Universo da obra
Universo da obra
NO DIA seguinte o dr. Liberato, que passara a noite em casa do Mesquita, contava-nos, cheio de sono, o estado de Guiomar. Quando findou, depois de empregar uma chusma de tênnos esquiisitos, o Pinheiro, sombrio, rosnou:
— Que tem ela?
No mesmo instante Zacarias chegou, em busca do médico:
— Foi a sinhá que mandou chamar.
— = - É ela que está doente? fiz eu com um arrebatamento que espantou d. Maria José.
— Não senhor. É seu Adrião, que não pôde dormir.
— Porquê? balbuciou o Pinheiro.
Zacarias não soube informar. Devia ser coisa por den tro: por fora não se percebia nada.
— Está aí! gaguejou Isidoro, sucumbido. Vejam que coincidência.
O doutor entrou no quarto e voltou com a bengala, o chapéu, o estetoscópio. Dispus-me a acompanhá-lo:
—' Não vem, Pinheiro?
— Parece que não. Vou tomar um vomitório.
E, tentando apoderar-se do estetoscópio:
— Doutor, tenha a bondade de examinar êste coração.
— Não há pressa. Fica para a volta.
— Está direito. Pois esperem, faço um sacrifício. Ami go é para as necessidades, como diz o Anatole France.
Um minuto depois apareceu, abotoado no jaquetão pre to, o chapéu desabado cobrindo-lhe as orelhas:
— Vamos cumprir êste dever.
Defronte do casarão topámos o Neves, que saía:
— Não há perigo. Mandaram à farmácia buscar remé dios de madrugada. Vim ver. Tudo bem.
— Até logo, exclamou Isidoro. Não precisam de mim.
Volto. Vou daqui direitinho para a cama.
Lá dentro cumprimentei Vitorino, d. Josefa, d. Engrácia, o dr. Castro. Encontrei Luísa à entrada do corredor, com os oUios vermelhos e despenteada.
— Como vai êle?
— Melhor.
E introduziu o médico na alcova, onde Adrião arquejava, recostado a uma pilha de travesseiros. Pela porta entreaber ta distingui sobre a mesa da cabeceira copos, colheres e um crucifixo.
— Então, d. Josefa, como foi isso? perguntei à Teixeira.
— Nem sei, com aquela balbúrdia. Às onze horas ou vimos pancadas, berros. Papai abriu, assustado. Era Zaca rias a gritar que seu Adrião estava morrendo. Imagine co mo nós ficámos. Eu nem pude arranjar-me, saí de chinelos.
E mostrou o pé número trinta e três, coberto de sêda cre me. Fui com a vista acima do pé, naturalmente. O Pinheiro tem razão: é uma linda pema.
— Imagine como eu fiquei, disse o dr. Castro, que se avi zinhara, familiar. Logo pela manhã, antes do banho, uma notícia assim. Que presente!
— Quando chegámos, continuou a Teixeira recolhendo a perna com agrado, Luísa estava numa aflição.
— Ah! Se eu soubesse! atalhou o dr. Castro. Teria vin do passar a noite aqui, oferecer os meus préstimos.
E, a um gesto de agradecimento da moça:
Vinha, não tem que agradecer. Eu sou lá homem para deixar um camarada morrer só? Se não servisse para mais, havia de servir para deitar-lhe a vela na mão. Comi go é isto. Vinha.
— E depois que a senhora chegou, d. Josefa, que horror, hem?
— É verdade. Opressão, tonturas, náusea. A d. Engrácia, quie apareceu por aí (não sei como adivinhou), foi acor dar o vigário, trouxe um crucifixo. O papai em ocasiões de aperto desanima.
— Não somos nada neste mundo, murmurou o dr. Castro.
— É coisa de cuidado, doutor? perguntei ao médico, que saía do quarto.
— Tem ainda um resto de dispnéia, mas creio que não há perigo por enquanto. Se não sobrevierem complicações...
E falou. O dr. Liberato não perde ensejo de gastar pala vreado difícil.
— Posso ir vê-lo?
— Pode. . .
Achei Adrião muito fatigado pelo esforço que havia feito.
No pescoço, onde a pele amarelenta caía em dobras, os ossos avultavam. As pulsações da carótida percebiam-se de longe.
Uma vela acabava de extinguir-se no castiçal, havia um cheiro enjoativo de éter.
Luísa, sentada à heira da cama, passava um lenço pela testa viscosa do marido, que a olhava com ôlho duro, quási irritado.
Então, assim de repente! exclamei. Eu soube agora, pelo Zacarias. Uma surpresa. A d. Josefa esteve contando.
— Uma peste! rugiu o doente. Aqui a acabar-me, sem um diabo que me desse um remédio. De manhã, quando não havia necessidade, a casa encheu-se. Mas no momento cio apuro, ninguém. Bate-se o mundo todo atrás do medico. Es condido, no inferno. Sozinho, homem, sòzinho! Luísa baixou a cabeça, sorrindo com tristeza. Adriao era egoísta: não se lembrara da mulher, do irmão, da sobrinha, que se tinham moído a aturar-lhe os arrancos. — Felizmente de madrugada melhorei um pouco, tive meia hora de madorna. Aí começaram a aparecer intrusos, invadiram o quarto. O farmacêutico... E êsse bacharel de uma figa cpie ninguém conhece.
Interrompeu-se vendo o irmão à porta:
— Vocês ahriram o armazém?
O armazém estava fechado. — Pois deviam ter aberto. Mande chamar os emprega dos, João Valério.
Vitoríno opôs-se. Aconselhei Adrião a que não falasse muito. E afastámo-nos.
— Tudo está óptimo, bradou o dr. Castro quando nos viu. O nosso amigo desta vez ainda vai arriba, entendem?
— Como o acha você? pei'guntou Vitorino arrastando-me para a varanda.
— Nem sei. O doutor não se explica.
— É o diabo! exclamou Vitorino.
E, a um aceno da filha:
— Ainda haverá novidade? As macacoas deste homem não deixam ninguém descansar.
Entrou. Acendi um cigarro. • Lembrei-me dos serões ali decorridos, recentes, mas que, em v u d e das perturbações que eu experimentava desde a véspera, se tomavam remotos e me davam saudade. À luz do dia, a sala era como se fôsse outra. Os quadros pareciam ler descido um pouco nas pare des agora menos altas. Na poltrona de padre Atanásio re pimpava-se o dr. Castro, de braços cruzados, bochechudo, ver melho, feliz e sem testa. — Olhei a rua. À entrada do Pernambuco-Novo um auto móvel parado atravancava a passagem. Uma carroça de lixo, vagarosa, rodava. Ao longe ó arrabalde da Lagoa surgia em miniatura, dois renques de casas de boneca encarapitadas lá no alto.
— A sinhá mandou saber se v. mcê. queria almoçar.
Voltei-me. Era Zacarias.
— Como?
— Mandou chamar para o almoço.
— Muito agradecido, respondi furioso.
E desejei despedir-me secamente de Luísa: “Dê-me as suas ordens”.
Fui à alcova nas pontas dos pés: Adrião dormia. Sen tei-me à porta.
— Venha almoçar, João Valério, disse Vitorino do corre dor.
— Obrigado.
Reflecti com indignação' naquele convite.
O médico e o promotor tinham desaparecido. Meio-dia.
Sim senhor! Mandar o prêto convidar-me! Era, sem contestação, uma ofensa mortal. Pois não tomava a pisar ali. Fôsse tudo para o diabo. Também não me fazia gran de falta deixar de ouvir tocar piano e ver jogar xadrez, que não gosto de música nem de jôgo. Que me importava o xa drez? que me importava o piano?
Do piano resvalei para Marta Vnrejao e para os quinhen tos contos de d. Engrácia. Marta Varejao, muito bem. Não andava ora a mostrar os dentes, ora de carranca. Pois ca sava com ela e havia de ser feliz, em Andaraí, na Tijuca ou em outro bairro dos que vi nos livros. Uma bonita situação.
E o amor de Luísa, se ela me tivesse amor, só me renderia des gostos, sobressaltos, remorsos, trezentos mil-réis por mês e oito por cento nos lucros dos irmãos Teixeira.
O criado prêto! “Diga a seu Valério que venha comer.”
Isto a mim, a mim que era... Procurei alguma coisa que eu fôsse. Não era nada, realmente, mas tinha boa figura e os caetés no segundo capítulo. E vinte e quatro anos, a escritu ração mercantil, a amizade de padre Atanásio, vários elemen tos de êxito.
O Zacarias! Marta Varejão me chamara na véspera com um sorriso. E dissera muitas amabilidades junto a um palá cio veneziano, falara no baile da prefeitura, no Marino Faliero.
— Está dormindo? perguntou-me a Teixeira, que entrou em companhia de Luísa e Vitorino. Porque não quis al moçar?
— Não senhora, estou acordado. E não estou com fome.
— Uma cara de poucos amigos. Que lhe aconteceu?
— A mim? Não aconteceu nada. Nunca me acontece nada. Aqui, matutando.
Ela deu um muxoxo e, brincalhona como uma garota:
— Parece que êste rapaz tem uma aduela de menos.
— Não senhora, é engano. Tenho as aduelas todas.
E acrescentei:
— Julgo que não sou necessário, felizmente. O homem está fora de perigo.
Disse isto com uns modos desconchavados, tomei o cha péu, cumprimentei, saí, cheio de raiva. Ao atravessar o por tão, dei uma topada e esbarrei com o Silvério, que passava.
Cheguei a casa resolvido a insultar alguém. Não insul tei, ou antes insultei mentalmente.
— Os outros já almoçaram, d. Maria José? interroguei entrando na sala de jantar.
— Já. Esperaram meia hora. Como o senhor não veio...
— Está hem, traga-me uns ovos, um pedaço de pão.
Não tenho- apetite. Traga-me logo um pouco de conhaque.
razoável num copo.
— O senhor vai beber isso tudo?
Fiz um movimento sombrio de afirmação;
— Tenho andado com vontade de suicidar-me, d. Maria.
E bebi.
Ela afastou-se rindo, com uma cova no queixo redondo, as mãos nos bolsos do avental. Suportável, apesar de madu ra — quási quarenta anos. O Pascoal não estava mal ser vido. Tão simpática, tão simples, os cabelos muito pretos, os olhos grandes, úmidos... Quando, passados instantes, vol tou com um bife e dois ovos estrelados, ainda ria. Não acre ditava que gente de juízo pensasse em suicídio. O Pinhei ro, homem de juízo, tinha estado tôda a manhã apalpando o coração, com mêdo.
— É verdade, amanheceu cardíaco. Êsse animal ainda está vivo, d. Maria José? gritei com a boca cheia.
— Está. Zangou-se com o doutor, almoçou, tomou um chá de macela e foi jogar bilhar com o Pascoal. O senhor quer mais alguma coisa? acrescentou vendo que eu tinha devo rado o bife, um pão, os ovos e a sobremesa.
— Não senhora. Eu julgava que não estivesse com fo me, e até almocei. Deve ter sido por causa do conhaque.
Notei então que a cólera se havia dissipado. Devia ter sido também efeito do conhaque. Afinal convidar mna pessoa por intermédio de outra não é desfeita. Compreendi que, se Luísa me tornasse a olhar como um dia me olhou jun to à garça displicente, Marta Varejão, com os seus livros fran ceses, suas músicas e suas flores de parafina, ràpidamente se extinguiria.
— Impostora! resmunguei deitando açúcar no café.
Hipócrita! “Festa de muita piedade...”
Com a doença intempestiva de Adrião, tinha-me esque cido do jantar.
Uma estopada. O presidente da junta escolar aprovan do tudo, Clementina e d. Josef a conversando por cima de mim, Evaristo Barroca a mexer política, padre Atanásio aperreado com a instrução, o crime de Manuel Tavares e o homem das células, Miranda Nazaré falando nas barbas de A braão...
Isto me fêz pensar no José de Alencar, que também foi um cidadão excessivamente barbado.
Daí passei para a Iracema, da Iracema para o meu ro mance, que ia naufragando com os restos do bergantim de d. Pêro. Não era mau tentar salvá-lo, agora que, com o ar mazém fechado, eu podia dispor da tarde inteira. Decidi-me antes que o entusiasmo esfriasse.
— A senhora só tinha a xícara de caie que me trouxe ou ainda tem mais, d. Maria?
— Tenho, sim senhor, tenho um bule cheio.
— Um bule? Pois traga-me outra xícara, por obséquio.
Traga o bule cheio. Estou com muita necessidade de tomar café.
Enquanto bebia, esforcei-me por me colocar na situação de um sujeito que vai escrever uma obra de valor.
— A senhora conhece Coruripe-da-Praia, d. Maria José?
D. Maria José não conhecia.
Entrei no quarto, abri a janela que deita para a rua, ti rei o manuscrito da gaveta. A dificuldade era apanhar os portugueses que tinham escapado ao naufrágio, amarrá-los, le vá-los para a taba e preparar um banquete de carne humana.
Trabalhei danadamente, e o resultado foi medíocre. Sou in capaz de saber o que se passa na alma de um antropófago.
De indivíduos das minhas relações o que tem parecença mo ral com antropófago é o Miranda, mas o Miranda é inteligen te, não serve para caeté. Conheço também Pedro Antônio e Balbino, índios. Moram aqui ao pé da cidade, na Cafurna, onde houve aldeia dêles. São dois pobres degenerados, be bem como raposas e não comem gente. O que me convinha eram canibais autênticos, e disso já não há. Dos chucurus não resta vestígio; os da Lagoa espalharam-se, misturaram-se.
Em falta de melhor, aproveitei os últimos remanescen tes dos brutos da Cafurna, tirei-lhes os farrapos com que se co brem, embeb edei-os, besuntei-os à pressa, agucei-lhes os dentes incisivos. Matei alguns brancos, pendurei-os em galhos de ár vores e esfolei-os, com a ajuda do Balbino. Depois entreguei-
-os às velhas, entre as quais meti a d. Engrácia, nua e medo nha, tôda listrada de prêto, os seios bambos, os cabelos em desordem, suja e de pés de pato. .
De repente levantei-me, fui à sala de jantar, chamei:
— Ó d. Maria José, faça o favor. A senhora sabe como se prepara uma buchada?
Ela veio, paciente, enxugando os dedos no avental:
— Sei. O senhor quer comer buchada?
— Não. Isso é comida de selvagem. Os çaetés. De pois lhe conto.
— Mas que interesse...
— É história comprida. Preciso saber como se cozinha um homem, Como é, d. Maria? •
— Um homem? Está aí! Foi o conhaque.
E voltou-me as costas. — Espere lá, criatura. Quem lhe falou em homem?
Um bode, é claro, um carneiro. Tira-se o couro do bicho, es quarteja-se. Até aí eu sei. Como é o resto?
— Lava-se tudo muito bem lavado, começou a hospedeira desconfiada.
— Exactamente, numa gamela, já ouvi dizer. E viram-se as tripas pelo avesso com uma vara, também já ouvi dizer.
Mas os caetés não tinham higiene.
— Como?
— Uma observação à-toa. Continue.
— É só, está pronto.
— Pronto o quê, d. Maria? A senhora não está vendo que ninguém vai comer aquilo cru?
Ela forneceu-me algumas noçÕes,_que reputei preciosas.
Muito obrigado, d. Maria José. Vou preparar o Sar dinha pela sua receita e misturo tudo com pirão de farinha de mandioca. Fica uma porcaria.
— O senhor não quer tomar uma xícara de café sem açúcar?
Eu? Pensa que estou bêhedo? Estou no meu tino perfeito. A propósito, que horas são?
— Cinco. Os outros não devem tardar.
— Cinco? Será possível? Ora veja. A arte é coisa ad mirável. Com a preocupação de arranjar o jantar dos índios, esqueci o meu jantar. Pois êles que esperem, não comem hoje. E traga-me o conhaque. Deus lhe pague, d. Maria.
A senhora acaba de prestar um grande serviço à pátria.
XIV «
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