Leia agora
Caetés

Universo da obra

Caetés

Capítulo 13 · Caetés

Capítulo XIII

13 de 31 ≈ 14 min de leitura

NO DIA seguinte o dr. Liberato, que passara a noite em casa do Mesquita, contava-nos, cheio de sono, o estado de Guiomar. Quando findou, depois de empregar uma chusma de tênnos esquiisitos, o Pinheiro, sombrio, rosnou:

— Que tem ela?

No mesmo instante Zacarias chegou, em busca do médico:

— Foi a sinhá que mandou chamar.

— = - É ela que está doente? fiz eu com um arrebatamento que espantou d. Maria José.

— Não senhor. É seu Adrião, que não pôde dormir.

— Porquê? balbuciou o Pinheiro.

Zacarias não soube informar. Devia ser coisa por den tro: por fora não se percebia nada.

— Está aí! gaguejou Isidoro, sucumbido. Vejam que coincidência.

O doutor entrou no quarto e voltou com a bengala, o chapéu, o estetoscópio. Dispus-me a acompanhá-lo:

—' Não vem, Pinheiro?

— Parece que não. Vou tomar um vomitório.

E, tentando apoderar-se do estetoscópio:

— Doutor, tenha a bondade de examinar êste coração.

— Não há pressa. Fica para a volta.

— Está direito. Pois esperem, faço um sacrifício. Ami go é para as necessidades, como diz o Anatole France.

Um minuto depois apareceu, abotoado no jaquetão pre to, o chapéu desabado cobrindo-lhe as orelhas:

— Vamos cumprir êste dever.

Defronte do casarão topámos o Neves, que saía:

— Não há perigo. Mandaram à farmácia buscar remé dios de madrugada. Vim ver. Tudo bem.

— Até logo, exclamou Isidoro. Não precisam de mim.

Volto. Vou daqui direitinho para a cama.

Lá dentro cumprimentei Vitorino, d. Josefa, d. Engrácia, o dr. Castro. Encontrei Luísa à entrada do corredor, com os oUios vermelhos e despenteada.

— Como vai êle?

— Melhor.

E introduziu o médico na alcova, onde Adrião arquejava, recostado a uma pilha de travesseiros. Pela porta entreaber ta distingui sobre a mesa da cabeceira copos, colheres e um crucifixo.

— Então, d. Josefa, como foi isso? perguntei à Teixeira.

— Nem sei, com aquela balbúrdia. Às onze horas ou vimos pancadas, berros. Papai abriu, assustado. Era Zaca rias a gritar que seu Adrião estava morrendo. Imagine co mo nós ficámos. Eu nem pude arranjar-me, saí de chinelos.

E mostrou o pé número trinta e três, coberto de sêda cre me. Fui com a vista acima do pé, naturalmente. O Pinheiro tem razão: é uma linda pema.

— Imagine como eu fiquei, disse o dr. Castro, que se avi zinhara, familiar. Logo pela manhã, antes do banho, uma notícia assim. Que presente!

— Quando chegámos, continuou a Teixeira recolhendo a perna com agrado, Luísa estava numa aflição.

— Ah! Se eu soubesse! atalhou o dr. Castro. Teria vin do passar a noite aqui, oferecer os meus préstimos.

E, a um gesto de agradecimento da moça:

Vinha, não tem que agradecer. Eu sou lá homem para deixar um camarada morrer só? Se não servisse para mais, havia de servir para deitar-lhe a vela na mão. Comi go é isto. Vinha.

— E depois que a senhora chegou, d. Josefa, que horror, hem?

— É verdade. Opressão, tonturas, náusea. A d. Engrácia, quie apareceu por aí (não sei como adivinhou), foi acor dar o vigário, trouxe um crucifixo. O papai em ocasiões de aperto desanima.

— Não somos nada neste mundo, murmurou o dr. Castro.

— É coisa de cuidado, doutor? perguntei ao médico, que saía do quarto.

— Tem ainda um resto de dispnéia, mas creio que não há perigo por enquanto. Se não sobrevierem complicações...

E falou. O dr. Liberato não perde ensejo de gastar pala vreado difícil.

— Posso ir vê-lo?

— Pode. . .

Achei Adrião muito fatigado pelo esforço que havia feito.

No pescoço, onde a pele amarelenta caía em dobras, os ossos avultavam. As pulsações da carótida percebiam-se de longe.

Uma vela acabava de extinguir-se no castiçal, havia um cheiro enjoativo de éter.

Luísa, sentada à heira da cama, passava um lenço pela testa viscosa do marido, que a olhava com ôlho duro, quási irritado.

Então, assim de repente! exclamei. Eu soube agora, pelo Zacarias. Uma surpresa. A d. Josefa esteve contando.

— Uma peste! rugiu o doente. Aqui a acabar-me, sem um diabo que me desse um remédio. De manhã, quando não havia necessidade, a casa encheu-se. Mas no momento cio apuro, ninguém. Bate-se o mundo todo atrás do medico. Es condido, no inferno. Sozinho, homem, sòzinho! Luísa baixou a cabeça, sorrindo com tristeza. Adriao era egoísta: não se lembrara da mulher, do irmão, da sobrinha, que se tinham moído a aturar-lhe os arrancos. — Felizmente de madrugada melhorei um pouco, tive meia hora de madorna. Aí começaram a aparecer intrusos, invadiram o quarto. O farmacêutico... E êsse bacharel de uma figa cpie ninguém conhece.

Interrompeu-se vendo o irmão à porta:

— Vocês ahriram o armazém?

O armazém estava fechado. — Pois deviam ter aberto. Mande chamar os emprega dos, João Valério.

Vitoríno opôs-se. Aconselhei Adrião a que não falasse muito. E afastámo-nos.

— Tudo está óptimo, bradou o dr. Castro quando nos viu. O nosso amigo desta vez ainda vai arriba, entendem?

— Como o acha você? pei'guntou Vitorino arrastando-me para a varanda.

— Nem sei. O doutor não se explica.

— É o diabo! exclamou Vitorino.

E, a um aceno da filha:

— Ainda haverá novidade? As macacoas deste homem não deixam ninguém descansar.

Entrou. Acendi um cigarro. • Lembrei-me dos serões ali decorridos, recentes, mas que, em v u d e das perturbações que eu experimentava desde a véspera, se tomavam remotos e me davam saudade. À luz do dia, a sala era como se fôsse outra. Os quadros pareciam ler descido um pouco nas pare des agora menos altas. Na poltrona de padre Atanásio re pimpava-se o dr. Castro, de braços cruzados, bochechudo, ver melho, feliz e sem testa. — Olhei a rua. À entrada do Pernambuco-Novo um auto móvel parado atravancava a passagem. Uma carroça de lixo, vagarosa, rodava. Ao longe ó arrabalde da Lagoa surgia em miniatura, dois renques de casas de boneca encarapitadas lá no alto.

— A sinhá mandou saber se v. mcê. queria almoçar.

Voltei-me. Era Zacarias.

— Como?

— Mandou chamar para o almoço.

— Muito agradecido, respondi furioso.

E desejei despedir-me secamente de Luísa: “Dê-me as suas ordens”.

Fui à alcova nas pontas dos pés: Adrião dormia. Sen tei-me à porta.

— Venha almoçar, João Valério, disse Vitorino do corre dor.

— Obrigado.

Reflecti com indignação' naquele convite.

O médico e o promotor tinham desaparecido. Meio-dia.

Sim senhor! Mandar o prêto convidar-me! Era, sem contestação, uma ofensa mortal. Pois não tomava a pisar ali. Fôsse tudo para o diabo. Também não me fazia gran de falta deixar de ouvir tocar piano e ver jogar xadrez, que não gosto de música nem de jôgo. Que me importava o xa drez? que me importava o piano?

Do piano resvalei para Marta Vnrejao e para os quinhen tos contos de d. Engrácia. Marta Varejao, muito bem. Não andava ora a mostrar os dentes, ora de carranca. Pois ca sava com ela e havia de ser feliz, em Andaraí, na Tijuca ou em outro bairro dos que vi nos livros. Uma bonita situação.

E o amor de Luísa, se ela me tivesse amor, só me renderia des gostos, sobressaltos, remorsos, trezentos mil-réis por mês e oito por cento nos lucros dos irmãos Teixeira.

O criado prêto! “Diga a seu Valério que venha comer.”

Isto a mim, a mim que era... Procurei alguma coisa que eu fôsse. Não era nada, realmente, mas tinha boa figura e os caetés no segundo capítulo. E vinte e quatro anos, a escritu ração mercantil, a amizade de padre Atanásio, vários elemen tos de êxito.

O Zacarias! Marta Varejão me chamara na véspera com um sorriso. E dissera muitas amabilidades junto a um palá cio veneziano, falara no baile da prefeitura, no Marino Faliero.

— Está dormindo? perguntou-me a Teixeira, que entrou em companhia de Luísa e Vitorino. Porque não quis al moçar?

— Não senhora, estou acordado. E não estou com fome.

— Uma cara de poucos amigos. Que lhe aconteceu?

— A mim? Não aconteceu nada. Nunca me acontece nada. Aqui, matutando.

Ela deu um muxoxo e, brincalhona como uma garota:

— Parece que êste rapaz tem uma aduela de menos.

— Não senhora, é engano. Tenho as aduelas todas.

E acrescentei:

— Julgo que não sou necessário, felizmente. O homem está fora de perigo.

Disse isto com uns modos desconchavados, tomei o cha péu, cumprimentei, saí, cheio de raiva. Ao atravessar o por tão, dei uma topada e esbarrei com o Silvério, que passava.

Cheguei a casa resolvido a insultar alguém. Não insul tei, ou antes insultei mentalmente.

— Os outros já almoçaram, d. Maria José? interroguei entrando na sala de jantar.

— Já. Esperaram meia hora. Como o senhor não veio...

— Está hem, traga-me uns ovos, um pedaço de pão.

Não tenho- apetite. Traga-me logo um pouco de conhaque.

razoável num copo.

— O senhor vai beber isso tudo?

Fiz um movimento sombrio de afirmação;

— Tenho andado com vontade de suicidar-me, d. Maria.

E bebi.

Ela afastou-se rindo, com uma cova no queixo redondo, as mãos nos bolsos do avental. Suportável, apesar de madu ra — quási quarenta anos. O Pascoal não estava mal ser vido. Tão simpática, tão simples, os cabelos muito pretos, os olhos grandes, úmidos... Quando, passados instantes, vol tou com um bife e dois ovos estrelados, ainda ria. Não acre ditava que gente de juízo pensasse em suicídio. O Pinhei ro, homem de juízo, tinha estado tôda a manhã apalpando o coração, com mêdo.

— É verdade, amanheceu cardíaco. Êsse animal ainda está vivo, d. Maria José? gritei com a boca cheia.

— Está. Zangou-se com o doutor, almoçou, tomou um chá de macela e foi jogar bilhar com o Pascoal. O senhor quer mais alguma coisa? acrescentou vendo que eu tinha devo rado o bife, um pão, os ovos e a sobremesa.

— Não senhora. Eu julgava que não estivesse com fo me, e até almocei. Deve ter sido por causa do conhaque.

Notei então que a cólera se havia dissipado. Devia ter sido também efeito do conhaque. Afinal convidar mna pessoa por intermédio de outra não é desfeita. Compreendi que, se Luísa me tornasse a olhar como um dia me olhou jun to à garça displicente, Marta Varejão, com os seus livros fran ceses, suas músicas e suas flores de parafina, ràpidamente se extinguiria.

— Impostora! resmunguei deitando açúcar no café.

Hipócrita! “Festa de muita piedade...”

Com a doença intempestiva de Adrião, tinha-me esque cido do jantar.

Uma estopada. O presidente da junta escolar aprovan do tudo, Clementina e d. Josef a conversando por cima de mim, Evaristo Barroca a mexer política, padre Atanásio aperreado com a instrução, o crime de Manuel Tavares e o homem das células, Miranda Nazaré falando nas barbas de A braão...

Isto me fêz pensar no José de Alencar, que também foi um cidadão excessivamente barbado.

Daí passei para a Iracema, da Iracema para o meu ro mance, que ia naufragando com os restos do bergantim de d. Pêro. Não era mau tentar salvá-lo, agora que, com o ar mazém fechado, eu podia dispor da tarde inteira. Decidi-me antes que o entusiasmo esfriasse.

— A senhora só tinha a xícara de caie que me trouxe ou ainda tem mais, d. Maria?

— Tenho, sim senhor, tenho um bule cheio.

— Um bule? Pois traga-me outra xícara, por obséquio.

Traga o bule cheio. Estou com muita necessidade de tomar café.

Enquanto bebia, esforcei-me por me colocar na situação de um sujeito que vai escrever uma obra de valor.

— A senhora conhece Coruripe-da-Praia, d. Maria José?

D. Maria José não conhecia.

Entrei no quarto, abri a janela que deita para a rua, ti rei o manuscrito da gaveta. A dificuldade era apanhar os portugueses que tinham escapado ao naufrágio, amarrá-los, le vá-los para a taba e preparar um banquete de carne humana.

Trabalhei danadamente, e o resultado foi medíocre. Sou in capaz de saber o que se passa na alma de um antropófago.

De indivíduos das minhas relações o que tem parecença mo ral com antropófago é o Miranda, mas o Miranda é inteligen te, não serve para caeté. Conheço também Pedro Antônio e Balbino, índios. Moram aqui ao pé da cidade, na Cafurna, onde houve aldeia dêles. São dois pobres degenerados, be bem como raposas e não comem gente. O que me convinha eram canibais autênticos, e disso já não há. Dos chucurus não resta vestígio; os da Lagoa espalharam-se, misturaram-se.

Em falta de melhor, aproveitei os últimos remanescen tes dos brutos da Cafurna, tirei-lhes os farrapos com que se co brem, embeb edei-os, besuntei-os à pressa, agucei-lhes os dentes incisivos. Matei alguns brancos, pendurei-os em galhos de ár vores e esfolei-os, com a ajuda do Balbino. Depois entreguei-

-os às velhas, entre as quais meti a d. Engrácia, nua e medo nha, tôda listrada de prêto, os seios bambos, os cabelos em desordem, suja e de pés de pato. .

De repente levantei-me, fui à sala de jantar, chamei:

— Ó d. Maria José, faça o favor. A senhora sabe como se prepara uma buchada?

Ela veio, paciente, enxugando os dedos no avental:

— Sei. O senhor quer comer buchada?

— Não. Isso é comida de selvagem. Os çaetés. De pois lhe conto.

— Mas que interesse...

— É história comprida. Preciso saber como se cozinha um homem, Como é, d. Maria? •

— Um homem? Está aí! Foi o conhaque.

E voltou-me as costas. — Espere lá, criatura. Quem lhe falou em homem?

Um bode, é claro, um carneiro. Tira-se o couro do bicho, es quarteja-se. Até aí eu sei. Como é o resto?

— Lava-se tudo muito bem lavado, começou a hospedeira desconfiada.

— Exactamente, numa gamela, já ouvi dizer. E viram-se as tripas pelo avesso com uma vara, também já ouvi dizer.

Mas os caetés não tinham higiene.

— Como?

— Uma observação à-toa. Continue.

— É só, está pronto.

— Pronto o quê, d. Maria? A senhora não está vendo que ninguém vai comer aquilo cru?

Ela forneceu-me algumas noçÕes,_que reputei preciosas.

Muito obrigado, d. Maria José. Vou preparar o Sar dinha pela sua receita e misturo tudo com pirão de farinha de mandioca. Fica uma porcaria.

— O senhor não quer tomar uma xícara de café sem açúcar?

Eu? Pensa que estou bêhedo? Estou no meu tino perfeito. A propósito, que horas são?

— Cinco. Os outros não devem tardar.

— Cinco? Será possível? Ora veja. A arte é coisa ad mirável. Com a preocupação de arranjar o jantar dos índios, esqueci o meu jantar. Pois êles que esperem, não comem hoje. E traga-me o conhaque. Deus lhe pague, d. Maria.

A senhora acaba de prestar um grande serviço à pátria.

XIV «

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Caetés

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Caetés

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Caetés

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Caetés Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 13 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Caetés

Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir