Universo da obra
Universo da obra
À NOITE fui a casa de Adrião, informar-me da saúde dêle.
Encontr'ei-o na sala, enchumaçado, cercado de amigos.
Inquietou-me a presença de Marta, e simulei distracção, com mêdo de perceber-lhe algum olhar equívoco. Parecia-me que Luísa alcançava as infidelidades da minha ima ginação.
Padre Atanasio, com o seu sistema de discutir por frag mentos, retomara algumas idéias embiulhadas da véspera e arremetia contra os positivistas. Na opinião dêle. Augusto Comte era idiota. Porquê? Porque não tinha juízo. E interrogou-me com um movimento de cabeça.
Declarei (jue aquele senhor era, não obstante, um inspi rado poeta, e logo me arrependi de ter falado. Sei realmen te, sem nenhuma sombra de dúvida, que Augusto Comte foi grande, mas ignoro que espécie de grandeza era a dêle. De pois serenei, porque ninguém ali, exceptuando Nazaré, com preendia um disparate.
Não houve contestação. Nazaré arregalou o ôlho de víbora e padre Atanásio encolheu os ombros.
Mas a conversa arrastava-se com dificuldade. O piano fechado, o tabuleiro de xadrez esquecido, a ausência de Isi doro, o desaparecimento do dr. Liberato, que, após duas visi tas curtas, voltara ao Mesquita, tudo concorria para alterar a feição do lugar. Além disso três personagens novas vinham aumentar a impressão de estranlieza que aquilo dava : d. Pris cila Fernandes, d. Josefa, ausente o ano inteiro, e o dr. Cas tro, íntimo de todos.
No silêncio que se fêz quando o vigário acabou de enterrar o positivismo, o tique-taque da pêndula cresceu. Procurei o mostrador: do ponto em que me achava não se percebiam os números. Aguardei a primeira pancada para me retirar.
Do sofá veio o sussurro de Clementina e de Marta. Na zaré, a quem o xadrez faz falta, aproximou-se da mesa, sem se atrever a convidar Adrião, que bocejou disfarçadamente.
D. Josefa, tresnoitada, esfregava as pálpebras. Vitoiino cabe ceava, como sempre.
Afinal d. Engrácia levantou-se, tomou o guarda-chuva, recomendou uma tisana infalível, abaixo de Deus, saiu com a pupila. Num momento a sala se esvaziou. Só ficaram Vitorino, a filha e d. Priscila, que dormiam lá. E eu, que espe rava a pancada do relógio, ergui-me também: — Não sei se mé vá embora. Precisam descansar. Em todo o caso, se houvesse necessidade, eu tinha muito gosto...
Não havia necessidade.
— O que desejo é que sejam francos. Não me custa.
— Muito obrigado, disse Vitorino. Vá dormir.
— Pois então... Não quero ser importuno, adeus. E se houver uma recaída, o que Deus não permita, façam o favor de avisar-me. Mandem bater na janela do meu quarto. Eu tenho o sono leve.
— Perfeitamente.
Já na calçada, notei que Luísa vinha fechar o portão.
Estranhei vê-la tomar ocupações de Zacarias. E, numa exal tação instantânea :
— D. Luísa, que foi que lhe fiz ontem?
— Foi uma ofensa, creio. Não sei. Tenho procurado ver se adivinho.
Ela tremia.
— Diga, pelo amor de Deus, gemi. Diga depressa.
— Não houve nada.
Cerrou o portão e levou uma eternidade mexendo na chave para trancá-lo.
' Vamos! tornei com desespero, o rosto colado à grade.
Para que me trata dêsse modo? Que lhe fiz eu?
Nada. Vá-se embora, bradou Luísa com uma voz irritada que eu nunca lhe tinha ouvido.
E, metendo a mão entre os varões de ferro, empurrou-me a cabeça e fugiu.
Dei alguns passos cambaleantes, a experimentar ainda no rosto o contacto dos dedos dela. Passados minutos, reco nheci que, em vez de me dirigir a casa, andava para o lado oposto, estava à beira do açude. Encostei-me a uma das bala ustradas que limitam o paredão. Mas não era a água negra que eu via, nem os montes que se erguiam ao fundo, indistin tos. Na escuridão surgiu um colo decotado, o vento agitou uns cabelos louros, uns olhos azuis brilharam. Longos dedos brancos tocaram-me o rosto. Recuei titubeando.
Dois sujeitos que desciam do alto do cemitério, afinan do violões, pararam curiosos a pequena distância, riram, como se eu estivesse embriagado. Presumo que estava realmente embriagado. Tartamudeava:
— O fim das coisas...
Esta frase foi repetida muitas vezes.
Subitamente increpei-me com amargura por me não ha ver apoderado daquela mão que me repelia, não a ter cober to de beijos. Sou um desastrado.
— E era o que eu ambicionava, era só o que ambicio nava, disse baixinho, depois mais alto, para convencer-me de que não mentia.
Embalei-me com a cadência das palavras e suponho ter ficado com o cérebro entorpecido.
Despertei com uma idéia esquisita, que me fêz rir: o Bal bino transformado em caeté de 1556. O Balbino, um pobre-
-diabo coxo e bêbedo, esfolando um homem pendurado por uma perna. Mas logo enxotei êste pensamento mesquinho que toldava a passagem mais brilhante da minha vida.
— Aurorar auroral aurora! gritei às casas vizinhas, às sombras das árvores, a um cão vagabundo que passava.
Nada em redor pareceu compreender que havia uma au rora e que aquelas trevas eram absurdas.
Olhei os astros. Não conheço nenhum, mas precisei co municar com êles, repartir com a imensidade uma ventura que me esmagava. Bradei: “Luísa me ama! Estréias do céu, Luísa me ama!” Imaginei que as estrelas do céu ficavam cien tes e isto me deu satisfação. Uma delas tremeluziu mais que as outras, respondeu-me de lá, vermelha e grande. Desejei saber o nome daquele sol complacente. Belatriz? Altair?
Aldebarã? Não conheço nenhum. Se eu fosse selvagem, metê-lo-ia entre os meus deuses. Não estava ali ninguém que me pudesse informar.
Os violões tocavam longe, para os lados da rua de Baixo.
Afastei-me cheio de uma vaga tristeza por não ser selva gem. À porta da pensão encontrei o dr. Liberato, que me perguntou:
— Vem lá do Adrião? Como vai êle?
— Bem, creio que vai bem.
— É isso. Por ora não há perigo.
E atacou-me:
— A aorta...
— Espere aí, doutor, atalhei com mêdo da exposição.
Como é que se chama uma estrela vermelha que está agora por cima dos morros do Tanque?
— Que interessa isso? fêz o médico ligeiramente descon certado. Você quer aprender astronomia?
— Não, é cá uma dúvida. Muito grande, muito brilhan te... Será Aldebarã? Uma vermelha. O doutor sabe?
O dr. Liberato confessou com secura que não entendia de estréias.
Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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