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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 34 · Suspiros Poéticos e Saudades

Em reposta a meu Amigo M. de A. Porto-Alegre

34 de 57 ≈ 7 min de leitura
XXXII.
EM RESPOSTA A MEU AMIGO
M. DE ARAUJO PORTO-ALEGRE.
Não era noite, nem o sol brilhava;Mas do céo as estrellas rutilantesCom branda luz os ares perfumavam;E nas aguas azues, dormentes aguas,Que Veneza circulam com cem braços,Os celestes fanaes, e a casta luaSuas bellas imagens balançavam.Outro céo esse lago parecia. Eram dous céos! Veneza em meio estava,Como um astro que parca luz emana.O leão de São Marcus inda eu via,A torre esbelta, o gothico palacio, E a ponte dos suspiros.
Mas tudo, tudo Deixar devia, Antes que o dia Amanhecesse, E desfizesse Quadro tão bello. A mão do escravo Obediente Maquinalmente Já martellava. O fatal bronze; Pancadas onze O ar vibrava. Triste e choroso Teus versos lia, E de saudade Me enternecia. Teus versos lendo, Phantasiava Que te escutava, E que assentado Inda a meu lado Te estava vendo.
Já para responder-te preparado A amizade invocava,E cravados no céo os olhos tinha.Mas a hora fatal gelou-me o arroubo!Alerta o gondoleiro me esperava;Partir… deixar Veneza era forçoso.
Co’os teus versos nas mãos, tu em minha alma,Na gondola puz pé; saudei Veneza;E co’os olhos em lagrimas nadando: Adeos, Veneza, eu dice,Adeos, adeos, maritima cidade,Decahida Rainha do Adriatico, Eu suspirava ainda;A gondola do cáes se ia afastando,E do grande canal sulcando as aguas,Quando vozes ouvi: era o barqueiro,Que ao compasso do remo recitava,Com monotona voz, porêm saudosa,Do vate de Sorrento os doces carmes.
Tudo então repousava;Veneza ao longe illuminada eu via, Como um céo estrellado.O esquive brandamente deslizava,As somnolentas aguas despertando,Qual negro mergulhão de argenteo rostro,Ou qual cysne de lucto revestido.Porque tão curta foi noite tão bella?Ah! quem nunca deixou patrias devezas,Quem de um amigo não chorou a ausencia, Nem de uma amante a perda,Gozar não póde em solitaria noiteEsta doce impressão, que a alma suffoca.
Tomei terra em Fuzina;Arqua deixei, onde habitou Petrarca; Ábano, que por ser de Livio patria, Ainda hoje se ufana;E na crastina aurora saudei Pádua,Ao som da melodia encantadora,Que ao sol nascente o rouxinol tributa.Pela segunda vez vi seus palacios,Seu templo semiárabe, que outr’oraDe Antonio repetio sacros accentos.
Visitei de Vicença os monumentos.Em Montebello recordei prodigios Do armipotente Lannes.Eis-me em Verona alfim, oh caro amigo!Já vi seus mausoléos, e o amphitheatro,Que Roma, e o Coliséo me está lembrando;O Coliséo, que junctos vezes tantasAo triste albor da lua visitámos!
Tudo a memoria, Doce tormento, Neste momento, Me está narrando, Sem omissão; E a cada folha Da nossa historia, Que vai passando, Pungente espinho Me vai varando O coração.
Sempre a teu lado Vivi contente; A ti ligado, Uma vontade Só nos unia; Vera amizade Nos apertava. Si triste estava, Tu me alegravas; Em ti vivia, Comtigo ria. Si me dizias: Sou teu amigo, Eu como um echo Te repetia. Era um exemplo Nossa união. Mas quiz a sorte, Sempre inimiga, Atormentar-nos E separar-nos Por algum tempo; Desde esse instante A dôr pintou-se No meu semblante; Mas só a morte Dará um córte Ao laço sancto, Que nos prendêo: Si poder tanto O justo céo Lhe concedêo.
Vai, meu suspiro, Vai ver o amigo, Que te deseja No seu retiro. Á Roma adeja, Deixa-a, e te inclina Á Palestrina; Chega ao abrigo Onde elle pousa; Ahi repousa, Suspiro meu.

Verona, 12 de Maio de 1835.

Ha em Veneza, na praça de S. Marcus, uma torre chamada do Relogio; em cima um sino, e duas estatuas de bronze com martellos nas mãos, marcando com elles as horas.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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