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Capítulo 21 · Caetés

Capítulo XXI

21 de 31 ≈ 8 min de leitura

UM DOMINGO à tarde, como o calor na cidade era gran de, entrei no Pinga-Fogo, com a intenção de dar uma volta pelos arredores. À porta da casa de Vitorino encontrei Luísa, d. Josefa e Clementina. . ’

— Para onde vai o senhor por esta zona? gritou-me a Teixeira.

— Por aqui, sem rumo. Boa tarde. Girando, em bus ca de um canto onde possa morrer sem ser queimado. As senhoras vão sair?

— - Vamos. Estávamos procurando um homem, e como o primeiro que passou foi o senhor, venha connosco, que tenho mêdo dos cachorros do Massa-Fina. Por quem esperam vocês?

Clementina sorriu, vexada com a desenvoltura da outra, e chamou d. Engrácia, que se meteu debaixo do guarda-chuva e marchou na frente. Abrindo a sombrinha, a Teixeira disse em voz baixa:

Que vem fazer esta velha? Estragou o passeio.

Como a viúva pisava rijo e estava suada, inquiri, julgan do ser agradável:

Essa roupa preta não incomoda, com semelhante quen tura, d. Engrácia?

Talvez fôsse melhor andar de vermelho, retorquiu a proprietária furiosa. Era decente.

Safa! resmunguei encolhendo-me. Que brutalidade!

Luísa riu-se divertida, a Teixeira deu uma gargalhada, Clementina mordeu os beiços.

Passámos o Corte. E adiante, na frescura e na sombra das árvores que marginam a estrada, as três retomaram uma conversação a respeito do casamento de Clementina, casa mento trabalhoso, adiado sem motivo. O dr. C,astro não se decidia.

— Que diabo quer êle? perguntou d. Josefa. Eu, se fosse comigo, tíiandava-o pentear macacos.

E a um gesto de reprovação da velÍia, que abominava aquêles modos, dizia que no tempo dela. ..

Já sei, no tempo da senhora era tudo côr-de-rosa. As meninas não sabiam ler, para não escrever aos namorados, e viam a cara do noivo pela primeira vez no dia seguinte ao casamento.

No dia seguinte? exclamou Luísa.

— Foi a directora do colégiõ quem nie contou.

— Pois era um costume interessante, d. Josefa, interrompi. E difícil. A senhora aprendeu muito.

— Aprendi. Principalmente história antiga, do tempo da d. Engrácia.

— A propósito, disse Luísa, essa sua companheira que esteve aí, a professora, azulou sem se despedir, hem? Como vai essa jóia?

A jóia passava bem. Tinha escrito uma carta cheia de lábias. Estava melhor dos intestinos e mais honita.

— Uma beleza, atalhei. Ültimamente estava ficando linda. Deve ter sido influência sua, d. Josefa. A senhora não volta para o Coração de Jesus?

— Não.

E entrou a falar no C. S. P., a sociedade de esportes que se tinha dissolvido. íamos passando pelo campo de futebol, agora utilizado com o plantio de mandioca e algodão. Valentim Mendonça tencionava mandar limpar aquilo, reorga nizar o clube.

— Faz mal, opinou d. Engrácia. Isto assim está melhor do que cheio de vadios trocando pontapés.

— Decerto, concordou a Teixeira, incorrigíK’ el. Anti gamente não havia disso.

A viúva encalistrou e apressou o passo. Quando alcançá mos o Massa-Fina, tinha transposto o riacho, subido a ladeira.

— Voltando atrás, perguntei, como era o casamento, d.

Josefa?

— Foi a directora quem disse. Os pais faziam o arranjo, vinha o padre e emhirava o casal de trouxas. A noiva, morta de mêdo, não olhava para os lados. Metia-se no quarto, dei tava-se, enrolava a cabeça nas cobertas e via o marido no ou tro dia. Hoje tudo é diferente. A Clementina está cansada de ver o dr. Castro.

Juntaram-se as três de braço dado, formando uma ca deia para evitar algum tramboihão, e desceram de corrida até a beira do riacho, que só tinha uma pinguela para a passagem.

— Como é que se vai atravessar isto? perguntou Clemen tina, sem se atrever a pisar naquela ponte rústica.

— Vou auxiliá-la, propus. Feche os olhos, se tem ver tigens. / Equilibrando-me, segurei ás mãos da moça e, andando de costas, cheguei à outra margem. Depois conduzi Luísa. No meio da prancha, com os braços abertos e as mãos nas mãos dela, como se fôsse abraçá-la, hesitei, e foi ela que me ampa rou. Pareceu-me que a minha vida era uma coisa estreita e oscilante, com perigo de um lado, perigo do outro lado, e Luísa junto de mim, a proteger-me. Comprimi-lhe os dedos, tôda a minha alma fugiu para ela num olhar de ternura.

— Vocês querem ficar assim o resto da tarde? bradou a Teixeira.

Tive um sobressalto e tirei-me dali. D. Josefa passou a travessa em quatro pernadas, trepou o monte quási a correr.

Clementina colhia florinhas à beira do caminho.

— Que quer dizer aquilo? perguntei a Luísa. Terá per cebido?

— Talvez tenha, fêz ela pensativa, sem baixar a voz dian te de Clementina, que se aproximou eom as mãos cheias de cajás.

A Teixeira estava agora sisuda, sentada num tronco, re conciliada com d. Engrácia, que nos disse, interrompendo uina descrição do Senhor Morto de Palmeira-de-Fora:

— Pensei que não chegassem hoje.

— Não há pressa, respondeu Luísa. A qualquer hora chegamos bem.

E abriu a sombrinha sob as ramagens escassas. D, En grácia Htacou Clementina:

— Enfeitar os cabelos com flores de mulungu! E comer cajá, uma porcaria que embota os dentes!

Caminhámos em silêncio até o lugar onde existiu o cru zeiro verde, um cajueiro com dois galhos em forma de cruz, que a gente dos sítios próximos vinha adorar. Falei da mul tidão que ali encontrei uma tarde — mendigos, mulheres com filhos pendurados aos peitos, curiosos, espertalhões que se arvoravam em sacerdotes.

Mas ninguém ligou importância à minha história. Che gámos ao caminho que vai dar à Lagoa, estreito e esburacado.

D. Engrácia voltou a descrever o Senhor Morto, imagem tenível, com braços de macaco e olhos de coruja.

A Teixeira interrompeu-a e informou-se de Marta, que estava doente. Ia bem, tomando remédio de botica.

Como Luísa, para saltar um barranco, me pediu a mão, que apertou, sorri. E lembrei-me das músicas, das flores de parafina e dos livros franceses. Pensei no soneto, no carna val, no Centro da Boa Imprensa, no Marino Faliero e no pre sépio. Encolhi os ombros. Que me importava Marta Varejâo? Que me importava o resto?

P" f Feliz e egoísta, vi o mundo transformado. D. Engrácia, a Teixeira, Clementina, meia dúzia de crianças amarelas e beiçudas que preguiçavam no terreiro de uma cat>ana, tudo minguou, reduziu-se às dimensões das figurinhas do Cassiano.

E a cidade, que divisei em baixo, por uma aberta entre os ra mos, era como o tabuleiro de xadrez de Adrião, com algumas peças avultando sobre a mancha negra dos telhados: as du as igrejas, o prédio da usina eléctrica, tetos esquivos de cha lés, o casarão de Vitorino atravancando o Pinga-Fogo, co queiros esguios, o cata-vento.

íamos agora pela estrada larga, plana, escura das árvores que a ladeiam. Retardando o passo, falei baixo a Luísa. E olhava os salpicos de luz nas fôUias sêcas do chão quando, numa volta do caminho, o Neves, escanzelado, verde, de ócu los, passou por nós, franziu os beiços, tirou o chapéu.

— Não posso tolerar êste indivíduo, disse Luísa com re pugnância.

— Quem? o Neves? inquiriu Clementina aproximando-

-se. É obsequiador, delicado. Vamos até o Sovaco?

Tínhamos desembocado na Lagoa.

— Eu não vou, opôs-se a Teixeira. Estou com as pernas bambas.

E desceu à direita, nem quis ouvir d. Engrácia, que su geria uma visita a Maria Quebra-Unha. Fomos encontrá-la abotoando um sapato, quási à entrada da rua.

— Que sujeito insuportável! tornou a dizer Luísa com aversão.

E, como Clementina estranhasse aquela antipatia ex cessiva :

— Não está em mim, é birra. Insuportável!

Mais tarde, quando nos separámos, fiquei pensando no aborrecimento que Luísa tem ao Neves. A vida íntima dêle é abjecta. Rosnam coisas. A mulher, robusta ao casar, tor nou-se magra, pálida e com oUieiras. É um casal que não tem filhos. E picuinhas em cima do homem.

Porque será que Luísa, que não sabe nada, volta o ros to quando o vê, cheia de nojo? Lembrei-me da faculdade que ela possui de sentir a miséria alheia: a fome do sapateiro, os gemidos da tísica, as pancadas do martelo, alta noite. Tal vez, por um misterioso instinto, a pobreza moral do Neves se lhe revelasse confusamente, provocando uma repulsão que a generosidade dela não pode vencer.

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Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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