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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 23 · Suspiros Poéticos e Saudades

O Dia de Anno bom de 1835

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XXI.
O DIA DE ANNO BOM DE 1835.
Vai-te, vai-te… Sepulta-te; não surjas Do abysmo do passado, Anno, que para mim seculo foste De contínuos tormentos.
Vai-te, vai-te… Nem mais lembrança tua A mente atribulada me ennegreça; Desapparece, passa como a nuvem, Que o funebre pallor da lua augmenta Em socegada noite; Como um sonho, que agita a phantasia De adormecido enfermo; Ou como um pensamento mal formado No delirio da febre.
Mas como te olvidar, si a consciencia Ao grito da vontade se rebella? E acintosa a memoria inda conserva Tua lembrança triste? E sem cessar traidora phantasia Máo-grado meu me está representando Mil desgostosas scenas?
Eterna ficará tua lembrança Á minha alma presente, Para da amarga vida despertar-me Os passados revezes, Como ao lado do altar pendente voto O naufragio recorda, e o salvamento.
Como depois de borrascosa noite, Rutila alva serena; Do seio do futuro inexhaurivel, Novo anno, sai, assoma mais fagueiro, E as lagrimas estanca, Que pela dôr mil vezes arrancadas, Do coração aos olhos me subiam.
Faze que esta illusão que a alma consola, Esta esperança, ultimo refugio Que na desgraça o malfadado encontra, Nuncio me seja de um melhor futuro. Sê meu Iris de paz, e o meu sanctelmo. Assás desditas minhas jus me outorgam De merecer-te ao menos um sorriso; Assás para um favor soffrido tenho.
Esta que ora desfructo paz serena, Este descanço que piedosa dextra Concede a meu espirito agitado; Este celeste sopro De alma ventura que respiro agora: Esta luz que me aclara. Já me deixa entrever porvir brilhante. E o horizonte da Patria me apresenta, Da longe Patria, tão por mim chorada.
Vem, anno novo, vem; traze-me alegres Noticias de meus pais, da Patria minha. Traze-me este consolo, Este consolo ao menos, que me afague Na distancia em que vivo. Outra ambição não tenho, outra… E o que póde Minha alma cubiçar de mór valia? Coração como o meu, ermo de inveja, Exempto de vaidade, a pouco aspira: Só de nobres desejos se alimenta.
E tornarei a ver-te, oh Patria cara? Teus montes saudarei? tuas florestas? Teus ríos? e o teu céo azul sem nódoa? Ainda abraçarei os pais annosos? Mas em que dia? Quando?.. Como tarda!
Vem, anno novo; vem, minha esperança! Por ti eu suspirava, Qual um amante pelo bem amado. Vem, oh nuncio de paz; vem consolar-me. Oxalá que não toques ao teu termo Antes qu’ eu volte ao paternal albergue.
Roma, 1º de Janeiro de 1835.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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