Universo da obra
Universo da obra
PASSARAM-SE dois meses. Uma noite, à entrada do Pinga-Fogo, Isidoro parou junto a um poste da luz eléctrica e ata cou-me :
—' Em que fica essa história?
— Que história. Pinheiro?
— Essa embrulhada. Lembra-se da conversa que tivemos uma tarde na farmácia do Neves? Bulimos com o pobre do Adrião, coitado.
Tossiu, andou dez metros e estacou defronte da igreja de S. Pedro:
— Está visto que sinto a morte dêle. Naturalmente. Era um carácter adamantino. Mas enfim — que diabo! — nao pode ressuscitar. Parce sepultis! como diz padre Atanásio.
E está o seu caso resolvido.
Baixei a cabeça: — Eu, Pinheiro, se não me engano. . . Convem proceder com ponderação. R eflecti... — Não há ponderação, atalhou Isidoro. O que ha e que você deve casar com a moça, esta é que é a ponderação. Nao sei o que houve entre os dois. Provavelmente não houve nada. Ou talvez tenha havido. Isso é lá segrêdo seu. O que é certo é que rosnaram por aí, você andava doido por ela e o Adrião deu o couro às varas. — Mas deixaram de falar, retorqui apressado. Voce ouvm alguma coisa. Pinheiro? Que diz êsse povo? — Que povo! Quem se importa com o povo. A e « u a obrigação... Não se faça desentendido. E um homem bonrado... Você está hoje de uma estupidez espantosa, Valeiio.
Nos Italianos, apontou o casarão: — E onde se encontra m u lh er como aquela. P rocure, veja, compare. En, se fôsse mais moço, dedicava-lhe nra Muitas vezes me ocorrera o que Isidoro acabava de sugerir-me. Indecisão.
Dois meses sem ver Luísa. À noite distraía-me a repetir a mim mesmo que ainda a amava e havia de ser feliz com V rmy ■ ■ ■ ■ ■ w m - i ela. Hipocrisia: todos os meus, desejos tinham murchado.
Tentei renová-los, recompus mentalmente os primeiros encon tros, na ausência de Adrião, entrevistas a furto no jardim, a tarde que passámos no Tanque, soh árvores. Mas apenas con segui recordar com viveza um raio de sol que atravessava a ramagem e vinha arrastar-se sôbre a pedra coberta de musgo, a garça displicente, um sinal escuro que Luísa tem abaixo do seio esquerdo. Lembrei-me também de me haver ela uma vez plantado os dentes no pescoço. Ao cabo de algumas horas a parte mordida eslava vermelha e necessitando o dis farce de uma rodela de pano. Depois a mancha se havia tornado gradualmente esverdeada, amarelada, afinal desapa recera.
Naquele tempo eu vivia no céu.
— Que céu! Como se vai morder uma pessoa, brutal mente?
E achei que não fazer caso da opinião dos outros é censurável.
— Imprudente! disse comigo.
Alterando a palavra, corrigi com severidade:
— Impudente! , Entretanto Isidoro pensava que eu devia casar com ela.
E eu penso sempre como Isidoro.
— Você tem razão. Pinheiro. É preciso tratar disso, declarei mais tarde na hospedaria. Vou lá.
— Agora? Vai falar casamento com a mulher assim de supetão, e de noite?
— Não. É só uma visita, por enquanto.
Fui. E ao chegar já me arrependia de ter dado aquêle passo difícil. Zacarias trouxe-me a notícia de que a senhora estava adoentada.
— Diabo! murmurei retirando-me entre despeitado e contente. Isto por aqui também mudou.
No dia seguinte pela manhã voltei:
— A senhora pode receber, Zacarias?
— Está tomando banho, respondeu o prêto do alto da escada. É melhor o senhor vir depois.
Muito bem. Eu ia tornar-me importuno, não a deixaria tão cedo, e a responsabilidade do rompimento ficava para ela. Fui ao casarão oito dias a fio. Antes do trabalho, acendia um cigarro, chegava lá, apressado:
— A senhora já saiu do banheiro, Zacarias?
E ia para o escritório.
— Julgo que tenho procedido com cavalheirismo, entrei a matutar uma noite. Amanha, ponto final nisto. Com cer teza ela imagina que vivo doido por encontrá-la.
Quando, no outro dia,, penetrei no jardim, fazia a pro messa de nunca mais pôr ali os pés.
— A sinhá mandou pedir que esperasse um momento.
Não entendi.
— Como foi que você disse, Zaearias?
— Lá em eima, fêz êle mostrando os dentes alvos.
Subi, desconsolado.
Receber-me! E eu que me tinha habituado a ouvir reeusas !
Zacarias abriu o salão. Tudo transformado; o piano co berto, outras cortinas, uma tristeza que dava frio.
Sentia-me obtuso. Nem sabia como tratar Luísa. Fulana ou d. Fulana? Complicação. Talvez ela se melindrasse com nm tratamento famibar. Mas atirar-lhe dona, cara a cara, sem testemunha, era tolice. Dificuldade.
Ia em plena atrapalhação quando Luísa entrou. Estava de prêto e muito pálida, foi só o que vi.
Com a cabeça baixa, aceitei a cadeira que ela me indicou e fiquei a olliar a mancha deixada pela sola do meu sapato numa almofada que desazadamente pisei. Sem me dar a mão, Luísa sentou-se. Creio que também se eonservou cabis baixa. Houve um silêncio estúpido.
— Vim a q u i... arrisquei.
— Vem aqui sempre, atalhou ela. Não tenho querido recebê-lo.
Emendou:
— Não tenho podido. É a verdade: não posso.
Mordi os beiços. E, para acabar depressa:
— O que eu queria era declarar que me considero obri gad o... moralmente obrigado...
Ela estremeceu, encarou-me:
— Obrigado a quê, João Valério? A casar comigo?
— A acolher qualquer resolução sua, respondi timida mente. Supus... eompreende? Não s e i... Todos os dias me preparava para vir.
— E vem depois de dois meses, João Valério?
— Que havia de fazer? Um golpe, um abalo tão gran d e ... E tive acanhamento. É natural. Se foi por isso que me fechou a porta uma semana. . .
— Não, disse ela erguendo-se. Não précisa justificar-se.
E, aproximando-se, falando-me quási ao ouvido;
— É que desapareceu tudo. *
— Tem certeza? perguntei levantando-me.
E percebi logo que a pergimta era idiota.
— Eu estava com algum escrúpulo, continuou Luísa. Tal vez p Valério ainda fôsse o mesmo. Estou agora tranqüila.
Nenhum de nós sente nada, e o Valério finge tristeza. Para que mentir?
— Faz pena, murmurei comovido.
Pareceu-me ouvir a voz mortiça de Adrião: “Não se pre ocupe com a minha morte, rapaz. Havia de fazer o que fiz, estava escrito”.
— Horrível!
E tentei adornar Luísa com os atributos de que a tinha despojado.
— Para quê? reflecti. É melhor assim.
Eu agora era um pequenino João Valério, guarda-livros mesquinho.
— Adeus, balbuciou Luísa com uma lágrima na pálpebra.
— Adeus, gemi.
Apertei-lhe a mão, fria, mas os dedos dela permaneceram inertes sob a pressão dos meus. Quis beijá-los — faltou-me o ânimo.
— Adeus.
Fui até a porta da saleta, voltei-me ainda uma vez.
Luisa soluçava, caída para cima do piano. Vacilei um ins tante e depois saí.
Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.