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Caetés

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Caetés

Capítulo 23 · Caetés

Capítulo XXIII

23 de 31 ≈ 7 min de leitura

NA FARMÁCIA Neves, o dr. Liberato saiu do consultório, relendo uma receita, que entregou ao ajudante:

— Despache isto, mande levar a casa do Teixeira.

O rapaz, familiarizado com aquêles garranchos, decifrou sem demora: faltavam duas drogas. O médico tomou o lá pis, riscou, substituiu:

— Mande levar logo.

E ia retirar-se quando Nazaré entrou apressado:

— O Neves está?

Tinha ido ao Riacho-do-Mel, ver umas terras, voltava à noite. i . j — Novidade? perguntou o dr. Liberato abrindo a por tinhola. „ _ ,. T v / r :— É a reprodução de uma fórmula, explicou o Mi randa. O doutor estava aí? Desculpe, não o vi. Muito boa tarde a todos. Vinha tão aporrinhado que nao vi nin guém. Uma coisa que o senhor me deu o ano passado, valeriana, bromureto, não sei quê. Lembra-se?

— Perfeitamènte. Outro acesso? — Outro acesso! respondeu o tabelião tirando o chapéu, enxugando o suor que lhe corria pela testa.

Sentou-se no banco, junto a mim e Isidoro, que fic a v a mos com imensa preguiça, assando ao calor das quatro horas:

— Vejam que infelicidade. Não posso ter um momento de sossê* o.

— Mas como foi isso? informou-se Isidoro. Há tanto tempo que ela não tinha nada. . . — Há seis meses, mais de seis meses. Pai-ecia curada,

- X ' ’ n J ilüw' i i, até engordava. Mas hoje amanheceu triste — algum arrufo com aquele palerma — e de repente, quando menos se es pera, lá vão gritos, desatino e, zás! arranhões na cara do noivo.

— Também êle é culpado, balbuciou Isidoro. Não ata nem desata.

— É o que eu digo, concordou Nazaré. Quem quiser casar case logo, vá noivar no inferno. Retardando, amolan d o ... Levou unha, ficou com o focinho escalavrado. E foi bem feito. A pequena, quando está naquela desordem, gos ta de arranhar. Fora daquilo é uma ovelha, uma santa, mas gosta de arranhar. Encontrou a fórmula?

— Encontrei, respondeu o empregado.

— Pois eu mando buscar o remédio daqui a pouco. Até logo.

E saiu.

Eu nem sei se posso aviar isto, disse o ajudante che gando-se à grade.

— Outras drogas que faltam? inquiriu o doutor.

Não senhor, é que êle não paga. Já levei a conta um bando de vezes. Não avio: acabou-se a valeriana. É melhor assim: não se gasta nada, e amanhã a moça está boa.

Isidoro indignou-se:

— Que horror! Deixar uma pessoa sofrendo por causa de cinco mil-réis, dez mil-réis! Mande a garrafada. Espere, não me interrompa. Mande. E se êle não pagar, debite-me.

Desculpou-se :

Tenho negócio com o Miranda. Umas escrituras.

Depois desconto.

Pusemo-nos a rir, sabíamos que era mentira.

— Extraordinário! chasqueou o dr. Liberato dando as costas.

De longe, no Quadro, ainda se voltou:

— Você faz sempre dessas transacções, Pinheiro?

Censurei Isidoro com amizade. Que prazer extrava gante! Deitar dinheiro fora! Nazaré não precisava daquilo, era rico. E não obsequiava ninguém.

Isidoro Pinheiro, de cabeça baixa, defendeu-se:

— Eu devo ao Miranda. E gosto do Miranda. É amigo, é leal, ouro de lei. E a Clementina, coitadinha, tão alegre ante-ontem, jogando dominó com a gente em casa do Men donça! Agora batendo, arranhando...

Deixou aquela conversa, que lhe desagradava :

—• Outro assunto: eu soube aí umas histórias. Não acreditei, é claro. Protestei.

Levantou-se, foi à porta da rua, olhou para os lados, voltou, sondou o fundo do estabelecimento, certificou-se de que o empregado estava longe, manipulando.

— Como, Pinheiro? perguntei estremecendo.

— Picuinhas, cachorradas. Não acreditei, está visto.

— Diga logo. Para qite êsses subterfúgios?

— ,Eu não sou de subterfúgios, todo o mundo sabe, João Valério. Não sou de subterfúgios, não ando com panos mornos. Quem me conhece... Afinal deixemos isto. O que me disseram foi que você estava amigado com a mu lher do Adrião.

— Oh! Pinheiro! balbuciei magoado com aquela pa lavra dura.

— Fui bruto, realmente, confessou Isidoro. Mas não tive tempo de suavizar. Repeti o que me contaram.

— Quem lhe disse? Foi o Miranda?

— Não. Isso não importa. O essencial é terem dito.

Ora, se há alguma verdade...

— Qual verdade! qual nada! Calúnia.

— Exactamente o que eu afirmei, calúnia, que o Va lério não ia fazer canalhice tão grande com o Adrião. E a mulher dêle, virtude inquebrantável, incapaz, absoluta mente incapaz de um deslize. Em todo o caso fica você avisado, porque enfim não é bonito que a pobre moça caia na bôca do mundo. Eu, se fôsse comigo, deixava de ir lá.

Tive o impulso de justificar-me perante aquela alma simples:

— Deixar de ir lá. Pinheiro? Mas se não tenho nada com ela! Julga que devo preocupar-me...

— Julgo que a reputação dela está sendo prejudicada por sua causa.

— Mas que culpa tenho eu? Você é testemunha, quási sempre estamos juntos. Quando os outros jogam, conversam, tocam, recitam, nem sequer fico na sala: vou para a varanda, fumar. Que foi que viram êsses excomungados bisbilho teiros? De mais a mais — que diabo! — não se quebra assim do pé para a mão um hábito de seis anos, sem motivo.

— Motivo há, interrompeu Isidoro.

— Umas suspeitas idiotas, homem, uns aleives. Que motivo! E não posso afastar-me de supetão. Até o marido desconfiava. Outra coisa: imagine que eu goste dela. Não ‘H i íh ífc como nos como lhe disseram, mas que goste sem malícia livi*os. Imagine.

— Gostar de uma mulher casada! atalhou Isidoro.

Você é capaz disso!

— E que ela também goste de mim. É uma hipótese.

Sem malícia, naturalmente, como nos romances.

— Patacoadas! Que necessidade pode sentir a Luísa de gostar de você, se já tem um homem? E deixe-se de malu queira. Não há por aí tanta mulher?

Levantei os ombros com impaciência. Para contentar Isidoro bastava usar saias e ter volume.

— Está bem, Pinheiro, exclamei de mau humor, er guendo-me. Isto não interessa.

— Como não interessa? Interessa muito. Feitas as contas...

— Você não entende nada.

— Não entendo? retorquiu Isidoro, vermelho eomo um pimentão. Pois muito bem. Quando a pobrezinha estiver para aí, abandonada da família, e você, seu Don Juan de meia tigela, de cama, com uma roda de pau no costado, veremos se eu entendo. Você nem sabe em que se meteu.

O Adrião é uma fera.

E levantou-se, feroz, carrancudo, soprando ruídosamente, uma chama nos olhos. Passeou alguns instantes em silêncio, da grade para a porta, como um bicho zangado. Depois acendeu um cigarro:

— Eu em questões de honra sou intransigente. E vou tomar conhaque. Quer tomar conhaque?

— Não, bom proveito, agradeci despeitado.

Está certo. Vamos então chegando a casa, que daqui a pouco e o jantar.

Na rua atirou disfarçadamente um níquel ao bôlso de um cego. Diante da pensão, já tranquilo, parou, bateu-me no ombro:

— Pois, menino, o que você me disse é o diabo. Se o Adrião morresse, seria um desastre, sem dúvida, que êle é a melhor pessoa do mundo, mas o seu caso ficava solucionado.

AquilO; sim! Casamento esplêndido. Que olhos! que braços!

que toitiço! Você nem sabe quem está ali. MuUier ideal, fêmea sublime. Se fôsse viúva... Mas com o Teixeira vivo, realmente não sei. É o diabo.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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