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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 21 · Suspiros Poéticos e Saudades

Uma Manhã no Monte Jura

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XIX.
UMA MANHÃ NO MONTE JURA.
Deixemos este lugubre aposento,Estas estreitas, tortuosas ruas,E subamos, Amigo, este fraguedo.
Ingreme, escabrosissimo, impossivel Parece que o vinguemos;Mas si á forte vontade a acção se aduna, O que ha na terra que resista ao homem? Eia, Amigo, subamos.
Já as flores da noite alvinitentes, Que o firmamento esmaltam,A desmaiar começam, só co’a vista Dos arreboes d’aurora.Da terra alvos vapores se levantamCondensados, e no ar se desnovellam,Montes bosquejam, mares, e cidades,E nos campos se perdem do infinito,Como agora se perde o pensamentoNa vastidão de idéas, em que vaga.
Subamos do rochedo até ao cume;Lá, respirando um ar puro e suave,Recebendo do sol os primos raios,Louvores ao Altissimo entoemos.
Subamos. — Que vastissima paizagem!Que cadeias de montes abraçados,E como torreões, grimpas, espectros, Ás nuvens se levantam! Que tapetes de vinhas se desdobram,E as varzeas, e as encostas alcatifam!Que escuros tectos de mesquinhas villas,Salpicadas aqui, e alli, quaes combrosDe terra, que formigas amontoam!
De tantas sensações extasiada,Minha alma se sublima, e se converte N’um hymno harmonioso,Em louvor do Senhor da Natureza.
A lucifera estrella alli fulgura;Lá se ergue o Sol n’um Oceano de ouro, De rubins ondeado!Tu, que illuminas mil milhões de povos,Que outros tantos baixar tens visto ao nada,E outros tantos subir ao gráo daquelles;Cem, e cem vezes eu te ví radianteAtravessar contente e vagaroso De minha Patria os campos, Os sêrros, e as cidades,Como si, lei não sendo o movimento,Eterno no Brasil brilhar quizesses. Oh Sol, ind’ hontem viste essa ditosaPatria, por quem suspiro aqui saudoso;Patria, por quem me afano; mas si embalde,Longe d’ella acabar prefiro ao opprobrio De vel-a, e ser-lhe inutil.
Não, oh Patria, não stou de ti distante;Commigo estás, é teu meu pensamento.Um desejo violento, irresistivel,Como a enchente que de alto se desaba,Todo me occupa, e o coração me abala:Desejo de te ver no orbe cantadaComo a primeira das Nações da terra.
Descancemos, Amigo,Descancemos um pouco, que é difficilPor não trilhadas, perigosas sendas,Sem fadiga vencer tal penedía.Olha, vês tu aquelle que pasmadoDebaixo nos contempla, e se confunde, Envolto na poeira,Co’ as pequenas ovelhas que apascenta?Quiçá de nós dizendo esteja agora: Eis dos homens té onde o arrojo chega!Porque a plana estrada desprezaram,Onde sem risco todos nós marchamos,Para perigos affrontar ousados?Cahirão, cahirão; serão punidos…
Assim mesquinhos entes invejosos, Tristes aves de agouro,Que no charco commum patinham, grasnam,Quando vêm remontar altivos genios Ás sublimes espheras,Esses, cuja missão é o progresso.E das mãos arrancar da Natureza Novas, uteis verdades,Clamam, praguejam, mas no charco morrem;Emquanto que de céo em céo voando,De Nação em Nação, de povo em povo,Da Humanidade os astros bemfeitores,Em torno a Deos, na Eternidade pairam, De propria luz radiantes.
Trabalhemos, Amigo, pela Patria, Só por amor da Patria, E entreguemos a Deos nosso destino.Si á região dos astros não subirmos,Pyrilampos seremos nos desertos,E aos nossos reunidos, luz daremos,Que nas trevas talvez ao desgarrado Viajor encaminhe.Trabalhemos, Amigo, pela Patria, Só por amor da Patria,E entreguemos a Deos nosso destino.
Ah, subamos ainda,E cheguemos ao tope da montanha.
Esta pedra que cai, bate, e reflecte,E assim de curva em curva saltitante,Vai rolando, e batendo, até que chega Desfeita em mil pedaços,É a imagem dos seres subalternos,Que só grandes parecem pela altura,Em que a cega ignorancia os collocára;Mas quando se despenham, desparecem,Sem que se abale o mundo; nem arrastam Satellites comsigo, A não ser a poeira Que só os rodeava.Assim muitos colossos se abysmaram, Colossos de vaidade:Assim se enterrarão no eterno olvidoMuitos que a Patria nossa inda hoje opprimem Co’ o peso da ignorancia.
Nossa Patria tão bella! — Nossa PatriaTão digna de um porvir grande e sublime!Eil-a, como um cadaver de gigante,Roída por milhões de vis insectos, Que ella mesma alimenta!
Olha, Amigo, esta pallida saudade,Que nesta penedía a custo vive!Aqui não é que vegetar devia Flor tão cara á minha alma.Vês tu como ella pende a roxa fronteMal que a colho, e a colloco no meu peito?Como ella o coração, soffrendo a mágoa Que o nome d’ella explica,Longe da Patria, em que meus pais habitam, De languidez se encolhe.Irás commigo, oh flor, terna saudade,Inda que murcha e secca; — irás commigo, E acabaremos juntos.
Poligny, 7 de Outubro de 1834.
De Poligny, cidade de França, situada nas abas do monte Jura.
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Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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