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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 6 · Suspiros Poéticos e Saudades

Deos, e o Homem

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IV.
DEOS, E O HOMEM.

Nos Alpes, 14 de outubro 1834.

Quando se arrouba o pensamento humano,E todo no infinito se concentra,De milhões de prodigios povoadо;Quando sobre o fastigio de alto monte,Como um colibre sobre altivo robre,Na vastidão sidérea a vista espraia;E vê o sol, que no Oriente assoma,Como n’um lago em propria luz nadando,E a noite, que se abysma no occidente,Arrastando seu manto tenebroso, De pallidas estrellas semeado;Quando dos gelos, que alcantis corôam,Vê a enchente rolar em cataractas,Por cem partes abrindo largo leito,Fragas, e pinheiraes desmoronando;Quando vê as cidades enterradasA seus pés na planice, e negros pontosAqui, e alli, moverem-se sem ordem,Como abelhas em torno da colmeia;O homem então se abate; um suor frio,Qual o suor que o moribundo côa,Rega-lhe o corpo extatico; sua alma,Como um subtil vapor, que o lirio exhala,Ferido pelo raio matutino,Da terra se levanta; e o corpo algenteQual um combro de pó morto parece…Ella está no infinito! — Então lhe trôaUma voz, como o echo das cavernas,Quando os ventos nos ares se debatem;Como um ronco do Oceano repellidoPor estavel penedo; como um gritoDas entranhas da terra, quando accesasDe sua profundez lavas borbotam; Como o rouco bramido das tormentas;É a voz do Universo! — voz terrivel,Porêm harmoniosa, que proclamaA existencia de um Ser, que de sí mesmo,De sua omnisciencia, e eterna força,Tudo tirou, quanto o Universo encerra.
Os céos, os mundos, o Oceano, a terraÉ um vasto hieroglyphico, é a fórmaSymbolica do Ser aos olhos do homem.O movimento harmonico dos orbesÉ o hymno eterno e mystico, que narraAltamente de um Deos a omnipotencia.Tudo revela Deos, — e Deos é tudo.
De tal grandeza sotoposto ao peso,Como si o esmagasse ingente mole,O homem se aniquila, e desparece,Qual no profundo pégo um grão de areia.
É aqui, oh meu Deos, calcando nuvens,Parecendo tocar o céo co’ a fronte,Que eu reconheço a immensidade tua. Existe este Universo, existe o homem,Porque de todo o Ser tu és a origem.
Aqui, para louvar teu sancto Nome,É fraco o peito humano, é fraca a lingua,É fraca a voz, que titubante hesitaTão alto remontar, e no ar perder-se,Antes que de astro em astro repetida,De um céo a outro céo, de um Anjo a outro,Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos,Como discorde som de rota lyra.
Alva nuvem, que toucas este monte,Desce um pouco, e recebe-me em teu dorço;Asinha ala-me ao céo; na etherea plaga,Vendo o sol de mais perto, talvez possa,Com sua luz benefica animado,Altísono entoar um hymno excelso,Digno de Jehová, que eterno escutaDos angelicos córos a harmonia.Abre-te, oh céo azul, que a mortaes olhosA mansão do Senhor zeloso occultas!Abre-te, oh céo azul; deixa minha alma Saciar-se co’ a luz da Sião sancta.Sóbe, meu pensamento, vôa, rompeOs turbilhões dos Cherubins, e Thronos,Mais bellos que mil soes, mais coruscantes,Que em vortice perenne estão ladeandoDo Eterno Padre o luminoso solio.
Oh arrojado pensamento humano,Por mais que em teu soccorro os astros chames,Por mais que sua luz o sol te empreste,Seu ouro a terra, o céo a immensidade,Os ríos a corrente, os campos flores,Suas azas a raio, os sons a lyra,E a noite seu mysterio, alfim si tudoInvocado por ti, a ti se unisse,Não poderás ainda em teus transportesOs louvores tecer do Omnipotente!
Mas, oh Deos, que missão tens confiadoA este fraco ser, que sobre a terraEntre os mais seres como um rei se ostenta,E unico para ti erguendo os olhos,Parece teu rival?… Missão augusta É sem dúvida a sua; e o seu destinoNão é o d’alimaria!… A NaturezaObedece a seu mando, como si elleEntre Deos e a terra collocado,Orgam fosse das leis da Providencia.
Quem a elle se oppõe? — Embalde o OceanoCom cem braços separa os continentes.O homem desthrona os robres, e os pinheirosDas fragas da montanha, ousado os lançaSobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos,E assoberbando as vagas furibundas,Que ante seu genio quebram-se gemendo,Domina, e calca o tumido elemento,E atravessa de um pólo a outro pólo,Como atravessa os ares veloz aguia.Aqui bramando, um río se devolve,Qual serpente feroz medo incutindo;Co’ uma arcada de pedra o homem cobre-o;Elle a derruba? — Nova arcada o doma.
Como gigantes firmes, alinhados,Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem Enormes Alpes, açoutando as nuvensCo’ a corôa de gelo, e co’ os pennachosDe branca carambina, e verdes selvas;Não retrograda o homem, não desmaia!Quando sobre a cimeira o sol se encosta,E a vista estende á profundez do valle,O sol já no arduo afan vencendo o enxerga.Quando transmonta o sol, o homem dá tregoas,E descança na já vencida estrada!De dia em dia assim prosegue ovante;Ora esbrôa um cabeço mais supino,E co’ as ruinas desse outro nivela;Ora sóbe, ora desce, ora torneia,Ora penetra a rigidez do monte,Como a setta do Indio os ares rompe,E a noite das abóbadas varando,D’ outro lado vai ver o céo, e o dia!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Tu convertes os bosques em cidades;Marcas do sol o gyro, e o dos cometas;Do povo alado as regiões exploras;Nem no mar a baleia está segura, Nem nas espessas selvas o elephante!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Toda a terra está cheia com teu nome;Um seculo transmitte a outro seculoDos teus feitos a historia portentosa;Tu só marchas, tu só te desenvolves,E inda não recuaste de fadiga!Com que signal sellou a tua fronteA mão do Criador? — Donde descendes?Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Não, não és para mim mais um enigma!Conheço a origem tua, e o teu destino,Tua missão conheço sobre a terra.A Natureza toda te respeitaPorque és do Criador a obra prima,Porque transluz em ti o seu transumpto.
Não é á força tua que se curvaA terra, que si á força se curvasse,Seria o elephante o rei da terra.É á tua sublime intelligencia, E a Deos, só a Deos, que tu reflectes,Como do sol a luz reflecte a lua.
Nas barreiras da morte tudo esbarra;Menos o homem, que atravessa airoso,Ahi o mortal corpo abandonando,Para no seio entrar da Eternidade;Assim o viajor o pó sacode,E deixa o companheiro da viagem,Manto todo coberto de poeira,Quando á cidade desejada chega.A alma não morre, porque Deos não morre.
Assás, oh Deos, o homem sobre a terraRevela teu poder, tua grandeza.A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,Com que prendaste o homem, não, não pódeDominar a Razão, que te proclama!Si muda para mim fosse a Natura,Na Razão que me aclara, e não é minha,Senhor, tua existencia eu descobriria.
Eu te venero, oh Deos da Humanidade!Meu amor o que tem para offertar-te? Digno de ti só tem minha alma um hymno,E esse hymno, oh meu Senhor, é o teu Nome!
Que póde o homem dar a quem dá tudo?Só em meu coração suspiros tenho,Suspiros para todos os momentos.De ti, Senhor, minha alma necessita,Como de luz meus olhos, de ar meu peito.E si me é dado a ti subir meus votos,Si é dado pela mãe pedir um filho,Vôem meus votos sobre as igneas azasDo sol, e tu, Senhor, propicio atende;Nada por mim, por minha Patria tudo;Fados brilhantes ao Brasil concede.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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