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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 14 · Suspiros Poéticos e Saudades

O Mysterio

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XII.
O MYSTERIO.
O sol empallidece, o céo se enlucta,O raio despedaça o véo do Templo, Soltos trovões rebramam;De espanto, e horror a Natureza geme,Chora Jerusalem, tremem seus muros, E estupefacto o povoEntre o riso e o terror sem tino vaga.
Que sublime mysterio o Eterno Padre Revolve em sua mente? Que grande sacrificio o céo consumma?Quem é Esse que expira no Calvario Entre dous criminosos,Nos braços de uma Cruz, com rosto brando,Como si o fel da morte não provasse?
O monte que supporta o peso ingenteSuspira a cada gota desse sangue,Que o rega, e cai-lhe dos feridos membros Da victima sublime.Quem é Esse, de quem o céo, e os astros A morte estão carpindo?Não, não é um mortal! — Razão altiva,Em vão procuras occultar seu nome!É o Filho de Deos, que sobre a terraEspalhou a Moral pura e celeste, Aos homens ensinandoA verdade, o amor, e o soffrimento.Só o Filho de Deos na Cruz podiaSoffrer por nosso amor esse tormento.
Homens degeneradosSem pejo aos pés de deoses se prostravam Tão infames como elles:Corria humano sangue sobre as arasEm sacrificio á vil hypocrisia De oraculo fingido;E as impias mãos de um impostor sagrado,Nas palpitantes visceras pousando,Iam depois queimar o incenso impuroAnte o altar do crime endeosado.
Tudo do engano as trevas encobriam; Só despotas raivosos A seu grado reinavam;E nas publicas praças, e nos circosSó escravos em ocio pão pediam.
Como de vaga em vaga repellidos Os restos do naufragio,Vão na areia encalhar, tal pareciaQue a Humanidade ao fim tocado havia.
No meio desse horror eis que apparece,Como um iris de paz, do Eterno o Filho. O erro confundido, Procura em vão luctar. Embalde se erguemFogueiras aos Christãos. EspavoridoVê o sedento algoz imbelles virgensCom os olhos no céo vencer a morte;E das tremulas mãos por terra caiem A sangrentas bipennes;Os falsos deoses dos altares sáiem:E sobre o Capitolio a Cruz se eleva,Como o signal da redempção do mundo. Victoria, os céos entoam, Victoria á Humanidade!O Christo do Senhor descêo á terra,E aos homens ensinou a san verdade.
Roma, 17 de Abril 1835.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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