Leia agora
Caetés

Universo da obra

Caetés

Capítulo 12 · Caetés

Capítulo XII

12 de 31 ≈ 24 min de leitura

QUANDO me ia acabando de vestir para o jantar de Vitorino, Isidoro entrou, já pronto:

— Descobri agora que o Pascoal esqueceu o italiano.

Esqpeceu tudo.

Pascoal, zangado, gritou do quarto que ainda se recor dava de sporco, vigliaco, birhante, E para demonstrar melhor os seus conhecimentos, largou-lhe uma expressão obs cena, em italiano também. Isidoro, óptimo, sorriu sem se ofender e pôs-se a escovar as abas imensas do chapéu. Avivou o lustre dos sapatos com uma camisa que encontrou num canto e penteou-se, puxando para a testa os cabelos, que lhe vão escasseando. Depois chegou à porta: '

— O dr. Liberato já veio, d. Maria?

— Não senhor. O Xavier diz que a moça está pior.

— Que diabo! exclamou Isidoro. Um companheiro de menos, um companheiro tão bom! E não preparei o brinde.

Falo de improviso. Você não acabará de amarrar essa gra vata, homem?

— O doutor não vai?

— Julgo que não. Está em casa do Mesquita. É por causa da Guiomar, que adoeceu. Tenho pena do Mesquita, boa pessoa. Fizeram-lhe muita picuinha, muita canalhice.

Política é uma desgraça. Você está pronto?

Saímos. Quando dobrávamos a esquina da padaria, Isi doro quis ir ao Bacurau, comprar cigarros. . Lá chegando, sentou-se, consultou o relógio, pediu conhaque. E, embor cando o cálice:

— Que é que eu digó no improviso? Dê-me uma idéia, estou inteiramente ôco. Uma sugestão qualquer. Não? Que maçada! E eu que desde ontem tinha o projecto de escrever o diabo do hrinde! Acabou-se, fica para o ano vindouro, se o Vitorino fôr vivo.

— Maçada vamos aguentar lá, que os jantares dêle são.

fúnebres. A mulher paralítica, e tudo escuro, tudo fechado...

— Isso é quando a d. Josefa não está aí. Agora que veio do colégio é outra coisa. A propósito, você viu como a .

Teixeira voltou; bonita? Sim senhor, um pancadão. Isto de saias eu conheço bem. Cada perna!

— Deixe as canelas da moça, devasso*, E levantei-me. — Espere aí. Ainda faltam quinze minutos. Bacuríssimo amigo, traga também cigarros. Êste conhaque é uma infâmia. Ponha tudo na conta. E estes cigarros estão fura dos. Não tem outros aí com menos buracos? Não tem?

Vamos lá, seu Valério.

Na rua acendeu upi cigarro, deitou fora, acendeu outro, tomou a deitar fora, acendeu o terceiro:

— Pois, menino, aquilo é um femão. A cara, os braços, com os diabos! E as pernas são bonitas, palavra, que eu ontem reparei. Até fiquei entusiasmado, homem!

À entrada do Pinga-Fogo encontrámos Adrião e Luísa.

— Vão ao jantar? perguntaram.

— Vamos ao jantar.

E senti um baque no peito. Retardámos o passo, acom panhando a marcha claudicante de Adrião. Procurei debalde uma palavra, e o Pinheiro, que entende hem de saias, mas não sabe falar com senhoras, gaguejou:

— Como vai o sapateiro, d. Luísa?

— Mal, coitado. Andam com uma subscrição para êle.

Fora ela que sugerira a subscrição e dera quási tudo.

Na véspera eu a tinha visto entrar sorrateiramente na oficina do desgraçado, com Zacarias preto, que levava um pacote.

— Creio que somos os últimos, observou Adrião quando chegámos.

Havia lá dentro um rumor de conversações misturadas.

— Não se perde nada com a falta do meu brinde, sussurrou-me o Pinheiro. Está cá o Barroca, temos falação na mesa, que aquele diabo nasceu para discursador.

Realmente Evaristo Barroca, cercado, em evidência na sala cheia de flores, explicava a padre Atanásio que a sã política é filha da moral e da razão. Recuei um pouco para deixar livre a passagem ao cásal Teixeira:

— Eu já li aquilo. Você sabe de quem é aquilo?

— O quê? A sã política? É dêle, respondeu Isidoro.

O Barroca tem inteligência, tem cultura.

Entrámos. E a nossa presença quási passou desperce bida entre as efusões com que rodearam Luísa, Adrião, um sujeito gordo e moreno que surgiu logo depois. Evaristo dispensou-me um acolhimento protector, muito de cima para baixo, e eu me senti humilhado.

Evitei-o bruscamente e fui dizer a Vitorino que o dr.

Liberato estava em casa do Mesquita.

— Jantar em casa do Mesquita?

— Não, doença da filha.

I ' ■ Houve um rápido silêncio de constrangimento. E foi Evaristo que o quebrou lamentando, em tom de grande má goa, o desagradável acontecimento que eu havia noticiado.

Asseverava, sempre asseverara, que Fortunato Mesquita, como particular, era um cidadão de conduta irreprochável. Gravei na memória esta palavra, para procurar a significação dela no dicionário, e aproximei-me de um grupo de moças, pedi informações sôbre a saúde de d. Mariana.

— Assim,. assim, na cama, respondeu a Teixeira com desconsolo.

Em seguida, movendo o braço roliço carregado de aros, cobras de ouro que tilintaram, repreendeu-me com o dedinho erguido, lembrou-me que fazia um mês que viera do colégio e ainda não me vira ali. Quando se resolvia o senhor Diver sos a Diversos a deixar de ser ingrato?

— Diversos eu, d. Josefa? Sou apenas um, infelizmente.

Se fôsse ao menos quatro, ficava muito bem, entre as senhoras.

E mostrei as outras: Marta Varejão, coberta de panos, Clementina, que se derretia para o sujeito gordo, d. Priscila Fernandes, carrancuda. Reflecti um momento e, em falta de objecto melhor, joguei d. Engrácia na conversa. Estava lá dentro, com Luísa, em visita a d. Mariana.

A Teixeira pediu licença para ir dar uma vista à mesa.

Marta chegou-se ao piano, começou a remexer músicas.

E veio-me à lembrança uma noite de Fevereiro, cheia de movimento e doidice, com automóveis rolando no Quadro, a arrastar longas fitas de serpentinas, foliões invadindo o tea tro, numa algazarra dos demônios. Nessa noite de carnaval derramei no pescoço de Marta um lança-perfume, e ela me disse qualquer coisa em francês a respeito da facilidade com que se juntam as pessoas que se assemelham. Não atinei logo com o sentido na frase; depois julguei perceb er uma alusão à semelhança que talvez exista entre mim e ela. Passa dos alguns dias, encontrei uma resposta qu« podia ter apli cado. História velha. Já lá iam dez meses.

D. Priscila desfranziu a tromba, expôs a dentuça a Cle mentina, achou por condescendência a cidade encantadora.

Olhei com agrado os heiços vermelhos de Marta, bons para morder, e, atraído por um sorriso, acerquei-me dela, pergun tei-lhe se se tinha divertido muito no baile da prefeitura.

Respondeu-me que aguentara três horas de insipidez medo nha. Baixou a voz. Só houvera lá hasbaques, quási tudo gente idosa, sisuda. Desembaraçava-se da circunspecção que a mascara:

— A única pessoa com quem me entretive foi o Mon teiro, que discorreu sôbie orçamentos.

Disse que não dançara, não tolerava as danças modernas.

É a madrinha que lhas não consente, mas persuadi-me de que estava diante de mim uma criatura pudica em excesso.

Contou que Nazaré tinha tomado um pileque. Reparando em Clementina, interrompeu-se, mostrou na parede um qua dro com um palácio, um canal e uma ponte, falou; em Marino Faliero, que não sei quem foi.

D. Engrácia apareceu e, vendo-nos juntos, farejou de longe. Marta puxou a manga, cohriu quatro dedos de pele que lhe ficavam à mostra. Nisto avistei Luísa perto de nós, ligeiramente pálida, e notei-lhe no rosto uma expressão que me deixou sucumbido.

Que lhe fiz eu, santo Deus? Dei um passo para ela, furtei-me às amabilidades de Marta, que me oferecia um romance por empréstimo, óptimo romance, publicação do Cen tro da Boa Imprensa.

À voz fanhosa de Vitorino, todos se levantaram. Atra vessei o corredor, desesperado. Mulher incoerente, ora pelos pés, ora pela cabeça. E arrependi-me de haver atendido àquele convite idiota. Era melhor ter ficado em casa, tran cado no quarto, de pijama. Instintivamente, esquivei-me à companhia de Marta. E ouvia, nauseado, a dissertação do Barroca sobre a diferença que existe entre um govêmo moral e um govêmo imoral.

O sujeito gordo arreliava-se com o Miranda:

— Mas eu escrevi aquilo porque está no artigo 39, se nhor. É do código.

E o tabelião, apaziguando-o com um gesto da mão aberta, um pouco trêmula:

— Pois muito bem. Eu julguei que fosse engano. Desde que está convencido... Se tem certeza de que é do código...

— Certeza absoluta.

— Deve ser isso mesmo.

Quando me sentei à mesa, procurei os olhos de Luísa.

Parecia nervosa, com o rosto coberto de sombras, os beiços franzidos, uma mga na testa. E respondeu distraidamente a um desconchavo amável que padre Atanásio lhe endereçou.

— Nunca entro aqui, disse Evaristo Barroca, sem evocar aquêles homens antigos, aquêles varÕes austeros da conquista, os precursores da raça.

Palanfrório reles e postiço, de dar enguUios. Era a re produção quási literal de um dos períodos enfunados em honra do Mesquita. Mas o vigário gostou, falou nos patriar cas, em Abraáo, em Jacob. O sujeito gordo, impressionado, articulou qualquer coisa que ninguém entendeu, confessou que Vitorino tinha muita semelhança com Ahraão. Nazaré interrompeu-o alegremente. Abraão era um cavalheiro de nariz em arco, grandes barbas e cabelos compridos, adorava Jeova e vestia saia. De mais a mais a gente do tempo dêle trincava o gafanhoto, no chão, de pernas cruzadas.

E a comparação do dr. Barroca também não é justa.

Êsses varões de outras idades, uns brutos, comiam com os dedos, de mangas arregaçadas, em alguidares de barro, e esva ziavam enormes cangirões, bebendo em copos de chifre. Creio que eram como os fazendeiros sertanejos, que ja n ta m em ca misa e ceroulas, cortando a carne a facão e batendo o osso cor redor a macete. Tudo aqui e diferente. Não há semelhan ça nenhuma.

E mostrou a mesa, onde flores punham nos vidros uns tons rosados:

— Quem se importava oom flores naquele tempo?

O sujeito gordo concordou, limpando a bôca. Tudo era diferente, na verdade, e antigamente não havia flores.

Tinha-se acabado a sopa. Aquele indivíduo me intri gava. Dirigi-me à vizinha da direita:

Quem é aquele homem moreno, d. Clementina, lá na ponta, ao lado da professora?

— Ê o dr. Castro.

— Que significa o dr. Castro?

— Promotor, chegou há dias, parente do dr. Barroca.

Serviram um prato que não pude saber se era peixe ou carne, fatias desenxabidas em molho branco. Evaristo ini ciou utn palavreado sonoro, em que de novo encaixou a sã política filha da moral e da razão, mas a frase repetida não produziu efeito. Apenas o promotor balançou a cabeça e rosnou um monossílabo aprobativo. Evaristo queria eleitores conscientes, uma democracia verdadeira. Procurei pela se gunda vez os olhos de Luísa, e, não os encontrando, declarei com aversão que a democracia era blagpe.

— Porquê?

Naturalmente porque Luísa estava amuada. Mas julguei este motivo inaceitável e perigoso: recorri a outros, que o deputado inutilizou com meia dúzia de chavões. Vitorino disse que não votava, tinha rasgado o título, achava que elei ção era batota. E não compreendia o empenho do dr. Bar roca em aliciar eleitores:

— Tendo quatro soldados e um caLo, o senhor tem tudo.

O dr. Castro reconheceu que os soldados e o cabo eram de grande eficiência:

— Ora, a força do direito. . . isto é, o direito da força. . .

Afinal os senhores me entendem.

— Que diz aquele sujeito, d. Josefa? perguntei à vizinha da esquerda.

A Teixeira teve pena dêle, quis saber se se dera bem na cidade, se tencionava ficar aqui definitivamente. Adrião, Vitorino, padre Atanásio, interessaram-se também. E o dr.

Castro, radiante, soltou o garfo, tomou o eopo, falou da sua pessoa, dos seus gostos, da sua instalação provisória em casa de Cesário Mendonça.

— Muito hospitaleiro, muito simples. Não tem orgulho, apesar de ser rico. E traz tudo num arranjo admirável: des pensa enorme, pomar, biblioteca. . . E a mulher, as meninas, umas pérolas. Creio que estou bem lá, enquanto espero que o Monteiro me alugue casa.

Mas já ninguém se importava com o promotor, voltavam-

-se todos para Evaristo, que agora preconizava o esclareci mento das massas, governadas por uma elite de gênio.

— Mas como é que o povo aprende, se os senhores não ensinam? perguntou o reverendo com acrimônia.

Andava indignado contra a ignorância depois que a tira gem da Semana baixara de mil e duzentos para oitocentos números. Evaristo Barroca, modesto, retirou-se dentre os go vernantes, encolheu-se na cadeira, fêz-se pequeno.

As garrafas esvaziavam-se. Havia agora animação na sala. As senhoras, livres do constrangimento do princípio, ta garelavam com desafogo: risos, sussurros, gestos familiares, perguntas e respostas desencontradas, cruzavam-se. D. Engrácia referiu ao Pinheiro a cura milagrosa de umas sezões que trouxera de Passo-de-Camaragibe, cura realizada em virtude da promessa de seis velas ao S. Sebastião de Maria Quebra-

-Unha. Clementina, passando o braço pelo encosto da minha cadeira, mexeu no ombro de d. Josefa. Marta descreveu ao Miranda a entronização do Sagrado Coração de Jesus em casa de d. Emiliana Teixeira.

— O colégio do Coração de Jesus? informou-se d. Pris cila.

— Uma entronização, ontem, festa de muita piedade.

Tinha os olhos baixos. E eu lembrei-me do que ela me havia dito em frente do livro das músicas, cobrindo pudicamentç cinco centímetros de braço, com gatimonhas de embeiçar a gente, metendo na conversa, fora de propósito, o Marino Faliero. Que sonsa!

— Em poucos anos apanha os quinhentos contos da ve lha, disse comigo. O Pinheiro acertou. Quem terá sido o Marino Faliero?

Nazaré absorveu dois copos de vinho e atacou o Barroca:

— Isso de liberdade é pilhéria, doutor. Não precisamos liberdade, precisamos cacete. Foi assim que sempre gover naram, e assim vai bem. Gostamos de levar pancada. Veja como admiram por aí os bandidos do Nordeste. E a ins trução, para que serve instrução à canalha?

— Se tem isso em conta de novidade... interrompeu Evaristo.

— Não senhor, retrucou o tabelião, ressentido. É coisa corriqueira, mas as suas idéias também são do tempo da pedra lascada.

E tomou a beber.

— Exactamente o que eu estava pensando, gritou o dr.

Castro. É isso, idéias antigas. Aprecio as idéias antigas, percebem?

Evaristo defendeu o ensino obrigatório e, sem fazer caso da observação do Miranda, surripiou um período de Victor Hugo. O dr. Castro aplaudiu ruidosamente:

— É claro, não há diívida. Necessitamos luz, muita luz.

— Com miolo de pão? perguntou Clementina.

— Com miolo de pão, respondeu d. Josefa. Miolo de pão, goma-arábica e tinta. Também se faz com papel machu cado na água.

— O senhor é o presidente da junta escolar?

O dr. Castro confessou que estava na presidência, infe lizmente, e que aquilo era uma espiga. Mapas todos os meses, atestados, um horror de professoras e inspectores mrais, informações à directoria e obrigação de visitar escolas.

Êle, graças a Deus, nunca tinha entrado em nenhuma.

Com o ôlho vivo, Nazaré dizia ao Barroca:

— Sim senhor, mas tudo isso é léria. Quando o nosso matuto tem um filho opilado ou raquítico, manda domesticá-

-lo a palmatória e a murro. O animal aprende cartilha c fica sendo consultor lá no sítio. Toma-se mandrião, fala di fícil, lê o Lunário Perpétuo e o Carlos Magno, à noite, na esteira, para a família reunida em tomo da candeia. Qual é o resultado? A primeira garatuja que o malandro tenta é uma carta falsa em nome do pai, pedindo dinheiro ao pro prietário.

tf Evaristo achou aquilo um exagêro evidente, o outro ju rou que era verdade.

— Pois se é verdade, a culpa deve ser do ancilóstomo.

Que mal pode fazer a leitura?

Mas Adrião, que estivera calado, distraído e murcho, afa gou devagar a careca, declarou que dos matutos que êle co nhecia os melhores eram os analfabetos:

— O roceiro que soletra tem vergonha de pegar na enxada.

— A senhora passa aqui as férias?

— Passo. Fico até meado de Janeiro, disse d. Priscila.

Vim um pouco adoentada. E como o clima é b o m ...

— Que vem a ser este prato, d. Josefa? perguntou Isi doro.

— Um caruru, com muita pimenta.

E acrescentou:

— Que pena não estar aqui o dr. Liberato! Para enten der dc caruim, vatapá, essas trapalhadas da Baía, não há outro.

Evaristo reconheceu que saber ler, simplesmente, era com efeito pouco.

— A educação religiosa... lembrou padre Atanásio.

— A educação profissional.

— Aqui não há disso, atalhou Nazaré com voz trôpega.

E como a que tetnos não presta e a que poderia servir não vem, era melhor que não houvesse nada.

— Apoiado! exclamou o presidente da junta escolar. O senhor parece que adivinha os meus pensamentos. Tem ra zão. Exactamente o que eu estava pensando, compreende?

— A educação religiosa... aventurou novamente o padre.

— A educação religiosa, decerto, ecoou o presidente da junta escolar. A educação religiosa é o suco.

— Não serve de nada, balbuciou o tabelião com a lín gua perra.

E encheu o copo.

—• Porque não serve? bradou o reverendo. Isto é muito sério. Na Idade Média . .. Sim, perfeitamente, não é só ba lançar a cabeça. Diz um grande filósofo. . . creio até que é um santo... Deixemos o santo. Essa corja que o senhor admira, esses Nietzsche, êsses Le Dantec, o outro demônio, como é o nome dêle, meu Deus? Esqueci. Um alemão, um tipo conhecido, que escreveu muito livro sôbre coisas miúd as... Como se chamam? Células? Tôda essa gente... Que é que o senhor ia dizendo?

Nazaré, que se esforçava por não adormecer em cima da sobremesa, levantava as pálpebras com dificuldade e tinha os pêlos do queixo quási tocando o prato, ergueu lentamente a cabeça, passou os dedos de grossos nós pelos olhos turvos, pela testa coberta de suor. Ficou um instante atentando no vigário como se o não conhecesse, depois gaguejou, arregaçan do os beiços, mostrando os dentes amarelos e acavalados, num sorriso idiota:

— Ah! sim ... a educação religiosa. Não vale nada.

— Está pronto, murmurou Adrião.

Padre Atanásio calou-se, fêz uma carranca de rigor e des prezo ao adversário, tomando talvez aquêle deplorável estado como prova de que tudo quanto o outro havia dito em ses senta anos era êrro e iniquidade. Recebeu a xícara de café, esvaziou-a em discussão muda com uma figurinha de japo nesa que tinha a cabeça crivada de palitos. E, arredondando os bugalhos:

— Então o julgamento do Manuel Tavares foi adiado, hem?

— Isso! confirmou Adrião em voz baixa, deitando uma olhadela de través ao Barroca. Protectores fortes. E indig nação geral. Adiaram. Na sessão vindoupra o homem é absolvido.

— Ora muito hem, copversámos lindamente, exclamou o dr. Castro quando as senhoras se levantaram. Eu gosto destes assuntos...

Agitou a mão como se quisesse agarrar um adjectivo.

— Filosóficos, sugeriu Adrião.

— Exactamente, filosóficos, era o nome que eu tinha debaixo da língua. Um debate magnífico.

— Pois, menino, segredou-me Isidoro puxando-me para uma janela, êste promotor não' fala mal. Aquilo deve ser um orador feroz no júri. E o Miranda é levado da breca.

O que está é meio fisgado. Eu não entro em conversas fun das, mas ouço com satisfação. Outra coisa: você reparou nas pernas da Teixeira? Diabo! Parece que também estou bêbedo.

Afastou-se, lento e aprumado. Era noite, apareceram luzes. Fiquei ali dez minutos, fumando, ouvindo a grulhada das mulheres. Porque se havia Luísa conservado em silên cio? Passou-me pelo espírito aquêle olhar que fuzilara um instante e logo esmorecera. Sem relacioná-lo com as palavras trocadas junto ao piano, odiei Marta Varejáo. A cabeça baixa, a manga até o pulso!

Como os outros, findos os cigarros, se retirassem, acom panhei-os. Entrei na sala com a esperança de encontrar ex pressão diferente no rosto de Luísa. Estava sentada no sofá, escutando padre Atanásio, que lhe impingia o hospital de S. Vicente de Paulo e a Pia União' das Filhas de Maria. Quis acercar-me, mostrar amabilidade, e só achei em mim confusão e desespero.

— Veja que desgraça, veio dizer-me Isidoro. Não fiz o brinde, ninguém fêz brinde. Tanta lorota, e esqueceram o essencial. Nem o Barroca, nem o Miranda, nem o promotor...

— Você ainda me vem falar nessa besta, homem?

E responsabilizei o dr. Castro pela indiferença de Luísa.

Resolvi alinhavar uma desculpa, sair dali, meter-me em casa, arrancar os cabelos. Procurava o chapéu, desejando que o teto viesse abaixo, quando o dr. Castro se achegou, afável, numa tentativa risonha de camaradagem;

— O amigo, se não me engano, é comerciante.

— Não senhor.

— Empregado público, talvez.

— Também não.

— Estudante?

— Nem isso. Com licença.

Dirigi-me à Teixeira, que entrava com um bandolim;

— D. Josefa, o meu chapéu... A senhora sabe?

— Para quê?

— Tinha necessidade de retirar-me.

— Não há necessidade. Ninguém sai antes das dez horas.

— É que estou meio doente. Se a senhora tivesse a bondade. . .

— Não há bondade. Cura-se dançando. Para o piano, Marta.

E obrigou-me a dançar com d. Priscila. O promotor deu o braço a Clementina, Luísa recusou Isidoro, pretextando enxaqueca. Depois o Barroca foi para o piano, a Teixeira desafinou o bandolim, arranjaram-se outros pares. A um convite silencioso de Marta sorri constrangido, declarei que o jantar tinha sido irreprochável. E abandonei-a ao Pinheiro, fugi para o jardim, fazendo tenção de consultar, quando che gasse a casa, o dicionário.

Sentando-me num banco, muito tempo fiquei a olhar os canteiros. Onde estaria Luísa, que desaparecera depois da enxaqueca? Talvez lá para dentro, com a cunhada paralítica, ensinando-lhe remédios ou lendo a correspondência do padre Cícero, que a boa senhora recebe com regularidade. Ainda espera arribar, coitada, com as receitas do padre Cícero.

Voltou-me de chofre o sentimento que me havia assal tado, um ódio insensato a Marta, ao Coração de Jesus da viúva Teixeira, a Marino Faliero, que está escondido no palá cio do quadro, palácio de Veneza. Finda esta explosão irra cional, que felizmente durou pouco, veio-me a recordação do que Luísa me disse uma noite, junto à garça de bronze. Então, como agora, a lua vagabundeava lá em cima, o vento agitava a folhagem dos tinhorÓes. Mas quanta diferença em mim!

Tinha recebido mais, muito mais do que desejava, e em conseqüência as minhas esperanças haviam crescido. Ten cionava poder um dia, com o consentimento dela, apertar-lhe as mãos, correr os lábios por aquêles dedos brancos e finos, pelos braços, até o cotovelo. Em momentos de optimismo aventurei-me a chegar à espádua. Não era uma aspiração demasiado exigente, e eu punha tanto respeito nela que ex cluí a idéia de que aquilo constituísse uma traição ao Tei xeira. Decidi logo que um homem tão prático não havia ainda bahujado o braço de Luísa e que pelo menos esta parte do corpo dela não lhe pertencia. Convicção idiota, evidente mente. Eu me contentava com o ' braço — e achava excessivo.

Uma felicidade imensa. Era assim que eu dizia comigo mes mo. Julgava assentado que Luísa se consei varia perfeitamente honesta. E que eu seria perfeitamente feliz. Aqui tudo se tomava confuso, nenhum pensamento claro me acudia. Por que a felicidade perfeita diferia da outra, imensa', e então compreendi que as coisas indistintas do meu espírito destoa vam dos nomes que eu lhes dava. Enfim, agitado por dese jos oscilantes, deixei-me arrastar.

E vmha-me aquele olhar agudo, aquêlc rosto carregado.

Talvez estivesse aiTependida de me haver mostrado ura pe quenino sinal de afeição. Não sei. Que entendo eu, pobre rapaz, da alma caprichosa das mulheres? Imaginei, num des lumbramento, que Luísa gostava de mim e tinha ciúmes. Isto me pareceu exorbitante. E pedia-lhe de longe que me dis sesse: “Vem”. Ou que me repelisse: “Deixa-me”: Que me livrasse enfim daquela angústia demasiado intensa para o meu pobre coração.

— Pois você está aí, homem? gritou Vitorino. Venha beber café.

’ r* .lo r ' Lá em cima ainda esperei encontrar Luísa transformada.

Não a vi.

— Que fêz o senhor tanto tempo no jardim, e só? perguntou-me d. Josefa. Pensei que se tivesse escapulido sem chapéu.

— Não senhora. É que lá é mais fresco.

Retirei uma xícara da bandeja, seutei-me no sofá. Nazaré, que agora tinha a língua destravada, também se sentou, alegre.

— Ouça, disse-me enroscando-se num movimento felino, o gesto onduloso que a filha tem quando vê homem.

Os olhinhos de víbora briUiavam-lhe, e uma expressão de malícia banhava-lhe o rosto:

—■ Imagine que o dr. Castro escreveu num libelo: “Pro vará que o réu cometeu o crime contra ascendente, descen dente, cônjuge, irm ã o ...”

— Mas eu já me expliquei. É assim que está no arti go 39, exclamou o dr. Castro, que se tinha aproximado sem ser visto. Escrevi assim porque é do código.

Nazaré perturbou-se um instante. Depois, tranquilo:

— Ah! O senhor estava aí? Tem realmente certeza de que é do código? Não haverá engano?

— Não senhor. Está assim, ipsis-verhis, no artigo 39, parágrafo nono, entende como é?

— Ah! Se está no artigo 39, é outro caso. Eu stipus que fôsse equívoco. Deve ser isso mesmo.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Caetés

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Caetés

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Caetés

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Caetés Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 12 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Caetés

Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir