Universo da obra
Universo da obra
SÁBADO pela manhã Evaristo Barroca partiu para a capi tal. Ia furar, cavar, politicar. Depois que saíra deputado, andava sempre por lá, farejando. Bem diz o Pinheiro, aquele vai longe. Ao meio-dia Clementina teve um ataque, meteu as unhas na cara do pai, fêz um alarido que atraiu os vizi nhos, bateu com a cabeça nas paredes, gritou, espumou, ficou estatelada na cama. De sorte que no domingo era provável haver poucas pessoas em casa de Adrião.
Como me sentisse inquieto, resolvi distrair-me aprovei tando parte da noite a trabalhar no meu romance. Fui à sala de jantar;
— Ó d. Maria, dê-me uma xícara de café, por favor.
Bebí o café, tranquei-me no quarto, tirei o manuscrito da gaveta:
— Vamos a isto.
E descrevi um cemitério indígena, que havia imaginado no escritório, enquanto Vitorino folheava o caixa.
Desviando-me de pormenores comprometedores, construí uma cerca de troncos, enterrei aqui e ali camucins com es queletos, espetei em estacas um número razoável de caveiras e, prudentemente, dei a descrição por terminada. Julgo que não me afastei muito da verdade. V i coisa parecida quando os trabalhadores da estrada de ferro encontraram no caminho do Tanque uns vasos que rebentaram. Havia dentro ossos esfarelados, cachimbos, pontas de frechas e pedras taUiadas à feição de meia-lua. O meu fito realmente era empregar uma palavra de grande efeito: tibicoara. Se alguém me lesse, pensaria talvez que entendo de tupi, e isto me seria agradável.
Continuei. Suando, escrevi dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, penas de arara, cestos, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de A dnão Teixeira ao pajé: o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados;
para completá-lo, emprestei-lhe as orelhas de padre Atanásio.
Fiz do morubixaba um bicho feroz, pintei-lhe o corpo e enI feitei-o. Mas aqui surgiu uma dúvida: fiquei sem saber se devia amarrar-lhe na cintura o enduapc ou o canitar. Vacilei alguns minutos e afinal mo resolvi a pôr-lhe o enduape na cabeça e o canitar entre parênteses.
— Está muito ocupado, seu Valério?
Abotoei a camisa, vesti um jaquetão e fui abrir:
— Não, d. Maria J osé. Ora essa!
Ela entrou de manso, com uns modos acanliados, acer cou-se da mesa, os olhos baixos.
— Alguma novidade, d. Maria?
— É q u ê ... O senhor poderá tirar-me de um apêrto?
Não falei lá dentro porque tive vergonha. Já lhe devo tantas obrigações. ..
Ora sebo!
Vergonha? E porquê? Não há razão, fiz eu com um sorriso amarelo, esperando o golpe.
Tenho precisão de cento e cinquenta mil-réis. Venho importuná-lo ainda.
Cento e cinquenta mil-réis, d. Maria? Agora é impos sível, e amanhã não se abre o armazém. Só lá para segundaA • ± O-feira.
— Eu queria hoje. É até o mês vindouro.
— Perfeitamente. Mas onde vou buscar? Talvez na segunda-feira... E nem sei se poderei arranjar. Tenho qua renta. Servem-lhe quarenta?
Ela aceitou, com um gesto de resignação desalentada.
Retirei a Bíblia da gaveta e procurei dinheiro entre as páginas do Eclesiastes, que é o meu cofre.
— Muito agradecida, suspirou d. Maria, recebendo as duas notas, meio desapontada. É por pouco tempo.
— Não se preocupe, respondi acompanhando-a. Se não puder pagar, fica aí como adiantamento, não tem dúvida.
Voltei ao trabalho interrompido. Não pagava. Já me devia mais de quinhentos mil-réis, devia também ao dr. Liberato e ao Pinheiro. Nós sabíamos que aquilo era para o italiano, que vive a enganá-la, vai aos bordéis do Pemambuco-Novo, mas não tínhamos coragem de recusar. Tão boa, tão amável! Era pena que tivesse aquela desgraçada ligação com um traste como o Pascoal.
Embrenhei-me novamente nas selvas. Li a última tira e balancei a cabeça, desgostoso. Catei algumas expressões infelizes e introduzi na floresta, batida pelo vento, uma quan tidade considerável de pássaros a cantar, macacos e sagüis c:n dança acrobática pelos ramos, cotias ariscas espreitando à beira da caiçara. Mas isto veio espremido e rebuscado.
Tudo culpa do Pascoal.
De mais a mais a dificuldade era grande, as idéias min guadas recalcitravam, agora que eu ia tentar descrever a impressão produzida no rude espírito da minha gente pelo galeão de d. Pêro Sardinha. Em todo o caso apinhei os índios em alvoroço no centro da ocara, aterrorizados, gritando por Tupã, e afoguei um bando de marujos portugueses. Mas ção os achei bem afogados, nem achei a bulha dos caetés suficientemente desenvolvida.
Com a pena irresoluta, muito tempo contemplei destro ços flutuantes. Eu tinha confiado naquele naufrágio, idea lizara um grande naufrágio cheio de adjectivos enérgicos, e por fim me aparecia um pequenino naufrágio inexpressivo, um naufrágio reles. E curto: dezoito linhas de letra espi chada, com emendas. Pôr no meu livro um navio que se afunda! Tolice. Onde vi eu um galeão? E quem me disse que era galeão? Talvez fôsse uma caravela. Ou um bergantim. Melhor teria feito se houvesse arrumado os caetés no interior do país e deixado a embarcação escangalhar-se como Deus quisesse.
E não sei onde se deu o desastre. . Para os lados de S.
Miguel-de-Campos, ou Coruripe-da-Praia, por aí. Talvez o dr. Liberato soubesse. Levantei-me, bati à porta do quarto dêle. Ninguém. Atravessei o corredor, despertei d. Maria José, que dormitava encostada à mesa da sala de jantar:
— Ó d. Maria, que é do dr. Liberato?
Tinha ido a casa do Mendonça, que era dia de anos de d. Eulália.
— E o Pinheiro? O Pinheiro também foi?
O Pinheiro tamhém tinha ido. Que diabo! Fugirem todos, justamente na ocasião em que eram necessários! Lemhrei-me de padre Atanásio. Dez horas. Bem, devia estar acordado, decidi consultá-lo. Voltei ao quarto, mudei a rou pa e saí, satisfeito por ter achado um pretexto para aban donar aquela estopada.
Na redacção da Semana encontrei o reverendo sentado à banca, só, pregando um botão na batina.
— Ó padre Atanásio, diga-me cá. O senhor conhece Coruripe-da-Praia?
— Conheço. É uma boa cidade. Muito sal, muito co queiro. E então o p o v o ... Você tem algum negócio cm Coruripe-da-Praia ?
Não, é outra coisa, a novela que estou escrevendo, o romance dos índios. Preciso dos baixios de D. Rodrigo. O senhor conhece os baixios de D. Rodrigo?
— Não. Ond© íicâ isso?
— Era o que eu queria saber. Fica por essas bandas, em Coruripe, em S. Miguel, não sei onde. O senhor nunca ouviu falar? Vem na história. Coruripe. . . Julgo que foi em Coruripe que mataram o bispo.
Padre Atanásio soltou a agulha, assombrado, e esbuga lhou os olhos:
— O bispo? que bispo?
O Sardinha, padre Atanásio. Aquêle dos caetés, um sujeito célebre. O d. Pêro. Vem nos livros.
O director da Semuna retomou a agulha, a linha e o botão;
— Ah! sim! Pensei que fôsse o d. Jonas. Ou o d. Santino, Que susto! O d. Pêi’o . . . Nem me lembrava.
Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.