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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 30 · Suspiros Poéticos e Saudades

Para que vim eu ao Mundo?

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XXVIII.
PARA QUE VIM EU AO MUNDO?
Do céo as estrellas Acaso no brilho São todas iguaes? São umas mais bellas, E outras parecem Funéreos fanaes. Assim são os fados Dos tristes mortaes.
Cada qual tem sua sorte; Um foi para a dôr gerado, E outro pela ventura Ao nascer foi embalado.
Quanto mais penso, mais creio Neste mysterio profundo; E a mim mesmo então pergunto: Para que vim eu ao mundo?
Como reposta esperando, Escuto silencioso; No coração, que palpita, Murmura um som luctuoso.
Sôa essa voz em meu peito Como em caverna profunda, Como um suspiro exhalado Pela vaga gemebunda.
Para a dôr, me diz, nasceste; Para a dôr, para o tormento; Teus males só terão termo Co’ o teu ultimo momento.
Soffrer, tal é meu fado! — Eu me resigno.E que al hei de fazer? — Curta é a vida…E quem me tolhe qu' eu de todo a encurte?Não serei livre de lançar por terraUm fardo que me acurva, um fardo inutil?É a vida para uns nectar suave,Toxico é para mim; — devo tragal-o? Acaso Deos me dice:A ti toca soffrer por mil que gozam.
Mas eu blasphemo, oh céos! Que voz me grita:„Mortal, olha o que fazes! Contra a vidaNão ouses attentar. Quem vida dêo-teSó quando lhe aprouver tirar-t’a póde.“Oh meu Deos! compaixão. Minha alma humildeGraça implora da sua insana idéa.
Rir, ou chorar, eis só o que o homem sabe; Si não canta, blasphema!
A sorte choremos, Que avessa nos é; Mas não blasphememos, Vivamos co’ a Fé.
Qual a esponja de liquido embebida,De perpetua, lethal melancolia Pejado tenho o peito; Minha alma amortecida,E como que em seu tumulo encerrada,Só pela dôr á vida é revocada.
Oh minha alma, tu és como a lanterna Do cemiterio,Que ante o altar, sobre um esquife solta Pallor funéreo.
A sorte choremos, Que avessa nos é; Mas não blasphememos, Vivamos co’ a Fé.
Oh prazer! Oh doçura da existencia! Meta tão desejadaDe todos os mortaes, para quem indaBrilha no céo a estrella da esperança.Oh benigno sol, que a vida aqueces, Para mim te eclipsaste! E si ás vezes phosphorico lampejas,Quando eu, afeito á dôr, te não desejo,É para exacerbar meu soffrimento.Ah! nem me afága da esperança o riso,Nem me consola amor: tudo me fóge.
A sorte choremos, Que avessa nos é; Mas não blasphememos, Vivamos co’ a Fé.

Bolonha, Maio de 1835.

Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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