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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 38 · Suspiros Poéticos e Saudades

Os Suspiros da Patria

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XXXVI.
OS SUSPIROS DA PATRIA.
D’onde veem estes suspiros? D’onde veem tão magoados? Que a mim chegam tão quebrados! Que peito os pôde conter?
Que distancia elles venceram? Que longos mares passaram? Que ventos atravessaram, Para aqui virem morrer?
Estes tão tristes suspiros Aqui não foram nascidos; Não; suspiros tão doídos Quem podia aqui gerar?
Só uma mãe malfadada, Que vê seus filhos luctando, Nos céos os olhos fitando, Assim póde suspirar.
N’uma praia solitaria Bate a vaga moribunda Menos triste e gemebunda, Pejando o ar de seus áis.
Vós, gemidos dos desertos, Entre as folhas vagueando, Nas cavernas ululando, Tanto horror vós não causais.
Suspiros, d’onde vindes? — Mal vos ouço,Em meu peito murmura o echo vosso Surdo, funéreo, como a voz que sôaLonge no ermo, da enchente que se arrojaDe alpestre rocha, em borbotões fervendo,E se esconde da terra nas entranhas;E minha alma estremece apavorada,Como de uma harpa a corda magoada.
Suspiros, d’onde vindes? — Sois da Patria?Ah! sois da Patria… Sim, eu vos conheçoPor esse accento de afflicção, de angustia,Por esta dôr, que me causais, tão agra.
Tu suspiras, oh Patria!Co’ os teus os meus suspiros se misturam. E que al fazer eu posso?Si é surda a Providencia ás preces tuas,Que póde a fragil mão de um filho inutil?
Os teus suspiros A mim chegaram, E me abalaram O coração. Soccorro dar-te Embalde intento, E só augmento Minha afflicção.
Qual naufragante Que uma onda impelle, Outra o expelle Ao alto mar; E de onda em onda Sendo rolado, Já lacerado, Vai encalhar. Mas na praia não achando Um asylo protector, O alento ultimo exhala, E a alma envia ao Criador.Assim morreis, suspiros, em minha alma,Depois de haver o Oceano magoado.
Mas, oh Patria, quem causa mágoas tuas?Ah! não falles, não digas… soffre… espera. Eu conheço teu mal. Ah! não são estes,Qu’inda os pulsos teem lividos dos ferros,Recem-livres, costumes teem de escravos,Estes não são, que ao teu porvir brilhanteAs portas abrirão; são os seus filhos.Espera, espera, que o porvir é grande;E a vontade do Eterno, que os teus montes,O teu céo, os teus ríos nos revelam,Será cumprida um dia: espera, espera.Ainda hontem te ergueste de teu berço; Mal um passo ensaiaste,E não é crivel que amanhã já morras.
Como em torno do sol os astros gyram Em circulo perpetuo,Em torno de seu Deos as Nações marcham,E de tal Astro á luz jamais se eclipsam;Crê em Deos; que elle só salvar-te póde.
E vós, que a fronte ergueis de nós á cima,Vós, que empunhais da governança o leme,Vós, que velar devieis, até quandoFareis da Patria o patrimonio vosso, E tolhereis seus passos?Corai, corai de pejo, envergonhai-vosDe encher o excelso assento de poeira,De poeira que sois, que um leve soproDispersa, e acaba, e nem vestigios deixa Para o crastino dia.Nullidades, que humanas fórmas cobrem,Empolas que se geram n’um minuto,E que n’outro minuto se desfazem,Como bolhas de espuma, que brincando,De tenue tubo o infante cahir deixa,E no meio da quéda desparecem:Que fizestes, que em vossa gloria falle?Nada!… Passastes como seccas folhas, Que os ventos remoínham.
Basta, emfim basta de illusão, de engano. Mira a Patria a grandeza;Vós a empeceis; deixai o campo livreÁ Juventude, do progresso amiga.
Eu vos saúdo, Geração futura! Só em vós eu confio. Crescei, mimosa planta,Sobre a terra da Patria só regada Com lagrimas e sangue.Crescei, crescei da liberdade, oh filhos,Para a Patria salvar, que vos aguarda.
Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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