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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 26 · Suspiros Poéticos e Saudades

O Suspiro á Patria

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XXIV.
SUSPIRO Á PATRIA.
ROMA. NO COLISEO.
Já que do coração rompeste os seios,Onde terna saudade te gerára,E quando mais minha alma nas da Patria Idéas se engolfava,Da clausura do peito te escapaste, Onde mais não cabias,Fugitivo roçando inertes labios, Triste suspiro meu!… Já que teu echoO silencio quebrou mysteriosoDo sepulchral horror deste recinto;Sai, oh suspiro! sai… Não mais resôes, Inutil te não percas,Nestas longas abóbadas quebradas,Murmurando tu só de estancia em estancia,Como um lugubre som de ave nocturna,A quem prazem as trevas, e os destroços.
Teu doloroso som repercutidoNa opposta parte, tal pavor inspira,Que um gemido parece das entranhas Desta immensa ruína!Eu mesmo que exhalei-te, eu mesmo tremo,E mortos tremeriam si te ouvissem; Que farão os viventes!
Hirtos na fronte tenho inda os cabellos, Frio, trêmulo o corpo,Como um tronco de gelo ao vento exposto;E o triste coração onde habitaste,Recobrando de novo o movimento, Com desusada força ora palpita, E monótono sôa,Como sôa o martello sobre a incude.
Temem os olhos de se abrir ás trevas,E de ver coroado o amphitheatroDe alvas sombras de mortos, e de espectros,Que para mais terror me pinta a mente.
Vôa, suspiro meu, vôa, não tardes;Nuncio vai ser do estado em que me deixas.O caminho te indico; aos ares sóbe;Deixa de Roma os solitarios campos.Esta terra de sangue, e de cadaveres.E ás praias chega da querida Patria,Tão longes praias! — Quem me dera eu vel-as!
Mas no longo trajectoVai por mim os logares visitando,Por onde eu já passei triste e saudoso.Oh! quão gratas me são reminiscencias! D’ellas compõe-se a vida,Os prazeres são ellas da velhice. Do afadigado albor de um curto dia Eis tudo o que nos fica!
Toma a Flaminia estrada;Passa o lúrido Tibre, outr’ora rubro,Quando o campo cedêo a Constantino O barbaro Maxencio;Verás Assís no cimo da collinaAs cinzas adorar do sancto filho.
Do Trasimeno ás margens A poeira verás de ossos romanos,E um susurro ouvirás, que diz: Hanníbal!
Chega aos campos que o Arno fertiliza;Entra em Florença, e em Sancta Cruz visita De Dante a sepultura.Sentado está com merencorio gesto; Dir-se-ha qu’inda do Inferno horridas scenasSe lhe antolham, e o misero UgolinoMirrado entre cadaveres corruptosDos innocentes filhos, miserandos,Como esfaimado tigre ossos roendo:Pousa na dextra o rosto, e co’a sinistra Sustenta o immortal livre;Chora de um lado a Poesia, e do outroItalia veneranda está dizendo:onorate l’altissimo poeta
Buonarotti, Alfieri, Machiavelli,Verás ahi tambem; tudo saúda.Nem a Toscana deixes sem que vejasEssa Pisa, onde as Artes renasceram.Contempla de Bosqueto a maravilha, O campo-sancto, a torre que pendenteAmeaça cahir como um gigante.Vai ouvir o susurro do teu vôoNesse musêo de mortos de Bolonha.
Ligeiro passa por Modêna, e Parma;Passa de Lódi a celebrada ponte,Essa que o peso supportou ingente Do Genio das victorias.
Passa o Apenino, e o Pô, e á Milão chega;E em sua Cathedral mysteriosa,Que prostrado me vio venerabundo,Ao som do orgam sagrado, que rebôaNas gothicas abóbadas, respira Religioso accento.
Mensageiro de dôr, ah, não visitesOutros logares que o prazer inspirem.Cança o prazer ao homem quando é longo,Mas tu, melancolia, jamais cançasA quem d’alma os arroubos saboreia.
Pela margem do lago, que tranquillo, Azul-celeste e puro,A vida da innocencia symbolisa, Os Alpes busca, por heroes trilhado;Os Alpes, como braços da Natura,Que erguidos para o céo a Deos adoram.
Sóbe o Simplão; penetra as galerias;Si o nome do Brasil na pedra achares,Minha mão o gravou, beija esse nome.N’outra pedra verás meu nome escripto, Si os gelos o não cobrem;Sentado ahi subí meu pensamentoTé ao throno de Deos, e pela Patria Dirigi-lhe meus votos.
Désce, verás de Brigg argenteos cumes,Que igneos raios reflectem, simulandoClaros elmos de exercito em parada.Continûa teu vôo; Sion passa,Chega á bella Genebra, que se espelhaNo lago côr do céo, e no seu Rhódano,Que o remanso do lago veloz deixa, Para ir levar fertilidade aos campos;Como, mal que desperta, ao leito foge,E asinha o lavrador busca o trabalho.
Da infancia de Rousseau deixando o berço,Pobres villas da França irás passando, Ricas cidades vendo.A Poligny chegando, a rocha vinga,E na gothica estancia, que talhadaFoi ahi pela mão da Natureza,Brasil, lerás nas rusticas pilastras.N’uma aba da montanha, junto á estrada,Onde occulto desliza manso arroio,Acharás uma imagem venerandaDa Rainha do céo, tres vezes pura,Dos christãos caminhantes protectora.Inda a seus pés verás murchas saudades,Por minhas mãos colhidas na montanha.
De cidade em cidade irás vagando;Entra em Pariz, Rainha das cidades. Mas ah! triste suspiro,Si esses ares alegres te abrandarem,Si o seu bulicio perturbar teu vôo,Dos mortos no jardim vai acoutar-te,E entre jazigos tua dôr recobra.Como me apraz dos mortos o remanso!Como dos myrtos sepulchraes o aromaFaz-me o prazer libar da Eternidade!Oh grata habitação! Oh paz suave!Quando ás minhas fadigas porás termo?Oh meu suspiro, si acabar podessesEntre outros mil suspiros confundidoNessa triste mansão! — Mas não, tens inda De dar tua mensagem.
Passa a sombria patria de CorneilleOnde se ergue o honroso monumento Da magnanima Virgem Pelo céo inspirada,Que a fereza dos homens queimou viva.
Pelas margens do sena aos mares vôa;Atravessa o Oceano, tão profundo Como a dôr de minha alma.Passa o Oceano, imagem do infinito.Entrarás n’um immenso ancoradouro,De altissimas montanhas torneado,Onde repousa perennal verdura,Que as espadoas dos montes engrinalda. Oh sem par maravilha!Resupino, grandissimo giganteAo longe assoma, e do Janeiro a barraAo viajor cançado patenteia?Igual outro não ha; errar não pódes. Ahi é que te eu mando;Essa é a Patria minha, a Patria amada,Que a vida dêo a quem me dêo a vida!Ahi respira ainda a mãe annosa,O encanecido pai, e irmãos queridos!Verás si para amal-a razão tenho!Mas não me capta amor grandeza sua.Pobre fosse ella, pequenina aldeia,Por ella meu amor igual seria;Que este nome de Patria é tão suave Como o nome de mãe, de pai, de amigo;E a mãe, e o pai, e o amigo inda que pobresA um nobre coração gratos são sempre.
Venturoso suspiro,Antes que em doce riso te convertas,Nesse magico céo da Patria minha,Á paternal mansão ligeiro adeja Como o meu pensamento;Beija dos caros pais as mãos rugosas, E soluçando diz-lhesQue o filho humilde a Deos rogando fica Por elles, pela Patria;Sobre os restos de Roma, pensativo,Um suspiro exhalou, que á Patria envia.

Roma, 20 de Fevereiro de 1835.

San Francisco de Assis, cujas cinzas estão no convento de sua patria. Hoje lago de Perugia. Igreja de Santa Croce, chamada o Pantheon Florentino, onde estão os tumulos de alguns homens celebres da Italia. A estatua alegorica representando a Italia aponta para este lettreiro, que está gravado aos pés da estatua de Dante Alighieri. A cathedral de Pisa é obra do architecto Bosqueto. Lago Maggiore. As torres, e os zimborios de Brigg são todos coroados de bolas de ferro branco, e com os raios do sol luzem como si de prata fossem. O monte Jura. Veja-se p. 132. Uma Manhã no monte Jura. O cemiterio do Père La Chaise. Corneille nasceo em Ruão em 1606. Jeanne d’Arc (Pucelle d’Orléans), queimada em Ruão em 1431.
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Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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