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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 18 · Suspiros Poéticos e Saudades

A Consolação

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XVI.
A CONSOLAÇÃO.
Que tens? De que te queixas, desgraçado?É da Patria a saudade que te afflige?São os erros dos homens? São teus erros,Que pesam sobre ti? És criminoso?Aborreces a vida? A morte queres?
O qu’ hei de eu responder? Não, oh meus labios,Não reveleis arcanos de minha alma, Não crimineis os homens;Queixas inuteis são; labios, calai-vos.A quem não sente o mal, que importa o alheio?
Não; não sou desgraçado. Estas profundasDôres que me aguilhoam d’ alma os seios,São os signaes de uma lição do mundo.Sinto a dôr, mas sou grato á Providencia,Que dest’arte me instrue, como mãe terna,Que só para ensinar o filho pune.
No mais íntimo d’ alma o virtuosoAcha quem o console na desgraça.Desgraçado és tu só, tu miseravel,Tu, que não do assassino o punhal temes,Mas o punhal da propria consciencia.
Lei é da Humanidade, e não do acaso;Soffrer, sempre soffrer é seu destino.A Natureza o homem bruto cria, O mundo o aperfeiçôa Com dôres e trabalhos.Como se brunem com o attrito os seixos, No revolver das ondas,Ou como no crisol, á chamma exposta, Se purifica a prata,Dest’ arte, entregue á dôr, doma-se o homem.
O templo da verdade o erro o escolta,Armado de punhaes, e de flagicios;E antes que a Humanidade entrever possaUm claro lume do seu divo rosto, Ah, quantos são primeiro Tristes victimas do erro,Servindo de degráos da luz ao ingresso!
Nossos olhos lancemos ao passado,E co’ o fanal da historia descubramosQuantos martyrios nossos pais soffreram.Tudo o que vemos nada é mais que a lucta Da verdade, e do erro.A verdade, que herdada hoje gozamos,Assás regada foi com sangue humano.Por nós dezoito seculos luctaram,E nós pelo porvir luctamos hoje.
Não é fóra do mundo,Engolfado em prazeres que embriagam,Em brando leito languido estendido,Rodeado de escrayas, que o incensam,Como um Rei do Oriente; nem na mesaDe esplendido banquete, qual Lucullo, Que se colhem lições da experiencia.Não; engana-se aquelle, que EpicuroMal interpreta, e diz: — Eia, gozemos;A vida no prazer cifra-se toda.
É nos carceres só, é nos perigos,Quando ao exilio marcha o justo Arístides,Quando Homero um chorado pão esmola,Quando no carcer Galileo medita,Quando do throno avito um Rei baqueia:A experiencia então a voz levanta;Solon, Solon, Solon, bem m’o dizias!
Do passado a lembrança é morta idéa;A experiencia só, a experiencia, Dura, severa mestra,Por caminhos de dôres, entre espinhos, Guia o incerto passoDo mortal que viaja sobre a terra.A dôr é da verdade companheira;Quem busca a experiencia, a dôr encontra.
Porque pois lamentar si a dôr é util?Si ella é nuncia de um mal, de que nos cumpre Fugir, ou evitar assaltos novos?O fogo que ao infante o dedo queima,A reflectir o ensina, emquanto os mimosDa terna mãe mil vezes o corrompem.
Oh, desgraçado aquelleQue jamais supportou uma só mágoa,E que de gôzo em gôzo vê seus dias Correr tranquillamente; Como a flor nasce, e morre,Mas como a flor tambem nada conhece; Existe, mas não vive,Que é, sem dôr, o prazer uma chimera.Para vermos a luz, que ancias, que dôresNão soffrem nossas mães? Mas nesse instanteAs dôres maternaes, nascendo, herdamos.Gloria, fama, saber dôres nos custam;Até o ultimo expiro a dôr nos segue;E quem sabe si á dôr põe termo a morte?
Como é feliz aquelle que levantaSeu espirito a Deos, e com fé pura, No meio da tormenta,Que o mundo sem cessar contra nós arma, Do céo auxilio espera,Emquanto sem conforto, entregue á raiva,Blasphema o impio contra Deos, e os homens.
Feliz quem assoberba a iniqua sorte,E, para o consolar, acha a virtude, Que benefica brilha,Como em negra soidão plácido lumeAlma esperança gera, promettendoAsylo ao peregrino afadigado.
Feliz, feliz mil vezes, quem tranquilloNão ouve o apuridar da consciencia, E um só crime exprobrar-lhe!E no leito da paz, ou na masmorra,Não vê punhaes em sonhos, nem phantasmas.Mesmo quando os ruíns dôres lhe causem,Como Guatemosino atado, e postoSobre estendidas, chammejantes brasas,Com os olhos no céo, sereno exclama: N’um leito estou de rosas!
Entre afiadas rodas, açoutado Com laminas de ferro; Na cadeia, no circo, e na fogueira, Ou alvo da calumnia,O justo não stá só, Deos é com elle.Cadeias, circo, infamia, fogo, e morte, Tudo supera o justo.
Como as nuvens pejadas de vapores Exhalados da terraDo coruscante sol a face cobrem,E por um pouco a Natureza enluctam;Mas depois da tremenda tempestade,De mais bello sétim o céo se arreia,E o sol raios dardeja mais brilhantes,Assim depois da angustia, e da calumniaA innocencia triumpha acrisolada.
Ah! não nos lamentemos;Que quanto mais se soffre mais se alcança.A dôr só para o iniquo é um tormento. De Zeno as leis seguindo,Como si a não sentissimos, vivamos;Deos existe, e nos vê; Deos só nos julga.
Pariz, 5 de Septembro de 1834.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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