Leia agora
Caetés

Universo da obra

Caetés

Capítulo 25 · Caetés

Capítulo XXV

25 de 31 ≈ 9 min de leitura

O SILVÉRIO, baixinho, cabeçudo, escovou o pano ver de, limpou a tabela, trouxe as bolas e giz.

— Partida em cinquenta pontos? perguntou o italiano.

— Em cem, disse Isidoro arregaçando as mangas da camisa. Saio eu?

Jogou, saltou-lhe a cabeça do taco.

— Ora. . .

Não conteve uma praga obscena.

— Ó Silvério, porque é que não há aqui um diabo que preste? Está tudo rachado e torto.

Escolheu o taco que lhe pareceu menos ruim. Depois tomou o giz e examinou a qualidade;

— Sim senhor, boa marca. Também é só o que se apro veita neste bilhar, o giz. E o dono, que não é mau. Você quer acabar de uma tacada? Passou? Muito bem. Faça êsse recuo, çarcamajio de uma figa.

i i . ’.

J lí! I 'jí.fííí w § m .P Marquei os pontos. E ia admirar o jôgo do italiano, o mais forte de nós três, quando o dr. Castro entrou por uma porta e Nicolau Varejão por outra.

— Seja bem aparecido, seu Varejão, gritou Pascoal.

Começámos agora. Quer jogar?

— Obrigado, respondeu Nicolau Varejão. Já deixei isso.

Antigamente, quando tinha a mão firme e a vista perfeita, não senhor, até carambolava. Naquele tempo havia muito bons jogadores. Eu conheci um hom em .. .

— Sessão de júri amanhã, doutor? inquiriu o italiano.

— Se houver casa. Só faltam dois processos.

— Uma desgraça essa história de júri, gemeu Silvério.

Um dia inteiro sem comer. Ontem fui almoçar às sete da noite.

— Pois foi muito bem feito, afirmei com um bocejo.

Era melhor que ainda estivesse jejuando. Os senhores absol veram Manuel Tavares. Que é que ia dizendo, seu Varejão?

Conheceu um homem.. .

— Levado da breca, jogava um mês sem parar. Cami nhava tanto que o chão se cavava e a tabela batia-lhe no queixo.

— Admirável! exclamou Isidoro. Que diabo tem esta luz que está tremendo tanto? Continue, seu Varejão.

E perdeu uma série bem principiada.

—■ Quantas carambolas fazia o homem? perguntou Pascoal.

— Todas, respondeu Nicolau Varejão. Três, quatrO;

cinco, mil, tudo. Quem sabe onde tem as ventas não acaba nunca.

Jogámos algum tempo em silêncio.

— Noventa e nove, gritou o Pinheiro. Estão fritos.

Procurou posição para um giro difícil, trepou-se na ta bela e, quási de gatinhas, conseguiu carambolar.

— Cem, com todos os diabos! berrou saltando no chão.

Eu bem tinlia prometido ensinar êstes pexotes.

— Continuamos nós? perguntou o italiano.

— Não vale a pena, respondi. Seu Silvério, o tempo.

E, recolhendo o troco:

— Sempre os senhores puseram na rua o Manuel Tava res, hem?

— Eu não! exclamou o dr. Castro. Foi o júri.

— Manuel Tavares, um caso triste, atalhou Isidoro. Um infelizy coitado. Afinal de contas.,, Ó Silvério, mude a f iç m água desta bacia. Como é que a gente lava as mãos nesta imimdície?

— Um caso triste, sem dúvida. Mas o jú r i... o júri é soberano, explicou o dr. Castro. Foi o júri.

— O júri? estranhei. O senhor também. Está visto. O senhor apelou?

— Não, não apelei, disse o promotor. Não apelei por que o juiz de direito, os jurados. . . O senhor compreende.

E um crime como aquele.. . Enfim não apelei.

— E então? Foi o senhor. Manuel Tavares, um assas sino, um handido da pior espécie!

Vendo-me um pouco exaltado, Isidoro segredou-me:

— Deixe lá, homem. Que é isso?

— Mas não é verdade. Pinheiro. Não foram os jurados, foi o promotor. Os jurados absolveram, mas quem soltou Ma nuel Tavares foi aqui o doutor, que se esqueceu de apelar.

Foi ou não foi?

— Eu entendo de júri? resmungou Isidoro. O que sei é que vou para casa, tomar um suadouro, que estou cons tipado.

— Não quer dizer. Pois é claro. Um criminoso que matou um hóspede adormecido... E para roubar!

— Estava no meu direito, urrou o promotor. Não preciso que ninguém me dê lições.

— Livre, sem apelação, continuei. Que diz você, Pascoal?

O italiano pôs-se a assobiar baixinho. Eu andava indi gnado com as perfídias de Nazaré, e não podendo vingar-

-me dêle, mais de uma vez me havia tomado agressivo con tra o dr. Castro, que se defendia mal.

O Silvério sorria constrangido. Isidoro, da porta, chamou-me:

— Vamos embora.

Ia retirar-me, convencido de que o promotor era um grande canalha, quando Nicolau simulou uma tentativa de pacificação, inteiramente inoportuna:

— Não se afobem, meus amigos. Contenham-se. Um fusuê a esta hora, as portas abertas, gente na rua! Não bri guem. Amanhã sabem. . .

— Quem é que está brigando, seu Varejão? retorqui com mau modo.

— É que os senhores conversam aos gritos. E o Neves passou aí em frente, parou acolá na esquina. Quando anda rem fuxicando não vão pensar que fui eu. — E O senhor julga que eu me importo eom o Neves?

Não me importo, não tenho mêdo dêle. Nem dêle nem de ninguém, bradei eom falsa coragem, porque todos aqui te mem o Neves.

— Exactamente o que eu ia dizer, declarou o dr. Castro.

Não tenho mêdo de ninguém. Nem do Neves nem de nin guém. De ninguém! Tenho a minha consciência. Era o ' que eu ia dizer. A minha consciência. E sou hacharel.

— Ah! é hacharel? Meus parabéns.

E olhei-o com escárnio por cima do ombro do Pascoal, que se meteu de permeio. Aparentando calma, comecei a escovar a gola do paletó, esforçando-me por ter firmes os dedos, que tremiam ligeiramente.

— João Valério, gritou Isidoro com raiva, você vem ou fica?

— Já vou. Pinheiro. Foi você que perguntou ao dr.

Castro se êle era bacharel? Eu não fui. Foi você, Pascoal?

Foi o senhor, seu Varejão? Também não foi. Está aí.

O dr. Castro deu dois passos, apoiou a mão gorda na tabela do bilhar:

— Senhor Valério!

— É discurso?

— Com mil diabos! exclamou Isidoro.

— ? Não senhor, gaguejou o promotor, roxo. Não sou nenhum tolo, está ouvindo? E não tenho mêdo de ninguém, compreende? Nem do senhor, nem do Neves, nem de nin guém. Não sou nenhum tolo.

— O senhor já disse.

— Já. Era o que eu queria dizer. E a minha consciên cia é limpa.

— Qual consciência! Soltou Manuel Tavares porque lhe mandaram que não apelasse. Ora consciência!

Consciência, sim senhor. Consciência. E não admi to. Sou amigo de todos, não gosto de questões, mas não admito. Nas atribuições inerentes ao meu cargo... É isto mesmo, está certo. Tenho integridade, não vergo, tenho. . .

tenho integridade.

— Bonito! Recebeu ordem ...

— Não recebo ordens, não me submeto. Firme, enten de como é? Escravo da lei, fique sabendo. Comigo é eiu cima do direito, percebe? Desde pequeno. A minha vida é clara.. Cabeça levantada, com desassombro, na trilha do dever, ali na linha recta, compreende? Ora muito hemj.

Não ando seduzindo mulheres casada s...

, — Como?

— É isto mesmo. Não vivo com saltos de pulga, nin guém encontra em mim rabo de palha. Amigo de todos, mas com seriedade, sem maroteiras.

— E quais são os saltos de pulga? Quais são as maro teiras que um pulha da sua laia descobriu. . .

— João Valério! bradou Isidoro intervindo.

— Tenha paciência. Pinheiro, isto vai longe.

E afastei o Silvério, que suplicava:

— Aqui não, meus senhores. Vou fechar as portas. Em minha casa não. Se vier a p olícia... O promotor metido num rôlo!

— Pelo amor de Deus! balbuciou Nicolau Varejão. É um mal-entendido. Eu explico. Calma! No tempo da mo narquia . . . Ouçam, é uma história interessante.

Empurrei brutalmente o Pascoal:

— Deixe-me, com os diabos! Eu sou alguma criança? O que eu quero é que êste idiota me diga. . .

— Idiota é sua mãe.

— . . . quais são as maroteiras minhas que êle conhece.

— As que todo o mundo sabe. Safadezas com a mu lher do outro. Passeios na Lagoa, no Tanque... E o pobre do Adrião sem desconfiar.

Com um pulo, desprendi-me das mãos do italiano e agarrei um taco, resolvido a quebrá-lo na cabeça do promotor:

— Repita isso, canalha. Repita, seu filho de uma...

Não acabei o insulto. Isidoro segurou o braço do ba charel e cochichou:

— Não repita, doutor, não repita. Porque se repetir, quem lhe parte a cara sou eu, palavra de honra. Aconteça o que acontecer, juro por todos os santos que lhe quebro as costelas. E não tome a aparecer lá. Sou amigo da casa e hei-de achar meio... Não apareça. O senhor é um calu niador. Vamos embora, seu Valério.

— Puxa! fêz o Pascoal depois de andarmos algum tem po na rua. Que falta de ordem! Um baruUio sem motivo.

Isidoro parou e pediu-me fósforo.

— Foi tolice, concordou. Que querem vocês? Eu pre cisava desabafar com aquêle isujeito.

portou-se mal com a Clementina. Parece que desmancha o casamento,.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Caetés

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Caetés

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Caetés

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Caetés Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 25 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Caetés

Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir