Leia agora
Caetés

Universo da obra

Caetés

Capítulo 11 · Caetés

Capítulo XI

11 de 31 ≈ 11 min de leitura

O DR. LIBERATO, de perna estirada, mostrando a meia de sêda preta, a esmeralda no índice pedagógico, acabava de contar a história de um colega dêle que, em exame de anato mia, tinha dito do útero: “ Ê o laboratório da humanidade.*'* Não achámos graça, esperámos que o narrador conti nuasse a anedota, e quando vimos que estava concluída, afectámos um risinho inexpressivo. Nazaré, que ouvira distraído, riu fora do tempo, e padre Atanásio, encostando as orelhas aos ombros, declarou que a definição não deixava de ser justa:

o útero era aquilo mesmo. O doutor, meio desorientado, com as lunetas faiscando de indignação, tentou explicar-nos que o útero é um órgão situado. . .

Calou-se, porque à portinhola da grade assomou d. Josefa Teixeira, gordinha, com duas covas no rosto vermelho, riso nha e cumprimenteira, em companhia da rapariga sarden ta que estivera com ela dias antes no baile da prefeitura. V i nha encomendar um cento de cartões.

— Cartões? disse o reverendo levantando-se. Perfeitamente. Cartões! sargento. Façam o favor de sentar-se.

Como as cadeiras eram insuficientes, eu e o vigário ficamos de pé. O sargento trouxe a colecção de amostras.

Enquanto as senhoras escolhiam, aproximei-me de Isidoro, olhei a notícia que êle preparava: “ Deu-nos o prazer da sua encantadora visita a senhorita Josefa Teixeira, dilecta filha do abastado comerciante e nosso particular amigo Vitorino Teixeira, que nos encantou em deliciosa palestra com os sublimados dotes do seu espírito.”

O noticiarista levantou a pena e atirou-me ao ouvido:

— Êste sublimados aqui não está mau, hem?

— Está óptimo. Está igual ao Camões. Mas como você fêz, parece qu,e a conversa foi com o Vitorino.

— Ora essa! Realmente, exclamou Isidoro desaponta do. Desmanchar tudo !

— Não é preciso, sussurrou padre Atanásio, que se acer cara, lera o período. Deite um ponto no Vitorino Teixeira, corte o que e meta depois A visitante. Pronto. A visitante sem vírgula, é melhor sem vírgula.

Louvei sinceramente a inteligência de padre Atanásio e aconselhei também:

— Acho hom suprimir o encantou, que já há uma encan tadora atrás. Ponha cativou, fica esplêndido. E a senho rita, risque a senhorita, para não rimar com visita. Escreva d. Josefa Teixeira, como nós chamamos. Deixe a senhorita para a outra.

O jornalista aceitou os conselhos.

— E a outra? Quem é a outra?

Aheirei-me da mesa, onde a escolha se eternizava. Não descobriam tipo que agradasse.

— Como se chama essa sua companheira? perguntei em voz baixa à Teixeira moça.

Dão-lhe êste nome para distinguí-la de uma criatura que também é Teixeira, mas de família diferente: d.Emiliana Tei xeira, a Teixeira velha.

D. Josefa pôs têrmo à encomenda e apresentou d. Pris cila Fernandes, professora do Coração de Jesus. Isidoro, que não ouviu, inlerrogou-me com a cabeça.

— Priscila, segredou-lhe o director da folha. D. Prisci la Fernandes, d. Priscila com dois ll.

A Teixeira, que se ia embora, voltou da porta, convidou sorrindo :

— Já me ia esquecendo. Vão jantar todos lá em casa amanhã.

Nazaré estranhou o convite:

— Todos? Que é que há no Pinga-Fogo? É festa?

— É o aniversário do papai.

— Essa agora! bradou o Pinheiro com uma palmada na testa. Que memória a minha! Pois eu tenho tudo isto ano tado.

Abriu a gaveta da banca, tirou um registro, folheou-o:

— Exactamente, vinte e um de Dezembro, está aqui. On de ando eu com a cabeça? A senhora caiu do céu, d. Josefa.

Pôs um linguado sobre a pasta e entrou a redigir vagaro samente.

— Às quatro horas, acrescentou a Teixeira. Um cento, reverendo, com envelopes. Quatro horas.

Despediu-se mostrando os dentinlios brancos. D. Prisci la Fernandes também nos deu utn sorriso trombudo. E par tiram.

— Era o que faltava! exclamou Isidoro. Deixar de publicar o aniversário do Vitorino, um amigo!

Apanhou sorrateiramente o dicionário e, com êle nas per nas, fêz uma consulta rápida. Emendou a última linha e cha mou o compositor:

— Sargento, olhe isto. Entrelinhado, corpo dez, no prin cípio das Sociais.

O tipógrafo calculou;

— Não há espaço. Estão impressas três páginas. Não há espaço. Salvo Ise eu retirar o anúncio dos calos.

— Retire, concordou padre Atanásio. O anúncio dos calos é pequeno, não serve de nada. Retire o anúncio dos calos.

— Como ia dizendo, recomeçou o dr. Liberato, o útero...

— O doutor já disse, atalhou Nazaré. Órgão da gesta ção. Isso mesmo, em forma de pêra, o doutor já disse.

E quis saber de quem era o artigo sobre a caridade que saíra no domingo anterior. Como não era de nenhuma das pessoas presentes, achou aquilo, com franqueza, um disparate.

— Exagero, opinou Isidoro. O artigo está bom, o au tor conhece gramática.

— Quem se importa com gramática? O fabricante da quela xaropada é um idiota.

— Porque defende a caridade?

— Por tudo. Um fonógrafo.

— Mas a caridade... arriscou padre Atanásio.

— Os senhores são incoerentes, gritou Nazaré. No mes mo número vinha uma coluna reclamando a intervenção da polícia contra a mendicidade. Reclamação justa, porque en fim todos nós reconhecemos... Nada disso, padre Atanásio.

Que préstimo tem essa gente?

Como a coluna havia sido feita por mim, achei o tabelião Miranda um sujeito de senso.

— Que utilidade tem essa récua? prosseguiu êle. Eu queria ver tudo morto. Pode ficar tranqüilo, não se perdia nada. A eutanasia...

Mas o dr. Liberato se declarou inimigo da eutanasia.

Abusou de expressões científicas e alegou a fragilidade dos conhecimentos humanos. Nazaré, que escutara esbrugando o polegar com os dentes, aplicou-lhe, quando êle se calou, razões desconcertadoras. Embrenharam-se numa discussão difícil, e ninguém os pôde acompanhar. Isidoro rabiscou um pedaço de papel, escondeu-o no bôlso, e o vigário, que examinava pensativo a cabeleira revolta do médico, aproveitou uma brecha na polêmica, manifestou-se:

— Tudo isso está muito bem, mas, digam lá o que disse rem, a caridade é a caridade, e ninguém me tira disto. Os se nhores não ignoram que o Evangelho... Perfeitamente, o Evangelho, e porque não? O Evangelho! Uma revista que li...

Afinal a revista não influi no caso. Mas veja a história da mulher adúltera, seu Miranda. Veja a cena em casa de Simão, o fariseu. Veja o bom samaritano.

— Qual fariseu! bradou Nazaré. Qual samaritano!

Não há samaritano, o que há é uma súcia de vagabundos que exploram a gente e merecem cacêle. E chegou a propósito o Nicolau Varejão, que vai falar sôbre o bom samaritano.

— Hem? que samaritano? inquiriu Nicolau Varejão en trando. Quem é êle?

— Um bodegueiro que mora na banda de lá do açude, explicou o Miranda. Existiu antigamente na Palestina e for neceu assunto a S. Lucas. Mas faz muito tempo, foi noutra encarnação.

Nicolau, que tem mêdo do vigário, não gostou da pilhé ria e enrugou a cara, resmungando evasivas covardes. Não conhecia S. Lucas, sempre fôra bom católico, assim Deus p ajudasse, e espiritismo era com o farmacêutico.

Padre Atanásio encarou-o erguendo os ombros, mas nós o acolhemos ruidosamente. Isidoro deu-lhe a cadeira e sem tou-se na mesa. Porque se estava vendendo tão çaro? A pre sença dêle naquela casa era uma necessidade para todos, era, como um banho de alegria que a alma da gente tomava. Ou-, vindo falar em banho, olhei as mãos de Nicolau, horrivelmen te sujas..

— É bondade dos senhores, fêz êle já desanuviado, escanchando-se na cadeira, cruzando os braços sôbre o encosto,.

Que vale um pobre como eu?

O vigário, incapaz

— Modéstia! gritou Isidoro. O senhor tem uma imaginação baita. Ia agora contar aos amigos aquilo de ontem à noite, no Bacurau. Fiquei impressionado, seu Varejáo.

— Sim? Acudiu Nicolau radiante. Pois eu apenas repeti as informações dos jornais. Foi um caso divulgado, rolou por êste Brasil todo. Os senhores com certeza leram.

O Correio da Manhã, o instado de S. Paulo, outro de nome íirievesado, pmblicaram. E eu, que não gosto de propaganda, até me acanhei.

— Conte lá isso, pediu Nazaré.

— Já vocês começam, intrometeu-se de zombaria.

Ninguém lhe deu ouvidos.

— Vamos, tomou o Miranda.

Nicolau Varejáo tomou a palavra:

1922 foi um ano safado, o princípio dessa encrenca de revolução. O tempo que passei no Rio...

— Esteve no Rio? inquiriu o dr. Liberato.

— Em 1922. Fui vender papagaios. Garantiram-me que era bom negócio, mas a bordo morreu tudo. Papagaio a bor do morre, é um bicho desgraçado para morrer depressa. De sembarquei com o bôlso limpo e não pude ganhar dinheiro para voltar. Andei por lá uns meses, de tanga, procurando passagem, comendo na banda podre. Veio o furdunço. E, como não linha que fazer da vida, peguei no pau-furado.

— O eenhor entrou na revolução? perguntei.

— No forte de Copacabana. Estava mesmo disposto a suicidar-mc. A bandeira cortada, lembram-se? Os jornais publicaram. Quando os rapazes saíram da fortaleza, eu ia na frente, com um pedaço de pano amarrado no braço. Ordem e Progresso, imaginem. Aqui, no braço direito. Já viram algum combate?

Não, gi-aças a Deus.

— Então não fazem idéia. As balas choviam por tôda a parte: zum, zum, zum... Depois da briga, apanharam um bando de alqueires delas. Os senhores devem ter lido.

Ninguém tinha lido. E o resto?

— Ah! Foi o diabo, por detrás dos sacos de areia. Ma támos soldado à bessa. Caíam às pencas, nunca vi tanto defunto. Só deixei de atirar quando não tinha fôrça no dedo para puxar o gatilho, i Acendeu um cigarro.

— Findo o combate, deitaram-me na padiola. Mais de cinquenta ferimentos. Aqui por cima não, mas da barriga para baixo era uma peneira. Nem sei como escapei. O Calógeras, que estava junto, segurou-me a cabeça e recomendou: “Cuidado com o homem”. No dia seguinte o Epitácio visitou-me no hospital e repreendeu-me; “Pois você, seu Nicolau, um sujeito de coragem, virar maluco!” E eu respondi:

“É verdade, seu presidente, o mundo é um pau com formigas”. Os senhores não leram nas folhas?

— Espere! atalhou o dr. Liberato. Assim é de mais.

Isso foi com o Siqueira Campos.

— O Siqueira Campos? replicou o herói indignado. Então o senhor não leu a Gazeta de Notícias. Foi comigo.

O Siqueira Campos! Tinha graça. Êle também andou lá, bom camarada, valente como cachorro doido. Aí está uma prova.

E deu as costas.

— Que prazer sentem vocês em bulir com essa criatura?

disse o vigário. É uma falta de caridade. Ora vejam. Está vamos falando de caridade.

— Não sei, padre Atanásio, respondi. Gosto dêle. E terdio a impressão de que tu,do aquilo é verdade.

— Talvez seja, murmurou Nazaré. Talvez seja uma ver dade como as outras.

— An! grunhiu Isidoro.

E olhou; oom ar enfastiado as biqueiras dos sapatões quarenta e dois. O tabelião e o doutor embrenharam-se numa cavaqueira cerrada. O reverendo escutava com os bugalhos atentos fixos nêles, balançava a cabeça, diligenciando com preender. Achei a conversa muito filosófica, pensei em Adrião, despedi-me, arrastei o Pinheiro, que estava quási a dormir.

Acenderam-se as lâmpadas da iluminação pública.

— Preciso fazer um brinde amanhã, no jantar do Tei xeira, rosnou Isidoro. Que palavras esquisitas êles arranjam!

Tirou do bôlso um papel, chegou-o aos olhos:

— Que diabo quer dizer eutanasia?

Eu também ignorava.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Caetés

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Caetés

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Caetés

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Caetés Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 11 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Caetés

Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir