Universo da obra
Universo da obra
ESTALARAM foguetes na rua, à passagem da procissão.
Soltei o livro, agarrei o chapéu e cheguei à calçada no momento em que desfilavam dois renques de velhos tristes, de opas, conduzindo tocheiros sem velas.
— Vai acompanhar, Pascoal? Você sabe o que há na igreja?
— Sermão. Sermão e tedéu. Sim, acompanho.
Vinham devagar, em filas, as crianças do catecismo, com fitinhas amarelo-verdes. Depois, duas alas de mulheres, e entre as alas uma cambulhada de anjos, rubicundos, frisados, com asas de arame e gaze. Em seguida, o estandarte das filhas de Maria, dois cordões de aspirantes e veteranas. Atrás, o andor do Coração de Jesus, beatas de beiço mole, caducas, d. Engrácia, a Teixeira velha. Casimira, outras criaturas he diondas e sem sexo, de roupas pretas e escapulários como nódoas de sangue. E três figuras simbólicas, as virtudes ex celentes.
— Você conhece aquela Caridade, Pascoal? A de lá.
— Não conheço, deve ser de fora. E é bonita.
—> Bonita? Com os diabos! _ É uma linda Caridade.
Calámo-nos. Padre Atanásio passava, de paramentos brilhantes, ladeado por dois eclesiásticos mal-encarados, sob Íiii’ f ■ i : f O pálio que serravam o juiz substituto, o dr. Castro, Fortunato Mesquita e o Monteiro.
— Venha para cá, seu Valério, desentoque-se, disse Men donça filho, deixando a multidão desordenada que rematava o cortejo. Isto aqui está bom.
Hesitei, com a tentação de namorar a Caridade. Encolhi os ombros:
— Vou esperar na igreja.
Dirigi-me à praça, olhando com simulada indiferença as famílias que vinham a distância. Quando Luísa passou, em companhia do marido, voltei o rosto e, para ocultar a minha perturbação, consolei um pequenino Jesus de três palmos, que chorava, perdido e amuado, com uma alpercata de menos, o resplendor caído para a nuca, as chagas das mãos diluídas em lágrimas.
Subi o Quadro, onde só havia duas ou três barracas, es curas, de palha crestada. Panos vistosos nas janelas, flores e folhas juncando o chão. No convento de d. Engrácia, col chas ricas.
Para afugentar as idéias dolorosas que a presença de Luísa me trouxera, pensei na Caridade.
As lojas de fazenda, as harhearias, as farmácias, o Bacurau, tudo fechado.
Defronte do bilhar encontrai Nazaré, que descia.
— O Evaristo vai para cima, hem?
— O Evaristo? Ignoro, respondi. De que se trata?
— Secretário do iníerior. Creio que vão fazer dêle se cretário.
— Secretário? Não sei. Quem lhe contou?
— Os factos. Você não lê a Gazeta? Está-me palpitando que o Evaristo entra na secretaria.
— Um sujeito que se meteu em política há um ano!
— Não senhor. Meteu-se nela desde que lhe nasceram 03 dentes. É o chefe local que mais trabalha. Veja como êsse velhaco organizou isto. E aqui para nós, a telegrafista me mostrou um telegrama em segrêdo. Peguei umas coisas por alto. Aquilo trepa, e se não fôr para a secretaria, dão-
-Ihe outro lugar bom, que é de elementos assim que o govêrno precisa.
— Safadezas! muimurei despeitado, porque não possuo o talento de Evaristo. Que sorte!
— Conversa! Que é que falta a êle?
Mordeu os beiços, contrafeito, esboçou um sorriso cheio de fel:
— Tem tudo. É bacharel, faz discursos, veste-se bem e sabe furar. Tem tudo. Recebeu um billiete de participação que lhe mandei ontem?
Era o casamento da filha, e eu não havia felicitado o velho. Desazado.
— Perfeiíamente. Distraí-me, por causa do Barroca. Nem dei parabéns. Desculpe. Quando é isso?
— Até Junho. Eu sou pelo sistema antigo. Quem tiver de se juntar junte-se logo, vá noivar na casa do diabo: às minhas barbas não. Você viu por aí o Neves?
Eu não tinha visto o Neves.
— Pois eu vou procurar o Neves. Au revoir.
Encaminhei-me à igreja. Ao galgar os degraus, onde mendigos esperavam o regresso da procissão, vi subirem fo guetes no Pinga-Fogo.
Encostei-me à grade de ferro que circunda a calçada.
Montes à esquerda, próximos, verdes; montes à direita, longe, azuis; montes ao fundo, muito longe, brancos, quási invisíveis, para as bandas do S. Francisco. Acendi um ci garro. E imaginei com desalento que havia em mim alguma coisa daquela paisagem: uma extensa planície que monta nhas circulam. Voam-me desejos por tôda a parte, e caem, voam outros, tornam a cair, sem força para transpor não sei que barreiras. Ânsias que me devoram facilmente se exau rem em caminhadas curtas por esta campina rasa que é a minha vida.
Os telhados da cidade estendiam-se em baixo; um cata-
-vento gesticulava no quintal do Cesário; a casa de Vitorino, distante, avultava, pesada e feia. Seis horas. O arrabalde da Lagoa repousava entre moitas, miüdinho, como uma pin tura de teatro. Para outro lado derramava-se o Chucuru, triste e sêco, de areia e pedra. E o Tanque, uma série de pomares entre morros. Ficam lá os sítios do Barroca, terra esplêndida. Cultura de café, gado selecto, que ladrão! Aque le, sim, anda sem se deter e alcança tudo com facilidade.
Vence os embaraços, corta-os, e o que vai encontrando serve-
-Ihe de meio para avançar. Que bandido!
Agora 03 foguetes estouravam no Melão. Os sinos repicaram. Bandos apressados desembocaram das ruas vizinhas e invadiram a igreja, em busca dos melhores lugares. Xavier filho aproximou-se de mim e pediu uma informação. Dei-a e voltei-me para cumprimentar d. Eulália Mendonça.
A procissão recolhia. Em poucos instantes a igreja re gurgitou. À passagem de Luísa, afectei olhar a palmeira solitária da Lagoa, o arvoredo que se cobria de sombras. Era quási noite. Cheguei-me à porta. Dentro irromperam cânticos. A imagem de Nossa Senhora do Amparo, entre velas aeesas, mostrava o seu rostinho espremido e de choro. Na multidão que enchia a nave sobressaíam as vestes das irman dades religiosas. Um padre gordo subiu ao púlpito e come çou a falar, mas do ponto em que me achava apenas ouvi, de mistura com o rumor da calçada, vagos chavões sobre o amor celeste e o amor mundano.
Voltei a debruçar-me à grade. Surgiram luzes. Além da campina, mancha pardacenta, as serras tornaram-se massas negras. Nos morros à direita esmorecia um resto de sol. Lá em cima tremelicaram estrelas espalhadas. O vozeirão do orador continuava a atroar.
— O senhor estava aí? perguntei ao Miranda, que saía.
Já se vai embora?
— Já, respondeu o tabelião com um bocejo. Não su porto mais as bobagens daquele tipo.
— Que diz êlé?
■ — Tudo: a virgindade de Maria, S. Vicente de Paulo, a constituição brasileira e as abóbadas do infinito. Miserável.
O infinito com abóbadas! Que jumento!
Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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