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Caetés

Capítulo 10 · Caetés

Capítulo X

10 de 31 ≈ 9 min de leitura

UMA NOITE de lua cheia, no banco do jardim, Vitorino rae acirrou a paciência com a exposição arrastada e nasal dos méritos da filha, que deixara o Coração de Jesus, onde ensi nava pintura. Estive a escutá-lo uma hora.

Luísa veio descansar numa cadeira ao pé de nós. Quan do Vitorino se retirou, depois de uma extensa relação dé qua dros, disfarcei o meu enleio a observar as manchas dos tinhorões. Mudo e constrangido, levaiitei-me também.

— Já se vai embora, João Valério? perguntou Luísa com tanta simplicidade que tom ei a sentar-me.

Sobre os canteiros espalhou-se a sombra de uma nuvem.

Lembrei-me dos beijos que dei no pescoço de Luísa, imaginei que nunca teria coragem de lhe falar naquilo. Reapareceu o luar. E, sem preparar-me, balbuciei, com os olhos na platibanda do armazém fronteiro:

— Eu lhe devo uma explicação. V eja a senhora...

Calei-me, perturbado, tentei moderar a violência do coração.

— Nem sei como principiar. Nem sei o que vou dizer,

— Pois não diga, murmurou Luísa.

Procurei decifrar-lhe a intenção, o que não consegui.

Perfeitamente sossegada.

— Tem razão.

E senti um imenso desalento.

— Mas essa generosidade é terrível, desabafei quási co lérico.

— O Valério está exaltado. Não pensemos mais nisso.

— Não pensar? É o meu pensamento. A senhora de positou confiança em mim... Sou um canalha. O que eu queria era saber porque me trata dessa forma. Porque é?

Ela não respondeu. Olhou desatenta as grades do jar dim, as folhas das palmeiras, o lago do' centro, pequenino, que tem à margem a estatueta desconsolada de uma garça.

— Quando voltei, não esperava ser recebido assim. Fa la comigo como se eu prestasse. Porquê?

Esqueci a explicação a que me havia referido, fazia-lhe perguntas que nunca supuai fazer. Ela pareoeu íacordar, passou a mão pela fronte:

— O Valério é uma criança, é como se fôsse nosso filho.

E desde que está arrependido...

c : A E T E s m

— Quem lhe disse isso? Filho! Que brincadeira!

bomos da mesma idade. Não me entende. O desgosto que lhe causei• • • vivo acabrunhado. E foi aquele o único momento teliz que tive.

Essa confissão é uma indignidade, exclamou Luísa com um rigor que não achei natural.

concordei. E a senhora vai perdoar, já perdoou.

Jira melhor que me expulsasse de sua casa. Vejo-a, e não me canso de vê-la. Antes de dormir, sonho.. . Nem sei. So nho que morreria contente se lhe desse um beijo.

Cale-se, fêz ela oom leve tremor na voz.

— E o senhora sorri, quando eu chego. Acha-me tão mi serável... Nenhum ressentimento...

Pobre rapaz, disse Luísa baixinho. Deve ter sofrido muito.

Brilhavam-Uie nas pestanas traços de lágrimas, o que me causou violenta comoção.

~T havíamos de ficar inimigos? prosseguiu.

Uma leviandade sem consequência. Vive aqui há cinco anos.

Não, não é isso. Eu me explico. D erto, atalhou ela rapidamente. Vou auxiliá-lo.

Há por aí muita moça. A Clementina, coitadinha...

— A Clementina? Quem lhe pediu essa substituição?

E a senhora que eu amo, a senhora, a senhora.

Ela ergueu-se de chofre:

Fiz mal em ouvir essas loucuras.

Afastou-se quási sufocada. Compreendi então que estava num banco de jardim. E espantei-me de encontrar em redor tudo em ordem. A lua andava brincando com as nuvens, co mo se aquele extraordinário acontecimento não alterasse a harmonia do universo. Moviam-se levemente os tinhorões.

A fachada do armazém fronteiro não se tinha desmoronado.

E a garça de bronze, à beira da água, levantava a perna inútil com displicência, mostrava-me o bico num conselho mudo.

que não percebi.

Na rua, apesar da aparência calma do mundo exterior,pareceu-me que havia em qualquer parte um cataclismo.

É possível que naquele momento alguma operação se reali zasse no meu cérebro. Não tive disto nenhuma consciência, apenas sei que duas ou três frases me feriam os ouvidos, com obstinação. Ouvi distintamente alguém invisível dizer-me:

“ Pobre rapaz. Tem sofrido muito.” Passados instantes, a mesma voz continuou; “ Porque havíamos de ficar inimigos?

Uma leviandade sem consequência.”

À entrada do Pinga-Fogo, o administrador da recebedoria cumprimentou-me, parou:

— Faz o obséquio de me dar o seu fósforo?

Não retribuí o cumprimento e atentei naquele ser fantás tico, alto, magro, de preto e de gravata branca.

— Pedi-lhe fósforos.' Faz favor. . .

Meti a mão no bôlso, maquinalmente, dei-lhe a caixa de fósforos.

“ Pobre rapaz. Deve ter sofrido muito...” martelou-me a voz aos ouvidos. E pensei nas marteladas do sapateiro, que Luísa ouve.

À esquina da rua Floriano Peixoto, o Neves farmacêuti co, apertado num velho fraque de gola ensebada e roído de traças, perguntou-me se não ia ao baile da prefeitura. B a lancei a cabeça negativamente e achei o Neves absurdo.

— Festança grossa, resmungou o boticário com animação frouxa no carão chupado. É conveniente ir, agradar o Barro ca. Êsse sarapatel de política... Vai o mundo abaixo. O Mesquita passou o exercício ao Mendonça.

O Mesquita, sim. Era possível que houvesse um Mesqui ta, um Barroca, um Mendonça, outros indivíduos talvez. Não sabia para onde me encaminhava. Ia provavelmente à reda cção da Semana, mas, ouvindo música para os lados da praça da Independência, endireitei para lá, sem me despedir do Neves.

À entrada do beco do Leite, Nicolau Varejão e Silvério comentavam a mudança do destacamento policial e a demissão do promotor.

Havia agora alguma ordem nas minhas idéias. As pala vras de Luísa acompanhavam-me. Consegui dar a elas uma significação, o que ainda não tinha podido fazer.

No largo, muito tempo-fiquei encostado à esquina da pa daria, olhando as portas fechadas dos estabelecimentos comer ciais, as bandeiras de papel esvoaçando em honra de Evaristo Barroca,» a frontaria salpicada de luzes do paço municipal.

Nas trevas do meu; espírito faiscavam milhares de vaga-

-lumes. Porque me deixara Luísa entrar, depois de longa au sência, na intimidade do casarão dos Italianos? Que podia ela esperar de mim? “ O Valério é como se fôsse um filho.”

Despropósito. Depois a lembrança de querer impingir-me a Clementina. E hesitação, ambiguidade.

Aproximei-me vagarosamente do local da festa, cheguei-

-me a uma das janelas, onde o sereno afluía.

Poucos pares. Nas cadeiras, senhoras graves, de ar bi cudo: d. Eulália Mendonça e as duas filhas, as xifópagas, como lhes chama o dr. Liberato, porque andam sempre juntas;

a m her do juiz de direito; d. Josef a Teixeira, miudinha, lourinha, a línica que parecia à vontade, linda muchacha, con versando com uma criatura agreste, sardenta e de tromba; Cle mentina, outras. Pelos cantos, indivíduos contrafeitos m u n a elegância precária: Miranda Nazaré, mais magi’ o, mais curva do, de queixo mais agudo; o juiz de direito; Vitorino, cabis baixo, sonolento; o Monteiro agiota, com a barba crescida;

Mendonça pai, que é Cesário, e Mendonça filho, que é Valentim; eleitores bisonhos, os membros do conselho, sujeitos des conhecidos, de Quebrangulo e Santana do Ipanema. Apmmado e encasacado, Evaristo Barroca discorria com o delega do regional.

No apertão que havia na calçada, Maria do Carmo asse verava ao regente da filarmônica:

— Todo o mundo sabe que eu sou uma mulher honesta.

O regente da filarmônica afastou-se dela e perguntou a Xavier filho se o Mesquita estava na fazenda. Xavier filho explicou que êle se havia metido em casa, porque d. Guiomar adoecera, que não precisava de política para viver e que aquela mudança era um benefício que lhe tinham feito. O outro con cordou. E quis saber se eu pertencia ao partido do dr.

Barroca.

— Uma mulher honesta, repetiu Maria do Carmo. Não sou disso, todo o mundo sabe.

Retirei-me, atravessei o Quadro, entrei no café Bacurau.

Porque me dissera Luísa aquelas palavras equívocas?

— Que é que vai, seu Valério? gritou Bacurau, que esta va trepado numa escada, desceu quando me viu. Cerveja?

— Conhaque.

Êle trouxe a garrafa e voltou-se para Isidoro, que entrava:

— Conhaque, seu Pinheiro?

— Café, bacurônico amigo, respondeu Isidoro sentando-

-se à minha mesa.

E logo me interpelou com azedume:

— Então não vai, hem?

— Não.

— Pois é tolice. Podia encontrar ocasião de falar com a Marta, que deve ir para lá. Olhe.

Apontou Marta Varejão, que saía do convento, em compa nhia da madrinha.

— Para que diabo quer a d. Engrácia um guarda-chuva a esta hora, com um luar deste? perguntou noutro tom.

Bebeu o café, levantou-se:

kl

— Não nos poderá arranjar uma beberagem menos inde cente, Bacurau? A vida inteira este café marca peste para dar aos fregueses, homem! Muito perde você, João Valério.

— Não perco nada. Que me importa essa corja?

— Quem? O Evaristo...

— Todos. Uns malandros.

— Que entende você disso? exclamou Isidoro com se veridade. Política é escrituração mercantil? Ainda hoje me dizia o Miranda. . . Não venha com os seus modos de troça, que o Miranda está no segrêdo da política. Conhece tudo, tem faro, fique sabendo. E adeus, vou meter-me naquele fox-

-trot. Eu dou o cavaco pelos fox-trots. A rivederci, como diz o Pascoal.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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