Leia agora
Suspiros Poéticos e Saudades

Universo da obra

Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 2 · Suspiros Poéticos e Saudades

Advertencia

2 de 57 ≈ 8 min de leitura
LEDE.

Péde o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um portico ao edificio; e como este deve indicar por sua construcção á que Divindade se consagra o templo, assim deve aquelle designar o caracter da obra. Sancto uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este Livro se elevem em alguns espiritos apoucados.

É um Livro de Poesias escriptas segundo as impressões dos logares; ora assentado entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos imperios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gothica cathedral, admirando a grandeza de Deos, e os prodigios do Christianismo; ora entre os cyprestes que espalham sua sombra sobre tumulos; ora emfim reflectindo sobre a sorte da Patria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as scenas da Natureza, diversas como as phases da vida, mas que se harmonisam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anneis de uma cadeia; poesias d’alma, e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.

Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silencio da noite, cançado de fadiga, elevou até a Deos uma alma piedosa, e vertêo lagrimas amargas pela injustiça, e miserias dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na historia da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas acções; esse achará um echo de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonise com o seu suspiro.

Para bem se avaliar esta obra, tres cousas releva notar: o fim, o genero, e a fórma.

O fim deste Livro, ao menos aquelle a que nos propozemos, que ignoramos si o attingimos, é o de elevar a Poesia á sublime fonte donde ella emana, como o effluvio d’agua, que da rocha se precipíta, e ao seu cume remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

A Poesia, este aroma d’alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da intelligencia deve sanctificar as virtudes, e amaldiçoar os vicios. O poeta, empunhando a lyra da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Sancto, do Justo, e do Bello.

Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos lyricos, tão cheio de saber, e que podéra ter sido o reformador da nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre se apoderou desta idéa. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traducções; e quando elle é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferencia ao homem civilisado, como si aquelle a este superasse, como si a civilisação não fosse obra de Deos, á que era o homem chamado pela força da intelligencia, com que a Providencia dos mais seres o distinguira!

Outros apenas curaram de fallar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decencia!

Seja qual for o logar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bella, embalado pelos prazeres; no carcere, como no palacio; na paz, como sobre o campo da batalha; si elle é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas azas da harmonia até ás idéas archetypas.

O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos ahi procuram aplacar a sêde.

Ora, nossa religião, nossa moral é aquella que nos ensinou o Filho de Deos, aquella que civilisou o mundo moderno, aquella que illumina a Europa, e a America: e só este balsamo sagrado devem verter os canticos dos poetas brasileiros.

Uma vez determinado e conhecido o fim, o genero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o enthusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração si a Mythologia podia, ou não, influir sobre nós. Comtanto que dicessem que as Musas do Helicon os inspiravam, que Phebo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras taes e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como si podesse parecer bello quem achasse algum velho manto grego, e com elle se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguem honram.

Quanto á fórma, isto é, a construcção, por assim dizer, material das estrophes, e de cada cantico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéas como ellas se apresentaram, para não destruir o accento da inspiração; alêm de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rhymas, e a symetria das estancias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artificio que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orchestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem propria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.

Quando em outro tempo publicámos um volume das Poesias da nossa infancia, não tinhamos ainda assás reflectido sobre estes pontos, e em quasi todas estas faltas incorrêmos; hoje porêm cuidamos ter seguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, si não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.

Algumas palavras acharão neste Livro que nos Diccionarios Portuguezes se não encontram; mas as linguas vivas se enriquecem com o progresso da civilisação, e das sciencias, e uma nova idéa péde um novo termo.

Eis as necessarias explicações para aquelles que lêm de boa fé, e se aprazem de colher uma perola no meio das ondas; para aquelles, porêm, que com olhos de prisma tudo decompoem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o nectar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?… Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escarneo.

Este Livro é uma tentativa, é um ensaio; si elle merecer o publico acolhimento, cobraremos animo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aquelles que fazer poderemos com o tempo.

É um novo tributo que pagamos á Patria, emquanto lhe não offerecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a attenção descança, fatigada pela seriedade da sciencia.

Tu vais, oh Livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Patria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, excepto o egoismo: tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos do hinverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.

Vai; nós te enviamos, cheio de amor pela Patria, de enthusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deos, e no futuro.

Adeos!

Pariz, julho de 1836.


Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Suspiros Poéticos e Saudades

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Suspiros Poéticos e Saudades

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Suspiros Poéticos e Saudades

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Suspiros Poéticos e Saudades Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 2 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Suspiros Poéticos e Saudades

Todos os capítulos 57 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir