Universo da obra
Universo da obra
ESTÁVAMOS sentados à mesa, fumando, quando bateram palmas lá fora. D. Maria José foi Ver e tornou logo:
— É a criada de d. Engrácia que tem negócio com o senhor.
— Comigo?
— Sim senhor.
Levantei-me, atravessei o corredor vagarosamente.
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— Que é que Iiá? perguntei a Casimira, que esperava à porta, grave, barbada, o rosto cheio de verrugas.
— Um livro que a menina mandou.
Eutregou-me o volume.
— Um livro? Ah! sim! sei o que é, um romance. Mui to obrigado, diga a d. Marta que estou muito obrigado. Isto é uma obra excelente, dc Centro da Boa Imprensa, uma obra importante. Edifica. Amanhã devolvo.
Casimira arregaçou os beiços num sorriso escuro e gague jou frouxamente, cem modos de cumplicidade:
— Ela quer saber se o senhor vai ao cinema... se vai à missa.
— O cinem a... responda atarantado. A m issa... Nao posso, estou com febre.
— Talvez fôsse melhor escrever.
Ia oferecer dez mil-réis a Casimira e pedir-lhe que esque cesse o recado, mas considerei que ela havia sido ama de leite de Marta e era uma alcoviteira honesta.
— Escrever? Para quê? Basta isto: doente, gripado.
Não posso ir, sinto muito. A senhora não está vendo que smto muito? E estou agradecido pelo romance. Amanha de volvo. Diga a ela.
Entrei no quarto, joguei a brochura em cima da cama, voltei para a sala de jantar.
— Que tinha com você a d. Engrácia? inquiriu o Pascoal, indiscreto.
— Negócio lá do escritório, uma questão de juros. Nem sei, um desastre.
— Prejuízo para você?
— Não, é transacção com a firma, uma conta corrente.
— Pois endireite essa cara, homem, fêz Isidoro. Nós não temos culpa da conta corrente da d. Engrácia. Vamos à novena.
Fomos todos. Mas quando penetrámos no Quadro, cheio de luz e rumor, pensei em retroceder. E, ao passar pelo Bacurau:
— Até logo. A igreja, com este calor, é fornalha. Uma cerveja bem gelada, amigo Bacurau. Tomem cerveja.
Recusaram e deixaram-me. Fiquei reflectindo naque le procedimento de Marta. Um namoro, evidentemente, com o auxílio de Casimira. Não me convinha. E dizem que Deus dá o frio conforme a roupa!
No carnaval estive meia hora a tagarelar com ela e ouvi um provérbio que me atrapalhou, em francês. Desejei-a depois, por insinuações do Pinheiro. Nesse tempo ela andava com a cabeça virada para o Mendonça filho, que vale mais que eu. Voltava agora, infelizmente fora de propósito. Censurci-lhe o método. Um romance emprestado, a intervenção de Casimira, q[ue estragava tudo. Pulhices. Sem se compro meter, pedindo-me de longe que lhe escrevesse. Tive pena.
E mastiguei as evasivas que usamos no armazém para evitar fregueses importunos: '‘Não pode ser, minha querida senhora.
Estou aflito, acredite. Se tivesse aparecido antes, ali por Mar ço ou Abril... Agora é inteiramente impossível. Não disponho de meios.”
Não dispimha. Toda a minha alma estava empregada em adorar Luísa. E Luísa havia subido tanto que muitas ve zes me surpreendi a confundí-la com a estrela amável que avultara em cima do morro, na ante-véspera. Altair? Aldebarã?
Não conheço as estréias. Nem conheço as mulheres. Que será Luísa? que haverá nela? Não sei.
Emergi destas filosofias ordinárias e gritei ao rapaz:
— Traga a cerveja, Bacurau. Que demora! Acorde.
— Um minuto, seu Valério.
Com os cotovelos na mesa de ferro, enquanto esperava que Bacurau se desenroscasse lá dentro, olhei distraído o lar go, que se ia enchendo. Nas lojas, exposições de objectos vis tosos. Os cavalinhos começavam a rodar. Pejavam a pra ça longos renques de barracas. A iluminação pública esta va aumentada. Na frontaria da casa de d. Engrácia pendu ravam-se lanternas de papel, e as janelas, que nunca se abrem, escancaravam-se.
— Que é que há pelo convento de d. Engrácia, Bacu rau? pergnntei quando o rapaz trouxe a cerveja.
— Um presépio. A d. Marta encomendou ao Cassiano aleijado três reis magos, um boi e uma jumenta de barro. D.
Josefa Teixeira passou o dia lá, ajudando. Fizeram um rio com areia da praia e seixos miúdos em cima de um espelho.
Pronto, seu Nicolau. Genebra?
—• Que genebra! Eu bebo genebra! Conhaque, disse Ni colau Varejão arrastando uma cadeira para a minha mesa.
Um conhaque bom. Que história de rio esse sujeito estava contando, João Valério?
Expliquei que era uma obra de arte realizada pela filha dêle, com areia e pedras. - Nicolau Varejão ficou encantado.
Anuviou-se-lhe depois o carão trigueiro, que as bexigas picaBebeu um trago de conhaque e puxou o chapéu para a testa. Por baixo dos ócujos brilharam lágrimas. Pobre hof » i : • mem! Adora a filha. E não pode falar com ela, que se en vergonha dêle, volta o rosto quando o encontra. Mas a per turbação durou pouco:
— Bonito, o presépio, hem? Não podia deixar de ser bonito. É uma fada, tudo quanto sai daqueles dedos sai hem feito. Você tem cigarros aí? Hei-de querer admirar esse pre sépio. Esqueci os cigarros. Dê cá um cigarro.
Dei-lho. Resolvi não ler o romance do Centro da Boa Imprensa.
— Faz uma semana que ela me chama para mostrar êsses arranjos de Natal, prosseguiu Nicolau Varejão. E eu, ocu pado com a lavoura, o ocultismo, a política... Sou um ingra to. Hoje pela manhã tirou-se de cuidados, foi a minha casa.
Que casa ! Eu tenho casa ! Foi ao chiqueiro onde moro, no So vaco, abraçou-me, disse um palavreado que me entrou no coração. É um anjo.
Coitado! Tem Marta em conta de anjo. Esconde-se pa ra não desgostá-la; à passagem das procissões, tranca as por tas. Quando está morrendo de fome, escreve-lhe uma carta, e ela manda-lhe pela Casimira vinte mil-réis.
— Todo o mundo sabe, continuou o velho, não há outra.
Em instrução, Jesus! é um assombro. Como diabo pôde ela aprender tanto, tendo um pai da minha laia? Que eu dessas encrencas de particípio não pego nada. Catorze línguas! a pequena sabe catorze línguas! Até francês, homem! até latim, suíço e língua do México. Boa noite, doutor.
Era o dr. Castro, que se tinha sentado perto.
—■ Adeus, disse Nicolau Varejão baixando a voz. Não gosto da cara dêsse promotor. Vou ao presépio.
E berrou:
— Bacurau, outro conhaque.
Levantou-se, bebeu, meteu a mão no hôlso:
— Sim senhor. Quero apreciar êsses reis de barro e êsse rio de areia da praia. Veja quantas mulheres haverá por aí com aquela capacidade. Um rio! Até parece obra da Divi na Providência. Você pagou a cerveja?
— Deixe lá, não se incomode.
— Pois sim.
— Beba mais.
— Está doido? Se beber mais, entro na carraspana e perco os bonecos do aleijado. Até mais logo. Deus o ajude.
— Quem é êsse sujeito? perguntou o dr. Castro quando Nicolau se retirou.
Pague também o conhaque.
— Um santo.
— Que faz êle?
— Nada. Passeia pela Cafurna, pelo Tanque, pelo Cliucum, e dedica-se a espiritismo e esoterismo. É um vagabun do. S. Nicolau Varejão, mártir, uma das melhores coisas de Palmeira-dos-índios.
— Vagabundo e bom homem? Ora essa!
— Porque não? Um santo. Como vai Manuel Tavares?
Antes que êle respondesse, chamei os companheiros de pensão, que desciam o Quadro:
— Já de volta? Que houve por lá?
—• O costume, disse Pascoal. Música, flores, cantigas...
Luísa teria ido? Puxei Isidoro por um braço:
— Ó Pinheiro, chegue cá. O Adrião foi à novena?
— Creio que não. Quem esteve lá foi a Marta com a Teixeira. Pareciam umas imagens. Eu, se fôsse turco, casa va com as duas. Para que quer você o Adrião?
— É a conta corrente de d. Engrácia. Os juros...
— Ahl sim! A d. Engrácia, os juros. Não foi. Prova velmente vai ao leilão. Talvez o encontre no cinema.
Eu não ia ao cinema.
—• Não? Então meta-se em casa, deite-se. Quando a gente se aborrece, o que deve fazer é dormir. Pois eu apro veito. Festa é festa, e avistei uma criatura admirável, matutinha, quero ver se agarro aquilo. Venha até o cinema, po de ser que o programa lhe agrade. Os senhores ficam?
Ficavam. O dr. Liberato já começava a impingir anato mia ao dr. Castro, e o Pascoal preparava um grogue.
Saímos. Diante do teatro escondi-me na multidão para evitar Marta, d. Engrácia e a Teixeira.
— Você reparou nas olheiras da Marta? perguntou-me Isidoro quando elas passaram. Está linda. Aquilo é falta de macho. Coitadinha. Eu nem gosto de pensar, fico todo arrepiado. Vamos ver o programa.
Aproximou-se de um cartaz:
— Vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Você não entra?
— Não. A que hora começa o leilão?
— O leilão? Ah! sim! Os juros. Deve ser daqui a pouco.
Ciaa, como diz o Pascoal. Vou procurar a matuta.
Dei uma volta lenta na praça. Da rua Floriano Peixoto, dos Italianos, da travessa da Cadeia, dos dois buracos que vão ter ao Pernambuco-Novo, escuros magotes afluíam. Na padaria da esquina roceiros, encostados ao balcão, enchiam as algibeiras. Na farmácia Neves, gesticulando e espumando, Balbino pedia um remédio. O boticário, caceteado:
— Traga a mulher, cavalgadura. É preciso examiná-la.
E o índio, ranzinza:
— Ora trazer! Se ela pudesse vir aqui, não estava doen te. V. mcê. não é sabido? Então dê a mezinha.
Já começavam a embriagar-se nas palhoças onde se ven diam bebidas.
Ao passar pela casa de d. Engrácia, vi na sala uma flo resta de crótons, as paredes enfeitadas de palmas verdes, o presépio com um menino Jesus de biscuit, as figurinhas do Cassiano, uma estrela de lata, o célebre rio de areia da praia e vidro. Sentada, com a bôca aberta. Casimira dormia.
À entrada da rua de Cima bordejava o doutor juiz de direito, cambaio. À esquina da praça da Matriz avistei d.
Emiliana Teixeira, a Teixeira velha, magríssima e coberta de sêdas.
Ouvi os gritos de Romualdo, pregoeiro:
— Dez tostões me dão por uma penca de flores muito cheirosas, que de mimo deram a Nossa Senhora do Amparo.
Anatólio, outro pregoeiro, berrava também:
— Afronta faço e mais não acho. Se mais aehara, mais tomara.
Acerquei-me da mesa carregada de frutos, bolos, pássaros enfeitados de fitas, pratos de ovos e caixinhas de segredo.
Cumprimentei senhoras apertadas em bancos incômodos: d.
Priscila Fernandes e Clementina, juntas, a mulher do admi nistrador, as xifópagas.
Luísa não estava. Desanimado, rondei por ali, procu rando alguma coisa para oferecer a Clementina. Nem um jarro, nem uma estatueta, nada. Encostei-me a um poste da linha telegráfica, reparei num grupo de rapazes e de moças que não eonseguiam lugar nas bancadas e se apinhavam nos degraus da igreja. Distraía-me a contar meia dúzia de namoros, quando Nazaré me interpelou:
— Já sabe? O Xavier foi demitido.
— Que está dizendo? Isso pode ser? Um funeionário que vem da monarquia! Que horror!
E falei em Xavier filho, há muito tempo estudante de medieina. Luta desesperadamente e não consegue terminar o curso.
— Que miséria!
— É verdade, prosseguiu Nazaré. O Evaristo embirrou com êle, e com razão. Tiraram-lhe o emprego.
— Que razão! Pense na família do Xavier. Mais de dez filhos! Bandalheira.
— Mais de dez filhos, é exacto. Quanto a isto ninguém tem culpa, que a filharada foi êle que fêz, ou alguém por êle.
Era necessário colocar na secretaria da prefeitura um sohrinlio do Evaristo.
— Outro? Deve ser como o promotor. Boa amostra.
— Sim, efectivamente é um belo moço.
— Um sendeiro.
— Sendeiro? De forma nenhuma.
— Foi o senhor mesmo que disse, em casa do Vitorino.
A história do libelo. . . Foi o senhor.
— Ninharia. É um rapaz simples, não tem orguUio.
— E que orgulho pode ter um cavalo como aquêle?
— Pode, respondeu Nazaré esfregando o espanador que lhe adorna o queixo. Pode. Tem a carta, e isto vale um pouco. Vale muito. Ora veja. Se nós andássemos lá por cima, dirigindo esta gangorra, havíamos de governar muito hem, comíamos tudo. E eu sou taheliao desde que nasci, e não passo disto; você é guarda-livros...
— Mas eu acho a minha profissão melhor que a dêlc.
— História! Um bacharel é um bacharel, chega a de putado, a desembargador. Vá lá pensar em ser ministro escriturando a cachaça do Teixeira.
Guiado pelo olhar dêle, descobri junto à mesa o dr.
Castro, feliz e papudo, mostrando os dentes e despejando so bre Clementina o brilho dos seus olhos pretos. Ela roçava-se no encosto do banco e espiava-o por cima do ombro de d.
Priscila. Compreendi o reviramento de Nazaré. Estava tudo em ordem. E lembrei-me do provérbio que Marta me disse uma noite: Qui se ressem ble... Esqueci o resto. Era bo nito e rimava, terminava em emble. Uma frase magnífica para os outros julgarem que eu digo que não sei francês por modéstia.
Vendo Zacarias, que se afastava depois de ter deixado uma caixa sôbre a mesa, despedi-me ràpidamente de Nazaré.
—I Olhe cá, Zacarias, disse ao prêto, que alcancei ao dobrar a esquina. Como vai seu Adrião?
— Está bom, comendo castanha.
— Você sabe se êle vem ao leilão?
i-f / Ml — Não vem, não senhor. Nem êle nem ninguém lá de casa. A sinhá mandou uma prenda, e só sai à meia-noite, prà missa.
— Meia-noite?
Dei-lhe uma prata. Logo achei aquilo insípido e deserto.
Os namoros nos degraus da igreja irritaram-me.
Desci a rua Deodoro. Com que me ia ocupar até a hora da missaí* Tirando a missa, não havia nada que prestasse.
À entrada da rua de Baixo fiquei dez minutos vacilando.
Fui à redacção da Semana. Fechada. Adiantei-me até a Bôca-de-Maceió. Voltei, andei à toa pela cidade, para matar o tempo. Entrei no Pinga-Fogo, estive quinze minutos sen tado num monte de dormentes. Às dez horas achava-me de fronte da usina eléctrica, observando, através das grades, o motor. Seguia com interesse as rotações do volante e tentava adivinhar a intenção de uns ferrinhos caprichosos, que sempre me intrigam, quando Maria do Carmo' se abeirou de mim, pediu-me cinco mil-réis. Dei-os, perguntei-lhe se tinha rece bido notícias do marido e se ainda continuava a enganá-lo.
Ela jurou que nunca havia enganado ninguém. E roçou-me as roupas, num movimento de gata. Desviei-me com uma pudicícia que não tenho e encaminhei-me para o largo.
Perto dos cavalinhos encontrei Isidoro misturado a uma leva de matutos.
— O negócio vai em hom caminho, í segredou-me. É aquela, de vermelho. Já paguei dezoito corridas, essas cria turas gostam de rodar. , E apontou uma cabocla enorme, de venta chata.
— Aquela?
— É feia de cara, mas eu não me importo com a cara.
Olhe o resto, veja que peitaria. E adeus. Nisto de cavações a gente deve estar só.
Saí, muito divertido com a conquista do Pinheiro.
— Onde tem estado o senhor escondido, que ninguém lhe põe os olhos em cima?
Era d. Josefa, que- passava com Marta. Apanhado de surpresa e sem poder fugir, tirei o chapéu, balbuciei:
— Meio adoentado, com febre. Não pude ir ao cinema.
Mas não deve expor-se, opinou Marta. O sereno faz mal.
Talvez faça. Vou recolher-me de novo.
Está pálido.
E aproveitando um momento em que a Teixeira eseolhia bugigangas num bazar, sussurrou-me algumas palavras em tom interrogativo. Respondi que sim, sem compreender.
— Pois devemos ir logo, que a missa não tarda. Josefa, seu Valério quer ver o presépio. Vamos mostrar-lhe o pre sépio.
— O presépio? É isso mesmo, concordei. Realmente.
Vamos ver o presépio.
Fomos.
— O senhor está muito beato, gracejou a Teixeira quan do entrámos. Vem também adorar o menino Jesus.
— Não senhora, vim por curiosidade. Ouvi dizer que tinham arranjado um serviço decente, quis admirar. E é um primor, com efeito, não falta nada. Boa noite, d. Eulália.
Boa noite, d. Isabel.
O cumprimento foi endereçado a duas velhotas, que mal o retribuíram: d. Eulália Mendonça, grande, e d. Isabel Mes quita, pequena, encarquilhada e quási cega, ambas de prêto, extasiadas diante das figurinhas que adornavam a estrebaria.
Marta fêz um gesto de aborrecimento. E logo se apossou das visitas, com aqueles modos encantadores que sabe ter, perguntou pelas duas Mendonça e pela saúde de Guiomar Mesquita.
As Mendonça, por aí, juntas, como sempre; Guiomar, melhor, graças a Deus. D. Isabel achou o presépio uma beleza. E voltou a contemplá-lo, pondo-lhe em cima o nariz armado de óculos. Marta, aflita, pareceu invocar a protecção de Casimira. E agradeceu. Aquilo era uma brincadeira, só para auxiliar o pobre do aleijado.
— Maravilha está em casa de d. Emiliana. As senhoras viram? O menino Jesus é de prata.
As devotas safaram-se, levadas pela imagem de prata da viúva Teixeirà.
— Uma perfeição, o rio, murmurei. Muito branco, cheio de pedras, e largo, um rio que faz gôsto. É trabalho seu, d. Marta? E aqueles patinhos de celulóide dão uma gra ç a ... Que rio será êsse, d. Josefa? É o Amazonas?
Elas aventuraram que talvez fôsse o Jordão.
— O Jordão? É verdade, deve ser o Jordão. Onde foi que Jesus nasceu? Em Nazaré... ou em B elém ... O Jordão fica por essas bandas. As senhoras sabem se êle passa por N azaré... ou por Belém? Em todo o caso deve passar perto. O Amazonas, que doidice! É o Jordão, sem dúvida.
Pois sim senhoras, um Jordão excelente.
Receberam o elogio, sérias.
— E as estatuetas do Cassiano estão magníficas. — Padre Atanásio diz que êle promete, atalhou Marta. — A senhora leu na Semana? Duas colunas na primeira página. Padre Atanásio entende. E são interessantes as figu rinhas. Um bocado pequenas, menores que o menino Deus.
— Querem tomar caie? perguntou Casimira.
Entrou. Quando voltou, com uma bandeja, a Teixeira asseverava que havia proporção nas figuras, falava em planos.
— Planos, d. Josefa? Não percebo, deve ser isso. Mais açúcar?
— Isso já passa de onze horas, exclamou a Teixeira che gando a uma janela. O senhor ouviu se bateu a segunda chamada?
— A segunda chamada. . . respondi tomando-lhe a xícara vazia. Ouvi tocar o sino, mas não sei se era a segunda.
Estivemos um instante calados. — No cinema hoje, d. Marta? perguntei para quebrar o silêncio. Hoje, dia de festa de igreja!
— Era uma fita religiosa, explicou Marta sisuda. E a madrinha queria ver a ascensão.
— O Pinheiro me contou, menti. Uma ascensão de chu peta e milagres muito razoáveis. A multiplicação dos pães. E dos peixes. Diz o Pinheiro que foi peixe a dar com um pau.
A senhora com certeza vai à missa.
— Deve ter sido a segunda, opinou a Teixeira da janela.
As Mendonça passaram, e a gente do Xavier, e a Clementina oom o promotor de banda. Aquilo pegará? Dêem-me vocês um minuto de licença. Já venho.
Casimira também se retirou, levando a bandeja.
— Até que enfim! murmurou Marta, nervosa, denun ciando-se inteiramente.
Com o cotovêlo sobre a toalha branca da estrebaria, con templei estupidamente o Jesus de biscuit, rosado e nu, a es tréia de lata que servira de guia aos reis de barro. Julgo que Marta estava, como eu, embrutecida. Tremiam-lhe os dedos, escapou-lhe um suspiro, que me lisonjeou, mas não diminuiu a perplexidade em que me achava.
— DeVe ter sido a segunda, arrisquei por fim. Um óptimo Jordão, sim senhora, com os patos. E muito obrigado pelo romance. Amanhã devolvo. Que diabo faz a d. Josefa lá dentro tanto tempo?
Ia neste ponto, esfregava as mãos e procurava meio de escapar-me, quando Luísa chegou à porta, em companhia de
-I d. Engrácia, d. Priscila e Vitorino. A Teixeira, que veioj pouco depo is, apontou-me com um gesto cômico:
— Por aqui, em adoração. Estava lá em baixo, no ba zar, chorando com febre. Quis por fôrça ver o presépio, tanto fêz que o trouxemos. Sabe muito; a geografia da Pa lestina e o Evangelho.
Luísa atirou-me um olhar de desprezo, tive a impressão de que em mim havia um desmoronamento. Nada opus aos gracejos da Teixeira. Emergi penosamente do fundo da mi nha m ú éria, dei as boas-noites a d. Engrácia e a Vitorino, articulei tremendo:
— Como vai, d. Luísa? Já me informei da saúde de seu Adrião. Julgo que melhorou.
— Vai muito bem, respondeu Luísa.
Mas êste muito bem, pelo modo como foi pronunciado, não podia ser uma resposta à minha pergunta. Era um aplauso sarcástico ao que ela, no dia do Marino Faliero, ima ginara talvez haver entre mim e Marta.
Muito bem! E ninguém entendeu. Vitorino bocejava, d. Josefa ria como uma doida, d. Engrácia cantarolava um bendito, Marta acolheu com ingenuidade o sorriso estranho de Luísa.
— Toca para a frente! comandou d. Engrácia. E não precisam mais tinta na cara. Que despotismo de tinta! Casimira, pelo sim pelo não, traga o guarda-chuva. Marcha! Os homens atrás e as mulheres adiante, era assim que no meu tempo se fazia.
— O senhor está indisposto? perguntou-me a Teixeira ao sairmos. Eu pensava que a doença fôsse mentira.
— E era. Estou bom, agradecido.
Deixei-me levar pela multidão, sem saber se ia para a missa ou para a forca. O Quadro se esvaziava, tôda a gente subia para a igreja. Ao chegar à rua de Cima, estaquei, despedi-me.
— Não vai? inquiriu Marta espantada.
— Não senhora.
— Quando eu digo que o senhor não tem juízo! galhofou a Teixeira.
E deu-me uma risada na cara.
— É isso mesmo. Boa noite.
Luísa nem voltou o rosto.
Desci a praça lentamente, aniquilado, aos encontrÕes, na turba que se deslocava em direcção oposta. Nuvens de poeira i levantavam-se, toldando as luzes. Uma velha interrogou-me quási chorando:
— Meu senhor, viu por aí um menino de chapéu de palha?
No largo, onde só ficaram os donos de botequins, per cebi um vulto junto ao convento de d. Engrácáa. Era Nicolau Varejão, que esperara a ausência da família para ir contemplar os objectos que as mãos da filha tinham tocado.
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