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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 8 · Suspiros Poéticos e Saudades

O Christianismo: Na Cathedral de Milão

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V.
O CHRISTIANISMO.

NA CATHEDRAL DE MILÃO.
Mal que á Natura se abre a intelligencia,E o primo pensamento a alma desperta,Logo a idéa de Deos d’ella se apossa,E a origem sua, e o seu destino aclara.
Subito um fogo, mais que o sol brilhanteQue as gerações dos tropicos abrasa,Mais vehemente que os vulcões da terra,N’ alma se ateia, fogo inexhaurivel, Casto fogo de amor, que interno a lavra,E a Deos a sóbe em espontaneo culto.
Não, o medo não foi quem sobre a terraOs joelhos dobrou do homem primeiro,E as mãos aos céos erguêo-lhe! Não, o medoNão foi o criador da Divindade!Foi o espanto, o amor, a consciencia,E a sublime effusão d’ alma, e sentidos!Vio o homem seu Deos por toda parte,E sua alma exaltou-se de alegria.
Mas no amoroso extasis não pára,A interna adoração só lhe não basta,Não se farta de amor, que amor sagradoÉ invencivel, poderosa força,Que o espirito levanta ao infinito,Como a attracção os orbes equilibraNa immensidade, á que escapar não podem.Deve o espaço conter a sacra imagemDe sua adoração, devem os filhos,Os netos devem nas futuras éras,Vendo essa imagem, adorar o Eterno.
Mas, oh homem, que ousado intento é esse?Erguer um templo a Deos!… Que! porventuraTemplo o espaço não é digno do Eterno?As montanhas, o mar, os céos, os astrosAssás não ornam do Senhor o templo?Ou temes que em tão vasto sanctuario,Nesse profundo abysmo do infinito,Vel-o teus olhos míopes não possam?Como possivel é que espaço estreitoAbranja o Criador, que enche o Universo?Mas pagas um tributo; — Elle to aceita.
Obreiro do Senhor, eia, trabalha,Sem descanço trabalha dia, e noite;Que teu Deos não repousa um só instante,Para a ordem manter de tantos mundos.Ah, si elle um só minuto repousasse,Que seria de ti, deste Universo?
Alfim teu templo ergueste; reunisteTudo o que ha de mais bello sobre a terra,E sec’los no trabalho se passaram!Tudo aqui falla, tudo aqui revela A força occulta que sustenta o homem,E o destino immortal na Eternidade.
A rigidez do marmor, e a brancura,Duração, e pureza symbolisam;A larga base, a altura, a esbelta fórma,A agulha, cuja ponta as nuvens rompe,E parece querer fugir do espaço;A aurea Virgem, que brilha em seu fastigio,E este povo de estatuas, que a rodeiam,Todas de branco marmore polido,Que a gloria do Senhor perenne cantam;Tudo, emfim tudo sem cessar proclama,Que o pensamento que tão alto vôa,Que o pensamento que taes obras cria,Que o pensamento que só Deos concebe,Tem no tempo a existencia, e não se curvaÁ lei que rege o habitador do espaço.Tão simples como Deos, donde elle emana,Não se aniquila como bruta mole;Mas em louvor sem fim, a Deos unido,Vive eternal em toda a Eternidade.
Assim é que o espirito celeste,Que a massa humana anima, e n’ella impera,De seu Deos concebendo a idéa pura,Da terra se desprende, se sublima,E do sagrado amor nas igneas azasSóbe ao seio do Eterno, que o gerára.
Assim é que das lampadas do temploPyramides de fogo se levantam,E se perdem nos ares, qual se perdeO pensamento humano no infinito.
Sancta Religião, sublime, augusta,Tu a idéa de Deos esclareceste,Idéa que, nas trevas que involviamA alma humana, brilhou como um relampo.Divina inspiração, tu só podiasO espirito subir ao seu Principio,A despeito do mundo, e dos sentidosNem sempre verdadeiros. Tu revelasSacras verdades aos humanos uteis,Que fóra de teu gremio embalde o homemOrgulhoso procura; ao desgraçado Occulta mão estendes caridosa:Sempre consoladora, affavel sempre,Que mal ha-hi, que em ti cura não ache?
Ao som de tua voz mysteriosaOs errantes selvagens suspenderamAs mãos de sangue tintas, e prostradosSobre a terra, até-li inculta e brava,A insólita voz tua repetiramEm espontaneo arroubo. — A NaturezaRio-se então, quando vio pela vez primaUm homem abraçar o outro homem,E em soccorro commum viver jurarem.
Quiz o homem tecer os teus louvores,E a primeira palavra foi um hymno,O primeiro discurso poesia.E o homem, que até-li solto vagava,Fraco, impotente entre animaes ferozes,Pelo mystico cantico attrahido,A bronca penedía abandonando,A viver começou em sociedade.
O genio então nascêo! — Qual para o mundoEntre os astros o sol mais claro brilha,E aos outros astros sua luz envia,Deos o genio accendêo entre mil almas,Para ser o fanal da Humanidade.
Sancta Religião, amor divino,Que beneficios sobre a terra espalhas!Quanto é mysterioso o Ser que inflammas!De quanto elle é capaz!… Vejo donzellas,Roboradas por ti, vencer a morte!Vejo feros tyrannos desthronados,Vejo Nações erguidas, e cidades,Seus louros a teus pés heróes depôrem,As Sciencias, e as Artes florecentes,Firme a Moral, as Leis, a Liberdade,E a Humanidade inteira que te abraça,E te proclama como Mãe de tudo.
Oh das Religiões a mais perfeita,Oh unica de Deos, e do homem digna!Religião plantada no Calvario,E co’ o sangue de Christo alimentada!
Religião de amor, de paz, de vida!Tu, que civilisaste a Europa toda,E primeira na America lançasteO germen da grandeza, á que ella aspira;Tu, que marcas de Deos a majestade,Os direitos do homem sobre a terra,E o seu porvir sublime alêm da morte;Tu, que aclaras os povos, e co’ os povosDe progresso em progresso ovante marchas,Como a mãe que acompanha o caro filho,Sem que a tua divina essencia percas;Teus ineffaveis dons benigna espalhaSobre os filhos dos homens, sempre… sempre.
Religião, inflamma, e purificaMeus pensamentos, e conforto prestaAo infeliz peregrino que te invoca,E que só em teu gremio paz encontra.

Milão, 17 de oitubro 1834.

Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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