Universo da obra
Universo da obra
DOMINGO à noite fui a casa do Teixeira. Quando Zaca rias abriu o portão, havia rumor lá em cima. Atravessei o jardim, subi a escada, cheguei à sala, aturdido.
— Ora sim senhor, disse-me Adrião. Veio arrastado, mas veio.
Luísa acolheu-me como se me tivesse visto na véspera.
Cumprimentei, com as orelhas em brasa, Vitorino, padre Atanásio, Miranda Nazaré. V i Clementina escondida entre o piano e a parede. Balbuciando, pedi informações sôbre a saúde dela. , Não ia bem.
Sim? Pois não parecia. Tanta vivacidade, tão boas co res . . .
Ela atirou-me um olhar de agradecimento e encolheu-se.
Eu ia encolher-me também, por detrás das cortinas, mas Adrião se levantou, convidou:
— Vamos para a mesa.
Entrámos. Pelo corredor o vigário prosseguiu numa arenga interrompida com a minha chegada. Era àcêrca dos nomes esquisitos que agora dão às crianças. Ao sentar-se, estava indignado:
Palavras estrangeiras. Vocês já viram? Pronúncia errada. Eu reclamo: “ Besteira, homem! Ambrósio, Guilher me, Ricardo, isto é que é” . Não querem. Extravagâncias.
De Jerônimo e Amália fazem Jerália. V cês já viram?
Serviu-se o chá. E todos assegurámos que aquilo efectivamente era atroz.
— Está claro. Eu às vezes me zango: “ Gregório, po nham-lhe Gregório, pelo amor de Deus” . Não querem.
• . Calou-se.
— Porque não tem aparecido ültimamente, João Valério?
Num sobressalto, larguei a torrada, ergui os olhos an siosos para o outro lado da mesa, tom ei a baixá-los, pertur bado, e gaguejei:
— Nem sei, minha senhora. Por aí, à to a ... Ocupações.
— V i ontem, disse Vitorino, duas figurinhas do Cassiano aleijado: um mendigo com a sacola e uni S. Miguel com a balança. Muito bonitas.
Mas Nazaré interrompeu-o. Não se capacitava de que os trabalhos do aleijado prestassem:
— Um ignorante, um analfabeto.
— Só por isso? murmurou Luísa, que protege o Cas siano.
— Naturalmente. Êle não aprendeu escultura.
— Eu achei as figurinhas engraçadas, arriscou Vitorino.
E quanto a não saber l e r . ..
— Quem é hom já nasce feito, apoiou o reverendo. V e jam o Miguel Ângelo. Agora mesmo, no livro de um francês. . . Investiu contra Nazaré:
— E Tubalcaim, homem, e Jubal, Noé, essa gente da Bíblia? Quem ensinou o Noé a fabricar vinho? Ora, o livro do fran cês... E a torre de Babel, a embrulhada das línguas?
São factos, estão nas escrituras.
— Que diz o livro? perguntou Adrião.
— Diz muito, respondeu o director da Semana. É de um francês extraordinariamente instruído. Sabe tudo. Aque las embromações do Laplace. Nebulosas, potocas. Porque o Gcncse.. . Enfim uma sabedoria imensa. Trata do sol, da lua, das estréias, de uns bichos brabos que existiram antiga mente. Dinossauros, seu Miranda? É isso mesmo. E outros;
megatérios, gliptodontes. Um monumento.
— Mas afinal, ohjectou Nazaré, que relação tem isso com os bonecos do aleijado?
V,
— Relação? fêz o vigário, espantado. Ora essa! Tem relação. Eu ainda não acabei.
Coçou a testa, aflito, tentando recordar-se. De repente, com uma alegria infantil:
— Ah! sim. É que há no livro umas estatuetas desen terradas lá por onde Judas perdeu as botas, uns bisões que têm muitos milhares de anos. Óptinios.
— O dr. Liberato afirma que as imagens do Cassiano também são óptimas, observei eu.
— O dr. Liberato? inquiriu Adrião com azedume. Que entende disso o dr. Liberato?
— Que entende? Deve entender. Não é médico? Se as imagens estivessem erradas, êle sabia.
— Pois era melhor que entendesse de medicina, replicou Adrião, descontente. Ainda não me deu uma receita que prestasse.
E com o beiço caído, cheio de amargura, grande murchidão no rosto enxofrado, mastigou impropérios em voz baixa. Em redor informaram-se do estado dêle, com soli citude. Não melhorava. Uma peste. Referiu achaques com plicados e deteve-se numa dorzinha renitente que se alojara debaixo da última costela esquerda. Houve um silêncio compujigido.
E eu pensei que o conhecimento daqueles pequeninos hisões de terracota afeiçoados pelos dedos rudes de um bárbaro, há milênios, numa caverna lôhrega entre penhascos, era para mim aq[uisição preciosa. Talvez eu pudesse tamhém, com exígua ciência e aturado esforço, chegar um dia a alinhavar os meus caetés. Não que esperasse embasbacar os povos do futuro. Oh! não! As minhas ambições são mo destas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbcarias, no cinema, na farmá cia Neves, no café Bacurau;, dissessem: “ Então já leram o romance do Valério? Ou que, na redacção da Scmano,, em discussões entre Isidoro e padre Atanásio, a minha autori dade fôsse invocada: “ Isto de selvagens e histórias velhas é com o Valério” .
— Que há de novo sôbre Manuel Tavares? perguntou Adrião depois de um longo suspiro. Parece que está pro vado que foi êle, hem?
— Próvadíssimo, confirmou Nazaré. Vão ver que ainda desta vez o júri manda para a rua aquêle bandido.
E pormenorizou a novidade de resistência: um sujeito assassinado enquanto dormia, enterrado num quintal, exu mado depois de um ano, por acaso.
— Que a polícia nunca teve intenção de prender Ma nuel Tavares. A polícia não tem intenção. Foi um par ceiro do assassino que brigou com êle e veio denunciá-lo. O móvel do crime? Vinte mil-iéis falsos e uma roupa de mes cla. Tem aí o padre Atanásio matéria para escangalhar no sçu jornal a polícia, Manuel Tavares e o conselho de sentença que o absolver.
— Se absolver, resmungou o vigário. Um caso tão mons truoso . . .
—- Absolve, não há dúvida. Está na rua, é protegido do Evaristo. E que me dizem desses artigos que estão saindo na Gazeta contra o Mesquita?
■ — Terríveis! exclamou Vitorino. Toda a sorte de ridí culos. Afinal o pobre homem não tem culpa de ser estú pido, se é estúpido.
Levantámo-nos. E íamos chegando à sala quando a cam painha retiniu e pouco depois soaram na ante-câmara os passos apressados do dr. Liberato. Entrou, distribuiu aper tos de mão, recusou o chá que Zacarias lhe trouxe, quis saber da preciosa saúde dos seus bons amigos. Apoderou-se do tabelião e dissertou abundantemente. A chegada de Isi doro interrompeu, muito a propósito, a amolação dêle. O Pinheiro trazia um jornal enrolado:
— Leram?
Todos tinham lido, menos as senhoras.
— Tremendo! opinou Adrião.
— Horroroso! acrescentou Vitorino. Estávamos falando nisso quando o doutor chegou. E eu dizia que o Fortunato não tem e u lp a ...
— Esplêndido! atalhou Nazaré erguendo os ombros, o que lhe aumentava a corcunda. Soberbo!
— Você é inimigo do Mesquita? perguntou Isidoro.
— Não, não sou inimigo de ninguém. Mas gosto da quela maneira de achincalhar um tipo. A família do Mes q u ita ... Magnífico! Heróis que lutaram com os holandeses!
A generosidade do M esquita... Impagável! Empresta cinco tostões a juro de cento por cento e espalha que fêz favor.
E as camisas do Mesquita, os colarinhos do Mesquita, a na valha de barba do M esquita...
Como Luísa e Clementina estivessem afastadas, dirigiu-se ao dr. Liberato e ao Pinheiro, baixando a voz:
— A navalha de h a r b a ... Repararam? Uma brinca deira safada. Percéberam? Uma pilhéria de arrancar conro e cabelo.
— Você não tem coração, exclamou Isidoro.
— Eu? retorquiu Nazaré alegremente. Tenho um coraçãoi razoável. Agora viver lamentando os males do vizinho, não, principalmente se o vizinho é tolo. E os artigos estão bons. Muito progrediu êle depois que publicou os outros.
— Os outros? Então o senhor conhece o autor dos arti gos? estranhou o médico.
— Conheço.
— Quem é? interrogámos todos, excitados.
Nazaré estudou as caras em roda, com pachorra:
— Não sabem? «
— Não.
— Nem suspeitam?
— Suspeitar o quê! bradou Vitorino. Não há suspeita.
Provàvelmente aquilo é da redacção: algum dinheiro que o Fortunato recusou ao Brito.
— O Brito? Qual Brito! O Brito, coitado, meteu aquilo na Gazeta, mas nem leu.
— Quem foi? gritou padre Atanásio já com raiva. Se não queria dizer, não começasse.
— E eu não ia dizer, resistiu Nazaré. É segrêdo. En fim, como os senhores insistem e estou aqui entre am igos...
foi o Evaristo.
Houve um momento de estupefacção. Em seguida ata cámos o Miranda:
— Não é possível!
— Absurdo!
— Que lembrança! '
— Foi êle, murmurou Nazaré sem se alterar. Juro por todos os san tos...
— Não jure em vão, homem, retrucou padre Atanásio.
O Barroca fêz elogios daquele tamanho ao Mesquita.
— Perfeitamente, concordou Nazaré. Mas foi êle. Lam beu os pés do Mesquita e chegou a deputado. Hoje procura derrubá-lo. Derruba.
— Tem certeza? indagou Isidoro.
— Como tenho certeza de que dois e dois são quatro, como tenho certeza de que o som diminui à medida que a distância. . .
'— Deixe lá o som, deixe a distância, atalhou Adrião. O que rios interessa é o Barroca. Se foi êle, é um miserável. — Nem por isso. Não precisa mais do outro.
— Talvez o senhor se engane, aventurou o médico.
— Qual nada! O Mesquita está no chão. Não dou três vinténs por êle. Se o Evaristo visse que não o deitava abaixo, não escrevia aquilo.
Calámo-nos impressionados, menos pelas palavras de Nazaré que pela maneira como êle as dizia. Vendo-lhe a cabecinha calva, os olhos inquietos, brilhando como contas de vidro, a ponta da língua a remexer-se, umedecendo os beiços delgados, recuei instintivamente, como se êle me pu desse morder.
Fugi para a varanda. Veio do piano um tangO' arras tado. Acendi um cigarro. As notas diluíam-se no barulho da usina eléctrica.
Na calçada do armazém fronteiro duas mulheres iam e vinham; à direita vultos esquivos esgueiravam-se para o Pernambuco-Novo; à esquerda um automóvel rodava silencioso;
em frente, além da estrada da Lagoa, negra àquela hora, tremiam ao longe pequeninos pontos luminosos.
Voltei-me. Tom ava a contemplar Luísa, oculto por de trás das cortinas, enlevado, enquanto lá dentro as conversa ções zumbiam.
— Joguem uma partida de xadrez, pediu o dr. Liberato.
Vamos apreciar isso.
Adrião sentou-se à mesa pequena, sob o lustre, e come çou a dispor as peças no tabuleiro; Nazaré, defronte dêle, estendeu-lhe as mãos fechadas, a sortear as cores:
— Peão de dama, hem?
Lá estava, grande e loura, correndo os dedos pelo teclado, indiferente e esquecida, como se, em vez de me achar ali, trincando um cigarro, eu me conservasse arredio, num quarto de pensão, compondo crônicas para a Semana ou sonhando com o bergantim de d. Pêro. Via-a — e os desejos acor davam.
Nazaré e Adrião volviam as peças com rancor. O dr.
Liberato seguia os lances da partida sem interêsse. Padre Atanásio e Isidoro cochichavam. Vitorino dormia.
Agora não era tango, era mazurca. Se Luísa me amasse, eu daria por ela de bom grado um milheiro de Martas, um milhão de Clementinas.
— Essa é boa! gritou Adrião. Dois bispos nas linhas brancas!
— É verdade. Que descuido! exclamou Nazaré tentando justificar-se.
E houve em redor do tabuleiro um debate medonho.
Aproximei-me, aféctei uma curiosidade desenxabida:
— Então? Dois bispos?
Em casas brancas! trovejou Adrião. V iu que ia per der e tirou um bispo do lugar.
Nazaré, sem se ofender, alvitrou que se reconstituísse o , jôgo.
— Não é possível. Quem sabe lá em que ponto foi isso?
— Um engano.
— Que engano! Você é cego?
Deram a partida como nula, iniciaram outra. E logo no princípio Adrião, irritado, deixou sem defesa um peão do centro, perdeu-o, moveu a dama expondo o rei a xeque de cavalo antes de rocar e soltou uma praga.
— Ó Pinheiro, recite uma poesia, pediu Vitorino, boce jando.
Isidoro desculpou-se, estava rouco.
Luísa interrompeu a mazurca e quis ouvir Clementina.
Todos aplaudiram, menos Adrião, que rosnava, e Nazaré, que amiudava os xeques. Mas Clementina relutava, debatia-
-se, enroscava-se. Enfim cedeu. Encostada ao piano, pálida, sussurrou uma cantiga lamujiante. Foi até o fim sem um gesto, e logo que terminou, já alheia ao compasso, voltou a sentar-se, agradeceu com os olhos úmidos as palmas que lhe demos e enroscou-se mais.
Eram dez horas. Zacarias entrou com uma bandeja.
Adrião, que só tinha duas peças grandes, levantou-se furioso:
— Abandono. Vamos ao café. Dama e torre. Mate de torre e dama. Não passa daí.
— Temos então o homem definitivamente grudado a Palmeira, hem Miranda? perguntou Vitorino recebendo a xícara.
— Quem? '
— O Barroca. Se é verdade o que você pensa, natural mente há-de rebentar por aqui qualquer dia, desmantelar esta geringonça, fazer de novo. Agarra-se como sanguessuga.
Eu só tenho pena do pobre do Xavier.
— Aqui é que êle não fica, disse Nazaré. Vem, toma conta das posiçóes, coloca os amigos, deixa um testa-de-ferro, o Cesário ou o administrador, dirigindo a entrosa e volta.
Depois aparece, dá uma vista às propriedades, ao gado, aos eleitores e tom a a voltar. Não fica. Aquilo é ambicioso, trepa. E se os senhores tiverem alguma pretensão, peguem-
-se com êle. Aceitem o meu consellio: peguem-se com êle.
Estava satisfeito com a queda do Mesquita e desesperado com a vitória do Barroca. Falava cortando as palavras, cons trangido: o êxito dos outros acabrunha-o.
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