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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 27 · Suspiros Poéticos e Saudades

Ao R. P. M. Fr. F. de Monte Alverne

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XXV.
AO MEU ILLUSTRE MESTRE E AMIGO
O REVERENDISSIMO SENHOR
FR. FRANCISCO DE MONTE-ALVERNE.
Eis-me em Roma! Da Patria tão distante!Inda de vós conservo tal lembrança,Que ás vezes se me antolha a imagem vossa;A ella me dirijo, fallo, escuto,E cuido que ella me ouve, e me responde.Como de um tão bom mestre, tão amigo,Poderá o discipulo esquecer-se? Quantas vezes aqui, nos sacros templos,Ouço sanctas palavras destes padres;Cuido ver-vos no pulpito elevado;Mas desconheço as vozes, e nem sintoBater-me o coração dilaceradoDa grave dôr christã; nem em transportesSubir minha alma ao céo como um effluvioDa flor erguido; então saudoso exclamo:Quem me dera inda ouvir o grande Alverne!
Roma é bella, é sublime, é um thesouroDe milhões de riquezas; toda a ItaliaÉ um vasto musêo de maravilhas.Eis o qu’eu dizer posso; esta é a PatriaDo pintor, do philosopho, e do vate.
Embalde Roma invoco, e a musa empenho,Para um quadro traçar destes prodigios;Sem cessar uma voz me falla n’alma:Da louca pretenção que te allucina,Desiste, oh phantasia! não te é dadoAchar uma linguagem tão facunda,Tão sublimes imagens com que pintesDignamente esta immensa maravilha.
Como é possivel descrever ao vivoTodo o horror da montanha que vomitaFogo, lavas, e fumo do ancho seio?Quem póde retratar a majestadeDo vasto Colisêo, quando o argenteiaDo noctiluco globo o incerto lume,Seus raios pelas fendas enfiando?As projectadas sombras como espectros;Rotos muros, longuissimas abóbadas;Um gemido escapado de repenteDo pobre, que ante a Cruz seus males chora;Um funebre arquejar de ave sinistra;Uma voz que alêm sôa murmurando?Quem narrar póde os pensamentos todos,Que d’alma em torno em turbilhões volteiam,Inda mais pavorosos que as ruínas?
Quem, penetrando as negras catacumbas,Escondidas da terra nas entranhas,Dos martyres christãos leitos de morte,Onde não entra o sol, nem entra a lua,E só pequena luz, na mão do guia,Trémula, moribunda bruxoleia, Como pallida estrella, ou como um olhoDo genio habitador daquellas trevas;Quem não se enche de horror? Quem fallar póde?Só ver, e emmudecer; a lingua é fraca;As grandes commoções não se descrevem.
Como é tão eloquente a lisa pedraQue só diz: — Aquí jaz Torquato Tasso!Quando todos os marmores ligados,Inda assim receber não poderiamSeus versos immortaes por epitaphio!
Assim eu, receando dicer pouco,Não podendo pintar tanta grandeza,Eloquente serei nada dizendo.

Roma, Abril de 1835.

Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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