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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 20 · Suspiros Poéticos e Saudades

A Sepultura de Filinto Elysio

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XVIII.
A SEPULTURA DE FILINTO ELYSIO,
NO CEMITERIO DO PÈRE LA CHAISE.
Eis-me fóra do mundo, Nas solidões dos mortos,No imperio do silencio, e da tristeza,De campas, e cyprestes rodeado!
Scenas aqui não ha que aprazer possamAos sentidos daquelles, que embebidosNas illusões do mundo, a morte temem, Como o completo termo da existencia;Cegos, que a luz não viram do infinito!
Á sombra destas arvores chorosas, Encostado a um sepulchro,Ocio não pasta o rico em sésta amena;Nem quem o vero bem no engano cifra Deste valle de angustias.
Á dôr esta mansão é consagrada,E á saudade, e ás lagrimas dos vivos,Que a Deos, e á Eternidade a mente sobem.
Aqui, sim, oh minha alma, aqui te exalta;Sólta as prisões do barro que te opprime,E vaga sem horror na immensidade.
Estas ruas de tumulos suberbos, Que cidade figuram,Só corruptos cadaveres habitam,Poeira, nomes, e ossos descarnados.
Os mortos que nos marmores repousam, Não te encham de terror; nem os gemidosDe alguma triste esposa, ou mãe saudosa; Nem do vento o murmûrio,Que merencorio sôa entre os cyprestes. Nada temas, minha alma;Preconceitos da infancia te não gelem; Não; sem susto vagueia; Mal não fazem os mortos;Só entre os vivos o temor é justo.
Oh Filinto! oh Filinto! Onde estás?… Escutemos…Aqui nem mesmo os echos me respondem.Oh meu Filinto, é esta a vez terceira, Que incansavel te busco,Dé um em um tenho lido os epitaphios Destas funebres lousas; Só o teu não encontro.
Onde é que a ingratidão da injusta Patria, Dessa Patria que honraste Co’ os teus divinos carmes,Cavou-te a humilde sepultura? — Onde? D’ella ausente, proscripto, na miseria, Como Camões viveste;Saudoso, e só por ella suspirando,Monumentos ergueste á gloria sua;E surda sempre foi aos teus gemidos;Como Camões morreste na indigencia!Mas elle ao menos expirou na Patria!Terra da Patria recebêo seus ossos;E tu? — Nem ella sabe onde repousas!
Oh desgraçada Lisia!Ingrata mãe de heróes, de egregios vates,Assim deleixas teus preclaros filhos, Que em fadigas se afanamPor cingir-te de brilho immarcescivel?Teu vate, teu cantor já te exprobrára,Quando com rouca voz assim dizia,E não do longo canto afadigado,Mas de cantar á gente endurecida:„O calor, com que mais se accende o engenho,„Não o dá a Patria, não; que está mettida„No gosto da cubiça, e na rudeza„De uma austera, apagada e vil tristeza.“
No Universo estas vozes resoaram;Linguas cem estas vozes repetiram; E o que fizeste, oh Lisia?Chamaram-te madrasta, e mãe tyranna; E hoje? — ainda és a mesma!
Oh Patria minha, oh meu Brasil, não sejasComo Lisia cruel para teu filhos.Ligado á sorte sua, supportasteSec’los tres os grilhões do captiveiro;Ma já que sacudiste a espessa treva, Que os olhos te vendavaDa tua antiga Irmã vê as miserias, E de imital-a teme.
Vejamos. — Estes myrtos tão viçososOrnar devem de um vate a sepultura.Oh, será elle? — Não; aqui descança O coração de um filho.
Não afrouxemos, vamos; que assim marcha A Humanidade inteira,Sem nunca repousar, sobre reliquias Das gerações extinctas. Cada casa é um tumulo, e de sangue, Logar não ha na terra, Que manchado não fôsse.Um dia chegará a HumanidadeAo limite que Deos lhe prescrevêra.
Não descancemos; vamos,Emquanto a sepultura não acharmosDe Filinto, que ha tanto procuramos.
Luiza e Abeilard inda no marmor,Junctos, da morte o eterno somno dormem,Neste gothico tumulo; mil c’rôasSuas estatuas cobrem, que os amantes A seus pés depositam.Qu’eu não possa pagar igual tributo! Amor, tu me desdenhas;Nunca um osculo teu rosciou meus labios;Nunca de virgem olhos conduídosSobre mim almas chammas espargiram; Ah, nunca fui amado!Nascido para a dôr, jamais minha almaEm delicias de amor sonhou ao menos!
Que illustres nomes estas lousas mostram!Estatuas, bustos, inscripções só vejoDe prestantes varões, de egregios vates.Ao lado deste tumulo pomposo,Onde d’Arte o primor offusca o nomeDaquelle que mimoso foi da sorte,Como a meu coração falla sublimeEsta Cruz negra á sombra de um cypreste!
O sol desmaia; e precursor da noiteCinéreo véo nos ares desenrola-se.Já fraqueio, e suor transsuda a fronte.Deixarei estes sacros aposentos,Sem que te encontre, oh candido Filinto?Serei tão malfadado, que esta c’rôaDepositar não possa em tua campa,E sobre ella chorar, gravar meu nome?
Ah, não desesperemos;Mais um esforço. — Emfim, é ella, é ella!Nem sequer um cypreste, um myrto a cobre!Já lisa a pedra pelo pé do tempoMal indica que teve um epitaphio. Ingrata Patria! Ingrata!O tempo ao menos, carcomendo a lagea,Tua vergonha occulta ao estrangeiro.
Oh meu Deos! aqui jaz desconhecidoQuem cantou dos teus Martyres a gloriaEm altísono metro harmonioso!
Reverente ante a tua sepultura,Oh Filinto, tu vês um triste filho,Que choroso, da Patria ausente vive.Joven, talvez hardido, ousei na lyraOs dedos applicar, seguir teus vôos:Sons, que desfiro rusticos, consagroEm holocausto a Deos, e á Patria minha.Da celeste Sião, onde tua alma Fulgurante resplende,Um raio de estro á minha mente vibra. Recebe esta corôa, Estas folhas recebe,Que viçosas colhi na sepulturaDo immortal La Fontaine, a quem honraste. Quiçá prima homenagem sejam ellasQue aos manes teus humana mão tribute.Possa o tempo guardar estes, que escrevo,Tristes versos, até que um Luso os leia:
Uma lagrima dai, oh Portuguezes,Uma lagrima ao menos a Filinto, Ao desgraçado velho. Assás honrou á Patria;Em premio exilio teve. — Adeos, Filinto.
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„Que exemplos a futuros escriptores!“
Pariz, 28 de Septembro de 1834.
Com a traducção que fez das suas fabulas.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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