou para casa a maior parte de seu exército e conservou apenas alguns corpos escolhidos de soldados experientes.
O país estava tranquilo, e o comércio começou de novo a florescer. Com melhor esperança de boa colheita, as terras devastadas foram semeadas outra vez, e parecia que Flandres recebera vida nova, força nova. Pensava-se, com alguma razão, que a França agora aprendera o bastante, como canta Van Velthem:
Guardai-vos daqui por diante de tal jogo,
Vós, franceses, fostes aqui desonrados,
Pela segunda vez fostes ensinados.
Filipe, o Belo, de fato não tinha grande vontade de recomeçar a guerra; mas o clamor por vingança que se fazia ouvir de todas as partes da França, as queixas dos cavaleiros cujos irmãos haviam tombado diante de Kortrijk e, acima de tudo, a incitação da vingativa rainha Joana o fizeram enfim inclinar-se à guerra. Reuniu então um exército de oitenta mil homens, no qual havia perto de vinte mil cavaleiros. Contudo, esse exército não era nem de longe tão considerável quanto o primeiro que perdera, pois agora era formado sobretudo por soldados contratados ou forçados. O comando supremo foi dado a Luís, rei de Navarra; antes de travar batalha, ele devia procurar libertar Douai e as outras cidades francesas da fronteira das mãos dos flamengos. Vindo esse exército para Flandres, armou suas tendas em campo aberto, a duas horas de Douai, junto de Vitry.
Assim que em Flandres se soube que um exército francês estava sendo formado, o grito “Às armas! Às armas!” correu por todo o país. Nunca se viu entusiasmo semelhante; de todas as cidades, das menores aldeias, grandes multidões de povo acorriam com toda sorte de armas. Iam cantando e cheios de alegria ao encontro do inimigo, de tal modo que Jan de Namur, temendo que faltassem víveres, teve de mandar grande número deles de volta. Aqueles que eram conhecidos como leliares, querendo fazer esquecer sua conduta anterior, suplicavam insistentemente que lhes fosse permitido derramar o sangue pela pátria como prova de sua conversão, o que lhes foi concedido com alegria. Sob Jan de Namur, o comandante, encontravam-se quase todos os cavaleiros que se haviam feito conhecer na batalha de Kortrijk: o jovem Gwyde, Willem de Gulik, Jan van Renesse, Jan Borluut, Pieter Deconinck, Jan Breydel e outros. Adolf de Nieuwland, ainda não restabelecido de sua enfermidade, não pôde tomar parte nessa campanha.
Divididos esses contingentes em diversos corpos, os flamengos avançaram até duas milhas do inimigo e ali tomaram posição. Depois de pouco tempo nesse lugar, seguiram até o rio Scarpe, junto de Flines. Todos os dias chamavam os franceses à batalha; mas, como os comandantes, tanto flamengos quanto franceses, pareciam evitar o combate, nada se realizou. A causa da paralisação era que Jan de Namur, desejando obter a libertação de seu pai e de seu irmão, enviara mensageiros à França para ver se não se poderia concluir a paz com Filipe, o Belo. Parece que na corte francesa não se chegava a acordo sobre as condições, pois os mensageiros não voltavam, e só se recebiam respostas desfavoráveis.
O exército flamengo começou a murmurar e queria, apesar da proibição do comandante, travar batalha contra os franceses. Isso durou tanto tempo, e a vontade dos corpos fez-se sentir com tanta seriedade, que Jan de Namur foi obrigado a atravessar o Scarpe para atacar o inimigo. Pôs-se uma ponte de cinco barcas sobre o rio, e o exército flamengo, alegre porque ia combater, passou por ela cantando e cheio de júbilo; mas chegou uma notícia duvidosa da França que ainda os reteve por alguns dias. Por fim, os corpos já não quiseram de modo algum permanecer quietos e deram sinais sérios de revolta. Tudo foi então preparado para o ataque, e os flamengos marcharam contra os franceses; estes, não ousando arriscar a batalha, levantaram depressa o acampamento e partiram em desordem. Os flamengos caíram sobre os franceses em fuga e mataram número considerável deles. Prosseguindo, tomaram o castelo de Harne, onde o rei de Navarra havia estabelecido o depósito do exército. As provisões, as tendas e tudo quanto o exército francês trouxera consigo caíram nas mãos dos flamengos. Depois ocorreram ainda alguns combates menores, cuja consequência foi que os franceses, cobertos de vergonha, foram expulsos para o interior da França, como nosso poeta nacional Van Duyse canta com razão sobre essa ocasião:
Triunfa, minha pátria! Glória, glória aos feitos dos pais;
Imortais verdejam vossos antigos louros;
A Fama anuncia vossa glória aos quatro cantos do mundo;
Permanecei assim glorificada até o ocaso do mundo!
Os comandantes flamengos, vendo que já não tinham inimigo a combater em campo aberto, dispensaram parte do exército e conservaram apenas homens suficientes para impedir as guarnições das cidades francesas da fronteira de roubar e incendiar.
Da pequena cidade de Lessines, nos limites de Hainaut, bandos de soldados caíam todos os dias sobre o solo flamengo e faziam muito mal aos habitantes do campo. Jan de Namur, sabendo disso, marchou para lá com alguns corpos, assaltou, conquistou e incendiou Lessines, que pertencia ao conde de Hainaut.
Enquanto isso, Willem de Gulik marchou com as corporações de Bruges e Kortrijk para Saint-Omer, a fim de tomar essa cidade aos franceses. Chegando ali, foi atacado com impetuosidade pela cavalaria francesa, muito superior em número. Não vendo saída, dispôs seus homens em círculo e defendeu-se até que a escuridão lhe permitisse recuar e assim escapar a uma derrota certa. Alguns dias depois, Jan de Namur voltou de Lessines para junto de Willem, o que elevou a força reunida dos dois a trinta mil homens. Atacando o exército francês, puseram-no em fuga e retalharam os corpos inimigos.
Começou-se a assaltar Saint-Omer; todos os dias a cidade era atacada por diversos lados com coragem incomum. Contudo, como a guarnição era muito forte, os sitiantes eram muitas vezes repelidos com perda de muita gente; isso não os impedia, porém, de lançar uma multidão de pedras pesadas por cima das muralhas e danificar bastante as casas. Muitos habitantes de Saint-Omer também foram esmagados nas ruas sob as pedras. Os franceses, temendo pela conservação da cidade e querendo fazer um esforço vigoroso, armaram todos os cidadãos e obtiveram por esse meio força militar considerável, que dividiram em dois corpos. À noite, quando escuridão impenetrável cobria os campos, saíram ocultamente da cidade e colocaram metade de sua força num bosque denso ao lado do acampamento flamengo; a outra parte avançou até o castelo de Arcques, que também era sitiado pelos flamengos. Ao nascer do sol, começou o ataque em Arcques, com tamanha violência que os flamengos, vendo-se surpreendidos assim, pensaram em fugir; mas a voz de seus comandantes devolveu-lhes a coragem. Rechaçaram os franceses, e a vitória parecia inclinar-se para o seu lado, até que grande corpo de cavalaria, caindo-lhes sobre o corpo por trás, derrubou várias fileiras no primeiro choque e, depois de combate obstinado, dispersou os flamengos e os pôs em fuga.
A outra parte do exército flamengo, atacada de surpresa pelos soldados escondidos no bosque, formou-se às pressas em ordem de batalha e recuou sem desordem. Talvez escapasse sem grande perda, mas um acidente lamentável devia ser a causa de sua derrota. Ao chegarem ao rio Aa, lançaram-se sobre a ponte em número tão grande e tão cerrados que ela, não podendo suportar aquela multidão, desabou no rio com estalido terrível. Os gritos, os uivos daqueles que caíam esmagados na água, levaram o abatimento aos corpos flamengos que ainda estavam antes do rio. Sem ouvir a voz dos chefes, puseram-se em fuga e correram confusos para fora do campo de batalha. Essa derrota custou aos flamengos cerca de quatro mil homens.
Jan de Namur e Willem de Gulik, vendo que o inimigo se detivera para saquear o acampamento abandonado e não os perseguia mais, reuniram os fugitivos como puderam; pondo diante de seus olhos a vergonha daquela derrota, inspiraram-lhes no coração o desejo de rápida revanche. Então, voltando contra o inimigo, surpreenderam-no ocupado em roubar o acampamento e caíram sobre ele inesperadamente, com grande gritaria. A maioria dos saqueadores foi abatida, e os outros foram empurrados para dentro da cidade. Assim os flamengos conservaram seus bens, com a vitória daquele dia.
Enquanto se travava contra a França uma guerra longa e pouco significativa, a Zelândia, por falecimento, ficara sem senhor. Willem de Hainaut quis tomar posse dessa terra, alegando que ela lhe pertencia por direito hereditário; os filhos do conde de Flandres também reivindicavam essa propriedade. Jan de Namur armou às pressas uma frota e desembarcou com um exército flamengo na ilha de Cadzand; depois de pequeno combate, prosseguiu a marcha para Walcheren, junto de Veere, que se entregou. Willem de Hainaut também pusera de pé um exército e veio com ele à Zelândia, onde ofereceu batalha a Jan de Namur. Os flamengos o venceram em combate terrível e o puseram em fuga até Arnemuiden. Willem de Hainaut, encontrando ali alguns corpos frescos de auxílio, reuniu seu exército disperso e marchou de novo contra os flamengos; mas dessa vez sua derrota foi ainda mais terrível, pois foi obrigado a fugir para a ilha de Schouwen. Pouco depois, os flamengos conquistaram a cidade de Middelburg e muitas outras cidades. Isso levou Willem de Hainaut a uma trégua temporária, pela qual a maior parte da Zelândia foi cedida aos flamengos.
Filipe, o Belo, reunia enquanto isso um exército poderoso para vingar-se da batalha de Kortrijk; deu o comando supremo dele a Jacques de Chatillon, ordenando-lhe que, ao chegar a Flandres, retirasse todas as guarnições das cidades fronteiriças, com o que seu exército deveria ultrapassar cem mil homens.
Philippus, um dos filhos do velho conde de Flandres, que herdara na Itália os condados de Tyetta e de Lorette, ao saber da formação do exército francês, veio com alguns corpos de auxílio para Flandres, onde foi escolhido por seus irmãos como comandante supremo. Juntando ainda mais homens ao exército que combatera na Zelândia, elevou sua força a cinquenta mil homens, marchou até Saint-Omer para esperar os franceses e tomou de surpresa o castelo de Arcques.
Os dois exércitos logo ficaram frente a frente. Nos dois primeiros dias, houve alguns combates isolados, nos quais Pierre de Courtrenel, um dos comandantes franceses, perdeu a vida com seus filhos, e os franceses perderam muita gente. Walter de Chatillon, tomado de medo, não ousou arriscar a batalha geral; marchou então à noite com seu exército para Arras, e o fez tão secretamente que os flamengos, nada percebendo daquela retirada, ficaram de manhã admirados e espantados ao não verem mais um único francês. Philippus, aproveitando a retirada do inimigo, assaltou e tomou as cidades de Thérouanne, Lens, Lillers e La Bassée. Em vingança pelo que os franceses haviam praticado em Flandres antes da batalha de Kortrijk, toda a terra ao redor foi devastada e arruinada pelos flamengos, até que eles, carregados de rico saque, retornaram a Flandres.
O rei da França, convencido por derrotas tão numerosas de que lhe era impossível ainda conquistar Flandres pelas armas, enviou Amadeu de Saboia como emissário de paz ao comandante flamengo Philippus. Os filhos do conde prisioneiro nada desejavam mais que obter a libertação de seu pai Gwyde e de seu irmão Robrecht de Bethune; desejavam intimamente a paz com a França e passaram de bom grado por algumas dificuldades. Firmou-se então uma suspensão de armas, até que as condições fossem aceitas de ambos os lados.
Enquanto isso, na corte francesa foi redigido um tratado de paz que continha diversos pontos prejudiciais a Flandres; contudo, Filipe, o Belo, esperava fazê-lo aceitar por astúcia. Deixou o conde octogenário de Flandres sair de sua prisão de Compiègne para Flandres, exigindo-lhe a palavra de honra de que, se não conseguisse obter a aceitação do tratado tal como fora redigido na corte francesa, voltaria em maio do ano seguinte ao cárcere. O velho conde foi recebido com pompa por seus súditos e foi morar no castelo de Wijnendale. Tendo proposto as condições de paz com a França, estas foram em geral rejeitadas pelas cidades; mas o velho conde, ainda tendo tempo diante de si, esperava conseguir sua aprovação com mais esforço.
Terminada a trégua com Willem de Hainaut, o conde soube que um exército holandês estava sendo posto de pé para tomar a Zelândia. Com toda pressa, Jan van Renesse e Florens van Borsele foram enviados para lá, a fim de enfrentar esses novos inimigos. Os flamengos venceram a frota holandesa numa batalha naval em que os holandeses e hainautenses perderam mais de três mil homens e quase todos os seus navios. O bispo de Utrecht, comandante dos corpos utrechtenses, foi tomado prisioneiro e levado a Wijnendale, onde ficou guardado. Na mesma batalha tombaram Willem van Horn, Diederik van Haarlem, Diederik van Zulen e Suederus van Beverenweerdt. Os flamengos, triunfando por toda a Holanda do Norte, conquistaram quase todas as cidades, exceto Haarlem, que continuou a defender-se obstinadamente; os principais habitantes da Holanda do Norte foram aprisionados como reféns e levados a Gante.
Enquanto o conde de Hainaut, abandonando o campo, entregava a Holanda aos flamengos, ergueu-se em Dordrecht um homem valente, chamado Nicolaus van den Putte; querendo libertar sua pátria, reuniu alguns corpos de guerra e, caindo com eles sobre uma divisão de flamengos, matou cerca de dois mil em longo combate. Por outro lado, Witte van Haamstede, também homem valente, reuniu igualmente muitos guerreiros e, pouco depois, encontrando em Hillegom uma parte do exército flamengo, matou-a até o último homem. Esses combates isolados pouco mudaram a situação das coisas na Zelândia e não impediram que se prosseguisse sempre no cerco de Zierikzee.
Enquanto isso, aproximava-se o fim da trégua com a França, e tudo anunciava nova guerra, visto que não se pudera concluir a paz, pois suas condições não eram aceitáveis para os flamengos. Antes do último dia de abril, o velho Gwyde, carregado de doença e sofrimento, retornou como outro _Regulus_ à França, para sua prisão. Durante a trégua, Filipe, o Belo, empregara todos os meios possíveis para reunir um exército terrível; em todos os países, haviam sido recrutados corpos auxiliares por sua conta, e diversos novos tributos tinham sido lançados sobre o povo para cobrir os custos da guerra. O próprio rei veio em pessoa, no fim de junho, com seu exército às fronteiras flamengas; embora conduzisse sob seu comando a maior força militar que a França já possuíra, ainda veio uma frota imensa, sob Reinier Grimaldi de Gênova, para a costa marítima flamenga, a fim de combater o jovem Gwyde e Jan van Renesse, que estavam na Zelândia.
Philippus de Flandres, por sua vez, também havia feito um chamado ao país e reunido muitos corpos de guerra sob seu comando. Com eles, marchou diante do exército francês para oferecer batalha a Filipe, o Belo; os dois exércitos estavam tão perto um do outro que de um se podiam ver as duas bandeiras tremulando no outro. No primeiro dia, houve combate em que o comandante francês Genuilla foi abatido com todos os seus homens. Os flamengos, impacientes e clamando pela luta, formaram-se no dia seguinte em ordem de batalha e prepararam-se para ataque violento; mas os franceses, percebendo isso, retiraram-se às pressas para Arras e deixaram o acampamento como presa dos flamengos, que fizeram grande saque e derrubaram e destruíram todas as obras que os franceses haviam construído. A cidade de La Bassée foi conquistada por eles pela segunda vez, e os arrabaldes da cidade de Lens foram incendiados.
Filipe, o Belo, querendo atacar Flandres pelas fronteiras de Hainaut, marchou com seu exército para Tournai; mas já no primeiro dia de sua chegada os flamengos estavam junto dele. Não estava disposto a aceitar a batalha antes de saber o que sua frota teria realizado na Zelândia; para não chegar ao corpo a corpo, levantava quase todas as noites o acampamento e vagueava de um lado para outro, sempre seguido pelos flamengos.
No dia 10 de agosto de 1304, ocorreu a batalha naval entre as duas frotas. O combate durou dois dias, da manhã até a noite; no primeiro dia, a vantagem ficou do lado dos flamengos, e talvez eles tivessem alcançado plenamente a vitória, mas seus navios encalharam de noite num banco de areia e, no dia seguinte, foram vencidos pelos franceses sob o famoso comandante naval Reinier Grimaldi. Seus navios foram queimados, e o jovem Gwyde caiu, com muitos outros, nas mãos do inimigo. Jan van Renesse, o valente zelandês, que guardava Utrecht com pouca gente, querendo deixar aquela cidade, entrou numa barca para atravessar o Lek; mas o barco, carregado demais, afundou no meio da corrente, e o nobre cavaleiro Jan encontrou ali fim lamentável: afogou-se. Os flamengos, sabendo disso por fugitivos, choraram-no com queixas tristes e juraram que não o deixariam sem vingança.
Quando a notícia do resultado da batalha naval chegou ao exército francês, este se encontrava junto de Lille, no Peuvelberg. Filipe, o Belo, retirou-se um pouco para o lado e abandonou aquela posição favorável, que foi imediatamente ocupada pelos flamengos. Estes já não queriam adiar a batalha; era impossível aos comandantes contê-los por mais tempo. Formaram-se então em ordem de batalha para atacar o inimigo. Filipe, o Belo, vendo isso, enviou um mensageiro para propor a paz; mas os flamengos não quiseram ouvi-lo de modo algum e mataram o mensageiro. Pouco depois, caíram com grito terrível, com clamor trovejante, sobre o exército francês, que corria confuso, espantado e apavorado. Ao primeiro choque, os corpos dianteiros foram derrubados e esmagados. Havia no exército flamengo ainda mais furor do que na batalha de Kortrijk; por isso os franceses só puderam oferecer-lhes fraca resistência, embora combatessem com igual coragem. Philippus de Flandres e Willem de Gulik atravessaram todos os corpos inimigos até junto do rei Filipe, o Belo, que por isso ficou em grande perigo. Seus guardas foram abatidos ao redor dele, e certamente ele teria sido capturado ou morto se não lhe tivessem tirado o manto e outros sinais distintivos; tornado irreconhecível assim, fugiu daquele lugar e recebeu um ferimento leve de um virote de ferro. Esse longo combate teve como resultado que o exército francês foi posto em plena fuga e que os flamengos conquistaram a vitória.
A bandeira da Coroa francesa, a Oriflama, foi rasgada em pedaços, como testemunha a _Crônica de Flandres_, da qual tomamos este relato, com as seguintes palavras: “Aqui foi rasgada a Oriflama francesa, da qual eles tanto costumavam vangloriar-se, e morto o porta-estandarte Cherosius.” Nessa batalha, Willem de Gulik, o sacerdote, perdeu a vida. Os flamengos se ocuparam até a noite em tomar como saque a tenda do rei e todos os outros bens preciosos. Voltaram então ao Peuvelberg para alimentar-se um pouco, mas, nada encontrando ali, marcharam para Lille. No dia seguinte, cada um voltou para sua casa. Essa batalha ocorreu em 15 de agosto de 1304.
Quinze dias depois, Filipe, o Belo, veio novamente com um exército para Flandres, a fim de sitiar Lille. A burguesia flamenga fechou suas lojas e tomou armas em massa; Philippus de Flandres, reunindo-os em Kortrijk, marchou alguns dias depois para Lille, à vista dos franceses. Vendo seu grande número, Filipe, o Belo, exclamou admirado:
— Parece-me que Flandres cospe ou chove soldados!
Não ousando arriscar nova derrota, depois de algumas escaramuças propôs a paz, e entraram em negociação enquanto se firmava uma suspensão de armas. Demorou bastante até que as condições fossem aceitas de ambos os lados.
Durante esse tempo, o velho conde Gwyde morreu em Compiègne, em sua prisão; Joana de Navarra morreu igualmente.
Enfim, a paz entre Philippus de Flandres e Filipe, o Belo, foi concluída e assinada.
Robrecht de Bethune, com seus dois irmãos Willem e Gwyde e com todos os outros cavaleiros prisioneiros, foi libertado e enviado de volta à pátria. O povo não ficou satisfeito com as condições do tratado e chamou-o pacto de iniquidade; esse descontentamento, porém, não teve consequências naquele momento.
Robrecht de Bethune, chegando a Flandres, foi empossado conde com extraordinária solenidade. Viveu ainda dezessete anos, sustentou a honra e a glória de Flandres e adormeceu no Senhor em 18 de setembro de 1322.
Tu, flamengo que leste este livro, considera, diante dos feitos gloriosos que ele contém, o que Flandres outrora foi, o que é agora, e ainda mais o que virá a ser se esqueceres os santos exemplos de teus pais!
NOTAS FINAIS RECUPERADAS DA FONTE ORIGINAL
[164] "Era o direito da batalha: os que não se podia expulsar podiam permanecer entre os mortos, montar guarda e erguer suas bandeiras, caso alguém viesse vingá-los, até o novo sol do dia seguinte; então se podia dizer: eles venceram." Van Velthem, Spiegel Historiael.
[165] "O castelão de Lens, que guardava o castelo de Kortrijk, julgando que a batalha estava ganha e que todos os flamengos haviam ficado mortos, saiu do castelo com cerca de cem homens; todos foram mortos pelos de Ypres, que ali haviam sido postos para vigiá-lo." Die excellente Cronike.
[166] "Ali ficou a flor da cristandade, diante de gente a pé e sem refúgio. Deus o quis, assim devia ser! Nunca ouvi cantar nem li de miséria tal como esta. Ali jazia muito monte de mortos." Van Velthem, Spiegel Historiael.
[167] Eis os nomes dos principais cavaleiros que tombaram sob as bandeiras francesas, conforme lista extraída da obra do senhor Voisin: Jean, camareiro e conde de Tarcanville; Jean de Ponthieu, conde de Aumale; Jacques de Chatillon, senhor de Leuse, governador-geral de Flandres pelo rei; Hugues de Bruynen, conde de La Marche e de Angoulême; Angelin, conde de Vimeu ou Vimy; Louis de Forest, senhor de Beaujeu e Dombes; o conde de Soissons; o conde de Abbeville; o conde de Foix; Alain da Bretanha; Jean I, vidame de Chartres; Froald, castelão de Douai; Jean IV, castelão de Lille; Henri, senhor de Ligny; Renauld I, senhor de Longueval; o senhor de Aspremont; o senhor de Freane; Raoul, senhor de Trier; o senhor de Frennes; Boudewyn d'Henin, senhor de Boussu; Jean, senhor de Gréqui; Raoul IV, chamado o Flamengo, senhor de Gany; o senhor de Breauté; Farald de Reims; Jean Brualé; Jan, chamado Sem Misericórdia, filho de Jan, conde da Holanda e de Hainaut; Godfried de Brabant, tio do duque de Brabant, e seu filho Jan, senhor de Vierson, castelão de Tournai; Arnold IV, senhor de Wezemaal, marechal de Brabant; Hendrik, senhor de Boutersem; Arnold, senhor de Wahain, e seu filho Laurent; Hugo de Vlanen; Geldof de Wingene; Arnold de Eyckhoven com seu filho Jan; Hendrik de Wilre; Willem de Redingen; Arnold de Hofstade, com seus três sobrinhos; Willem, senhor de Craenendonk; Baldard de Parvisien; Jean de Kerly; Baldard de Peruwez; Fernand d'Araing; Boudard de Pernes; Hercule, senhor de Bailleul; dezoito cavaleiros que tombaram com grande número de brabantinos ao redor da tenda de Godfried de Brabant; Egide, senhor de Antoing; Richard, senhor de Falais; Michel, senhor de Harnes; Aelbrecht, senhor de Langendale; os senhores de Quesnoy, de Salines, de Rutsefort, de Marlois, de Flines, de Malgy, de Alengeac, de Bethisy e de Groy; Gilles, senhor de Alengy; Robert, senhor de Montfort; Raoul, senhor de Nortfort; Jean Cruke; Jean, senhor de Emmery, camareiro do rei; os condes de Angers, de Champagne, de Dreux, de Trappe, de Auge, de Los, de Vendôme, de Bourbon, de Tweessen e de Estampes; o conde de Bar, com seus três irmãos; o conde de Albe, com seu irmão; o duque de Berry; o príncipe de Chimpy.
[168] "Ali muitos tinham sede tão grande que lhes rebentavam a boca e a língua, e o sangue lhes saltava do nariz, de modo que, por necessidade, tornavam a beber." Van Velthem.
Tradução em português de O Leão de Flandres, romance histórico de Hendrik Conscience sobre a Flandres medieval e a Batalha das Esporas de Ouro.
Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, publicada no Aurora com introdução, prefácio, capítulos completos e notas finais recuperadas da fonte original.
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