Universo da obra
Universo da obra
PREZADO AMIGO:
Não tenho ânimo de assinar esta carta nem de escrevê-
-la com a minha letra. Venho participar-lhe um ingente in fortúnio. Prepare-se para receber a notícia mais infausta que um homem de brio pode receber.
Saberá que servem de assunto a boateiros desocupados as relações pecaminosas que existem entre sua esposa e o guarda-livros da firma Teixeira & Irmão. Envidei sumos esforços para reprimir comentários desabonadores. Inutil mente. O indigno auxiliar do estabelecimento que o amigo dirige, com muita competência, esqueceu benefícios inesti máveis e, mordendo a mão caridosa que o protegeu, acção negra, condenada em estrofes imortais pelo nosso impera dor, ousou levantar olhos impudicos para aquela que sem pre reputámos um modêlo de virtudes.
E os sentimentos libidinosos do celerado foram bem acolhidos. Alguém viu êsse ingrato passeando com a amante pelos arrabaldes, na aprazível companhia de uma respeitável matrona e duas gentis meninas, ignorantes das maldades que pululam neste mundo de provações. Também se julga com fundamento que o nefando par esteve uma tarde no Tanque, à sombra frondosa das mangueiras, como diz o poeta.
Enfim, meu caro, o seu nome está sendo atassalhado, vilmente atassalhado em todos os recantos da urbe.
Há poucos dias, num bilhar, o sedutor teve discussão acalorada com o digno órgão da justiça pública. Foram quási às vias de facto, e no decurso da contenda surgiram referências prejudiciais à honra de sua excelentíssima con sorte.
Penalizado em extremo, trago-lhe estas informações la mentáveis. Peça ao Divino Mestre coragem e resignação.
Sou um dos seus amigos mais sinceros.”
Deixei cair a fôlha dactilografada sobre o diário. Depois senti nojo. Afastei-a com as pontas dos dedos e abri o razão.
Creio que não pensava em nada. Ou talvez pensasse em tudo, mas era como se não pensasse em nada. Pus-me a tremer com violência e a bater os dentes. Percebi que aquela atitude me condenava e esforcei-me por cerrar os queixos e dominar os músculos, o que não consegui.
— João Valério, gemeu Adrião, peço-lhe que me diga com franqueza.. .
Esfreguei os olhos para afugentar uma nuvem escura que flutuava entre mim e o livro aberto.
— A verdade, João Valério.
Atentei no velho com espanto: tinha-me esquecido da presença dêle.
— A verdade. . .
E lembrei-me de Nicolau Varejão, do dr. Liberato e do Miranda.
— Sim, João. Leu o papel.
— Que papel?
Meti os dedos pelos cabelos, sacudi-me para vencer um entorpecimento que se apoderava de mim. Adrião Teixeira avançou a mão- e levou uma eternidade a apanhar a carta, que me entregou pela segunda vez. Reli aquela imundície e compreendi que era trabalho do farmacêutico. Estabeleci alomma ordem nas minhas idéias e contive os nervos. Afinal Adrião não tinha visto nada.
— Então, Valério, não responde?
— Responder. . . Ora está aí. De duas uma: ou o se nhor não acredita, e neste caso. . .
Olhei, por cima das grades do escritório, as pipas de aguardente e os sacos de açúcar.
— Ninguém. Foram jantar. Continue, fêz Adrião. E deixemo-nos de palavrórios difíceis, que não gosto dêles. É verdade ou mentira?
— Mentira, naturalmente.
Depois de longo silêncio, Adrião falou desalentado:
— Sou uma besta. Não vai confessar, é claro. M as...
nem sei. Desde ontem esta miséria! Não dormi.
Acendeu um charuto, sentou-se, pesado, junto à maquina de escrever.
— Vamos, João, exclamou. Eu preciso tomar uma pro vidência, uma providência razoável. Desquite, separação decente.
— Não há nada, assegurei fechando os livros. Era o que eu ia dizer há pouco. Se o senhor não der crédito a esta infâmia, pode dispensar a minha resposta; se der, ainda que eu jure mil vezes. . .
—■ E você é capaz de jurar, homem?
— Com certeza. — — Ah! gimi murmurou o infeliz. Não crê em Deus.
JX ão crê em nada. Ninguém crê em nada. E pensar que o tive em conta de filho! pensar q u ê ... Vão-se embora.
Interrompeu.se para falar a Vitorino e aos empregados, que entravam; °
— Fechem, podem retirar-se. Cinco horas? Bem, dei xem uma porta aberta. E você, m ano... Fechem isso! Por quem esperam?
Quando eles saíram, soltou o charuto apagado, cruzou as pernas e pos-se a bater com o calcanhar no tablado do escritorio. De repente levantou-se, agitou os punhos:
. . .julguei amigo seis anos! É duro! E tinha inteira confiança. Podia imaginar tudo neste mundo, tudo, n o s isto. Ainda ontem descansado, longe de sonhar...
uclenaa-se.
Por amor de Luísa, menti descaradamente:
- - Defender-me? E de quê? Eu tenho lá de que me defender. Uma carta anônima. Isto vale nada!
E a sua cara! Você nem sabe mentir.
E suposição. Não tem fundamento. Que foi que o senhor viu? Notou alguma transformação em sua casa?
Nao notou. E então! Quer à fina fôrça que eu confirme esse disparate que o Neves inventou, o Neves, um sujeito conhecido.
— O Neves?
— Nao foi outro. Não há aqui ninguém capaz de se melhante patifaria. O Divino Mestre, leia. É êle, não tem duvida. E o mundo de prov*ações, veja. Não foi senão êle.
— E exacto, ciciou Adrião. Deve ter sido êle. Um malandro. Mas o caso é êste: andam atássalhando o meu nome por todos os recantos não sei de quê, pelos bilhares.
E o culpado é você.
Não tenho nada com isso? É um absurdo, uma acusação injusta, sem prova. Não me defendo. De quê?
E cruzei os braços. Adrião encarou-me; possível que você esteja inocente. Se estiver, perdoe-me. E é possível que seja um traste. De qualquer maneira compreende que não pode ficar nesta casa.
— Compreendo.
— É necessário sair logo.
— Perfeitamente.
Vamos então balancear isto. E faça-me um favor.
Promete?
Prometo, respondi sem reflectir.
— Pois bem. Eu sei que você recebeu uma proposta do Mendonça. Aceite agora a proposta. Amanhã liquida aqui os seus negócios e coloca-se lá. Depois de um mês, deixa o Mendonça e vai para o Recife ou para a Baía. .Acho conve niente não mudar-se logo, para não dar nas vistas. O Men d o n ça ... você entende... melhor ordenado... um pretexto.
Fale com êle. Estamos de acordo? O mês vindouro, como ficou resolvido, para a Baía. Leva uma carta de recomen dação.
—■ Muito obrigado. Estamos de acordo, mas não aceito a recomendação. Vou para o Rio.
— É bom. E amanhã o balanço.
— Até amanhã.
Saí. Entrei no estabelecimento do Mendonça; Men donça não estava. E Mendonça filho? Também não estava, fôra passar uma procuração no cartório do Miranda.
Corri em busca de Isidoro, queria confiar-lhe tudo.
— Ó d. Maria, chame o Pinheiro, gritei da porta.
Tinha ido a casa do Miranda. Respirei com alívio, por que de súbito me havia aparecido um grande acanhamento de contar aquela desgraça.
Desci a rua dos Italianos e estive de longe olhando o jardim, a varanda do casarão. Senti um nó na garganta, engoli um soluço e dirigi-me à rua de Baixo, como. se fôsse tratar de algum negócio urgente. Não ia tratar de coisa nenhuma, mas precisava agitar-me, andar depressa.
Ao passar pela rua Floriano Peixoto, achei conveniente embriagar-me: subi ao Quadro, fui ao Bacurau e pedi co nhaque. Bebi um cálice, pedi outro, bebi, pedi o terceiro.
Acendi um cigarro e esperei o efeito do álcool. As minhas idéias tornaram-se mais lúcidas; o que senti foi um apêrto no coração e desejo de chorar. Bebi o último cálice, levan tei-me e enfiei pela rua de Cima. . . .
Adiantei-me até o Melão. Noite fechada. Recuei, decidi do a procurar padre Atanásio, distrair-me conversando com êle. Dei uma caminhada ao Chucuru.
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Não se via quem falava, porque a escuridão era grande.
Nem se ouviam os passos: o vulto movia-se como uma som bra. Mas pela voz, muito suave, reconheci o caboclo. Que andaria êle fazendo por ali àquela hora? Talvez procurando recurso para me pagar quinze mil-réis que lhe mandei quando esteve prêso. Pagava. Mata para roubar, mas não deve dinheiro a ninguém.
— Boa noite, Manuel Tavares. Passeando?
— Sim e não. Sim porque gosto de eaminhar; não porque estou de serviço. Vou levar um oííeio a Quebrangulo Kecordei o corpo de gigante, as mãos enormes, os olhos miúdos, o rosto duro, a barba emaranliada, tudo a contras tar com a doçura da voz.
— Do promotor, o ofício?
— Não senhor, do doutor delegado. Eu agora estou ajudando o destacamento.
— Ah! Você é soldado?
— Sou e não sou. Soldado, òpriamente, não sou. Pra fazer sentinela não sou. Mas quando há diligência, trabalho do cão, e os macacos do govêmo amimhecam, sou.
— Pois é um bom emprêgo, Manuel Tavares. Continue.
Às nove horas entrei na redacção da Semana. Padre Atanásio, debruçado sôbre a mesa, dormia profundamente, o rosto escondido nos braços. Respirava com ruído e tinha roxas as orelhas enormes. Sentei-me à banca que foi minha, lá desocupada desde Janeiro. Obedecendo a um velho há bito, abri a gaveta e tirei um maço de aparas de papel.
— Por aqui, seu Valério? exclamou o sargento chegan do à porta da tipografia. Pensei que nos tivesse deixado.
É uma ingratidão. O seu Pinheiro é que não falha, pontual, fiime nas Sociais. Quer que acorde o patrão?
Fiz um gesto negativo com a cabeça.
— Sabe se o dr. Castro está na cidade, sargento? per guntei bruscamente, levantando-me.
— Não sei. Êle também aparece aqui às vezes. Até escreveu uma poesia. O senhor leu? Uma história de luar e de sapos. Saiu no fim da quarta página. O reverendo meteu dois versos que faltavam, mas seu Miranda diz que está tudo quebrado. Brigaram. Julgo que o casamento gorou. O senhor não traz nada?
— Não trago nada, sargento. E isso é exacto, a briga dêles? Adeus.
Que azar de Clementina! Sempre os casamentos que dão em ossos de minhoca! Melhor para ela. Antes continuar arranhando, que um marido como aquilo não presta. E me lhor para mim: ia procurar o Pinheiro, o que não faria se receasse encontrar o bacharel.
Ao passar pela casa do Miranda, vi Clementina à janela:
— O Pinheiro está aí, d. Clementina?
— Está, sim senhor. Fizeram um jogo lá dentro, por causa do dr. Barroca, que chegou hoje. ,
— A senhora faz o obséquio de pedir a êle que venha até aqiui?
— Ao dr. Barroca?
— Não senhora, ao Pinheiro.
— Pois não. Porque não entra? Estão na sala de jantar, o Valentim Mendonça também. Entre.
— Ah! O Mendonça está aí?
Acompanhei-a. Diante da mesa de jôgo falei duas vezes antes que os parceiros me respondessem: tinham os ollios em chamas e puxavam as cartas uma a uma, lentamente. Finda a partida, Evaristo Barroca estendeu-me a mão com aquele modo de superioridade protectora, que lhe fica bem e que abomino.
— Ó Pinheiro, dá-me aqui fora uma palavra? É um instante.
— Impossível, meu filho, inteiramente impossível.
Ocupadíssimo. O poker é uma grande instituição. Faça uma perna.
Detesto as cartas, mas naquela ocasião julguei que elas me seriam úteis. Se o Teixeira soubesse que eu tinha estado a jogar, talvez se imaginasse injusto.
— O senhor entra? perguntou Evaristo baralhando.
— Entrada de quanto?
— Cem mil-réis, disse o tabelião entregando-me as fichas.
Paguei e sentei-me:
— Cinco mil-réis?
— Cinco, respondeu Evaristo. O senhor joga? Pois eu sou forçado a reabrir. Quer cartas?
— Duas. ,i Evaristo Barroca soltou o baralho:
— Fala o senhor.
— Mesa.
E pensei nas amarguras que me iam aparecer no dia seguinte. O que eu devia fazer era esperar o Neves à saída da sessão de espiritismo e dar-lhe uma sova. Era o que eu devia fazer, mas sou um indivíduo fraco, desgraçadamente.
— Para iniciar aposto apenas uma, disse Evaristo com aquela voz sossegada, aquele olhar tranquilo que nunca mos tra o que êle tem por dentro.
— Vejo, doutor.
E atirei a ficha.
— Que tem o senhor? perguntou êle.
Mostrei uma trinca de damas.
— Ganha.
E franziu os beiços delgados.
— Homem, essa agora! exclamou Valentim Mendonça.
O doutor estava feito. Como foi que o senhor conheceu que aquilo era bluff? O doutor não pediu.
Abandonei um par de ases:
— Preciso falar com o senhor hoje ou amanhã cedo, seu Mendonça. Com o senhor e com seu pai. Èle está aí?
Mendonça filho levantou o queixo quadrado e propôs que fôssemos procurar Mendonça pai. Se era assunto de interesse, devíamos ir logo.
— Como! bradou o Pinheiro. Negócio a esta hora?
É uma indignidade. Outro Huff, doutor? Muito bem. O bluff é uma grande instituição. Dê cartas, Mendonça, que diabo! Você está namorando com o Valério?
Arriscou uma reabertura com trinca branca e atacou o Miranda, que tinha sequência:
— É possível? Você pede duas e faz sequência? E máxi ma? Abra os dedos, criatura, isso assim na mão ninguém vê.
Confiança, naturalmente, todos nós somos de confiança, mas jôgo é na mesa, e tenho visto muita sequência errada.
Joguei duas horas, distraído.
O que eu queria era saber por que razão não me vinha o ânimo de esbofetear o Neves uma tarde, à porta da farmácia.
No bilhar do Silvério levantei o taco para rachar a cabeça do dr. Castro. E arreceava-me de molestar o Neves. Porque se rá que aquêle velhaco me faz mêdo?
— Joga?
— Jogo, respondi separando três reis.
Evaristo reabriu.
— Outra reabertura, doutor? Santa Maria! o senhor le va o dinheiro todo, reclamou Valentim Mendonça.
Tirei um rei. Evaristo e Mendonça não quiseram cartas.
Já que me faltava coragem, não seria mau dar cinquenta mil-réis a Manuel Tavares e mandar que êle desancasse o boticário, no Chucuru, que é quási deserto.
— Fala você, João Valério, resmungou o tabelião.
Assim, não se acaba isto.
— Aposto duas.
— Duas e mais quatro, disse Evaristo.
Mendonça fugiu. ■
— Vem ver? perguntou o Barroca.
— Não senhor, reaposto. Mais quatro. ' ]E deitei na salva as pito fichas que me restavaiq.
— Vamos então com mais oito, gracejou Evaristo. E desta vez estou forte, pode crer. — Ainda reaposta, doutor? Vejo. Dê-me aí oito fichas.
Pinheiro. Vejo com um four de reis.
— Perde, fêz Evaristo calmamente.
E mostrou um four de ases. Levantei-me.
— Safa! exclamou Valentim Mendonça. Já é ser caipora. Onde estava eu metido! Deixa? Também vou. Os senhores continuam?
E c o n t o u a s s u a s f i c h a s , a p r e s s a d o , e n t r e g o u - a s a J N a z a r e p a r a r e c o lh e r . — Ó Pinheiro, chamei, quando voltar para casa, preci so falar-lhe, ouviu? Boa noite, meus senhores.
Isidoro, que chorava as cartas com ferocidade, teve um grunhido que terminou numa praga; — Ora pílulas! Estas miseráveis estragam tudo no fim.
Vão-se embora, hem? Ê uma traição. Saímos. Quando nos separámos, à esquina da padaria, Mendonça interrompeu o estribilho que ia cantarolando:
— Então, êsse negócio que tem connosco. . . — É isto. Os senhores me fizeram uma proposta por intermédio de padre Atanásio.
— Sim, em Dezembro.
— E escreveram insistindo. Respondi que não aceitava, mas que se me desempregasse, contassem comigo. Caso ain da estejam pelo oferecimento... Deixo os Teixeira.
Lembrei-me de que tinha prometido a Adrião só ficar na cidade um mês:
— Isto é, s e 'houver vaga. Não quero prejudicar ninguém. — Há vaga, confessou M endonça. O guarda-livros de lá enrascou a escrituração e levou-o o diabo. O senhor te ve alguma pega com os Teixeira?
— Ah! não! É que há vantagem. E ando necessitado.
A crise... Adeus.
—■ Apareça.
Desci até o fim dos Italianos, encostei-me a esquina do armazém. _ , Vigia prolongada. Se pudesse falar com L u is a ... u quando em quando surgiam sombras entre as palmeiras do jardim, mas era a minha impaciência que se distraia a criar fantasmas. Acerquei-me da grade.
Esperança doida de encontrar Luísa. Que lhe teria dito Adrião? Imaginei-o de pijama e chinelos, coxeando pelo quar to, a bradar com os punhos cerrados: Pensar que sempre ti ve confiança na senhora! Defenda-se!’’ E ã carta, cem vezes relida, amarrotada entre os dedos magros.
Desgraçado desejo de conhecer as coisas. Melhor teria sido para êle não acreditar na denúncia e continuar como ia.
Voltei para a calçada do armazém e ruminei o procedi mento do Neves. Que interesse tinha êle em revelar aquilo?
Nenhum. Mostrar que sabia.
— Animal infeliz! exclamei em voz alta.
Referia-me ao Neves, a Adrião, a mim, ao Miranda Na zaré, a tôda a gente. Necessidade idiota de saber e espalhar o que sabemos. Depois de muitos dias ou muitos anos de canseiia e conjectura, um sujeito descobre uma lei da natureoutro faz uma carta anônima contando os amores de Luísa Teixeira com um João Valério como eu.
X X V II
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