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Caetés

Capítulo 27 · Caetés

Capítulo XXVII

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RECOLHI-ME tarde, deitei-me vestido e às cinco horas consegui adormecer. Antes que o despertador tocasse, Isidoro hateu-me à porta. Levantei-me precipitadamente.

— Que era isso que você queria comigo ontem à noite?

perguntou entrando.

E, enquanto eu descerrava a janela:

— Se é o dinheiro que lhe devo, tenha paciência, meu velho, que ontem me arrasaram.

Sosseguei-o.

— Não é? Pois sim. Pelaram-me, arrancaram-me duzen tos mil-réis aquêles malvados. Também está decidido, não torno a pegar em cartas. Uma lição. De madrugada quási estouro aqui, berrando. Você estava morto? Que negócio é êsse?

Narrei a carta, o furor de Adrião, a minha promessa de ir para o Rio. Isidoro empalideceu:

Fale baixo: o Pascoal pode ouvir.

Andou, alvoroçado', de um lado para outro, depois sentou-

-se na cama e pôs-se a dar pancadinhas com a unha do polegar nos dentes.

— É terrível! Você com certeza negou, hem? Natural mente. E não há nada, é claro. Êle terá percebido algu ma coisa? I

— Não. Creio que não, só a carta.

— Só a carta... O que você deve fazer é procurar o au tor dessa miséria e quebrar-lhe os ossos. Eu queria saber...

— Que é que você queria saber? Foi o Neves.

— O Neves? O Neves é capaz disso? Um tipo circuns pecto. . — Foi êle. Havia espiritismo na denúncia: o Divino Mestre e as provações. E no dia da encrenca no billiai, com o promotor, êle estava de parte, escutando. O Varejão notou. Foi êle. É o único.

Isidoro ergueu-se, aproximou-se da janela, abriu a rótula:

— Pois, menino, agora volto atrás. Se foi o Neves que escreveu isso, o caso é diferente. Eu não creio, mas se foi êle, fêz com boa intenção. O Neves é um sujeito de moral muito rija. Que diabo tem aquêle povo a correr desembestado?

Acendeu um cigarro, contente por haver encontiado meio de desculpar o boticário:

— Não tenha dúvida. Boa intenção, pode jurar. Os espiritas são assim intransigentes.

Debruçou-se para fora e, noutro tom:

— Mas que demônio é aquilo? Todo o mundo correndo e o Vitorino em mangas de camisa! E é em casa do Adrião.

O homem terá feito alguma asneira?

Saímos para a calçada. O dr. Liberato passava, com um estojo na mão.

— Que foi, doutor?

O médico não respondeu.

— Vamos ver, balbuciou Isidoro, lívido.

— Vamos ver.

Com o rosto por lavar, despenteado e sem chapéu, acom panhei-o, aturdido, nem reconheci Xavier filho, que deu de cara comigo.

— Que diabo é aquilo, Xavier? Você esteve la. pergun tou Isidoro. „ ,

— Um tiro no peito. Não ouviram? O homem sluicidou-se.

— Quem? interroguei apavorado. — O Adrião. Ainda não souberam? Está num mar de sangue. Vou buscar algodão e gaze.

Apressámos o passo. Entrámos com dificuldade, encon troando gente que ia e gente que vinha. No portão havia um comêço de rixa. Um sujeito apostava que tinha sido tiro; ou tro afirmava que fôra uma navalhada no pescoço e nao se entendiam. As flores dos canteiros estavam machucadas.

Ao pisar a escada, ouvi gritos íle mulher lá em ciiúa.

V í ' I Parei, com um violento tremor nas pernas, segurei-me ao corrimão, tomei a passagem a d. Josefa, que chegava, alva co mo cêra e com um pé descalço. Naturalmente perdera um sapato no caminho. Sem pedir lieença, empurrou-me e subiu.

— Pinheiro, murmurei acovardado, julgo que não devo entrar. Não devo entrar aqui.

Isidoro fêz uma eareta:

—■ Vamos sempre. Eu também não posso tolerar. Não está em mim. Questão de nervos. Mas vamos.

Galgou quatro degraus;

— Se você não viesse, eompreendiam logo. Uma ten tativa, percebe? Salvar a reputação dela.

Achámos o salão cheio de intrusos que tinham invadido a casa e se apinhavam nas portas, interrompendo o trânsito.

Zacarias trouxe uma bacia de água. D. Josefa veio com uma braçada de toalhas e roupa branca. Depois foi Xavier filho acotovelando tudo, carregado de pacotes.

— Tudo para fora, gritou o dr. Liberato, arreliado e in visível. Façam o favor de desocupar a sala, que não são ne cessários. Para fora.

Lentamente, a massa de hasbaques refluiu. Penetrámos na saleta.

Horrível! murmurou Isidoro. Que insensatez! Logo de manhã, antes do café...

Vitorino, caído para um canto, o rosto escondido entre o braço e o antebraço, soluçava. Tinha a roupa manchada de sangue.

— Que desastre, meu filho ! exclamou padre Atanásio en trando e abraçando, atrapalhado, o Pinheiro. Como foi? por que foi?

— Não sei, padre Atanásio, gaguejou o nosso amigo. De improviso, em jejum, sem avisar ninguém. Que loucura!

Quando a gente menos esperava, zás! uma bala para dentro.

Aqui no peito, foi o Xavier que disse. Um tiro, ninguém sa bia. Eu ouvi, mas pensei que fôsse bomba, agora pelo S.

João.

O vigário, afrontado, soprou ruïdosamente, passou o len ço pela testa, levantou os braços e olhou o teto;

— Deus do céu! Quem havia de imaginar! Sursum corda!

Não é pela morte, porque afinal todos lá vamos quando che gar a hora. Mas vejam vocês, a extrema-unção... Mise ricórdia!

Caiu numa cadeira, junto a Vitorino, e pôs-se a chorar também. Fui até a porta do salão, espreitei. À entrada do corredor, d. Engrácia, Clementina e Marta gesticulavam. E H rigi-me para elas, nas pontas dos pés.

— Que diz o doutor, d. Engrácia? perguntei a(> ouvido da velha.

— Eu sei lá! É trabalho perdido, aquêle está pronto.

Veio da alcova um gemido prolongado.

— N#o senhora, sussurrou Clementina, pode ser q[ue esca pe. O Neves tratou de um hom em ...

Outro gemido cortou-lhe a palavra. Rumor de água, ti nir de ferros.

— O Neves tratou de um homem que fêz o mesmo e ficou bom, continuoü Clementina. O Neves. A senhora acredita?

Estava contando há pouco, lá em baixo.

— Pode ser, coneordou d. Engrácia. Mas a menina devia estar calada, que num aperto dêste ninguém fala. Foi assim que me ensinaram.

Disse isto quási gritando.

Voltei para a saleta como um sonâmbulo. Coisa estra nha: ainda não tinha visto Luísa, e nem uma só vez havia pen sado nela. Confessei a mim mesmo que era o causador da morte de Adrião, mas no estado em que me achava esqueci a natureza da minha culpa.

Vitorino continuava a soluçar. Num quarto vizinho, Evaristo Barroca falava com d. J osefa. Padre Atanasio assoa va-se de manso.

Aproximei-me do sofá, onde Isidoro e Nazaré conversa vam em voz baixa, sentei-me ao lado dêles. Mas levantei-me de súbito. Ali abracei Lmsa pela primeira vez. Revi tôda a cena: os beijos que lhe dei, beijos de carnívoro, o desfa lecimento que ela teve. Lembrei-me de lhe ter mordido a língua com brutalidade, senti gôsto de sangue na bôea.

Olhei a roupa manchada de Vitorino e virei o rosto, refugiei-me ao pé da janela que dá para o jardim.

Isidoro, espantado:

— Como tem você coragem de sustentar isso?

E Nazaré, docemente;

— Fêz muito bem. Doente, escangalhado, vivendo para aí a vara e a remo! Antes acabar logo.

Evaristo Barroca entrou na sala, inclinou a cabeça de leve, bateu com afecto no ombro de Vitorino e levou-o para o in terior.

Olhei o renque de palmeiras, os tinhorões, a garça de bronze, o banco. Voltei as costas.

— Mas um suicídio, homem! exclamou Isidoro.

E Nazaré, erguendo a voz:

— Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morrer.

Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou na fôrca — o resultado é o mesmo.

Interrompeu-se: o dr. Liberato chegava, ainda com as mangas arregaçadas, enxugando as mãos. Levantai m-se to dos:

— Então?

O doutor não parecia contente.

— Onde foi o tiro? começou padre Atanásio.

— O percurso... ia dizendo o dr. Liberato.

Mas Isidoro atalhou:

— Não é isso, o percurso é difícil. Queremos saber se a bala foi ao coração.

— Que disparate! replicou o outro. Se o homem está vivo! Atingiu um pulmão, é lá que ela deve alojar-se.

— Ah! o senhor não extraiu? perguntou Nazaré.

— Extrair o quê? Os senhores pensam que é só meter o ferro ali dentro e ir arrancando à vontade. Vá mexer naqui lo. Está lá guardada.

— No pulmão? fêz Isidoro com alívio. Então pode ser que se salve. O Poincaré também tem uma bala no pulmão.

— Quem é o Poincaré? disse o vigário.

— Ficou mais calmo, acrescentou o dr. Liberato. Se não sobrevierem complicações...

—• Quem é o Poincaré? tornou a perguntar o reverendo.

— Um grande homem, padre Atanásio, explicou Isidoro. O senhor não conhece? Um que foi presidente da repú blica na França... ou na Inglaterra, não estou bem certo.

Tem uma bala no peito, eu li num jornal. O Poincaré. . . ou o Clemenceau, um dos dois.

Clementina chegou-se como uma sombra:

— Êle quer falar com o senhor.

— Comigo, d. Clementina?* Quem? exclamei.

— Seu Adrião. Venha depressa.

— Mau! fêz o dr. Liberato com arrebatamento. Digam que não está. ,

— Mas êle quer, insistiu Clementina. E nós dissemos que estava.

— Pinheiro, gémi ao ouvido de Isidoro, não posso, é terrí vel! Não tenho coragem.

— Meia dúzia de palavras quando muito, concedeu o médico. Um minuto, é só entrar e sair.

• Isidoro acompanhou-me ao salão:

— Ânimo! Seja forte. O desejo de um moribundo... Vá.

E tenha calma.

Entrei na alcova, cerrei a porta, acerquei-me da cama, tremendo.

— João Valério, ciciou Adrião, é você? Sente-se aqui perto, dê-me a sua mão.

Sentei-me ao pé dêle, tomei-lhe os dedos frios.

— Está aí? está ouvindo? Não vejo nada.

— Estou ouvindo.

E curvei-me, quási lhe cheguei a orelha à hôca para perceher-lhe a voz indistinta.

— É uma despedida, meu filho. Preciso pedir-lhe des culpa. Separámo-nos zangados. Aperte-me a mão, Valério.

Já lha havia apertado.

— Já? Não senti, não sinto nada do cotovêlo pra haixo.

Calou-se, julguei que êle estivesse morrendo, quis levan tar-me para chamar o médico.

— Deixe lá, rapaz. Ainda não chegou a hora.

Tentei sossegá-lo com algumas trivialidades que me ocorreram.

— Isso não interessa, murmurou Adrião. E não tenho tempo para conversar muito. Ouça. A história da carta foi tolice. Exaltei-me, perdi os estribos. Luísa está inocente, não é verdade?

— É verdade.

— Acredito. E já agora, com um pé na cova, não devo ter ciúmes. Não faça caso' do que lhe disse ontem.

Diligenciei acomodá-lo, mas temi que êle se magoasse.

— Isto passa logo, Valério. De qualquer forma estou hem. E não se aflija com a minha morte. Esta vida é uma peste. Havia de acabar assim. Adeus. Dê-me um abraço.

Adeus... até o dia do juízo.

Abracei-o, com o coração rasgado:

— Até a semana vindoura, ou a outra quando muito, que o senhor fica hom.

— Até lá em cima, se nos encontrarmos lá em cima.

Padre Atanásio está aí? e o Miranda, os amigos todos? Pois eu quero despedir-me dêles.

Saí. Ao atravessar o salão, encostei-me a uma parede, porque os móveis em tomo começaram a girar. Isidoro, que me esperava à entrada da saleta, amparou-me. Apertei a ca beça com as mãos e entrei a soluçar desesperadamente. Eram soluços secos, ásperos, que me agitavam todo o corpo.* Ao mesmo tempo sentia marteladas nas fontes, zumbiam-me os ouvidos.

Como uma criança, acompanhei Isidoro. E como uma criança, começei a dar pancadas na testa com a mão fechada.

Depois tive necessidade de afrouxar a gravata e o colarinho.

Lembrei-me do desejo de Adrião, quis chamar os amigos da casa, mas não pude descerrar os queixos. Para desembaraçar-me da incumbência, puxei o braço de padre Atanásio, que se desviou assustado. Fiz o mesmo com Isidoro e com o Miranda. Creio que êles me tomaram como doido. Mergu lhei as mãos nos cabelos. Estaria realmente doido?

— Sossegue, criatura, disse padre Atanásio. Todos nós sentimos muito. Mas enfim... a opinião da ciência... On de está o Vitorino?

Recobrei a voz a custo.

— Despedida? fêz o dr. Liberato. Não. Êle já falou de mais.

E a Clementina, que apareceu novamente:

— Tenha paciência, d. Clementina. Doente é calado, na cama.

Clementina sumiu-se.

— O pior é que com esta confusão ainda não almocei, continuou o doutor. Estou moído. E morto de fome.

Chamou a Teixeira:

— O Xavier saiu? Pois eu tamhém vou sair. Volto lo go. E não deixe essa gente invadir o quarto, d. Josef a.

Até já.

Quando me sentei à mesa, depois de ensahoar a cara e mudar a roupa, o dr. Liberato dava pormenores inúteis.

Qué entendo eu de alvéolos? que me importava a pleu ra? O que eu queria era saber se Adrião morria ou escapava.

Repeli o prato, levantei-me.

— O senhor não almoça? perguntou d. Maria José. Por quê? Ainda hoje não comeu, está de jejum natural. Venha almoçar.

— Não senhora. Vou tomar um banho.

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Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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