Universo da obra
Universo da obra
Nascido em virgem plaga Americana,
Onde da independência o livre sopro
Os homens vivifica;
Onde de azul cetim num céu sem nódoa
Lúcido gira o disco coruscante,
Que ao vate o gênio inflama;
Sem que do medo a destra me agrilhoe,
Porém venerabundo, a mente exalço
Ao herói de dous Mundos.
Tu, da glória no céu, não dado a muitos,
Rutilas fulgurante a par de Washington,
Co'a luz que a liberdade
De seu divino rosto escapar deixa,
Qual cometa fatal à tirania.
Oh grande Lafaiete!
Oh portentoso nome! honra da França!
Nome, que no orbe cresce, como em bosques,
Altos, frondosos cedros
Nos alcantis do Líbano se elevam,
E as tormentas, e os raios assoberbam
Contra eles fulminados.
De nós aprenderão os filhos nossos
A repetir teu nome, ainda no berço,
Com inocentes lábios;
Nossos filhos aos seus, estes aos netos
Irão passando intacta esta lembrança;
Como através dos evos
As colossais pirâmides, que emblemas
São da grandeza, e da existência eterna,
Ovantes têm passado.
Mas é grande ardimento! Ave sem canto,
Longe de seu vergel peregrinando,
Em remontado vôo
Querer modular sons, cantar teu nome!
Simpática afeição, mágico impulso
A ti porém me arrasta;
E de prazer o coração no peito
Expande-se a teu nome, qual se expande,
Em perfumado eflúvio,
O doce aroma do ananás gostoso.
E tu, qual prazer sentes, quando tomas
Esse infante em teus braços?
Esse infante gentil, de heróis progênie,
Filho de Zenowiez, hoje sem Pátria
Que um Déspota roubou-lha?
Qual te anima alegria esperançosa,
Quando de Kosciuszko vês o sangue
Girar em suas veias,
E as estranhas nutrir-lhe ainda tenras?
Oh! como é grato levantar nos braços
O filho de um guerreiro,
Que malfadado sim, mas virtuoso,
Sobranceiro se mostra à sorte adversa!
Ah, praza a Deus clemente
Que por ti embalado esse menino,
Por ti n'água lavado do batismo,
Raro exemplo seguindo
De seus nobres maiores, seja um dia
O que foi Kosciuszko, e o que tens sido.
Oh! se o porvir contemplo,
Quem sabe se ainda um dia!... Mas não podem
Humanas mãos romper o véu de trevas,
Com que a Providência
Esconde a mortais olhos o futuro.
Em sibilino arrojo não pretendo
Interpretar mistérios.
Cresça o jovem Emílio sempre ao lado
Do imortal Lafaiete, e aprenda, e saiba
Amar a liberdade.
Paris, janeiro de1834
Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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