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Capítulo 8 · Caetés

Capítulo VIII

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DOMINGO à noite fui a casa do Teixeira. Quando Zaca rias abriu o portão, havia rumor lá em cima. Atravessei o jardim, subi a escada, cheguei à sala, aturdido.

— Ora sim senhor, disse-me Adrião. Veio arrastado, mas veio.

Luísa acolheu-me como se me tivesse visto na véspera.

Cumprimentei, com as orelhas em brasa, Vitorino, padre Atanásio, Miranda Nazaré. V i Clementina escondida entre o piano e a parede. Balbuciando, pedi informações sôbre a saúde dela. , Não ia bem.

Sim? Pois não parecia. Tanta vivacidade, tão boas co res . . .

Ela atirou-me um olhar de agradecimento e encolheu-se.

Eu ia encolher-me também, por detrás das cortinas, mas Adrião se levantou, convidou:

— Vamos para a mesa.

Entrámos. Pelo corredor o vigário prosseguiu numa arenga interrompida com a minha chegada. Era àcêrca dos nomes esquisitos que agora dão às crianças. Ao sentar-se, estava indignado:

Palavras estrangeiras. Vocês já viram? Pronúncia errada. Eu reclamo: “ Besteira, homem! Ambrósio, Guilher me, Ricardo, isto é que é” . Não querem. Extravagâncias.

De Jerônimo e Amália fazem Jerália. V cês já viram?

Serviu-se o chá. E todos assegurámos que aquilo efectivamente era atroz.

— Está claro. Eu às vezes me zango: “ Gregório, po nham-lhe Gregório, pelo amor de Deus” . Não querem.

• . Calou-se.

— Porque não tem aparecido ültimamente, João Valério?

Num sobressalto, larguei a torrada, ergui os olhos an siosos para o outro lado da mesa, tom ei a baixá-los, pertur bado, e gaguejei:

— Nem sei, minha senhora. Por aí, à to a ... Ocupações.

— V i ontem, disse Vitorino, duas figurinhas do Cassiano aleijado: um mendigo com a sacola e uni S. Miguel com a balança. Muito bonitas.

Mas Nazaré interrompeu-o. Não se capacitava de que os trabalhos do aleijado prestassem:

— Um ignorante, um analfabeto.

— Só por isso? murmurou Luísa, que protege o Cas siano.

— Naturalmente. Êle não aprendeu escultura.

— Eu achei as figurinhas engraçadas, arriscou Vitorino.

E quanto a não saber l e r . ..

— Quem é hom já nasce feito, apoiou o reverendo. V e jam o Miguel Ângelo. Agora mesmo, no livro de um francês. . . Investiu contra Nazaré:

— E Tubalcaim, homem, e Jubal, Noé, essa gente da Bíblia? Quem ensinou o Noé a fabricar vinho? Ora, o livro do fran cês... E a torre de Babel, a embrulhada das línguas?

São factos, estão nas escrituras.

— Que diz o livro? perguntou Adrião.

— Diz muito, respondeu o director da Semana. É de um francês extraordinariamente instruído. Sabe tudo. Aque las embromações do Laplace. Nebulosas, potocas. Porque o Gcncse.. . Enfim uma sabedoria imensa. Trata do sol, da lua, das estréias, de uns bichos brabos que existiram antiga mente. Dinossauros, seu Miranda? É isso mesmo. E outros;

megatérios, gliptodontes. Um monumento.

— Mas afinal, ohjectou Nazaré, que relação tem isso com os bonecos do aleijado?

V,

— Relação? fêz o vigário, espantado. Ora essa! Tem relação. Eu ainda não acabei.

Coçou a testa, aflito, tentando recordar-se. De repente, com uma alegria infantil:

— Ah! sim. É que há no livro umas estatuetas desen terradas lá por onde Judas perdeu as botas, uns bisões que têm muitos milhares de anos. Óptinios.

— O dr. Liberato afirma que as imagens do Cassiano também são óptimas, observei eu.

— O dr. Liberato? inquiriu Adrião com azedume. Que entende disso o dr. Liberato?

— Que entende? Deve entender. Não é médico? Se as imagens estivessem erradas, êle sabia.

— Pois era melhor que entendesse de medicina, replicou Adrião, descontente. Ainda não me deu uma receita que prestasse.

E com o beiço caído, cheio de amargura, grande murchidão no rosto enxofrado, mastigou impropérios em voz baixa. Em redor informaram-se do estado dêle, com soli citude. Não melhorava. Uma peste. Referiu achaques com plicados e deteve-se numa dorzinha renitente que se alojara debaixo da última costela esquerda. Houve um silêncio compujigido.

E eu pensei que o conhecimento daqueles pequeninos hisões de terracota afeiçoados pelos dedos rudes de um bárbaro, há milênios, numa caverna lôhrega entre penhascos, era para mim aq[uisição preciosa. Talvez eu pudesse tamhém, com exígua ciência e aturado esforço, chegar um dia a alinhavar os meus caetés. Não que esperasse embasbacar os povos do futuro. Oh! não! As minhas ambições são mo destas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbcarias, no cinema, na farmá cia Neves, no café Bacurau;, dissessem: “ Então já leram o romance do Valério? Ou que, na redacção da Scmano,, em discussões entre Isidoro e padre Atanásio, a minha autori dade fôsse invocada: “ Isto de selvagens e histórias velhas é com o Valério” .

— Que há de novo sôbre Manuel Tavares? perguntou Adrião depois de um longo suspiro. Parece que está pro vado que foi êle, hem?

— Próvadíssimo, confirmou Nazaré. Vão ver que ainda desta vez o júri manda para a rua aquêle bandido.

E pormenorizou a novidade de resistência: um sujeito assassinado enquanto dormia, enterrado num quintal, exu mado depois de um ano, por acaso.

— Que a polícia nunca teve intenção de prender Ma nuel Tavares. A polícia não tem intenção. Foi um par ceiro do assassino que brigou com êle e veio denunciá-lo. O móvel do crime? Vinte mil-iéis falsos e uma roupa de mes cla. Tem aí o padre Atanásio matéria para escangalhar no sçu jornal a polícia, Manuel Tavares e o conselho de sentença que o absolver.

— Se absolver, resmungou o vigário. Um caso tão mons truoso . . .

—- Absolve, não há dúvida. Está na rua, é protegido do Evaristo. E que me dizem desses artigos que estão saindo na Gazeta contra o Mesquita?

■ — Terríveis! exclamou Vitorino. Toda a sorte de ridí culos. Afinal o pobre homem não tem culpa de ser estú pido, se é estúpido.

Levantámo-nos. E íamos chegando à sala quando a cam painha retiniu e pouco depois soaram na ante-câmara os passos apressados do dr. Liberato. Entrou, distribuiu aper tos de mão, recusou o chá que Zacarias lhe trouxe, quis saber da preciosa saúde dos seus bons amigos. Apoderou-se do tabelião e dissertou abundantemente. A chegada de Isi doro interrompeu, muito a propósito, a amolação dêle. O Pinheiro trazia um jornal enrolado:

— Leram?

Todos tinham lido, menos as senhoras.

— Tremendo! opinou Adrião.

— Horroroso! acrescentou Vitorino. Estávamos falando nisso quando o doutor chegou. E eu dizia que o Fortunato não tem e u lp a ...

— Esplêndido! atalhou Nazaré erguendo os ombros, o que lhe aumentava a corcunda. Soberbo!

— Você é inimigo do Mesquita? perguntou Isidoro.

— Não, não sou inimigo de ninguém. Mas gosto da quela maneira de achincalhar um tipo. A família do Mes q u ita ... Magnífico! Heróis que lutaram com os holandeses!

A generosidade do M esquita... Impagável! Empresta cinco tostões a juro de cento por cento e espalha que fêz favor.

E as camisas do Mesquita, os colarinhos do Mesquita, a na valha de barba do M esquita...

Como Luísa e Clementina estivessem afastadas, dirigiu-se ao dr. Liberato e ao Pinheiro, baixando a voz:

— A navalha de h a r b a ... Repararam? Uma brinca deira safada. Percéberam? Uma pilhéria de arrancar conro e cabelo.

— Você não tem coração, exclamou Isidoro.

— Eu? retorquiu Nazaré alegremente. Tenho um coraçãoi razoável. Agora viver lamentando os males do vizinho, não, principalmente se o vizinho é tolo. E os artigos estão bons. Muito progrediu êle depois que publicou os outros.

— Os outros? Então o senhor conhece o autor dos arti gos? estranhou o médico.

— Conheço.

— Quem é? interrogámos todos, excitados.

Nazaré estudou as caras em roda, com pachorra:

— Não sabem? «

— Não.

— Nem suspeitam?

— Suspeitar o quê! bradou Vitorino. Não há suspeita.

Provàvelmente aquilo é da redacção: algum dinheiro que o Fortunato recusou ao Brito.

— O Brito? Qual Brito! O Brito, coitado, meteu aquilo na Gazeta, mas nem leu.

— Quem foi? gritou padre Atanásio já com raiva. Se não queria dizer, não começasse.

— E eu não ia dizer, resistiu Nazaré. É segrêdo. En fim, como os senhores insistem e estou aqui entre am igos...

foi o Evaristo.

Houve um momento de estupefacção. Em seguida ata cámos o Miranda:

— Não é possível!

— Absurdo!

— Que lembrança! '

— Foi êle, murmurou Nazaré sem se alterar. Juro por todos os san tos...

— Não jure em vão, homem, retrucou padre Atanásio.

O Barroca fêz elogios daquele tamanho ao Mesquita.

— Perfeitamente, concordou Nazaré. Mas foi êle. Lam beu os pés do Mesquita e chegou a deputado. Hoje procura derrubá-lo. Derruba.

— Tem certeza? indagou Isidoro.

— Como tenho certeza de que dois e dois são quatro, como tenho certeza de que o som diminui à medida que a distância. . .

'— Deixe lá o som, deixe a distância, atalhou Adrião. O que rios interessa é o Barroca. Se foi êle, é um miserável. — Nem por isso. Não precisa mais do outro.

— Talvez o senhor se engane, aventurou o médico.

— Qual nada! O Mesquita está no chão. Não dou três vinténs por êle. Se o Evaristo visse que não o deitava abaixo, não escrevia aquilo.

Calámo-nos impressionados, menos pelas palavras de Nazaré que pela maneira como êle as dizia. Vendo-lhe a cabecinha calva, os olhos inquietos, brilhando como contas de vidro, a ponta da língua a remexer-se, umedecendo os beiços delgados, recuei instintivamente, como se êle me pu desse morder.

Fugi para a varanda. Veio do piano um tangO' arras tado. Acendi um cigarro. As notas diluíam-se no barulho da usina eléctrica.

Na calçada do armazém fronteiro duas mulheres iam e vinham; à direita vultos esquivos esgueiravam-se para o Pernambuco-Novo; à esquerda um automóvel rodava silencioso;

em frente, além da estrada da Lagoa, negra àquela hora, tremiam ao longe pequeninos pontos luminosos.

Voltei-me. Tom ava a contemplar Luísa, oculto por de trás das cortinas, enlevado, enquanto lá dentro as conversa ções zumbiam.

— Joguem uma partida de xadrez, pediu o dr. Liberato.

Vamos apreciar isso.

Adrião sentou-se à mesa pequena, sob o lustre, e come çou a dispor as peças no tabuleiro; Nazaré, defronte dêle, estendeu-lhe as mãos fechadas, a sortear as cores:

— Peão de dama, hem?

Lá estava, grande e loura, correndo os dedos pelo teclado, indiferente e esquecida, como se, em vez de me achar ali, trincando um cigarro, eu me conservasse arredio, num quarto de pensão, compondo crônicas para a Semana ou sonhando com o bergantim de d. Pêro. Via-a — e os desejos acor davam.

Nazaré e Adrião volviam as peças com rancor. O dr.

Liberato seguia os lances da partida sem interêsse. Padre Atanásio e Isidoro cochichavam. Vitorino dormia.

Agora não era tango, era mazurca. Se Luísa me amasse, eu daria por ela de bom grado um milheiro de Martas, um milhão de Clementinas.

— Essa é boa! gritou Adrião. Dois bispos nas linhas brancas!

— É verdade. Que descuido! exclamou Nazaré tentando justificar-se.

E houve em redor do tabuleiro um debate medonho.

Aproximei-me, aféctei uma curiosidade desenxabida:

— Então? Dois bispos?

Em casas brancas! trovejou Adrião. V iu que ia per der e tirou um bispo do lugar.

Nazaré, sem se ofender, alvitrou que se reconstituísse o , jôgo.

— Não é possível. Quem sabe lá em que ponto foi isso?

— Um engano.

— Que engano! Você é cego?

Deram a partida como nula, iniciaram outra. E logo no princípio Adrião, irritado, deixou sem defesa um peão do centro, perdeu-o, moveu a dama expondo o rei a xeque de cavalo antes de rocar e soltou uma praga.

— Ó Pinheiro, recite uma poesia, pediu Vitorino, boce jando.

Isidoro desculpou-se, estava rouco.

Luísa interrompeu a mazurca e quis ouvir Clementina.

Todos aplaudiram, menos Adrião, que rosnava, e Nazaré, que amiudava os xeques. Mas Clementina relutava, debatia-

-se, enroscava-se. Enfim cedeu. Encostada ao piano, pálida, sussurrou uma cantiga lamujiante. Foi até o fim sem um gesto, e logo que terminou, já alheia ao compasso, voltou a sentar-se, agradeceu com os olhos úmidos as palmas que lhe demos e enroscou-se mais.

Eram dez horas. Zacarias entrou com uma bandeja.

Adrião, que só tinha duas peças grandes, levantou-se furioso:

— Abandono. Vamos ao café. Dama e torre. Mate de torre e dama. Não passa daí.

— Temos então o homem definitivamente grudado a Palmeira, hem Miranda? perguntou Vitorino recebendo a xícara.

— Quem? '

— O Barroca. Se é verdade o que você pensa, natural mente há-de rebentar por aqui qualquer dia, desmantelar esta geringonça, fazer de novo. Agarra-se como sanguessuga.

Eu só tenho pena do pobre do Xavier.

— Aqui é que êle não fica, disse Nazaré. Vem, toma conta das posiçóes, coloca os amigos, deixa um testa-de-ferro, o Cesário ou o administrador, dirigindo a entrosa e volta.

Depois aparece, dá uma vista às propriedades, ao gado, aos eleitores e tom a a voltar. Não fica. Aquilo é ambicioso, trepa. E se os senhores tiverem alguma pretensão, peguem-

-se com êle. Aceitem o meu consellio: peguem-se com êle.

Estava satisfeito com a queda do Mesquita e desesperado com a vitória do Barroca. Falava cortando as palavras, cons trangido: o êxito dos outros acabrunha-o.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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