Universo da obra
Universo da obra
Tudo está profanado!
As vestes da virtude o vício adornam;
Da lisonja nas aras arde o incenso
Que só devera embalsamar o templo!
Murchas flores, que a fronte ao vício ornaram,
Atiram-se em despeito ao altar do Eterno.
Tudo está profanado!
Levanta a estupidez a hirsuta coma
Coberta de poeira,
E a sacode no rosto da Ciência,
Ou no alcáçar da lei se assenta ufana;
A Moral a seus pés serve de sólio,
De cúpula o capricho.
Tudo está profanado!
A cívica coroa
Dá-se à ambição, que sobe intumescida
Como a onda do mar, e tudo alaga.
Exauriram-se os nomes das virtudes,
E um só não há que ao crime se não desse.
Os lugares são prêmios da baixeza,
Da feia adulação, da vil intriga!
O hino cantam da vitória; e a Pátria
Geme aflita co'o peso da ignorância
Dos homens, cuja estrela é o egoísmo;
E até a lira, para mor opróbrio,
Vendidos sons só verte!
Tudo está profanado!
Como posso louvar-te, ilustre Veiga,
Santuário da honra foragida?
Que nome te darei? que flor? que incenso?
Como o bronze que soa em torre excelsa,
Chamando a Deus os homens,
Tu bradaste, pregaste o amor da Pátria;
A teus brados os homens surdos foram,
E tu enrouqueceste.
Apóstolo da ordem,
Caíste, enfim caíste! — Mas com glória!
Caíste, mas sem nódoa! Sim, caíste!
Mas Sócrates também sofreu a morte!
Qual se vê nas cidades arrasadas,
O templo solitário, esparsos bustos,
Rotas colunas, capitéis dispersos,
Combros de terra, montes de ruínas;
E no meio, inda envolta de poeira,
Uma estátua, que o tempo respeitara,
E que os olhos atrai do peregrino;
Assim te eu vejo em pé! e assim um dia
A geração futura, pesquisando
No meio das relíquias desta idade
Alguma cousa inteira, pura e bela,
Sacudirá o pó, que hoje te lançam,
E dirá: Eis aqui um Homem probo.
Mas que digo? — Ainda vives!
Envenena-se a flor, se a serpe a morde,
E a virtude definha, conculcada!
Mas tu amas a Pátria, como eu amo;
Amas com amor puro,
Sem mescla de interesse, como se ama
Uma mãe terna, que não tem tesouros,
Mas só lágrimas tem para legar-nos.
Ah! praza ao céu que a estrada em que brilhaste,
Seja aquela em que morras.
Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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