Universo da obra
Universo da obra
RECOSTEI-ME na cadeira, espreguiçando-me. Quatro ho ras de insônia e um pesadelo. Cruzei as mãos sobre a mesa e olhei os pés do italiano. Ali estava em que haviam sido empregados, muito mal empregados, os últimos cinquenta mil-réis que d. Maria José me extraíra. Sapatos, meias de sêda para aquele malandro.
— Deitaram fora o Xavier, hem, Pascoal?
— É verdade, disse Pascoal sem interromper o desenho em que se esmerava. É pena.
Mas naquele momento não senti pena do Xavier. Acima dos desastres alheios estava a desgraça imensa que me afligira na véspera. . * Muito bem! Com duas palavras Luísa me havia supri mido. Considerei-me extinto. Ninguém compreendera o mo vimento de repulsa. Era como se ela me houvesse ajoujado a outra.
Abrü uma revista, li versos e notei ao findar que não tinha percebido nada.
— Que fêz você ontem o resto da noite. Pinheiro? Sem pre conseguiu derrubar a matuta?
— Nem me fale nisso, rugiu Isidoro, que se barheava a um espelho pendurado à parede. Gastei cinco mil-réis nos cavalinhos, paguei nove entradas no cinema a ela e a um lote de parentes, e mais vinho, genebra, isto e aquilo, total:
vinte e oito mil e setecentos. Que despesa num tempo de crise! E quando julgo a mulher segura, a miserável apro veita um momento sagrado em que tive de satisfazer neces sidade urgente e escapole-se com o Silvério. Só a cacête!
Esbocei um sorriso chocho, li novamente os versos.
Muito bem! Desejava esquecer, não podia esquecer.
— Assistiu à missa. Pinheiro?
— Tôda, homem, de cabo a rabo, ajoelliado na grama, com o ôlho no diabo da matuta. E a vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo no cinema, e mais a ressurrei ção. E os cavalinhos ainda por cima. Você já viu que falta de vergonha? Vinte e oito mil e setecentos! Uepois de tudo combinado, a cachorra me prega aquela peça. Eu, se não fôsse h t t i indivíduo pacato, ia ao Riacho-lundo e dava-lhe murros.
Tentei recordar a figura da cabocla, mas apenas me lem brei dos peitos volumosos, e do nariz chato. Como lamentava o Pinheiro não se ter espojado num canto de muro com aquilo? Que gosto estragado!
— E eu que recusei a Maria do Carmo! suspirou ras pando o queixo. — A Maria do Carmo é bonitinha, observou Pascoal.
— É, concordou Isidoro, mas muito vista, muito batida.
Que está você riscando?
— Um monograma para fronhas.
Serviço de d. Maria. É nessas miüçalhas que Pascoal se ocupa. Tanto sangue, tanto músculo, carcaça tão rija, tudo empregado em dourar molduras de espelhos e rabiscar monogramas. Irritante. E ). Maria José não tinha discerni mento. Era melhor que se arrumasse com o Monteiro, que é velho, capitalista e viúvo, homem respeitável.
Depois mudei de idéia. Procedia ela muito bem, se o italiano a fazia feliz. E o Pinheiro também andava com juízo em correr atrás da cabocla. Punham a sua felicidade onde podiani alcança-la. Eu não podia alcançar a minha felicidade: fugira na véspera, sem voltar o rosto.
— Vocês já sabem que a Clementina vai casar? disse Pascoal suspendendo o tra*balho.
A pilhéria de sempre. Aquilo, assim repetido, não tinha graça. Mas o italiano afirmou que não era brincadeira;
— Desta vez é sério.
— Outro espírito? perguntou Isidoro escanhoando o beiço.
— Não, foi o promotor que a pediu ontem.
Esqueci por momentos as minhas preocupações;
— Como é que você soube, Pascoal?
— Homem! essa agora! Você tem certeza? gaguejou o Pinbeiro. Se fôr verdade, fica um par magnífico. E eu estou contente, que gosto da Clementina. Ora sebo! Dei um talho na cara, com a emoção. Quem foi que lhe contou?
Tinha sido o Neves.
V
— O Neves? Então é certo, O Neves não mente. Sim senhor! Para alguma coisa o diabo da política havia de servir. Quando receber a comunicação, escrevo uma notícia de estouro na Semana. Afinal a Clementina arranjou-se. E merece, é digna. Essa coisa de histerism o... potoca! Eu, se não fôsse cardíaco, hepático, artrítico e sifilítico, tinha casa do com ela.
Que mudança! Nazaré, junto à mesa do leilão, achara o promotor um excelente rapaz. Invejei o noivo, tão alegre, tão amável, a grossa gargalhada a irromper a cada instante.
— Ô Pascoal, que é da chave ali do armário? perguntei.
Tudo trancado! Que fim levou a d. Maria?
— Foi visitar a mulher do sapateiro. A chave? Para que chave?
— Para tirar a garrafa de conhaque.
— Vai beber agora de manhã? Escangalha o estômago.
— Adeus.
Fui buscar ao quarto o chapéu e a bengala. Como tinha a carteira desprovida, retirei a Bíblia da gaveta, procurei dinheiro entre as folhas do Velho Testamento. Enquanto me fornecia, li: “E achei que é mais amarga do que a morte a mulher, a qual é laço de caçadores, o seu coração rêde, as suas mãos cadeias”.
E a miinha tristeza aumentou, porque a rêde em que por muito tempo me debati deixara fugir a prêsa por entre as malhas. E as cadeias, que desejei arrastar, tinham-se afrou xado de repente, abandonando-me, livre e inútil, junto a uma velha que chorava por um menino de chapéu de palha.
Saí pesadamente, fazendo curvas com a bengala na cal çada. Quando penetrei no largo, que tinha agora, com os estabelecimentos fechados e as barracas desertas, uma aparên cia de acampamento abandonado, avistei padre Atanásio de fronte do cinema, conversando com dois matutos.
— Ora viva ! gritou. Caíu-me a jeito. Ia agora. . . Casa mento de parentes é com o bispo. Precisa tirar licença, gasta aí...
— Mas, seu vigário, replicou um dos roceiros, eu não posso pagar a licença. Se v. sa. me fizesse o favor...
— Já lhe disse que é com a diocese. Vamos descèndo por aqui, temos negócio. Pois não case, filho de Deus. Se você nem pode pagar licença, como sustenta família? Ou então pegue outra. Casamento de primos é ruim. E vão-se embora, não me amolem.
Os matutos desapareceram»
Entrámos na travessa da Cadeia.
— Estou cansado, exclamou padre Atanásio. Missa aqui, missa em Santa-Cruz, missa em Caldeirões. Morto de sono, não dormi um minuto. E esta cambada de tabaréus azu crinando a gente. Assim mesmo uns ateus de meia tigela acham que nós não trabalhamos. Hoje é que eu queria mos trar a êles quem é parasita. A propósito de casamento, você sabe que a Clementina foi pedida?
— Sim, pelo promotor. Qui se ressemble . .. Afinal, como diz Salomão...
Lembrei-me do período lido vinte minutos antes:
— A muUier é laço de caçador, tem coração de rêde e cadeias. É do Eclesiastes.
— No Eclesiastes há isso? perguntou o vigário espan tado.
— Mais ou menos, uns beliscões nas mulheres. Muito justos. ' Padre Atanásio riu grosso e extraiu do interior uma ex plicação que lhe pareceu aceitável:
— Foi a sua namorada que lhe pregou alguma peça.
— Não senhor.
Cumprimentei Fortunato Mesquita, que descia a rua Deodoro.
— E êsse negócio, padre Atanásio?
— O negócio? Ah! sim! Não me interessa, sou apenas medianeiro. Vamos andando. Pois, meu filho, se o Salomão escreveu aquilo, não procedeu bem. Ora, dizia o Doutor A ngélico... (ou Santo Agostinho, não me lem b ro...) que todos os hom ens... Não, é outra coisa. Enfim Salomão foi um rei femeeiro. É verdade que Santo Antônio e muitos anacoretas, na Tehaida. . . Mas isto não tem importância, por que houve outros, e dos m aiores... Jesus Cristo mesmo não desprezava as mulheres. Veja aquela história do poço, a samaritana tirando água. É bonito. Veja Marta e Maria, as irmãs de Lázaro, um bando delas. A redoma de bálsamo!
É lindo. E S. Francisco de Assis, onde foi que êle algum dia disse mal das mulheres? E S. Francisco é um mundo.
S. Francisco é tudo. Quando se fala em S. Francisco, Salo mão se esconde. . . . ; i Estávamos à'porta do reverendo. Entrámos.
— A redacção hoje não se abre, padre Atanásio?
— Não, respondeu o vigário atirando o chapéu para a mesa carregada de livros, papéis, caixas, em temerosa mistura.
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Moído, meu filho, parece que levei uma surra. E vou tra balhar na igreja. Você está satisfeito com os Teixeira?
— Se estou satisfeito? Porque pergimta, padre Atanásio?
— É o negócio de que falei. Sente-se. Se não é indis crição, quanto ganha você?
— Nem sei. Às vezes mais, outras vezes menos, é con forme o tempo. Dão-me, além do ordenado, uma parte dos lucros. O senhor quer oferecer-me o lugar de sacristão?
— Não quero oferecer nada. É o Cesário que deseja convidá-lo. Melhor ordenado, mhém promete interêsse. Não lhe dou conselho. Nem acho decente a proposta. Enfim, como o Mendonça é camarada...
— Muito bem! exclamei com entusiasmo. O senhor não imagina, padre Atanásio. Esplêndido!
E considerei que aquilo era um bom meio de evitar Luísa. Aceitava a olocação, dava adeus aos livros do Tei xeira, ao piano, ao xadrez, ao jardim e à garça de bronze.
Mentalmente, vi desocupado o meu lugar à mesa; na minha cadeira, no salão, o dr. Castro, feliz, contemplando Clemen tina; deserta a varanda onde me recostava, oculto por detrás das cortinas, e donde se avista o arrabalde da Lagoa, um feixe de pontos luminosos. Nunca mais poria os pés naquela casa, que frequentei anos a fio, a princípio com o coração tranquilo, depois numa agitação que foi crescendo, ameaçava transtornar-me a vida. Tinha-me sentido quási doido alguns dias antes, a gemer num soluço desesperado: “Pelo amor de Deus, d. L uísa... Que lhe fiz eu?”
— Então aceita? perguntou o vigário. Que há de extra ordinário no que lhe disse para me olhar com essa cara de mal-assomhrado ?
— É com efeito uma boa proposta, eu não esperava por isso. E, mudando de conversa, padre Atanásio, como se chama uma estréia vermelha que às nove horas fica ali para as bandas do Tanque? Uma estréia grande. Como é o nome dela? Será Aldebarã?
— Que desconchavo é êsse? bradou o padre. Aceita ou não?
— Qual aceitar, qual nada! Eu sou lá capaz de fazer isso!
— Mas onde tem você a cabeça, criatura? Disse há pou co que era um bom oferecimento.
— Foi tolice, padre Atanásio. Quando andei por aí, para cima e para baixo, procurando emprego, estive duas vezes em casa dêle. Não me deu tun chifre.
— Perfeitamente, concordou o vigário. Recusa, mas não tem senso comum.
— Não tenho nada, nem senso nem coisa nenhuma. Sou um desgraçado.
Era mn princípio de confissão. Se eu fôsse crente, ter-
-me-ia lançado aos pés do reverendo, abrindo as portas da minha alma. Não sou crente, por infelicidade, e apesar de sofrer muito, não queria dar a mim mesmo a ilusão de que dividia o meu infortúnio com outra pessoa.
— Desgraçado? Ora essa! Que foi que aconteceu?
— Não aconteceu nada. Um rapaz meio tonto, o senhor tem razão._ Falta de senso comum.
— Pois se você aceitasse o emprego do Cesário, eu ficava desgostoso, palavra. Procedeu com honestidade. Vamos al moçar. Valentina, ponha êsse almoço. Com honestidade.
Sim senhor. Vamos almoçar.
— 'Obrigado, padre Atanásio. Deixe lá, não mereço abraços. Não há nenhuma nobreza no que fiz.
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