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Caetés

Capítulo 22 · Caetés

Capítulo XXII

22 de 31 ≈ 9 min de leitura

O MIRANDA NAZARÉ andava com influenza. Fui visitá-lo.

Encontrei-o sentado na cama, os pés metidos em sapa tos de banho, pijama sem botões, no peito descoberto uma grenha amarelenta, um fio de baba a escorrer-lhe nos pêlos do queixo. Bebia chá e mastigava torradas que estalavam, cobriam de migalhas os lençóis sujos. Numa cadeirinha bai xa, Clementina olhava com olhos de cão o dr. Castro.

Veio a propósito, bradou o doente quando me viu.

Eu estava pedindo a Deus uma pessoa que soubesse jogar xa drez.

Soltou a xícara, agarrou-me as mãos, nem me deixou cumprimentar a filha e o futuro genro.

— Faço tudo para domesticar êste homem, continuou.

Impossível, não tem embocadura para o xadrez.

O dr. Castro riu, achou aquilo um jôgo encrencado que ninguém entendia, pior que latim. Concordei: não me en travam na cabeça aquelas combinações embrulhadas. Afi nal sempre me resignava a perder uma partida. Clementina trouxe o tabuleiro.

— Qual! história! exclamou Nazaré.

Encostou-se à mesinha da cabeceira, arrumou as peças:

— Você joga até muito bem, melhor que o Adrião.

Branca? Sim senhor, é o que lhe digo, substitui o Teixeira com vantagem. Saia lá, seu felizardo.

Embatuquei, tive a impressão de que me haviam tirado a roupa, deixado nu diante de Clementina e do dr. Castro.

— Xeque.

Avancei um peão. Ali estava o meu segrêdo babujado pela bôca mole daquele velhaco. Que imprudência tinha eu cometido? Fazia tempo que me abstinha de ir’ a casa de Adrião, e quando ia, ficava de parte, com mêdo da Teixeira, que não se arredava de lá. Em mês e meio apenas me avistara com Luísa três vezes: duas no jardim, alta noite, e uma no Tanque, ao pé de grandes penhascos entre árvores. O sítio era delicioso, um veio de água gemia na relva, esvoaçavam casais pelos ramos, a verdura de um lindo musgo vestia as pedras velhas.

— Xeque.junto à dama, em casas da mesma côr, defesa idiota. Xeque de cavalo às duas. Sebo! lá se foi a dama.

Continuei, distraído, com o pensamento naquele retiro campestre, onde passei instantes que voaram, ouvindo a can tiga lenta do riacho e vendo, através da ramagem, pedaços de céu vermelho. Luísa havia engenhado para ir lá um pretex to cheio de complicações. Revoltava-se por ter necessidade de mentir, ela que não mente nunca. E não podíamos reco meçar. É uma desgraça viver em cidade pequena, onde a qualquer hora podem encontrar-se pessoas conhecidas que es preitam.

— Mate.

— Já? Foi surprêsa. Pois muito boa noite, disse eu bruscamente, levantando-me.

— Demore aí, vamos jogar outra, convidou Nazaré. Esta não valeu. E dou-lhe partido.

— Obrigado. Que prazer tem o senhor em jogar comi go? Ganha sempre. Vim apenas saber da saúde. Parece que está bom.

— Não é tanto assim, retorquiu Nazaré. Uma semana aqui de môlho, a canja e chá com torradas! Veja isto.

Mostrou-me os dedos descamados. Recostou-se nos tra vesseiros, de fronhas imundas. Que interior lastimável! O dr. Castro fazia péssimo casamento. Ali a conversar a meia voz com a noiva, longe do círculo de luz que havia em tôrno do abat-jour, sem notar a desordem do quarto, o espelho rachado, a mesa coberta de poeira. Como a gente cega!

Talvez comigo se desse o mesmo. Não que Luísa fôsse como Clementina. Graças a Deus tenho bons olhos, bom olfacto, sei o que está limpo e o que é feio. Mas tôdas as belas qualidades com que me entretive a enfeitar o meu ídolo se riam o que eu julgava? — E veja isto, continuou Nazaré exibindo as costelas salientes, as bochechas murchas, as bambinelas do pescoço.

Olhe que miséria. Que fazem vocês aí no escuro, taramelando?

Venham para cá. Ah! meu caro! se eu tivesse vinte e cinco anos, uma gripezinha não me incomodava. Vinte e cinco anos, hem? Está na idade.

Outra alusão. O dr. Castro aproximou-se, declarou que ser novo era com efeito excelente.

— Para uma farra... Sim, para um divertimento ho nesto . . . emendou ulhando timidamente Clementina. Os senhores me entendem. Enfim quando o cidadão é moço sempre tem melhor estômago que quando é velho.

— Assim falava Zaratustra, disse o futuro sogro.

— Quem? perguntou o promotor.

í l í í , } i i ' it • f Nazaré, que estava rindo, teve um acesso de tosse, levou o lenço à bôca e ficou algum tempo a sacolejar-se.

— Quem? tornou a perguntar o bacharel, desconfiado.

— Zaratustra, filho, respondeu o tabelião quando melho rou. Será possível que você não saiba quem foi Zaratustra, um sujeito conhecido? Aqui o João Valério... A propósito de Zaratustra, como vai o Adrião?

Já preparado contra aqueles remoques, encarei Nazaré friamente e, simulando indiferença:

O senhor freqüenta a casa dêle tanto quanto eu, ou mais. Há quinze dias que lá não vou. E êsse interesse...

— Decerto. Um amigo.

— É isso, concordei hipócrita. Provavelmente êle já o visitou. O senhor assim de cama. . .

Nazaré enfiou. Os Teixeira não o visitam. Recebem-

-no, admiram-lhe a inteligência, temem-lhe a língua e desprezam-no.

O doente baixou a cabeça, carrancudo, e Clementina en trou ingênuamente a lamentar que Luísa e d. Josefa não tives sem aparecido naquele apêrto. Vencendo a timidez natural, animava-se, tinha um calor de ressentimento no fio de voz infantil, um pouco de sangue na face pálida:

— Não é que nós precisássemos de alguma coisa. Não, não precisamos, mercê de Deus. Mas a ingratidão. . . É duro.

Quando se quer bem a uma pessoa, o senhor compreende, a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada.

Pobre rapariga. Desmazelada e histérica, mas uma pérola.

— Conforta, sem dúvida, apoiou o dr. Castro.

Arregalou o ôlho convencido. Não admitia que um homem vivesse neste mundo sem ser amigo íntimo dos outros:

— Conforta. Mesmo quando se tem tudo, o senhor compreende, conforta muito. Foi o que eu sempre disse.

Percebe?

História! bradou Nazaré aborrecido. Morremos bem sozinhos. Esta é que é a verdade: o resto é fraqueza, malu queira.

— Sim? exclamei com fingido espanto. Mas, se não me engano, o senhor há pouco pensava de maneira diferente.

Despedi-me apressado, saí, porque não podia aguentar uma discussão com êle.

E senti um ódio violento a todos os miseráveis insetos que andam a picar a dignidade alheia. Veio-me a impressão extravagante de que as mãos do velho haviam tocado o corpo de Luísa.

Desejei vingar-me, insultar Nazaré — canalha, pau-d’água, ladrão; lembrar-lhe o que deve aos Teixeira e não paga, o que furtou aos órfãos e os quinhentos mil-réis que recebeu para abafar um processo. Pensei em voltar a casa dêle, dizer-

-Ihe que Cesário Mendonça tinha um bilhete premiado, que padre Atanásio estava à bica para cônego, que o dr. Liberato conseguira meter um artigo no Brasil-Médico. Eram três golpes terríveis. Êle não pode ser cônego, naturalmente, não escreve medicina nem joga na loteria; mas certas notícias irritam-no, o êxito dos outros é um tormento para êle.

Patife! Luísa já não era a santa que imaginei. Tinha descido. Mas, quando estava alguns dias sem a ver, eu des cobria nela tôdas as perfeições.

Andei a vagar pelas ruas. Irresistivelmente atraído, cheguei-me ao casarão dos Italianos. Fiquei de longe, rondando, com uma angústia desconhecida, o vago receio de que alguém me visse entrar. Talvez os vultos esquivos, frequentadores do Pernambuco-Novo, julgassem que eu ia satisfazer neces sidades torpes como as dêles. Estremeci, indignado com uma comparação tão absurda.

— O corpo! o corpo! É a alma que eu quero, disse a mim mesmo numa exaltação absolutamente desarrazoada.

Com efeito a alma dela creio que sempre a tive, e nunca deixei de mortificar-me e desejar mais.

Fui ao portão, hesitei. Toquei a campainha timidamente:

ninguém; entrei no jardim: deserto. Sentei-me no banco.

Lá estava à beira do lago a garça pensativa e bicuda, com a perna invisível encolhida sob a asa. Lemhrei-me da entre vista que ali tive com Luísa, uma noite, enquanto o luar brigav’ a com as nuvens. Agora não havia luar. As palmeiras, crescidas, iam quási ocultando a frontaria do armazém; en tre as fôlhas dos tinhoroes brilhavam lampadas escondidas, trepadeiras enlaçavam as grades.

— Aí sòzinho, João Valério? bradou-me Luísa alegre mente do alto da escada. Porque não chamou? Suba.

E antes que eu subisse já ela havia descido.

— Faz muito tempo que chegou?

— Pouco tempo.

Tomei-lhe as mãos e apertei-as com força:

— Estava pensando no que lhe disse aqui o ano pas sado. Isto hoje tem muita diferença. E vinha comunicar-

-Ihe. . .

Podem saber. Há o Miranda, o Miranda é terrível.

Se isto se divulgar, que escândalo!

— Se se divulgar...

Estava pálida, com os olhos quebrados, e falava precipi tadamente, embrulhando tudo:

— Talvez não se divulgue... Afinal, suceda o que su ceder, sofreremos as consequências.

Abracei-a com furor. Sôbre o banco do jardim os nos“ sos suspiros morreram. As folhas dos tinhorões agitavam-se em silêncio. E a garça displicente erguia o bico no mesmo conselho mudo, invariável, que nunca pude compreender.

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Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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