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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 22 · Suspiros Poéticos e Saudades

A Vista de Roma

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XX.
A VISTA DE ROMA.
É Roma! é Roma! é a cidade eterna! Lá sobre a cathedral do christão mundo De Buonarotti o genio se levanta, Prodigio d’ arte, maravilha humana, Consagrada a Deos vivo.
Entre suas ruínas, majestosa Inda Roma se ostenta. Inda seu nome impõe respeito ao mundo, E enthusiasmo gera. Mas Roma entre ruínas se me antolha Como essa arrependida penitente, Que a van pompa do mundo desprezando, A cruz do Redemptor humilde abraça. Em vez de capacete, esparsa a côma; Em vez de sceptro, cruz; o marcio riso Não mai lhe habita os labios, Nem lampejantes olhos mais incutem Terror, vingança, e morte. Religiosa dôr hoje a sublima, E a veste de candura, e de belleza.
Rainha das Nações, eu te saúdo! Mãe illustre de heroes do mundo espanto! Eu te vejo, e minha alma inda duvída! E não sentida commoção me abala.
Esta vermelha terra, árida e sêcca, Qu’ inda exhala mortiferos vapores; Este inculto deserto, abandonado Dos homens, e das feras, Onde uma flor sequer não ri-se ao menos; Esta desolação, esta tristeza, Este horror sepulchral, que em torno gyra Da senhora do mundo, Tudo alfim aqui falla, e ós olhos mostra As sangrentas tragedias, que juncaram Estes campos outr’ora. De tanto sangue humano que a ensopára, De tanto ferro gasto que a cobríra, Conserva ainda a côr a terra esteril!
Porque nuvens de córvos esvoaçam Nestes ares pejados de vapores? Porque arrancam gemidos dolorosos, Que as carnes, e os cabellos arrepiam, Como si elles um mal tambem carpissem? Odor carnificino Ainda exhalarão de Roma os campos? É que não acham mais sangue que bebam! Cadaveres que os cevem!
Que Romano saído do sepulchro Reconhecer-te, oh Roma, poderia? Que viajor, entrando em tuas portas, Não dirá: Onde estou? onde está Roma? Si uma voz respondesse: Eis aqui Roma! Como não exclamar cheio de assombro: Que maldição do céo cahio sobre ella?!
Tambem teem as Nações suas idades! Joven já foste, oh Roma! Já guerreiro vigor armou-te o braço; Já tremeram de ti milhões de povos. Fatigada de gloria, e já curvada Entre tuas ruínas, Hoje tu tremes, como uma Rainha Annosa sobre o throno, Que em annos juvenis calcára ufana. Hoje só em teu Deos arrimo encontras; Só a Religião te ampara a fronte, Que co’ o peso dos seculos já pende.
Sem este novo Deos morta já fôras. Teus velhos deoses á paixões sujeitos, Teus senhores, teus Neros, e teus filhos, Degenerada raça Dos Brutos, e Catões, raça maldita, Nos mais nefandos crimes só nutrida, Tudo alfim te arrastava ao horror, e á morte, E te ía despenhar na sepultura. Mas um Deos novo te salvou do abysmo; Novas virtudes dêo-te, graças novas, E tu por elle só inda hoje vives.
Da guerra o Genio que nas pugnas véla, E o pacifico Genio que aos destinos Dos Imperios preside, Entorpecidos de fadigas tantas, Entre a poeira das ruínas tuas, Cobertos de laureis, prostrados jazem.
Co’ a espada o antigo mundo amedrontavas, Co’ a Sciencia, e a Razão guiaste o novo; Sim; a gloria perdeste dos combates, Mas alcançaste da Sciencia a gloria.
Ignora o mundo o teu porvir augusto, Que ao mundo occulta Deos seu pensamento; Mas tu despertarás á voz de um Genio, Do somno em que te abysmas. Dorme, dorme, que o Tempo não perece; Dorme, que um dia te erguerás mais bella; Dorme, até que a trombeta do teu Anjo No mausoléo resôe de Adriano. Os designios de Deos serão cumpridos: Não, tu não morrerás, cidade eterna.
Roma, Dezembro de 1834.
Michel-Angelo Buonarotti, architecto da magnifica cupula de S. Pedro, em Roma. Hoje Castello de S. Angelo.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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