Universo da obra
Universo da obra
O DR. LIBERATO, de perna estirada, mostrando a meia de sêda preta, a esmeralda no índice pedagógico, acabava de contar a história de um colega dêle que, em exame de anato mia, tinha dito do útero: “ Ê o laboratório da humanidade.*'* Não achámos graça, esperámos que o narrador conti nuasse a anedota, e quando vimos que estava concluída, afectámos um risinho inexpressivo. Nazaré, que ouvira distraído, riu fora do tempo, e padre Atanásio, encostando as orelhas aos ombros, declarou que a definição não deixava de ser justa:
o útero era aquilo mesmo. O doutor, meio desorientado, com as lunetas faiscando de indignação, tentou explicar-nos que o útero é um órgão situado. . .
Calou-se, porque à portinhola da grade assomou d. Josefa Teixeira, gordinha, com duas covas no rosto vermelho, riso nha e cumprimenteira, em companhia da rapariga sarden ta que estivera com ela dias antes no baile da prefeitura. V i nha encomendar um cento de cartões.
— Cartões? disse o reverendo levantando-se. Perfeitamente. Cartões! sargento. Façam o favor de sentar-se.
Como as cadeiras eram insuficientes, eu e o vigário ficamos de pé. O sargento trouxe a colecção de amostras.
Enquanto as senhoras escolhiam, aproximei-me de Isidoro, olhei a notícia que êle preparava: “ Deu-nos o prazer da sua encantadora visita a senhorita Josefa Teixeira, dilecta filha do abastado comerciante e nosso particular amigo Vitorino Teixeira, que nos encantou em deliciosa palestra com os sublimados dotes do seu espírito.”
O noticiarista levantou a pena e atirou-me ao ouvido:
— Êste sublimados aqui não está mau, hem?
— Está óptimo. Está igual ao Camões. Mas como você fêz, parece qu,e a conversa foi com o Vitorino.
— Ora essa! Realmente, exclamou Isidoro desaponta do. Desmanchar tudo !
— Não é preciso, sussurrou padre Atanásio, que se acer cara, lera o período. Deite um ponto no Vitorino Teixeira, corte o que e meta depois A visitante. Pronto. A visitante sem vírgula, é melhor sem vírgula.
Louvei sinceramente a inteligência de padre Atanásio e aconselhei também:
— Acho hom suprimir o encantou, que já há uma encan tadora atrás. Ponha cativou, fica esplêndido. E a senho rita, risque a senhorita, para não rimar com visita. Escreva d. Josefa Teixeira, como nós chamamos. Deixe a senhorita para a outra.
O jornalista aceitou os conselhos.
— E a outra? Quem é a outra?
Aheirei-me da mesa, onde a escolha se eternizava. Não descobriam tipo que agradasse.
— Como se chama essa sua companheira? perguntei em voz baixa à Teixeira moça.
Dão-lhe êste nome para distinguí-la de uma criatura que também é Teixeira, mas de família diferente: d.Emiliana Tei xeira, a Teixeira velha.
D. Josefa pôs têrmo à encomenda e apresentou d. Pris cila Fernandes, professora do Coração de Jesus. Isidoro, que não ouviu, inlerrogou-me com a cabeça.
— Priscila, segredou-lhe o director da folha. D. Prisci la Fernandes, d. Priscila com dois ll.
A Teixeira, que se ia embora, voltou da porta, convidou sorrindo :
— Já me ia esquecendo. Vão jantar todos lá em casa amanhã.
Nazaré estranhou o convite:
— Todos? Que é que há no Pinga-Fogo? É festa?
— É o aniversário do papai.
— Essa agora! bradou o Pinheiro com uma palmada na testa. Que memória a minha! Pois eu tenho tudo isto ano tado.
Abriu a gaveta da banca, tirou um registro, folheou-o:
— Exactamente, vinte e um de Dezembro, está aqui. On de ando eu com a cabeça? A senhora caiu do céu, d. Josefa.
Pôs um linguado sobre a pasta e entrou a redigir vagaro samente.
— Às quatro horas, acrescentou a Teixeira. Um cento, reverendo, com envelopes. Quatro horas.
Despediu-se mostrando os dentinlios brancos. D. Prisci la Fernandes também nos deu utn sorriso trombudo. E par tiram.
— Era o que faltava! exclamou Isidoro. Deixar de publicar o aniversário do Vitorino, um amigo!
Apanhou sorrateiramente o dicionário e, com êle nas per nas, fêz uma consulta rápida. Emendou a última linha e cha mou o compositor:
— Sargento, olhe isto. Entrelinhado, corpo dez, no prin cípio das Sociais.
O tipógrafo calculou;
— Não há espaço. Estão impressas três páginas. Não há espaço. Salvo Ise eu retirar o anúncio dos calos.
— Retire, concordou padre Atanásio. O anúncio dos calos é pequeno, não serve de nada. Retire o anúncio dos calos.
— Como ia dizendo, recomeçou o dr. Liberato, o útero...
— O doutor já disse, atalhou Nazaré. Órgão da gesta ção. Isso mesmo, em forma de pêra, o doutor já disse.
E quis saber de quem era o artigo sobre a caridade que saíra no domingo anterior. Como não era de nenhuma das pessoas presentes, achou aquilo, com franqueza, um disparate.
— Exagero, opinou Isidoro. O artigo está bom, o au tor conhece gramática.
— Quem se importa com gramática? O fabricante da quela xaropada é um idiota.
— Porque defende a caridade?
— Por tudo. Um fonógrafo.
— Mas a caridade... arriscou padre Atanásio.
— Os senhores são incoerentes, gritou Nazaré. No mes mo número vinha uma coluna reclamando a intervenção da polícia contra a mendicidade. Reclamação justa, porque en fim todos nós reconhecemos... Nada disso, padre Atanásio.
Que préstimo tem essa gente?
Como a coluna havia sido feita por mim, achei o tabelião Miranda um sujeito de senso.
— Que utilidade tem essa récua? prosseguiu êle. Eu queria ver tudo morto. Pode ficar tranqüilo, não se perdia nada. A eutanasia...
Mas o dr. Liberato se declarou inimigo da eutanasia.
Abusou de expressões científicas e alegou a fragilidade dos conhecimentos humanos. Nazaré, que escutara esbrugando o polegar com os dentes, aplicou-lhe, quando êle se calou, razões desconcertadoras. Embrenharam-se numa discussão difícil, e ninguém os pôde acompanhar. Isidoro rabiscou um pedaço de papel, escondeu-o no bôlso, e o vigário, que examinava pensativo a cabeleira revolta do médico, aproveitou uma brecha na polêmica, manifestou-se:
— Tudo isso está muito bem, mas, digam lá o que disse rem, a caridade é a caridade, e ninguém me tira disto. Os se nhores não ignoram que o Evangelho... Perfeitamente, o Evangelho, e porque não? O Evangelho! Uma revista que li...
Afinal a revista não influi no caso. Mas veja a história da mulher adúltera, seu Miranda. Veja a cena em casa de Simão, o fariseu. Veja o bom samaritano.
— Qual fariseu! bradou Nazaré. Qual samaritano!
Não há samaritano, o que há é uma súcia de vagabundos que exploram a gente e merecem cacêle. E chegou a propósito o Nicolau Varejão, que vai falar sôbre o bom samaritano.
— Hem? que samaritano? inquiriu Nicolau Varejão en trando. Quem é êle?
— Um bodegueiro que mora na banda de lá do açude, explicou o Miranda. Existiu antigamente na Palestina e for neceu assunto a S. Lucas. Mas faz muito tempo, foi noutra encarnação.
Nicolau, que tem mêdo do vigário, não gostou da pilhé ria e enrugou a cara, resmungando evasivas covardes. Não conhecia S. Lucas, sempre fôra bom católico, assim Deus p ajudasse, e espiritismo era com o farmacêutico.
Padre Atanásio encarou-o erguendo os ombros, mas nós o acolhemos ruidosamente. Isidoro deu-lhe a cadeira e sem tou-se na mesa. Porque se estava vendendo tão çaro? A pre sença dêle naquela casa era uma necessidade para todos, era, como um banho de alegria que a alma da gente tomava. Ou-, vindo falar em banho, olhei as mãos de Nicolau, horrivelmen te sujas..
— É bondade dos senhores, fêz êle já desanuviado, escanchando-se na cadeira, cruzando os braços sôbre o encosto,.
Que vale um pobre como eu?
O vigário, incapaz
— Modéstia! gritou Isidoro. O senhor tem uma imaginação baita. Ia agora contar aos amigos aquilo de ontem à noite, no Bacurau. Fiquei impressionado, seu Varejáo.
— Sim? Acudiu Nicolau radiante. Pois eu apenas repeti as informações dos jornais. Foi um caso divulgado, rolou por êste Brasil todo. Os senhores com certeza leram.
O Correio da Manhã, o instado de S. Paulo, outro de nome íirievesado, pmblicaram. E eu, que não gosto de propaganda, até me acanhei.
— Conte lá isso, pediu Nazaré.
— Já vocês começam, intrometeu-se de zombaria.
Ninguém lhe deu ouvidos.
— Vamos, tomou o Miranda.
Nicolau Varejáo tomou a palavra:
1922 foi um ano safado, o princípio dessa encrenca de revolução. O tempo que passei no Rio...
— Esteve no Rio? inquiriu o dr. Liberato.
— Em 1922. Fui vender papagaios. Garantiram-me que era bom negócio, mas a bordo morreu tudo. Papagaio a bor do morre, é um bicho desgraçado para morrer depressa. De sembarquei com o bôlso limpo e não pude ganhar dinheiro para voltar. Andei por lá uns meses, de tanga, procurando passagem, comendo na banda podre. Veio o furdunço. E, como não linha que fazer da vida, peguei no pau-furado.
— O eenhor entrou na revolução? perguntei.
— No forte de Copacabana. Estava mesmo disposto a suicidar-mc. A bandeira cortada, lembram-se? Os jornais publicaram. Quando os rapazes saíram da fortaleza, eu ia na frente, com um pedaço de pano amarrado no braço. Ordem e Progresso, imaginem. Aqui, no braço direito. Já viram algum combate?
Não, gi-aças a Deus.
— Então não fazem idéia. As balas choviam por tôda a parte: zum, zum, zum... Depois da briga, apanharam um bando de alqueires delas. Os senhores devem ter lido.
Ninguém tinha lido. E o resto?
— Ah! Foi o diabo, por detrás dos sacos de areia. Ma támos soldado à bessa. Caíam às pencas, nunca vi tanto defunto. Só deixei de atirar quando não tinha fôrça no dedo para puxar o gatilho, i Acendeu um cigarro.
— Findo o combate, deitaram-me na padiola. Mais de cinquenta ferimentos. Aqui por cima não, mas da barriga para baixo era uma peneira. Nem sei como escapei. O Calógeras, que estava junto, segurou-me a cabeça e recomendou: “Cuidado com o homem”. No dia seguinte o Epitácio visitou-me no hospital e repreendeu-me; “Pois você, seu Nicolau, um sujeito de coragem, virar maluco!” E eu respondi:
“É verdade, seu presidente, o mundo é um pau com formigas”. Os senhores não leram nas folhas?
— Espere! atalhou o dr. Liberato. Assim é de mais.
Isso foi com o Siqueira Campos.
— O Siqueira Campos? replicou o herói indignado. Então o senhor não leu a Gazeta de Notícias. Foi comigo.
O Siqueira Campos! Tinha graça. Êle também andou lá, bom camarada, valente como cachorro doido. Aí está uma prova.
E deu as costas.
— Que prazer sentem vocês em bulir com essa criatura?
disse o vigário. É uma falta de caridade. Ora vejam. Está vamos falando de caridade.
— Não sei, padre Atanásio, respondi. Gosto dêle. E terdio a impressão de que tu,do aquilo é verdade.
— Talvez seja, murmurou Nazaré. Talvez seja uma ver dade como as outras.
— An! grunhiu Isidoro.
E olhou; oom ar enfastiado as biqueiras dos sapatões quarenta e dois. O tabelião e o doutor embrenharam-se numa cavaqueira cerrada. O reverendo escutava com os bugalhos atentos fixos nêles, balançava a cabeça, diligenciando com preender. Achei a conversa muito filosófica, pensei em Adrião, despedi-me, arrastei o Pinheiro, que estava quási a dormir.
Acenderam-se as lâmpadas da iluminação pública.
— Preciso fazer um brinde amanhã, no jantar do Tei xeira, rosnou Isidoro. Que palavras esquisitas êles arranjam!
Tirou do bôlso um papel, chegou-o aos olhos:
— Que diabo quer dizer eutanasia?
Eu também ignorava.
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